Crítica — por Rômulo Moraes
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É incomum que a crítica de arte se detenha no que, no fundo, realmente é a experiência de uma obra: a do corpo do crítico e sua circunstância no momento em que a encontra. Pouco se comenta o impacto, por exemplo, do cheiro de uma galeria, ou do tipo humano com o qual esbarramos ali, para a etnografia da obra propriamente dita. Mas esta, como sabemos desde a teoria da recepção, não se separa nunca de seu contexto. Pelo contrário, tudo o que circunda uma obra deve fazer parte da crítica, tudo deve se somar num mesmo vórtex. Desde a dor de cabeça lancinante ou o estômago vazio no momento do encontro até a chuva torrencial da manhã da abertura, que deixa no ar uma sonolência própria e inevitável.
Entrevista — por Paula Ferreira
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Contra o vermelho cor da terra, o pássaro se desgarra das mãos do seu criador. O vôo, manifesto signo da liberdade, sequestra o olhar na lentidão do bater das asas. O gesto se repete, hipnótico e fascinante, em câmera lenta. Mudam as mãos, os pássaros, muda o vermelho da terra pelo verde-mata, mas o gesto permanece o mesmo: homem e animal, em um trabalho de comunhão, ensaiam libertar-se um ao outro. Sobrevoo, exposição mais recente de Jonathas de Andrade, é um respiro aliviado no tempo corrente. Começa na peça visual Columbófilos, a qual, sem narrativa, percorre o potencial intrinsecamente poético da relação homem-animal, representado a partir da performática simbiose entre os membros da Associação Columbófila do Porto e os seus animais companheiros, os pombos.
Entrevista — por Maria Kruglyak
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Patente no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, a exposição individual Together in Our Spirits traz as investigações artísticas de Oscar Murillo a Portugal pela primeira vez. Esta mostra marca os dez anos da criação da obra pública Frequencies (2013–2023), que aqui se revela não apenas um ponto de entrada mas também a base conceptual do percurso da exposição. Este trabalho, na sua adjacência ao território da arte comunitária, demonstra uma forte ligação com as primeiras e célebres investigações da carreira de Murillo, que partem da intervenção colaborativa de grandes conjuntos de pessoas na sua prática artística. Neste processo, que o artista designa como “working-to-work” [ou "trabalho-tornado-obra"], estas pessoas inserem-se na produção de Murillo através do seu fazer, da sua criatividade e da sua participação em geral.
Crítica — por Paula Ferreira
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Na vitrine da Galeria Boavista, uma volumosa esfera branca e luminosa surge entrecortada pelo opaco rasgo na superfície fotossensível do negativo. Atrás dela, iluminados pelo flash, repousam, em prateleiras, conchas, pequenos insetos, ossos e outros gêneros de reminiscências orgânicas e inorgânicas tipicamente resguardadas pelos gabinetes de curiosidades de outrora. Essa imagem, parte de uma série fotográfica que Daniela Ângelo vem desenvolvendo ao longo dos últimos tempos, é como um vestígio que vem discretamente informar ao visitante sobre aquilo que está prestes a ver.
Crítica — por Carolina Quintela
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Dos cosas tan desiguales é a primeira exposição individual da artista Isabel Cordovil (1994, Lisboa) na Galeria Pedro Cera, em Madrid, na qual apresenta um conjunto de novas obras, produzidas especialmente para a exposição e que ocupam os dois pisos da galeria. Sob a forma de fotografia, escultura ou instalação faz referências a poderes hierárquicos ancorados maioritariamente em arquétipos da tradição religiosa judaico-cristã. Propõe uma reflexão sobre como, ainda profundamente enraizados no inconsciente coletivo, influenciam estruturalmente a forma como nos relacionamos e percecionamos o mundo. A dicotomia apresentada no título, que surge a partir da poesia literária de Santa Teresa de Ávila, articula um jogo entre duas partes aparentemente desiguais, humano e divino, mas que, a par da própria experiência mística, sensível e devocional da autora, expressam um desejo de fusão e transcendência.
Ensaio — por João Sousa Cardoso
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Desço na estação das Olaias, com o mais extenso cais da rede do metropolitano de Lisboa, desenhada por Tomás Taveira com o aparato de colunas industriais de pechisbeque e candeeiros arlequinescos, decorada por significativos artistas portugueses (António Palolo, Pedro Cabrita Reis, Rui Sanches, Graça Pereira Coutinho, Pedro Calapez) e aberta ao público no apogeu do pós-modernismo, por ocasião da exposição universal, em 1998. Fernão Cruz tinha então três anos de idade e afirma-se, hoje, como um dos mais promissores artistas da nova geração. A exposição Morder o Pó na Fundação Calouste Gulbenkian (2021) e Insone na Galeria Cristina Guerra (2023) confirmaram o impacto desta obra multiforme, entre a pintura, a escultura e os objetos, brutalista e pop, explosiva e grave, no panorama da arte contemporânea portuguesa.
Crítica — por Isabel Nogueira
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Netsuke não é apenas uma exposição; é sobretudo uma entrada num universo. O universo de Albano Silva Pereira (n. 1950), artista, fotógrafo, cineasta, coleccionador, viajante, esteta e director dos Encontros de Fotografia – fundados em Coimbra, em 1980, e a partir de 2003 institucionalizados como Centro de Artes Visuais/Encontros de Fotografia –, determinantes para formar, de modo continuado e consistente, o olhar e a sensibilidade para a fotografia, além do espólio fotográfico que constituíram na sua colecção, numa acção de serviço público. Por aqui passaram nomes incontornáveis da fotografia contemporânea, como Robert Frank, um dos seus proeminentes fundadores, com quem Albano Silva Pereira estabeleceria uma duradoura relação de amizade, chegado a realizar o filme documentário Life Goes On (2022), mas também Gabriel Orozco, Nobuyoshi Araki, Henri Cartier Bresson, Walker Evans, Joel-Peter Witkin, Cristina García Rodero, Marianne Mueller, ou Iroshi Sugimoto, entre muitos outros artistas estrangeiros e portugueses.
Crítica — por João Sousa Cardoso
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A afluência de uma vasta comunidade de artistas e agentes culturais do país na inauguração da double bill Encontro Inesperado/Uma Cerveja no Inferno na Galeria Graça Brandão, a 26 de janeiro, confirmou o reconhecimento de Manuel Santos Maia, curador das duas exposições, como um aliado extraordinário na atenção dedicada ao trabalho de tantos criadores. Além de um promotor constante de oportunidades nomeadamente no Espaço Mira que programa desde 2013, na exposição SUB-40 na Galeria Municipal do Porto (curadoria da antológica de uma geração, a convite de Paulo Cunha e Silva) em 2014 ou nas três recentes edições da Bienal da Maia.
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