Andreia Santana: Eros and Errors

Um labirinto se caracteriza pela arquitetura que subdivide um espaço repetidamente e, em sua uniformidade, impede a orientação, ludibriando aqueles que o tentam atravessar. Símbolo ambíguo que permeia diferentes tempos históricos, conota simultaneamente um espaço de iminente perigo e de resguardo, um refúgio. Pode ser edificado pelo labor de mãos humanas que empilham pedra sobre pedra, ou revelar-se imaterial, constituído pelo serpenteante movimento do subconsciente. Em Eros and Errors, exposição individual da artista Andreia Santana, o labirinto opera nesta segunda categoria.
Ao habitar a ampla arquitetura do edifício da Galeria Avenida da Índia, um conjunto de objetos escultóricos esquadrinha um espaço que convida a ser decifrado. Como se nascessem do chão e, sincronicamente, flutuassem no vácuo, seis estruturas metálicas delineiam um centro gravitacional ao redor do qual pairam oito esculturas em vidro soprado. São passagens retangulares, construídas por tubos metálicos, que emolduram vidros trazendo diferentes inscrições — o molde de um seio, números gravados e silhuetas de objetos “fossilizados” na matéria transparente. Junto a cada passagem, repousam chapas de alumínio em formato de chaves em escala exagerada, agarradas a sinuosas formas em vidro soprado, que jogam com a ambiguidade (meros porta-chaves, ou modelos anatômicos de brinquedos sexuais?).
Há um salto cognitivo a dar entre aquilo que se revela e aquilo que se oculta. Entre o significado das chaves agigantadas e o universo criado ao redor. Entre o denso pensamento elaborado pela artista e a aparente imobilidade da exposição. Em uma abordagem que tem se mostrado consistente no percurso de Andreia Santana, a síntese das formas sublimam em si um longo e adensado exercício teórico — o qual, fortuitamente, pode servir como um fio de Ariadne para a interpretação de Eros and Errors.
Advindas de notáveis maturidade e conhecimento técnicos sobre a matéria, as esculturas ali presentes parecem segredar relações entre si. Quando ouço sobre a concepção de um labirinto de estruturas no espaço da galeria, assumo que não é ao sentido físico do termo que se alude, mas, antes, aos vazios cognoscíveis criados propositadamente no trabalho da artista. Isoladas, as suas esculturas imergem em um aparente silêncio, não requerendo significados que extrapolam os objetos de que são a representação — porém, quando em relação, se revelam capazes de expressar labirínticas associações.
Ir em direção ao cerne de tais sublimadas relações passa por identificar a origem das formas no trabalho de Andreia Santana. Em exposições recentes, tal qual Skin Echoes (2022), eram os objetos imediatamente próximos aos corpos que sugeriam um ponto de partida (como as crinolinas e os exoesqueletos dos animais), servindo ao propósito de pensar o corpo como locus de conhecimento. Desta vez, em Eros and Errors, surgem os andaimes, abundantes na paisagem de Nova Iorque, cidade onde a artista viveu, em uma análoga proximidade física com os corpos dos edifícios — uma espécie metafórica de exoesqueleto. É um movimento que parte do interior ao exterior, trazendo consigo questões adjacentes, como a sexualidade enquanto experiência situada além da esfera íntima e individual.
A construção do espaço público, como qualquer âmbito humano, não é um campo liberto de ideologias — o que implica que todos os espaços construídos nas cidades carregam em si ideias e valores que refletem aqueles que são dominantes em uma determinada sociedade. Seja em termos de segregação racial, de gênero e classe, seja a separação entre os espaços de atividade comercial e econômica daqueles destinados à habitação das famílias (como os subúrbios, por exemplo), ou seja para definir espacialmente aquilo que se designa como atividade da esfera pública ou da privada. Nesse sentido, os andaimes ocupam um lugar limítrofe nesta organização ideológica dos espaços urbanos. Além de sua função prática enquanto estrutura temporária de proteção e suporte para a construção civil, eles têm a sua finalidade espontaneamente subvertida através de usos alternativos estabelecidos pelos próprios transeuntes: são abrigos contra a chuva, espaços de descanso ou refúgios sexuais.
