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Entrevista a Oscar Murillo

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Maria Kruglyak

Patente no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, a exposição individual Together in Our Spirits traz, pela primeira vez a Portugal, as investigações artísticas de Oscar Murillo. Esta mostra marca os dez anos da criação da obra pública Frequencies (2013–2023), que aqui se revela não apenas um ponto de entrada mas também a base conceptual do percurso da exposição. Este trabalho, na sua adjacência ao território da arte comunitária, demonstra uma forte ligação com as primeiras e célebres investigações da carreira de Murillo, que partem da intervenção colaborativa de grandes conjuntos de pessoas na sua prática artística. Neste processo, que o artista designa como “working-to-work” [ou "trabalho-tornado-obra"], estas pessoas inserem-se na produção de Murillo através do seu fazer, da sua criatividade e da sua participação em geral.

No papel, o conceito por detrás de Frequencies é simples: afixam-se pedaços de tela em bruto nas carteiras de alunos com idades entre os 10 e os 16 anos, onde permanecem durante meio ano, convidando os jovens a usá-las para desenhar e fazer rabiscos quando bem lhes apeteça. Num projeto que já vem sendo desenvolvido há uma década e no qual já participaram mais de 100 mil crianças em todo o mundo, esta iteração da obra é levada a cabo por cerca de 900 alunos do Norte de Portugal. As telas de Murillo, com a sua característica frugalidade, estão agora instaladas no espaço como se numa feira de arte, convidando os visitantes a vê-las e folheá-las. Ao redor, encontram-se as peças que haviam sido expostas em Disrupted Frequencies — colagens de uma seleção de trabalhos integrantes de Frequências semicobertos por traços azuis grossos que suscitam uma sensação serena de disrupção consciente. Na perspetiva do artista, estas peças assemelham-se a ondas, numa convocação da “força obliterante da água,"[1] com as linhas a instigar uma força latente que se revela pacífica apenas na superfície.

Também é numa seleção de elementos — desta feita, "marcas conscientes e inconscientes”[2] — pertencentes a Frequencies que se baseiam as esculturas vestíveis Arepas y Tamales (2022). Estas fardas de trabalho azuis e brancas são feitas com a matéria-prima das telas de Frequencies, cobrindo-se de símbolos que delas foram extraídos digitalmente. Dispensando qualquer sentido meditativo ou calculista, esta seleção sugere tranquilidade e luz, e revela-se tão prazerosa quanto honesta, obedecendo à estética natural do simbolismo. As próprias fardas, por sua vez, transmitem uma sensação de neutralidade e sobriedade que tende — não obstante, ou quiçá precisamente pela referência aos direitos dos trabalhadores — para o não-político, senão para o apolítico. Em conversa com Murillo, fico a perceber que a sua obra se presta a uma leitura mediada não tanto pelas suas implicações políticas — "já é política em si", diz-me ele — mas pela sua estética, assim permitindo que esta "se instaure" em vez de se sujeitar a teorizações excessivas.[3] Também é daqui que provém a força vital da sua obra: ao apresentar a vida na sua multiplicidade sem qualquer juízo de valor, Murillo permite-nos experienciá-la na sua plenitude e percecionar livremente as suas diferentes tonalidades.

Ao entrar na Galeria de Arte Contemporânea, deparamo-nos com a instalação Mesmerizing Beauty (2023), com cadeiras de jardim em plástico — um dos leitmotivs da obra de Murillo que nos transportam para o tal cenário de informalidade e sobriedade — ligadas a um conjunto de estruturas de madeira nas quais se expõe uma série de trabalhos sobre papel. Ao fundo da sala, apresentam-se gravações do cortejo organizado pelo próprio Murillo em Nova Iorque entre o Shed e o Rockefeller Center em 2019. Esta peça constitui uma meditação sobre a decisão tomada pela família Rockefeller em 1933 relativamente a uma pintura mural de Diego Rivera, retirada do espaço público depois de a comunicação social a descrever como “propaganda anticapitalista”.[4] Esta sala é delimitada por três (novas) cortinas pintadas de grandes dimensões que integram a série Surge: Social Cataracts, assim criando uma envolvência informal e quase transitória que se demarca da tensão subjacente.

