Albano Silva Pereira: Netsuke

Netsuke não é apenas uma exposição; é sobretudo uma entrada num universo. O universo de Albano Silva Pereira (n. 1950), artista, fotógrafo, cineasta, coleccionador, viajante, esteta e director dos Encontros de Fotografia — fundados em Coimbra, em 1980, e a partir de 2003 institucionalizados como Centro de Artes Visuais/Encontros de Fotografia —, determinantes para formar, de modo continuado e consistente, o olhar e a sensibilidade para a fotografia, além do espólio fotográfico que constituíram na sua colecção, numa acção de serviço público. Por aqui passaram nomes incontornáveis da fotografia contemporânea, como Robert Frank, um dos seus proeminentes fundadores, com quem Albano Silva Pereira estabeleceria uma duradoura relação de amizade, chegado a realizar o filme documentário Life Goes On (2022), mas também Gabriel Orozco, Nobuyoshi Araki, Henri Cartier Bresson, Walker Evans, Joel-Peter Witkin, Cristina García Rodero, Marianne Mueller, ou Iroshi Sugimoto, entre muitos outros artistas estrangeiros e portugueses.
Esta mostra, com curadoria de Sara Antónia Matos, pode ser abordada sob três filões que se vão interceptando de modo orgânico: a viagem, a imagem (fotográfica e fílmica) e o coleccionismo. A viagem começa sempre antes de começar e ancora-se numa necessidade de expansão, aventura, vivência, descoberta ou encontro. A viagem é uma constante na vida e obra de Albano Silva Pereira. A título de exemplo, pensemos nas suas séries fotográficas que originaram livros relevantes, como Ilha de Moçambique (1995), Litoral (1995), ou Maison Berbere (1996). Netsuke convoca o espectador de imediato para a viagem, neste caso, mais especificamente, ao Japão, onde Albano Silva Pereira foi por diversas vezes e a várias cidades, chegando a ficar instalado no célebre hotel “Imperial”, resultando daí o belo registo fotográfico integrante desta mostra (Imperial Hotel, Tokyo, 2005-2023).
O próprio título da exposição — Netsuke — reporta-se às pequenas esculturas japonesas em forma de botão, inventadas no século XVII, e que tradicionalmente permitiam acoplar bolsas aos quimonos e, deste modo, transportar objectos pessoais. Estas peças foram-se autonomizando e deslocando o seu valor utilitário para o seu valor estético e simbólico. Ou seja, verificou-se uma passagem de objecto a ícone, a que o artista é, naturalmente, sensível. Curiosamente, datam também do século XVII o começo das estampas japonesas (ukiyo-e), largamente responsáveis pelo inicío da arte moderna, devido ao fascínio que a sofisticação da sua visualidade plana provocou em Manet, Van Goh, Gaugin e tantos outros artistas. A Katsushika Hokusai (1760-1849) pertence uma das mais conhecidas estampas — a onda —, que Albano Silva Pereira também faz representar numa das paredes do espaço, misturada com outras imagens, algumas de sua autoria.
Efectivamente, a mais notória singularidade desta mostra tem que ver com uma bela e viva combinação entre objectos de origem japonesa pertencentes à colecção particular do artista — estampas, pinturas, xilogravuras, esculturas, rolos japoneses, um Bonsai, pedras, objectos ligados ao ritual do chá e do saquê, kintsugi, objectos eróticos, máscaras, quimonos, amuletos, etc. — com as suas próprias fotografias, numa obra de arte total, não existindo intervalo entre uma realidade e outra, já que ambas se complementam e são simbióticas. Esta relação entre Arte-Vida torna-se particularmente visível com a apresentação objectual da moto “Honda 900 SBR” de Albano Silva Pereira, com marcas do acidente que sofreu quando a conduzia, acompanhada da séria fotográfica em que se auto-retrata com as mazelas do acidente a que sobreviveu (Still Alive, 2020).
Ainda nesta relação Arte-Vida, e numa forma de síntese, surgem dois ensaios de Albano Silva Pereira a partir dos filmes clássicos japoneses O Império dos Sentidos (Nagisa Oshima, 1976) e Os Amantes Crucificados (Kenji Mizoguchi, 1954). O primeiro, encontra-se projectado numa parede não evidente, entre o que se expõe e o que se oculta; o segundo, é exibido efectivamente muma sala escura. E neste ponto entramos noutro apecto crucial desta exposição: o erotismo e o jogo entre ocultação e exibição. Pensemos na imagem, sobretudo fílmica, concretamente naquela que se reporta à questão do que se vê, do que se mostra e do que se deseja ver. E situemo-nos no conceito de desejo, tão caro a Jacques Lacan, em especial no seminário Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse (1964). Este desejo entre a presença e a ausência, neste caso, da imagem e da componente de sedução que a envolve. Somos seres que olham e que são olhados. A ideia de imaginário — “imaginaire” — em Lacan prende-se não necessariamente com a ficção, mas com a imagem, que se entende, portanto, como irreal. Nestes filmes/ensaios fílmicos somos transportados para um lugar erotizante e intimista, que aqui se conecta com a vida e com a morte, tendo o desejo como mediador.
E chegamos ao último ponto desta reflexão. O intimismo encontra-se, paradoxalmente, como matriz desta exposição pública. É uma vulnerabilidade que se torna força. Tanto a obra de Albano Silva Pereira como os objectos da sua colecção são de uma notória intimidade. Aliás, uma colecção parte do acto de coleccionar. E coleccionar é juntar, agrupar objectos da mesma natureza, voltar-se para dentro, no sentido de valorizar o bem precioso, eventualmente até com compulsão. Mas, simultaneamente, “coleccionar” é um verbo transitivo, quer dizer, precisa de um complemento verbal para completar o seu sentido. Colecionar o quê? Coleccionar viagens, vivências, afectos, imagens, memórias, objectos, plantas, pedras.
O modo como a exposição se desenvolve, e não obstante a única zona efectivamente escurecida ser a do espaço de projecção do ensaio sobre o filme Mizoguchi, como já se referiu atrás, a iluminação do espaço não lhe retira intimismo, precisamente porque tudo se organiza em núcleos específicos, coerentes e, neste sentido, eficazes, alguns deles com mobiliário servindo de estrutura ao conjunto. Estas estruturas são também evocativas do universo de André Breton e do seu Le Mur de l'Atelier, composição aglutinadora de diversos elementos, inciada antes da II Guerra Mundial, na qual é visível o conceito objectual do prórpio Breton, quando afirmou que o sentido de um objecto reside precisamente na relação com o que o rodeia (La confession dédaigneuse, 1923). E voltamos ao início. Nesta exposição vislumbra-se, além de objectos e fotografias do artista, um universo, na sua singularidade, complexidade, beleza e, portanto, generosidade na partilha.
Isabel Nogueira [n. 1974]. Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte [Universidade de Lisboa] e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem [Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne]. Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014]; "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015]; "Théorie de l’art au XXe siècle" [Éditions L’Harmattan, 2013]; "Modernidade avulso: escritos sobre arte” [Edições a Ronda da Noite, 2014]. É membro da AICA [Associação Internacional de Críticos de Arte].
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.
Albano Silva Pereira, Netsuke. Vistas gerais da exposição no Pavilhão Branco, Galerias Municipais de Lisboa/EGEAC. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia Galerias Municipais de Lisboa/EGEAC.








