Ed. 06-07 / 2019
Crítica — por Sofia Lemos
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Masieri e Egle Trincanato (1910-1998), que foi director do Museo di Palazzo Ducale, professor da Accademia di Belle Arti di Venezia e director do Instituto de Restauro da Universidade de Arquitectura de Veneza, são duas das vozes de "a seam, a surface, a hinge or a knot" que Leonor Antunes cita. A representação oficial portuguesa da 58ª Bienal de Arte de Veneza 2019, com curadoria de João Ribas, une os modos como as práticas de transmissão, tradução e anotação operam enquanto formas de encontro intergeracional, e de como o estabelecimento de genealogias alternativas faz parte de um trabalho fundacional de produção de formas mais justas de conhecimento.
Entrevista — por Marta Mestre
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Jimmie Durham, além de poeta, ensaísta e ativista politico, é um dos mais destacados artistas contemporâneos. Em 1994 mudou-se para a Europa (ou “Eurásia”, como gosta de lhe chamar) e, antes disso, morou no México e viajou pela América do Sul. Hoje reside em Nápoles e Berlim e desenvolve um projeto de design juntamente com a artista Maria Thereza Alves. Este ano recebeu o Leão de Ouro da Bienal de Arte de Veneza pelo conjunto da sua obra, com destaque para a sua trajetória de seis décadas. Nos anos 70 e 80, Durham foi um líder activo do American Indian Movement (AIM) e porta-voz, junto da ONU, de minorias e grupos sub-representados nas Américas; como refere nesta conversa: “sou contra a opressão e a favor da libertação da humanidade”.
Crítica — por Sofia Nunes
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Jimmie Durham tem cruzado as artes visuais com a poesia desde a década de 1960 e volta a expor entre nós, no ano em que a sua obra foi premiada com o Leão de Ouro da 58ª Bienal de Veneza. A exposição intitula-se "Acha que minto?" e surge integrada no ciclo "Reação em Cadeia", comissariado por Delfim Sardo, para o espaço Fidelidade Arte, Lisboa e para a Culturgest no Porto. Além de apresentar um trabalho inédito e outro de 2006, poucas vezes exibido, reúne um grupo de dez peças de 1995 que fizeram parte da sua primeira individual em Portugal, organizada a partir de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago, com excertos apropriados do romance e materiais diversos recolhidos nas ruas de Lisboa. "História Concisa de Portugal", assim se chamava a mostra, teve uma relevância particular no trajeto do artista, coincidindo com a sua mudança dos Estados Unidos e México para a Europa e com o início de uma nova fase de trabalho
Crítica — por Alexandra Balona
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Com as primeiras e últimas linhas de texto de Joan Jonas (1936) da sua instalação “Lines in the Sand” (2002), citando excertos da obra “Helen in Egypt” (1961) da escritora Hilda Doolittle (1886-1961), ensaiamos uma entrada na sua prática artística, tão singular quanto enigmática, em exibição no Museu de Serralves. Desde a década de 60 até ao presente, Jonas articula com fluidez uma prática artística de performance, vídeo, instalação, som, desenho, objetos criados e encontrados, manipulando a percepção do espaço e do tempo, convocando o ilusório e o real, o encantamento da natureza e a fragmentação da subjectividade. Revisitando a mitologia Greco-romana em diálogo com a sua experiência autobiográfica, nomeadamente, as sessões de psicanálise com Sigmund Freud, a escritora americana Hilda Doolitle (H.D.) parte de textos de Eurípides e Estesícoro de Sicília sobre o mito de Helena de Tróia para elaborar o poema épico Helen in Egypt, no rescaldo da segunda guerra mundial.
Crítica — por José Marmeleira
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Em "Ponto de Fuga" na Cordoaria Nacional, há uma tese que pode ser enunciada. Esta exposição é um ambiente construído pelo som e a luz, por matérias e materiais, imagens e objetos. Uma mise-en-scène de um autor, João Laia. A fim de evitar equívocos ou leituras precipitadas, a autonomia das obras não é ameaçada pelo curador-chefe do Museu de Arte Contemporânea de Helsínquia. Irredutíveis a uma instrumentalização, elas furtam-se a literaturas unívocas. Feito este cuidadoso parêntese, o curador vinca, em termos temáticos e formais, a assinatura da montagem, a encenação que se abre ao visitante.
