Crítica — por Susana Ventura
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O espaço permanece, por ora, vazio. Percebe-se a monumentalidade do seu volume perfeito de acentuada horizontalidade, tanto devido à profundidade como ao tecto abobadado; o ritmo compassado das pilastras planas de pedra, intercaladas com os planos brancos rebocados e a abertura das janelas; o pavimento vincado a meio por um sulco, por onde outrora corria água, a todo o comprimento do espaço, e que se prolonga pela antecâmara; e, não muito alto, um banco, interrompido de quando em quando pela luz que deixa cair a sombra deste no chão.
Crítica — por Sérgio Fazenda Rodrigues
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A exposição que Fernanda Fragateiro apresenta na Galeria Filomena Soares dá-nos a ver um conjunto de esculturas de média e grande dimensão, dispostas na sala principal deste espaço. Adoptando como título a frase “Monotony is nice” que Charlotte Posenenske proferiu em relação à uniformidade de uma paisagem plana, a exposição apoia-se na pesquisa que Fragateiro tem vindo a desenvolver sobre o trabalho de várias artistas e no modo como estas assumiram uma reação contra o sistema artístico, político e social onde surgiram.
Ensaio — por Eduarda Neves
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Querido amigo, neste país que não é o teu, e do qual te escrevo, habituei-me às confidências. Sem elas não suportamos o rigor do cansaço, apesar de uma certa tragédia nos devolver um mundo optimista. Sem Sol. Pensar deixou de ser um certo skandalon, um tropeço. Como pensar sem tropeçar? Como pensar sem desordenar e sem pecar? O pensamento é essa forma de jornal íntimo; não que sirva para contar a nossa vida mas para afirmar a possibilidade de um desconcertante movimento, uma força de não resignação.
Crítica — por José Marmeleira
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Na Galeria Zé dos Bois, com curadoria de João Maria Gusmão e Natxo Checa, Gonçalo Pena dá-nos a ver o estado em que se encontra a sua pintura. Isto é, o estado da sua relação com a pintura e com aquilo que lhe é exterior: a história, nomeadamente a do século XX, de outras artes, da imagem em movimento, das condições da modernidade. Há muito que a arte de Gonçalo Pena se encontra num devir constante. É verdade que o mesmo se poderia dizer de outros artistas, mas este é um devir convulso, exposto.
Crítica — por Miguel Mesquita
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Diana Policarpo pertence a uma categoria de artista que, associada a uma investigação técnica e conceptual sobre os meios de produção e reprodução artística, adopta no espaço criativo um pensamento crítico, complexo e inter-relacional que considera a condição do antropoceno — no caso de Policarpo, analisando as causas e consequências de transformações antropogénicas na concomitância com as inevitabilidades do desenvolvimento civilizacional.
Crítica — por Sara Castelo Branco
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O olhar da Medusa, figura feminina da mitologia grega que petrificava quem a olhasse, inverte-se para fitar directamente um espelho revelando um homem que a encarna enquanto canta um fado sobre a fatalidade do seu destino. Entre Actos #1 (2020), uma da esculturas de vídeo que constitui a exposição individual Pathosformel de Vasco Araújo, opera-se num exercício desconstrutivo da constância e convencionalidade de determinados sistemas — onde a Medusa pode ser um homem, e um homem que olha directamente para um espelho.
Artigo
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A exposição individual de Pedro Barateiro para a Casa da Cerca tem como ponto de partida a obra "My body, this paper, this fire" 2020, vídeo produzido a partir do texto e performance com o mesmo nome. O vídeo começa com uma descrição e imagens da manifestação contra o aumento das propinas de 24 de novembro 1994. A manifestação, uma das mais violentas depois do fim do regime fascista, marcou de forma incontornável a geração que a partir desse momento passou a ser chamada de “geração à rasca”.
