Júlia Ventura: 1975-1983

Numa noite de Novembro, pouco depois da morte de sua Mãe, Roland Barthes conta-nos, na sua derradeira obra (La Chambre Claire, 1980), que se entretinha a arrumar fotografias. Era então surpreendido por uma fotografia da Mãe com cinco anos, que lhe serviria de rastilho para um ensaio como ontologia de afectos, seguramente um dos mais notáveis textos sobre a imagem fotográfica. Como o próprio afirma, em toda a fotografia existe o “regresso do morto” ou, escreveria mais à frente, “o aparecimento do eu próprio como outro”. No decorrer de uma série de referências a fotógrafos relevantes, tais como o francês Nadar ou o húngaro André Kertész, a fotografia da Mãe é a única que, todavia, nunca aparece reproduzida no livro.
Entramos na excelente exposição de Júlia Ventura (n. 1952), com curadoria de Bruno Marchand, em que a fotografia é a matriz na sua vertente interpelativa de auto-representação, assim como nas suas problemáticas e potencialidades. Mas encontra-se mais alguém a pontuar algumas imagens e frases avulsas. É precisamente o fantasma de Roland Barthes, uma vez que as fotografias de Júlia Ventura convocam uma reflexão sobre a própria imagem fotográfica, aqui balizadas entre 1975 e 1983.
Nos trabalhos de Júlia Ventura existe efectivamente um máximo de expressão com um mínimo de recursos. O auto-retrato torna-se uma alteridade sofisticada e problematizante do Outro, que reflecte um Eu e a ele retorna, numa interpessoalidade subtil. Praticamente todas as imagens são a preto e branco. E chamemos a atenção para o facto de o olho ver a cores e não a preto e branco, pelo que se cria um universo ao mesmo tempo concreto/representativo e irreal/imagético. Há, contudo, uma imagem da artista muito jovem, a cores, que se destaca no conjunto, imediatamente pelo cromatismo, mas também por se encontrar em espaço exterior e campestre. Mas um outro pormenor nos faz atentar. Trata-se de uma certa indefinição de género, pela utilização de um gorro grande, assim como pela passagem de uma erva na zona superior do lábio, evocando, de repente, um pequeno bigode. É uma das melhores fotografias do conjunto, também pela perplexidade com que confronta o espectador.
A montagem permite um boa leitura da obra. Há alguns grupos que se destacam, nomeadamante, o grupo inicial a preto e branco, no qual a artista posa como se de fotografias de moda se tratasse. Há uma outra série com alguma singularidade conferida pela presença do desenho, da escrita e do rasurado. Na verdade, fotografia significa “escrever com a luz”. A componente performativa é também — aqui e nas restantes imagens — uma matriz. A artista que se apresenta a representar uma emoção, um estado de espírito ou um movimento corporal e que é evidenciado sob um fundo neutro. No vídeo As mãos (1981) são elas que transmitem emoções, na sua expressividade e movimentação, até contenção. Há um silêncio particular nesta peça e uma aura de mistério que, a seu modo, vai pontuado as várias composições apresentadas.
Como se sabe, a aura tornou-se num dos conceitos determinantes da estética de Walter Benjamin. A definição de “aura” aparece, segundo cremos, pela primeira vez, no texto Rua de sentido único (Einbahnstrasse, 1928), mas seria desenvolvida no conhecido ensaio de 1936, A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica (Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit). A fotografia começaria a tentar sobrepor o seu valor expositivo ao seu valor de culto. Este resistiria, contudo, a desaparecer, nomeadamente através do retrato, “onde a aura acena uma última vez” (Einbahnstrasse, 1928). Esta afirmação é francamente densa e evocativa, como se o retrato fotográfico se assumisse, afinal, como algo mais do que uma simples reprodução mecânica/instantânea e salvasse a aura fotográfica da sua alegada menoridade face à pintura. Recordemos que historicamente é pelos anos 30 que a fotografia atingiria a sua efectiva e madura consolidação como arte.
Nesta exposição Júlia Ventura faz-nos reflectir sobre a ontologia da fotografia e do retrato em particular. Artista que começou a expor individualmente no início dos anos 80, Ventura explora ainda o léxico dos estereótipos de género que rodeiam a representação feminina e que são influentes no decorrer do próprio discurso artístico e fotográfico, debruçando-se sobre paradoxos e crenças que denunciam a herança patriarcal na construção imagética. Este aspecto é inequivocamente importante, sobretudo em sociedades que, possivelmente sem muitas vezes o perceberem, ainda mantêm fortes matrizes patriarcais, como a sociedade portuguesa.
Júlia Ventura é a detentora do disparo — o que Roland Barthes dizia ser o momento mais temeroso na fotografia—, do assunto e do modo como este é trabalhado e devolvido ao espectador. No espectro da arte contemporânea em Portugal, Júlia Ventura é uma artista com um universo forte e identificável, ao mesmo tempo que denota capacidade de reinvenção e de novidade, mantendo uma forte linha estética e conceptual. Esta exposição propõe um percurso consistente por entre imagens, referências e emoções, que interpelam o espectador e, em última análise, o nosso mundo e o lugar que ocupamos nele. A imagem, na óptica de Arthur Danto (The Transfiguration of the Commonplace, 1981), pode ser compreendida como exteriorização de uma forma de ver o mundo a partir do interior, ou seja, como um espelho, entre a transparência e a opacidade. A imagem somos, afinal, também nós.
Isabel Nogueira [n. 1974]. Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte [Universidade de Lisboa] e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem [Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne]. Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014]; "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015]; "Théorie de l’art au XXe siècle" [Éditions L’Harmattan, 2013]; "Modernidade avulso: escritos sobre arte” [Edições a Ronda da Noite, 2014]. É membro da AICA [Associação Internacional de Críticos de Arte].
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.
Todas as imagens © Júlia Ventura.
Júlia Ventura, 1975-1983. Vistas gerais da exposição na Culturgest, Lisboa, 2024. Fotos: Vera Marmelo. Cortesia da artista e Culturgest.







