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Perfil: Rita Ferreira

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Carolina Quintela

Verónica e a Pintura de Rita Ferreira

Na primeira sala do piso térreo do Rialto6, agora pintada de verde-escuro e com as janelas descobertas — possibilitando que a luz natural e os olhares externos penetrem no espaço — são apresentadas quatro pinturas da artista portuguesa Rita Ferreira. As pinturas, de grandes dimensões, em papel sobre dibond e madeira assentam no chão reclinando-se sobre as paredes, colocando-as assim frente a frente umas das outras. Por sua vez, a superfície das obras, coberta com placas verticais de vidro (que marcam um ritmo), faz dessa frontalidade parte da profundidade das obras, uma vez que se espelham mutuamente. Paralelamente, esse inevitável reflexo do vidro, que nas palavras da artista “liquidifica” a pintura, contamina a mancha pictórica também com a própria imagem do espectador que a contempla, abrindo espaço ao binómio observador-observado. Aqui o corpo é necessariamente convocado quer pelo caráter objetual, quer pela escala das pinturas que submergem o espectador, como os próprios corpos refletidos se confundem com as obras e com o espaço, o que lhes parece acrescentar valor compositivo. A complementaridade das obras nesta fusão imagética aparenta expandir o seu significado e complexidade. Nesse sentido, este conjunto de trabalhos, neste espaço, acentua o seu aspeto instalativo já conhecido na obra desta artista, fazendo desta exposição um momento uno e coeso na sua totalidade de intervenção do espaço.

Verónica, título da exposição, faz referência à história da mulher que, com um pano, enxugou o sangue e suor da face de Cristo durante a sua travessia pela Via Dolorosa e sobre o qual, milagrosamente, ficou impresso o seu rosto. Este lenço ou véu, conhecido como sudário, tornou-se assim uma relíquia por ter gravado em si a aparência de Jesus, não sendo esta produzida pela mão humana. Esta ideia de impressão e revelação das formas, ainda que sem qualquer pretensão religiosa, parece dar-nos pistas sobre o método pictórico explorado pela artista, consequentemente presente nas pinturas apresentadas.

Numa combinação entre adição e subtração da tinta a óleo, espessantes e velaturas em diversas diluições, Ferreira imprime no papel formas através de uma dança complexa de tempos e esperas, compassadas entre intervenções, lavagens, secagens e novas intervenções, no regresso ao plano para intuir ainda mais formatos, numa repetição deste processo de escorrências e sobreposição de camadas até à finalização da pintura. Quase numa espécie de paralelismo com a própria fotografia analógica, vai progressivamente fazendo surgir “fantasmas” ou figuras que pertencem ao seu léxico visual e que, em constante transmutação, se vão revelando na superfície do suporte. Igualmente a cor utilizada, entre tons escuros acastanhados e terrosos, sugere essa analogia visual.

No entanto, esses formatos e volumes não seguindo nenhum aspeto figurativo ou mimético, assim como o sudário, vivem daquilo que cada espetador acredita ver: rostos, anéis, formatos animalescos, máscaras, linhas, entre outras possibilidades. Subvertendo o conceito de representação, Ferreira apresenta algo que induz no espectador um estado de permanente incerteza em relação ao que pode ser encontrado. Essa ambiguidade visual representa um certo enigma e parece ser consequência da captação de algo que pulsa no interior da própria pintura ou do que está para além dela, como se o que é visto fosse algo temporário, transitório e verdadeiramente incaptável.

Dentro da esfera visual afetiva que são as referências pessoais da artista apenas pode ser remetida a obra para o indefinido envolvendo e captando o espectador para o plano da imaginação e da memória/recordação. A ideia de ver nas formas outras formas que existem apenas na perceção individual de cada um é muito significativa e nesse sentido as pinturas de Rita Ferreira abrem espaço a isso mesmo, isto é, à interpretação sensível e particular. Cabe a cada espectador reconhecer, como uma anamnese, dentro das suas próprias vivências e impressões, que formas, em potência, são estas.

Por sua vez, da autoria de Arthur Dessine, o texto que acompanha a exposição parece debater ou propor, num diálogo performático, as possibilidades do que pode ser visto retratado, sendo que a ideia da apofenia ecoa. A apofenia, termo proposto pelo psiquiatra alemão Klaus Conrad em 1959, é uma tendência humana de perceber padrões ou conexões significativas que partem de dados informativos aleatórios ou sem fundamento. Este fenómeno cognitivo é comum em diversas situações quotidianas, como ver rostos e animais em nuvens, encontrar coincidências em eventos não relacionados ou perceber mensagens ocultas em ruídos aleatórios. Este viés é responsável por vincular amplamente significados religiosos ou crenças associadas a fenómenos inventados, como pode ser exemplo o véu de Verónica.

Esta caraterística comum a todos os humanos também é explorada nos títulos das obras que se tornam igualmente portais de possíveis leituras e perceções — Cristado, Adcos gold, Dipolo-Dipolo e Goma guar — e podem ser lidos como a primeira missa dada pelo sacerdote ou aquele que tem crista, produto de cosmética, forças de atração de moléculas ou espessante de origem vegetal. Estas ideias e imagens parecem ser convites ao pensamento e à ficção. A verdadeira provocação dá-se quando estas perceções e espelhamentos nos informam mais sobre cada um de nós do que podíamos antever.