Entrevista — por Eduarda Neves
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Desenvolvendo uma prática artística que cruza vários media e disciplinas, Tiago Madaleno apresenta a sua última exposição no Porto, no espaço RAMPA. Este projecto contou com o apoio à criação artística do programa Criatório 2019, da Câmara Municipal do Porto. A exposição é acompanhada de um livro com o mesmo título que inclui textos de Allen S. Weiss, Pedro Pousada e uma conversa entre o artista e Nancy Perloff. Tiago Madaleno expõe regularmente, desde 2013, e em 2017 venceu o prémio Novo Banco Revelação com a obra Clepsidra.
Crítica — por Susana Ventura
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A cada trabalho de Andreia Santana somos surpreendidos pelos limites que este tem proposto transpor, sendo-nos difícil qualquer designação ou ideia síntese, para além desse questionar constante sobre o próprio domínio da escultura e de se lhe reconhecerem alguns traços de estilo entre obras ou vestígios de um pensamento contínuo sobre a prática artística, a sua exposição, classificação e conservação (temas que atravessam a obra da artista e que encontram na presente exposição uma nova consideração).
Crítica — por José Marmeleira
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Questionar modelos e categorias é um exercício predileto de muitos artistas e bastante comum, sobretudo desde a modernidade. Acontece que o seu foco se deslocou. Os modelos e categorias são, cada vez mais, externos ao domínio da arte: não são apenas, em sentido estrito, sociais ou políticos, são, também sexuais e biológicos. Ou dito de outra maneira, a arte, ou pelo menos uma parte importante da arte, sem deixar de se observar a si mesma, tem vindo a observar o que é ser humano.
Crítica — por Gabriela Vaz-Pinheiro
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Falarei do tempo como forma de pensar não só a sua continuidade (ou descontinuidade) mas a sua suspensão. Vivemos dias em que muitas das lutas levadas a cabo pelo menos nos últimos 60 anos se encontram perigosamente revertidas ou pelo menos em suspenso. Pensar a fragilidade das conquistas que, tanto para quem viveu o Maio de 68 como para quem nasceu e cresceu na sua herança (e na herança da Revolução de 74 no caso português), é hoje crucial. De repente, as ideias de colectivo, de partilha, de crítica, de liberdade, de público… a própria ideia de futuro, parecem canceladas.
Crítica — por Isabel Nogueira
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O retrato é, como se sabe, um dos géneros tradicionais da arte bidimensional, a par da paisagem e da natureza-morta. Mas o retrato retém o “real” — na sua dimensão imagética, claro — de um modo potencialmente intenso, único, até afectivo. A imagem é, neste caso, entendida, e sublinhando a pertinente perspectiva de Hans Belting (Bild-Anthropologie, Antropologia da imagem, 2001), como um “objecto destinado a simbolizar e a representar a experiência do mundo, do corpo e da própria História”.
Entrevista — por José Marmeleira
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Na Galeria Municipal do Porto, Luís Lázaro Matos dá largas ao gozo de trabalhar em murais e obras de grande formato, mergulhando o espectador numa cenografia onírica e lírica. Feita de desenhos que, inspirados na fantasia, na vida quotidiana e na música pop punk, fazem nascer histórias sobre a nossa realidade confusa. Leio no press release que a exposição foi inspirada nas sete canções do disco Waves and Whirlpools. Presumo que o disco tenha aparecido primeiro e, só depois, o trabalho pictórico. Como descreverias essa tradução do musical para o pictórico? É recorrente no teu trabalho?
Crítica — por Sara Castelo Branco
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A exposição individual Blind Faith de Diogo Evangelista —com curadoria de Nuno Crespo, patente na Escola das Artes da Católica (Porto, 2020) entre fevereiro e outubro deste ano — procurou justamente exprimir uma espécie de pacificação com uma ideia de fim: que assoma aqui não enquanto lugar de cessação ou termo, mas de passagem, de um ir além de que sugere um movimento de devir segundo o qual nada é novo, mas tudo flui, se modifica e retorna, reverberando sobre si mesmo.