Esta tensão de uma energia latente vai-se agigantando ao longo do percurso expositivo, que segue para a Capela de Serralves, a cerca de cinco minutos a pé. Aqui, diante do (ex-)altar, encontramos uma pintura site-specific de grandes dimensões que faz parte da série Manifestations: uma obra imponente que ecoa os azuis da iluminação da parte cimeira do altar no canto superior direito e revela um vermelho escuro no canto inferior esquerdo. Coberta de pinceladas largas, como que num ziguezague de frustração, a peça carrega em si uma fricção eruptiva: um assoberbamento aparentemente excessivo para o espaço da capela. Para o artista, esta série representa uma manifestação do eu — uma possível manifestação que, à semelhança da sua posição no espaço, não se encaixa exatamente em qualquer enquadramento normativo.

Por fim, no espaço exíguo e luminoso do piso superior da capela, expõe-se um conjunto de pinturas de pequenas dimensões. Com cadeiras de plástico à disposição dos visitantes, a sala enche-se de luz e paz — toda a ferocidade de Manifestations como que se dissolve na indeclinável proximidade que as cadeiras simbolizam. Em todas estas ondas sucessivas de energia estética, Together in Our Spirits consegue fazer-nos sentir plenos de vida e possibilidades, assim escorando uma referência constante ao vigor latente que trazemos dentro de nós.

 

Maria Kruglyak (MK): Queria começar por falar da sua prática artística. Olhando de fora, dá a impressão de que a mesma mudou bastante desde que se tornou mais mediático [em 2009]. Nessa altura, começou a trabalhar numa escala maior, com a intervenção colaborativa de grandes conjuntos de pessoas. Por exemplo, já mais de 100 mil alunos em todo o mundo fizeram parte de Frequencies [2013–2023]. A sua prática alterou-se ou trata-se apenas de uma continuidade da mesma investigação?

 

Oscar Murillo (OM): Bem, as Frequencies começaram a ser feitas há dez anos, e portanto faz uma década que estão integradas num projeto de investigação. Por isso, não, não diria isso [que se tenha alterado] — é só aquilo que o projeto exige. Já nesse momento, em 2013, andava a trabalhar com um grupo enorme de pessoas, com milhares de pessoas. Acontece apenas que, há dez anos, o projeto não tinha expressão pública, já que na altura não requeria a atenção do público em geral. Obviamente que cresceu desde então, inclusivamente na praça pública — pelo que se tornou mais público.

Esta exposição manifesta-se em diferentes espaços e gestos. Diria que a maior parte destes gestos — na verdade, todos estes gestos — provêm do mesmo lugar. É só que sempre foi um trabalho mesmo muito íntimo, muito discreto, que não precisava de atenção pública. Sempre se tratou disso. A questão é que a experiência se foi solidificando e amadurecendo. E agora é altura de começar a partilhar essa investigação com o público.

 

MK: Como é que descreveria a investigação que está por detrás de Frequencies?

 

OM: Para mim, é muito simples, e acho que sempre foi assim desde o início. O que aconteceu foi que as minhas diferentes indagações e curiosidades puderam convergir. Por exemplo, de que forma é que a série se relaciona com outras coisas que fiz, como por exemplo estas figuras em papier-mâché [de uma ideia para uma exposição, em 2014], no que toca à realidade cultural? Essa exposição abordava as condições do trabalho e da migração — e foi o que inspirou estas fardas [Arepas y Tamales (2022)].

Portanto, estas fardas produzem uma convergência entre aquela ideia e os bonecos que as crianças desenham — árvores, lábios, bandeiras, nomes de países, edifícios —, extraídos digitalmente das telas e integrados num todo para desenvolver estes tecidos. Depois disso, comecei a olhar para o significado histórico das fardas — a ideia da farda enquanto forma de identidade e representação do trabalho, por exemplo. Portanto, em parte, a peça nasce de Frequencies. E depois, claro, também as pinturas [Disrupted Frequencies] vêm daí — a ideia de coser estas telas [seleção de Frequencies] umas às outras, numa espécie de demonstração de convergência, de agregação, entre países ou lugares tão social ou política ou geograficamente diferentes e distantes uns dos outros. Torna-se uma espécie de fragmento reconfigurado do mundo, ou qualquer coisa do género.

