45 / 61

Daniela Ângelo: Babuíno Talismã

Daniela Ângelo1.jpg
Paula Ferreira

Na vitrine da Galeria Boavista, uma volumosa esfera branca e luminosa surge entrecortada pelo opaco rasgo na superfície fotossensível do negativo. Atrás dela, iluminados pelo flash, repousam, em prateleiras, conchas, pequenos insetos, ossos e outros gêneros de reminiscências orgânicas e inorgânicas tipicamente resguardadas pelos gabinetes de curiosidades de outrora. Essa imagem, parte de uma série fotográfica que Daniela Ângelo vem desenvolvendo ao longo dos últimos tempos, é como um vestígio que vem discretamente informar ao visitante sobre aquilo que está prestes a ver.

Babuíno Talismã, a primeira exposição individual da artista, constrói, entre os dois pisos da galeria, um tácito percurso por fotografias que são habitadas por misteriosas entidades. Nascidas do confronto com a natureza taxonômica do dispositivo-museu concebido pelo Ocidente, são imagens fantasmáticas de espécimes pertencentes aos acervos de museus europeus de história natural e de arqueologia — os quais surgem isolados em planos escuros, solitários em composições capazes de dissolver qualquer referencial de tempo e de espaço. Frequentemente centralizados na imagem, e através de recursos técnicos como a dupla exposição e o corte no negativo, vão, silenciosamente, se desvencilhando de seus referentes. Como libertos pela perspectiva óptica da artista, amostras botânicas e animais e artefatos históricos surgem transfigurados em vultos que rememoram objetos cognoscíveis, talismãs que resguardam as chaves para outros tipos de conhecimento.

Distante do pretenso realismo fotográfico, essas presenças que figuram nas imagens de Daniela Ângelo não são mais que o resultado do exercício supostamente objetivo da câmera a registrar um objeto, suprimido por um deslocamento subjetivo na sua intenção. Ou seja, aquilo que vemos é, de fato, aquilo que existe dentro dos acervos museológicos, porém tornado irreconhecível através dos mecanismos estéticos que rompem com a suposta objetividade fotográfica. Neste jogo, formado entre a incidência da luz sobre a superfície fotossensível e o deslocamento da representação direta e objetiva do objeto — já extensamente analisado pela teoria da Fotografia —, surge um mecanismo para confrontar o “real”, revelando o seu caráter ideológico e subjetivo frequentemente sublimado.

Esse deslocamento da intenção não significa, necessariamente, um deslocamento da própria objetiva — nesse caso, a “transformação” do objeto não acontece pelo ângulo em que ele é registrado, subterfúgio inicialmente utilizado pela fotografia surrealista ou pelo movimento Nova Fotografia, de Germaine Krull e Florence Henri, por exemplo. Antes, é a própria observação “direta” e prolongada, o próprio confronto com a imagem do objeto que o ressignifica: quanto mais o observamos, mais nos damos conta que desconhecemos sua verdadeira natureza. Entre a perspectiva objetiva e os mecanismos estéticos empregados pela artista, são criados, em simultâneo, uma criticidade capaz de desvelar a falsa objetividade do dispositivo-museu e um certo sincretismo capaz de interligar temporalidades e mundos.

Tal procura por um “re-conhecimento” do mundo parece se manifestar de maneira cada vez mais incisiva no trabalho de Daniela Ângelo. Objeto e imagem surgem, a cada nova série, mais distantes um do outro — tornando o confronto entre ambos progressivamente mais frutífero. Se, em Animais, um de seus primeiros projetos expositivos, realizado para a Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, em 2021, os objetos, por um lado, eram tomados por essa dimensão fantasmática, principalmente pelo uso do flash, por outro, ainda se apresentavam reconhecíveis em sua natureza. Em contraste, Sleepers Eyes, exposto no espaço Buraco, em 2022, o mesmo flash, aliado à exploração do fenômeno óptico da refração, formalizaram um ponto de viragem no trabalho da artista. É a partir desse momento que objeto e imagem parecem começar a querer se desvencilhar, progressivamente, de uma relação de reciprocidade e correspondência.

Essa “vida dupla” dos objetos sugere uma capacidade da Fotografia de se tornar um meio para colocar em causa a ideia ocidental de produção de conhecimento, principalmente o papel que as instituições museológicas mantêm nesse processo. Ao adentrar esses espaços para registrar seus espólios com a câmera — muitas vezes, de maneira “clandestina”, relembrando os primórdios da fotografia de rua —, Daniela Ângelo acaba por evidenciar a sua natureza opaca e ambígua. Enquanto guardião do conhecimento, o museu sublima as suas próprias fundamentações ideológicas, forjando uma objetividade impossível de existir. Tal falaciosa neutralidade é, por sua vez, desmontada diante do olhar duradouro da artista. A “História”, pretensamente contada pela instituição museológica ocidental, se revela permeada de falhas e lapsos. Assim, nesse campo intermédio, limítrofe entre significado e significante, é que operam as imagens de Daniela Ângelo. 

Ademais, tal percepção anuncia uma segunda dimensão a ser considerada sobre o trabalho da artista. Se, por um lado, tal falhanço aponta para uma instituição cuja fundamentação se revela frágil, por outro, sugere o desconhecimento enquanto uma chave para novos processos de aprendizagem. Nas fotografias que compõem a exposição Babuíno Talismã, tal se manifesta com maior veemência. Sobre uma vitrine expositiva cujos contornos são a única coisa que permanece visível, um monolito de superfície rochosa interpela a visão, o seu reflexo dourado perturbando a leitura objetiva daquilo que está representado. Em outro momento, é uma dupla exposição que transporta cores de um artefato de barro para um estatuário cujo referente permanece oculto, impossibilitando deliberadamente o reconhecimento de cada elemento. Em certa medida, tal permeabilidade e volatilidade cria objetos-limite, passíveis de serem “re-conhecíveis” através de propostas especulativas e imaginativas. Portais para outras dimensões de tempo, espaço e história.

Na ausência de respostas sobre a natureza dos objetos que representa, Daniela Ângelo propõe que as especulações sejam um caminho de re-aprendizagem. Certamente de maneira ainda tímida, todavia com manifesto dom para desafiar as estruturas que condicionam o olhar, o seu trabalho demonstra um ímpeto questionador das perspectivas através das quais vemos e percebemos o mundo.

 

Daniela Ângelo

 

Galerias Municipais de Lisboa/EGEAC

 

Curadoria: Bernardo José de Souza

 

 

Paula Ferreira é escritora, fotógrafa e pesquisadora independente. Nascida em São Paulo, atualmente vive em Lisboa. É pós-graduada em Fotografia pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e em Estética pela FCSH NOVA. É fundadora de Aos Cuidados, projeto que abrange publicações impressas, exposições e workshops dentro de temáticas relacionadas ao acesso à saúde e aos direitos aos cuidados, sempre por uma perspectiva feminista, interseccional e transdisciplinar. Seu trabalho se desenvolve maioritariamente em uma pesquisa sobre formas de criação de espaços de diálogos e debates.

 

Este texto foi escrito em português do Brasil.

Daniela Ângelo2
Daniela Ângelo3
Daniela Ângelo4
Daniela Ângelo6
Daniela Ângelo7

Daniela Ângelo, Babuíno Talismã. Vistas gerais da exposição na Galeria da Boavista, Galerias Municipais de Lisboa/EGEAC, 2024. Cortesia Galerias Municipais de Lisboa/EGEAC.

Voltar ao topo