Ensaio — por Filipa Correia de Sousa
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São, definitivamente, poucas as vezes em que, nos dias de hoje, temos oportunidade de ver pinturas sobre uma parede que não branca. Isto é, uma parede de fundo dito neutro, limpo de particularidades, estéril pela sua alvura e clareza. Como sabemos, a pintura pode pedir, exigir até, essa superfície branca pela liberdade e flexibilidade que oferece à sua disposição e instalação, bem como à nitidez resultante do jogo de luz e reflexos que é estabelecido no espaço onde a pintura é apresentada e, enfim, perscrutada pelo olhar atento dos espectadores.
Entrevista — por David Silva Revés
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"Sage comme une image” é a mais recente exposição de Horácio Frutuoso na Balcony (Lisboa), galeria que o representa. Patente até dia 18 de Novembro, esta exposição foi o mote para uma conversa com o Horácio (via Zoom), que passou não só pelas questões que lhe dizem estritamente respeito, mas também por considerações sobre a arte, a imagem, o sistema artístico e a figura do artista; pensamentos sobre a vida e o mundo contemporâneo; inquietações em torno da morte…
Entrevista — por Isabel Carlos
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Apesar de, ao longo do meu percurso, se terem acentuado muito os aspectos do modernismo, da arquitectura, do africano, a verdade é que sempre houve uma negociação entre as formas, as imagens, as composições. Há muita coisa a acontecer ao mesmo tempo e agora sinto-me à vontade para ir buscar fios de uma meada que podem e devem ser explorados, que por razões diversas ficaram por florescer e, apesar de terem ficado adormecidos há 25-30 anos, são meus e são muito reais. Sinto-me, portanto, no direito de voltar a eles, de reabilitá-los, de lhes dar continuidade.
Crítica — por José Marmeleira
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Na Fundação Carmona e Costa, Nuno Sousa Vieira perscruta as relações entre o céu e a terra, sublimando algumas das interrogações e tensões que têm guiado o seu trabalho. Concebendo a visão enquanto relação entre o ver e o interpretar e introduzindo o espectador enquanto sujeito que se vê e vê. Entre o não visível e o visível. Talvez se possa dizer que "Linha Funda" de Nuno Sousa Vieira, com curadoria de Sérgio Fazenda Rodrigues, é uma exposição que expande de um modo inédito os tópos conceptuais e estéticos de Nuno Sousa Vieira.
Ensaio — por Filipa Correia de Sousa
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“Atlas do impossível”, chamou Foucault, deslumbrado, à menção que Jorge Luis Borges fizera, num dos seus muitos ensaios, de uma enciclopédia chinesa intitulada Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos, a qual determinava que as classes dos animais eram divididas de um modo que, para o filósofo francês, abalava genuína e prazenteiramente a familiaridade com as categorias tradicionais concebidas pelo pensamento moderno.
Crítica — por Cristina Sanchez-Kozyreva
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As esculturas de Belén Uriel são construções intrigantes. Feitas de materiais orgânicos como polpa de papel, vidro e bronze, a artista nascida em Madrid cria réplicas estranhas e fragmentadas de objectos do quotidiano, como cestos, pequenos colchões insufláveis ou mochilas, que possuem várias marcas de interacção humana. As formas criadas pela artista conservam algumas características dos modelos originais, mas são também objecto de uma grande transformação pelas suas mãos. “São na verdade objectos muito básicos de consumo. Não tenho assim tanta imaginação”, diz Uriel com um sorriso, “Uso coisas que existem e que utilizamos em sociedade.
Artigo — por Alberta Romano
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It’s a date é uma nova rubrica da Contemporânea da autoria de Alberta Romano, dedicada a visitas a ateliês de artistas de Lisboa e de todo o mundo, tanto físicas como online. Episódio 2: Dana Lok. Lisboa > Brooklyn. Recentemente percebi (ou pelo menos suponho que percebi) a diferença entre o MEU tempo e o tempo que o resto do mundo parece “impor” sobre mim. Inicialmente descobri que a diferença entre os dois não tinha fim, e depois compreendi que as acções levadas a cabo de acordo com o meu tempo eram muito mais originais e criativas do que aquelas homologadas pelo tempo dos “outros”.