 

MK: É como se o mundo fosse visto por outro tipo de imaginação.

 

OM: Sim, exatamente.

 

MK: Há pouco falou do facto de as fardas [de Arepas y Tamales] representarem uma noção de trabalho. Quer com isso dizer que o representam enquanto identidade? Para mim, vestir uma farda aporta a sensação de poder entrar num movimento anónimo.

 

OM: Sim, exato, de uma espécie de classe trabalhadora. É uma nova representação.

 

MK: É um aspeto muito marcado que também se relaciona com a série Manifestation [da qual se expõe uma pintura na Capela de Serralves]. Noutras ocasiões, referiu a ideia de manifestação como uma forma de ligação ao mundo; portanto, entende que esta manifestação é a forma das pessoas expressarem as suas opiniões políticas? Para si, estas obras estão ligadas ao âmbito político?

 

OM: Não tem de ser uma questão política. Acho que tem que ver com a manifestação do eu. E não parece que isso tenha de ser político. Acho que a minha obra já é política, mas não acho que tenha de o ser. Muitas vezes, no meu caso, até diria: olha para a minha cara — não basta? Não basta que eu esteja aqui, a representar-me a mim mesmo? Que mais é preciso?

Para mim, numa pintura como Manifestations, acho que é fulcral que suspendamos a retórica e o discurso teórico e nos deixemos levar pela energia estética; que permitamos que a estética se instaure, que a estética seja a coisa que importa, e pronto.

As Frequencies, por exemplo, são um trabalho que tem recebido toda esta informação, toda esta energia [de todo o mundo], porque se associa à diversidade, à diferença. Tem que ver com a ideia de uma frequência de rádio, a subir e a descer sinusoidalmente. Nasci num país equatorial; logo por aí, já estou a definir uma espécie de posição geográfico-biográfica: a linha do equador. A linha do equador não é política: é geográfica. Na linha do equador, podes ir para norte, para sul, este, oeste — podes ir para qualquer lado, só porque sim. O que é que te impede? E essa é um bocado a minha atitude enquanto artista, perante o trabalho, perante a vida.

 

MK: Sim, compreendo. Portanto, voltando ao processo que está na base de Frequencies: estas telas em branco são colocadas nas carteiras dos alunos, onde permanecem durante seis meses. O que acha que acontece aos alunos quando se sentam nas secretárias? Será esta uma forma de lhes permitir, de os convidar a manifestarem-se? De onde vem esta ideia?

 

OM: Bem, para mim, as crianças, antes de mais, são pequenos seres humanos. Não se trata de serem crianças, mas de serem pequenos seres humanos que vivem neste mundo. E o que é que isso quer dizer? O que é que significa ter-se as capacidades e a possibilidade de acesso que um pequeno ser humano tem? Essa realidade presta-se a uma forma pura de se ser; mas, ao mesmo tempo, estes pequenos seres humanos podem ser contaminados e conseguem contaminar. Estão sempre a absorver, a registar; estes pequenos seres humanos são autênticos gravadores. E, para mim, é como se fossem recetáculos a recolher toda esta informação, toda esta energia, de forma muito consciente. As telas precisam de ficar nas salas durante seis porque este tempo todo permite que o potencial do inconsciente também se revele. Quanto mais tempo as deixamos sobre as carteiras, mais se manifesta a processualidade indeliberada do inconsciente.

De certa forma, Frequencies, para mim, tem que ver com o desenho e com a comunicação, mas também, claro, com o futuro. Se virmos bem, as crianças mais novas a participar neste projeto agora terão 20 anos daqui a uma década. Existe este sentido de futuridade, que é diversa, multicolorida, com múltiplas frequências e possibilidades.

