Ed. 06-07 / 2019
Crítica — por Sofia Lemos
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Masieri e Egle Trincanato (1910-1998), que foi director do Museo di Palazzo Ducale, professor da Accademia di Belle Arti di Venezia e director do Instituto de Restauro da Universidade de Arquitectura de Veneza, são duas das vozes de "a seam, a surface, a hinge or a knot" que Leonor Antunes cita. A representação oficial portuguesa da 58ª Bienal de Arte de Veneza 2019, com curadoria de João Ribas, une os modos como as práticas de transmissão, tradução e anotação operam enquanto formas de encontro intergeracional, e de como o estabelecimento de genealogias alternativas faz parte de um trabalho fundacional de produção de formas mais justas de conhecimento.
Crítica — por Maria Beatriz Marquilhas
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A linguagem é uma trama, um enredo que se vai formando a partir de elementos universais — um eco, uma linha — para se inscrever no tempo e no espaço, num exercício que requer a habilidade de um artesão. Filipa César dá a ver as células de organismos mutantes, como os sistemas linguístico e óptico, para interrogar os seus substratos, abrindo possibilidades de reescrita. Em dois espaços da cidade de Lisboa, dois momentos expositivos da artista e cineasta — "Crioulo Quântico", no Espaço Projecto da Fundação Calouste Gulbenkian e "Op-Film: Uma Arqueologia da Óptica", com Louis Henderson, no Hangar, Centro de Investigação Artística, partilham de uma metodologia assente em investigação, aliada a uma visão crítica, férteis para a criação de constelações visuais e teóricas.
Crítica — por José Marmeleira
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Na Galeria Cristina Guerra, "Good Apples Bad Apples" de Rosângela Rennó (Belo Horizonte, 1962) surge, nas paredes, como uma configuração reticular. Uma teia tricolor (vermelho, branco, negro) de sequências, de linhas, uma malha de movimentos. Ou, antes, um texto, a uma certa distância, indecifrável que se espalha sobre o espaço em ritmos distintos, quase opostos. De uma posição mais próxima, esse texto (ou desenho) dá lugar a uma constelação de imagens fotográficas entre si ligadas por um motivo repetido: a representação de Vladimir Lenine em monumentos e estatuária no espaço público.
Ensaio — por Eduarda Neves
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A crise da Europa, que é também a falência das suas representações políticas, exprime-se através de diversas manifestações de cidadãos como, por exemplo, os Indignados, em Espanha, as mobilizações que conduziram ao Brexit, até, mais recentemente, os Gillets Jaunes, em França. Se a construção europeia tem vindo a reforçar o imperativo da sua consciência gregária, não é menos verdade que o suposto movimento democrático e progressista da sua história tem, igualmente, edificado trabalhadores úteis e utilizáveis, motivados para a escravidão, treinados para o sacrifício e assim tornados europeus. Estes sinais, que nos apontam para uma vontade doente e fraca, uma moral de rebanho, que Nietzsche já diagnosticara em Para além do bem e do mal, continuam a difundir-se por toda essa Europa cada vez mais obscura. Tudo o que contribui para elevar o impulso, a vida, a força, a alegria trágica, logo é estigmatizado.
Crítica — por Isabel Nogueira
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A Galeria Oval do MAAT propõe ao visitante uma instalação site-specific, que define um percurso por entre andaimes, estabelecendo um enfoque do olhar e da espacialidade. A curadoria é de Pedro Gadanho e de Irene Campolmi; as obras são do artista dinamarquês Jesper Just (n. 1974). A instalação é constituída por dois núcleos. "Servitudes" é uma vídeo instalação em oito canais, apresentada pela primeira vez em 2015. "Circuits (Interpassivities)" é uma peça multimédia, de 2018, mostrada pela primeira vez em contexto museológico. Há qualquer coisa de corporal, performativo, etéreo, enigmático e imagético — ao mesmo tempo — no trabalho de Jesper Just.
Crítica — por José Marmeleira
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Em "O Olhar Divergente", no Arquipélago, nos Açores, as fotografias de António Júlio Duarte documentam e, ao mesmo tempo, enganam à prova do documental. O que o espectador vê, em certa medida, o artista também viu, mas o primeiro tem dificuldade em atribuir um sentido preciso às imagens. De onde vêm, o que representam? Por momentos, e embora possa saber onde foram realizadas, há algo que o desorienta, uma leve perturbação. E sem aviso, impercetível, o deleite da ficção instala-se. Nem por isso, a presença do real apaga-se. .
Artigo — por Celina Brás
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A Contemporânea impressa, na sua vertente temática e curatorial, assume um formato próximo ao de uma “colecção pública”, um arquivo de memória, do seu tempo, que, de certa forma, resgata o papel imposto pela sua etimologia (inglês magazine; do árabe makhzan: armazém). Ou revista (do latim rever: dar a ver). Um discurso processual da história dos objectos a que pertence. O foco principal destas edições temáticas reside no seu aspecto colaborativo, entre artistas, ensaístas, críticos, editores, designers e tradutores. Esta edição especial problematiza as várias dinâmicas associadas à escultura contemporânea projectando um olhar para a prática de mais de trinta artistas. Inclui seis ensaios visuais, vinte e dois ensaios escritos e três entrevistas. Comum a todos o questionamento da definição de escultura, através da história da arte, da memória e da materialidade.
Crítica — por Susana Ventura
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Transpondo a entrada da Galeria Pedro Cera, uma peça no centro da exposição threedscans.com de Oliver Laric (a primeira em Portugal deste artista austríaco), cativa, de imediato, o olhar. Trata-se de uma escultura intitulada "Reclining Pan", de 2019, que atraiçoa a nossa memória mais sensível. A sua imagem é-nos familiar, assim como o retratado, o deus grego Pã, deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores, comummente representado com orelhas, chifres e pernas de bode, tronco, rosto, braços e mãos de homem, segurando uma flauta de pã. No entanto, as matérias, de que se compõe (e a reacção entre estas), revelam um brilho, uma fluidez, um movimento, uma transparência, por vezes, ou uma opacidade, por outras, da ordem do plástico, do artificial, da extrema leveza.
Crítica — por Sara Castelo Branco
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Implicando um acto processual de leitura, Metálica (2018) é uma vídeo-projecção formada por uma fotografia projectada sobre um ecrã em cobre, cuja imagem é afectada e distorcida por um efeito flutuante quando se ouve o som de batidas sobre uma superfície metalizada, engendrando a ilusão de que o ecrã vibra e flui com a sonância do batimento sobre o metal. Através deste ecrã que parece manifestar uma condição vital, esta obra realiza-se entre ilusões mentais e perceptivas, como se a imagem intangível da projecção de vídeo adquirisse matéria, sendo possível tocar-lhe e fazê-la mover-se; ou, inversamente, a matéria tangível metalizada do ecrã oscilasse desmaterializada pelos embates compassados sobre ela.
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