Tal subversão espontânea se replica em Eros and Errors, quando os limites que dividem o íntimo e o público se tornam opacos. As chaves agigantadas, por exemplo, traçam um caminho pela intimidade da artista: são reproduções de suas próprias chaves (detalhe que é sugerido pelos títulos das esculturas: letterbox, basement, etc). Já os objetos sinuosos a elas atrelados, insinuam anatomias de brinquedos sexuais que, tal qual as chaves, possuem um uso que pertence ao íntimo. Quando habitam o mesmo espaço que as simulações de andaimes fabricados pela artista, fazem convergir as esferas pública e privada, realocando o discurso sobre a sexualidade no domínio social.
Há, ainda, duas esculturas que incorporam em si a totalidade desse pensamento, com recurso a uma bem-humorada ironia. Door Woman (entrance) e Door Woman (exit) são duas peças em vidro soprado que figuram uma espécie de personagem caricata: uma vulva com pernas e braços, que veste um chapéu de cowgirl. Silenciosamente, são essas obras que, a partir de ambos os cantos da galeria, recebem o público na exposição, bem como o saúdam quando estes chegam ao fim do percurso — uma referência à figura do doorman, profissional que costuma ser do gênero masculino.
O discurso sobre a sexualidade sempre foi uma presença latente no trabalho de Andreia Santana, que tem sido atravessado por preocupações sobre o lugar do sexo na sociedade, o direito à sexualidade e ao prazer e a quem ele se refere, o uso político do erotismo e do desejo, as tensões que esgarçam a dominação binária sobre o sexo, a experiência corporal/sexual para além da individualidade, dentre outras. Em Eros and Errors, ao mesmo tempo em que tais questões extravasam para o âmbito público, se aguçam os mecanismos de camuflagem do assunto (o sexo, aqui, surge em um cavalo de Tróia).
Notavelmente signatária da ideia de que o pessoal (e o sexo) é político, e de que a arte deve ser um campo de reivindicação, seu trabalho mantém diálogos intangíveis com a produção artística feminista das décadas de 1970/80, ainda que recorra a uma estética que dispensa os apelos explícitos da altura. Trata-se de uma abordagem contemporânea sobre o assunto, pertencente a um tempo em que parte das utopias e dos sonhos herdados pela revolução sexual do século passado parece vergar ao peso de um novo conservadorismo — que, não nos enganemos, não poupará nenhum âmbito da vida social.
Se o campo artístico é capaz de nutrir tais sonhos e utopias, é através da criação, em parte, da resistência necessária ao desmantelamento deste tempo de perdas de liberdades. Neste sentido, é revigorante a experiência de adentrar a exposição Eros and Errors, e de acompanhar um trabalho que, ao menos a nível nacional, se destaca pela franqueza e coragem de situar um discurso sobre a sexualidade como pedra angular.
Galerias Municipais de Lisboa/EGEAC
Paula Ferreira é escritora, fotógrafa e pesquisadora independente. Nascida em São Paulo, atualmente vive em Lisboa. É pós-graduada em Fotografia pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e em Estética pela FCSH NOVA. É fundadora de Aos Cuidados, projeto que abrange publicações impressas, exposições e workshops dentro de temáticas relacionadas ao acesso à saúde e aos direitos aos cuidados, sempre por uma perspectiva feminista, interseccional e transdisciplinar. Em 2023, realizou a curadoria da exposição Bandeira Branca, na Galeria Irmã Feia, e o ciclo de cinema Escrever a Liberdade, no Museu do Aljube. É assistente curadora na Anozero: Bienal de Coimbra, edição de 2024.
Este texto foi escrito em português do Brasil.

Andreia Santana, Eros and Errors. Vistas gerais da exposição na Galeria Avenida da Índia, Lisboa, 2024. Galerias Municipais de Lisboa. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia da artista e Galerias Municipais de Lisboa/EGEAC.