Artigo — por Alberta Romano
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It’s a date é uma nova rubrica da Contemporânea da autoria de Alberta Romano, dedicada a visitas a ateliês de artistas de Lisboa e de todo o mundo, tanto físicas como online. Episódio 1: Fernão Cruz. Um céu cor de chumbo pesa sobre Lisboa, mas não deverá chover, pelo menos não para já. O ateliê de Fernão Cruz não é longe da minha casa, por isso decido ir a pé. Aproveito a oportunidade para ouvir um novo podcast que um amigo próximo me sugeriu, Réclame de Chiara Galeazzi e Tania Loschi (por enquanto apenas em italiano, infelizmente).
Crítica — por Cristina Sanchez-Kozyreva
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Na noite de 31 de Outubro celebra-se o Halloween e também o dia de aniversário da artista baseada em São Paulo Yuli Yamagata. Para a sua primeira exposição na Madragoa em Lisboa, intitulada BRUXA (patente até 31 de Outubro), Yamagata encheu a galeria de personagens dramáticas e adereços de bruxas, como se fosse uma explosão de guloseimas. A ideia de bruxaria é muitas vezes abordada como se se tratasse de crenças infantis ou ideologia cultural.
Crítica — por Susana Ventura
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"Come to Dust" é a segunda exposição individual de Karlos Gil na Galeria Francisco Fino, em Lisboa, três anos após "Phantom Limbs", a qual surge, ainda, evocada numa escultura de chão em polímero sintético intitulada "Phantom Limbs (Body)", cujos módulos podem formar composições distintas e nos quais as diferentes depressões se assemelham a moldes de próteses, talvez das que vemos tomar vida na peça central da exposição, o vídeo "Uncanny Valley", que delimita dois espaços muito distintos na galeria.
Crítica — por Isabel Nogueira
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O som é dos elementos mais importantes num ambiente em que permaneçamos ou em que simplesmente circulemos, podendo constituir uma fonte tanto de profundo prazer como de total desconforto e reactividade. Por vezes, trata-se de um fenómeno subtil, até imperceptível, mas que está lá e que, a seu modo, nos entra no corpo, às vezes de modo visceral, e que, para o bem e para o mal, imprime uma marca. Nas cidades de maior dimensão, como Lisboa, o silêncio pode ser raro e valioso. Nos últimos anos, as grandes cidades sofreram com um extremar do ruído, que se foi tornando numa infeliz banalidade.
Crítica — por Cristina Sanchez-Kozyreva
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Em "A Interpretação dos Sonhos", publicado em 1899, Sigmund Freud defende que o estudo dos sonhos oferece uma ferramenta eficaz para o desmontar das actividades inconscientes da mente. Sugere que tomemos notas de tudo aquilo de que nos lembramos, sem qualquer julgamento imediato, confiando apenas na propensão humana, natural e criativa, para a associação de ideias e descrições. Ao fazê-lo, somos capazes de revelar até os mais estranhos fragmentos narrativos. Com efeito, é apenas o sonhador a única pessoa que se pode aproximar de uma interpretação.
Crítica — por David Silva Revés
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Seremos de facto patos que querem ser cavalos? Por um lado, colocar a pergunta, ou fazer a afirmação, implicaria, desde logo, pressupor uma qualificação dissimétrica entre estes dois seres. Com prejuízo para o pato, este ocuparia uma posição inferior na hierarquia humana das ontologias animais. Contudo, há que não esquecer — e é esse o outro lado — que qualquer decalque classificatório ou valorativo dirá muito mais sobre aquele que classifica do que sobre aquilo que é classificado.
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