Entrevista — por Antonia Gaeta
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Carla Filipe: Para a exposição do MAAT intitulada "Amanhã não há arte", abordo a condição do artista plástico: temos um jornal informativo com vários exemplos relacionados com as questões laborais dos artistas, provenientes de várias instituições, países e períodos históricos. Trata-se de um documento informativo, sem hierarquia, que contém apenas 3% da pesquisa reunida em torno deste assunto. Mas a forma como a informação está disposta, oferece ao leitor a possibilidade de fazer a sua própria pesquisa a partir deste documento gratuito.
Crítica — por Maria Beatriz Marquilhas
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A linguagem é uma trama, um enredo que se vai formando a partir de elementos universais — um eco, uma linha — para se inscrever no tempo e no espaço, num exercício que requer a habilidade de um artesão. Filipa César dá a ver as células de organismos mutantes, como os sistemas linguístico e óptico, para interrogar os seus substratos, abrindo possibilidades de reescrita. Em dois espaços da cidade de Lisboa, dois momentos expositivos da artista e cineasta — "Crioulo Quântico", no Espaço Projecto da Fundação Calouste Gulbenkian e "Op-Film: Uma Arqueologia da Óptica", com Louis Henderson, no Hangar, Centro de Investigação Artística, partilham de uma metodologia assente em investigação, aliada a uma visão crítica, férteis para a criação de constelações visuais e teóricas.
Crítica — por José Marmeleira
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Comece-se com um facto: a presença em Ficção e Fabricação de uma selecção de artistas portugueses. Comissariada por Pedro Gadanho e Sérgio Fazenda Rodrigues, a exposição compreende, também, um conjunto relevante de artistas internacionais consagrados no domínio da prática fotográfica. Abreviando, obras de artistas como Tatiana Macedo, André Cepeda, Edgar Martins, Isabel Brisson ou Mónica de Miranda partilham o mesmo espaço com obras de Doug Aitken, Jeff Wall, Sabine Hornig ou Thomas Ruff. Ou seja, participam todos na mesma conversa sem som, formando uma topografia de ecos, passagens, elos, correntes.
Ensaio — por Eduarda Neves
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A crise da Europa, que é também a falência das suas representações políticas, exprime-se através de diversas manifestações de cidadãos como, por exemplo, os Indignados, em Espanha, as mobilizações que conduziram ao Brexit, até, mais recentemente, os Gillets Jaunes, em França. Se a construção europeia tem vindo a reforçar o imperativo da sua consciência gregária, não é menos verdade que o suposto movimento democrático e progressista da sua história tem, igualmente, edificado trabalhadores úteis e utilizáveis, motivados para a escravidão, treinados para o sacrifício e assim tornados europeus. Estes sinais, que nos apontam para uma vontade doente e fraca, uma moral de rebanho, que Nietzsche já diagnosticara em "Para além do bem e do mal", continuam a difundir-se por toda essa Europa cada vez mais obscura.
Entrevista — por Hugo Canoilas
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A exposição "Rumble Strip" de Andreia Santana é composta por obras que transgridem a sua visualidade, trespassam a sonoridade e entram no corpo, fixando-se sempre para além dos seus limites, como coisa etérea. Olhar para aquelas linhas que vão golpeando o espaço atmosférico, é olhar para um intervalo entre o visual e a experiência sonora, ou melhor para o silêncio em potência que constitui alguns dos momentos mais marcantes da história da música. As esculturas de Andreia Santana contêm um desejo intenso de transformação, interrompendo a velocidade que nos conduz para o abismo, na nossa condição antropocénica.