Verónica surge na continuidade do trabalho anteriormente apresentado na exposição Fac-símile na Galeria 3+1, Lisboa, entre novembro de 2023 e janeiro do ano corrente. Também sobre a construção da pintura, a exposição introduzia as novas técnicas do processo matérico de adição e subtração, atuando na superfície com camadas e texturas. A tinta a óleo, aplicada de forma fluida, abria espaço visual para a intuição das formas nascidas da transparência pictórica. Em tons escurecidos, as formas apresentadas partiam de referentes reais e, não sendo abstratos, não se configuravam como necessariamente figurativos, existindo igualmente na latência do seu reconhecimento. Aqui Ferreira explorou a noção de cópia ou reprodução de um documento ou gravura aludindo à ideia de simulacro assim como à significação de símbolos através de referentes que arriscam apenas ser adivinhados.

Podemos talvez dizer que a obra de Rita Ferreira assenta na ideia de sugestão, a par da exploração experimental de códigos do seu arquivo artístico pessoal, culminando na encontro com a abertura percetiva e inventiva do espectador. Nada é definitivo nem óbvio, tudo é possibilidade. A profunda procura sobre os pressupostos da pintura e daquilo que esta pode ainda vir a ser.

Rita Ferreira, nasceu em Óbidos, em 1991, e estudou pintura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. A sua primeira exposição individual, Boca Seca Coluna Húmida, em 2017, na Galeria Diferença introduziu o universo imagético e visual da artista. Já em 2019, para o projeto da Travessa da Ermida, concebeu uma pintura especificamente para o espaço. Pintura a óleo sobre papel na qual era visível um desenho a negro que se evidenciava do fundo, em verde luminoso. Parasita, título da obra e do projeto que se debruçava sobre as plantas parasitárias, revelava o gesto intuitivo e experimental da artista. Por sua vez, tornou-se evidente a dimensão instalativa (ou até escultórica) da pintura de Rita Ferreira e da sua preocupação com o espaço envolvente, questões sobre as quais tem vindo a explorar desde então. As estruturas, que concebe para exposição das suas obras, suspendendo-as recorrentemente, contrariam a rigidez da bidimensionalidade da pintura e do seu suporte tradicional. Assim, as suas obras caraterizam-se não apenas pela impressão do movimento gestual das formas, mas também por esse movimento ser efetivo fisicamente. A deslocação dos espectadores e do ar provocado pela sua passagem confere às obras um estatuto de imprevisibilidade e mutabilidade que parece congregar e convergir nas diversas vertentes da sua obra, num sentido comum.

Em 2021, para a exposição Mal-me-quer, na Galeria 3+1, apresenta um conjunto de pinturas a óleo sobre papel, em diversas dimensões e que surgiam mais uma vez suspensas no espaço expositivo. As pinturas coloridas, compostas por diversas folhas mais pequenas, exaltavam o uso da cor na relação com o espaço branco da galeria e baseavam-se em esboços anteriormente desconsiderados para a sua produção e concretização final. Rejeitando o uso tradicional da moldura, paralelamente, Ferreira apresentava o verso das pinturas como pintura. Esta relação autónoma da obra relativamente à parede, vem reafirmar o carácter performático da sua obra: a pintura não é fixa, é expandida e fluida

Os contrastes entre gestualidade e fragilidade do papel e a estrutura mais ou menos complexa do metal são também explícitos e, nesse sentido, na exposição do Prémio EDP Novos Artistas, no MAAT, em 2022, para o qual Ferreira foi selecionada, a artista criou uma pintura-instalação. A pairar suspensas, as pinturas, igualmente sobre papel que constituíam Plants of the gods, evocavam a evolução da pintura enquanto uma presença que observa, explorando questões de arquivo, acumulação e processo.

Numa constante dicotomia entre o figurativo e o abstrato, o trabalho de Rita Ferreira parece deambular entre a formalidade e espacialidade da pintura e as perceções que transpõe para a construção da obra. Articula, através da observação e da sugestão, o que existe em potência na realidade que a rodeia e na sua imaginação, criando um universo mnemónico particular e simultaneamente reconhecível: traços e manchas, herbários, pistas-títulos, um arquivo de formas, lembranças, cores e símbolos.

 

Rita Ferreira

 

Rialto6

 

 

 

 

Carolina Quintela (1991), curadora. É licenciada e mestre em Escultura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, e pós-graduada em Curadoria e Programação das Artes pela Universidade Católica Portuguesa. Desde 2015 que se dedica ao desenvolvimento de projetos curatoriais, investigação e produção de textos. É Curadora e Investigadora do MACAM: Museu de Arte Contemporânea Armando Martins.

 

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Rita Ferreira, Parasita na Travessa da Ermida, Lisboa, 2019. Mal-me-quer na Galeria 3+1. Lisboa 2021. Prémio EDP Novos Artistas, Lisboa, 2022. Vistas das exposições: Fac-Simile na Galeria 3+1, Lisboa 2023. © Todas as imagens: Bruno Lopes. Cortesia da artista.




Rita Ferreira: Verónica. Vistas da exposição no espaço Rialto6, Lisboa, 2024. Fotos: Vasco Stocker Vilhena. Cortesia da artista e Rialto6.

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