 

MK: Como é que se fez a seleção das obras para as quatro salas da exposição? Como é que tudo se processou?

 

OM: É isso que quero dizer com o título da mostra, Together in Our Spirits. Ora, antes da exposição, dei início a estas Frequencies com um conjunto de crianças da região [em participação no projeto] — essa foi a primeira intervenção, o primeiro gesto. Depois, quando começámos a pensar na exposição e nas diferentes salas, era importante para mim que não fosse uma espécie de exposição de museu. Olhando para as diferentes salas, não se tratam de espaços museológicos. No andar de cima [na Galeria de Arte Contemporânea], por exemplo, quase parece um hall; nem se trabalhou uma iluminação específica, estás a ver? De certa forma, não se criaram condições para apresentar arte — o que eu adoro, porque queria que o meu gesto transformasse isto numa espécie de centro comunitário onde as pessoas pudessem estar juntas. E assim podes sentar-te a ver o filme, mas estás a fazê-lo de uma forma muito informal. A instalação central [Mesmerizing Beauty (2023)], por sua vez, é onde se encontra maior conflitualidade, onde a racionalidade desaparece. E depois estas cortinas [da série Surge: Social Cataracts] vinculam-se a alguns textos que escrevi, às palavras, a esta ideia do mar quase a entrar pelo espaço. Queria que estes elementos construíssem uma plataforma. Não são bem uma pintura — são mais uma espécie de contexto. Portanto, de certa forma, é como se fossem fantasmas provenientes da convocação da água.

E aqui [na Capela de Serralves] é onde tudo muda e assume um carácter mais violento com esta pintura [da série Manifestations]. É como que uma espécie de agressão, ou de resistência (simbólica, porque se trata de uma igreja secularizada) — uma confrontação simbólica que é simultaneamente física e visceral.

 

MK: Na sua perspetiva, uma confrontação com a Igreja?

 

OM: Olho para isto de forma mais simbólica e histórica nas relações da Igreja, as suas histórias em todo o mundo e o cânone — e a manifestação de mim mesmo em relação a isso, signifique isto o que significar. A pintura torna-se uma representação simbólica dessa energia, e cabe-nos a nós dizer o que quer que tenhamos a dizer.

Ou seja, a exposição acaba nesta espécie de coletividade. Voltando ao título, Together in Our Spirits tem tudo que ver com estarmos aqui, com um grupo de pessoas a receber esta mensagem.

 

MK: E agora a minha última pergunta: o que gostava que as pessoas retirassem desta exposição?

 

OM: O que elas quiserem.

 

MK: Parece-me bem. Muito obrigado pela sua disponibilidade.

 

OM: O prazer é meu.

 

 

Oscar Murillo

 

Museu de Arte Contemporânea de Serralves

 

 

 

Maria Kruglyak é investigadora, crítica e escritora especializada em arte e cultura contemporânea. É editora-chefe e fundadora de Culturala, uma revista de arte e teoria cultural em rede que experimenta uma linguagem direta e accessível para a arte contemporânea. É mestre em História da Arte pela SOAS, Universidade de Londres, onde se focou na arte contemporânea do Leste e Sudeste Asiático. Completou um estágio curatorial e editorial no MAAT em 2022. Atualmente trabalha como redatora freelancer de arte

 

Tradução do EN por Diogo Montenegro. Revista pela editora.

 

 

Nota: Oscar Murillo foi vencedor do Turner Prize em 2019 em conjunto com Lawrence Abu Hamdan, Helen Cammock e Tai Shani.

 

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Oscar Murillo, Together in Our Spirits. Vistas da exposição no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto, 2023. Cortesia do artista e Fundação de Serralves.

[1] Anna Pigott // Oscar Murillo Studio, “Oscar Murillo: Together in Our Spirits”, folha de sala (2023).
[2] Ibid.
[3] Citado da entrevista que se segue.​​​​​​​
[4] The Shed, “Collision/Coalition: Jun 19–Aug 25, 2019”: theshed.org/program/34-collision-coalition (consultado em 29 de janeiro de 2024).

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