Crítica — por Isabel Nogueira
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A Galeria Oval do MAAT propõe ao visitante uma instalação site-specific, que define um percurso por entre andaimes, estabelecendo um enfoque do olhar e da espacialidade. A curadoria é de Pedro Gadanho e de Irene Campolmi; as obras são do artista dinamarquês Jesper Just (n. 1974). A instalação é constituída por dois núcleos. "Servitudes" é uma vídeo instalação em oito canais, apresentada pela primeira vez em 2015. "Circuits (Interpassivities)" é uma peça multimédia, de 2018, mostrada pela primeira vez em contexto museológico. Há qualquer coisa de corporal, performativo, etéreo, enigmático e imagético — ao mesmo tempo — no trabalho de Jesper Just.
Crítica — por José Marmeleira
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Em "O Olhar Divergente", no Arquipélago, nos Açores, as fotografias de António Júlio Duarte documentam e, ao mesmo tempo, enganam à prova do documental. O que o espectador vê, em certa medida, o artista também viu, mas o primeiro tem dificuldade em atribuir um sentido preciso às imagens. De onde vêm, o que representam? Por momentos, e embora possa saber onde foram realizadas, há algo que o desorienta, uma leve perturbação. E sem aviso, impercetível, o deleite da ficção instala-se. Nem por isso, a presença do real apaga-se. .
Crítica — por José Marmeleira
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Na Galeria Cristina Guerra, "Good Apples Bad Apples" de Rosângela Rennó (Belo Horizonte, 1962) surge, nas paredes, como uma configuração reticular. Uma teia tricolor (vermelho, branco, negro) de sequências, de linhas, uma malha de movimentos. Ou, antes, um texto, a uma certa distância, indecifrável que se espalha sobre o espaço em ritmos distintos, quase opostos. De uma posição mais próxima, esse texto (ou desenho) dá lugar a uma constelação de imagens fotográficas entre si ligadas por um motivo repetido: a representação de Vladimir Lenine em monumentos e estatuária no espaço público.
Artigo — por Celina Brás
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A Contemporânea impressa, na sua vertente temática e curatorial, assume um formato próximo ao de uma “colecção pública”, um arquivo de memória, do seu tempo, que, de certa forma, resgata o papel imposto pela sua etimologia (inglês magazine; do árabe makhzan: armazém). Ou revista (do latim rever: dar a ver). Um discurso processual da história dos objectos a que pertence. O foco principal destas edições temáticas reside no seu aspecto colaborativo, entre artistas, ensaístas, críticos, editores, designers e tradutores. Esta edição especial problematiza as várias dinâmicas associadas à escultura contemporânea projectando um olhar para a prática de mais de trinta artistas. Inclui seis ensaios visuais, vinte e dois ensaios escritos e três entrevistas. Comum a todos o questionamento da definição de escultura, através da história da arte, da memória e da materialidade.
Crítica — por Susana Ventura
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Transpondo a entrada da Galeria Pedro Cera, uma peça no centro da exposição threedscans.com de Oliver Laric (a primeira em Portugal deste artista austríaco), cativa, de imediato, o olhar. Trata-se de uma escultura intitulada "Reclining Pan", de 2019, que atraiçoa a nossa memória mais sensível. A sua imagem é-nos familiar, assim como o retratado, o deus grego Pã, deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores, comummente representado com orelhas, chifres e pernas de bode, tronco, rosto, braços e mãos de homem, segurando uma flauta de pã. No entanto, as matérias, de que se compõe (e a reacção entre estas), revelam um brilho, uma fluidez, um movimento, uma transparência, por vezes, ou uma opacidade, por outras, da ordem do plástico, do artificial, da extrema leveza.
Crítica — por Sara Castelo Branco
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Implicando um acto processual de leitura, Metálica (2018) é uma vídeo-projecção formada por uma fotografia projectada sobre um ecrã em cobre, cuja imagem é afectada e distorcida por um efeito flutuante quando se ouve o som de batidas sobre uma superfície metalizada, engendrando a ilusão de que o ecrã vibra e flui com a sonância do batimento sobre o metal. Através deste ecrã que parece manifestar uma condição vital, esta obra realiza-se entre ilusões mentais e perceptivas, como se a imagem intangível da projecção de vídeo adquirisse matéria, sendo possível tocar-lhe e fazê-la mover-se; ou, inversamente, a matéria tangível metalizada do ecrã oscilasse desmaterializada pelos embates compassados sobre ela.
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