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It’s a date: Fernão Cruz

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Alberta Romano


It’s a date é uma nova rubrica da Contemporânea da autoria de Alberta Romano, dedicada a visitas a ateliês de artistas de Lisboa e de todo o mundo, tanto físicas como online.

Episódio 1: Fernão Cruz

 

Lisboa, 22 de Setembro 2020.

Um céu cor de chumbo pesa sobre Lisboa, mas não deverá chover, pelo menos não para já. O ateliê de Fernão Cruz não é longe da minha casa, por isso decido ir a pé. Aproveito a oportunidade para ouvir um novo podcast que um amigo próximo me sugeriu, Réclame de Chiara Galeazzi e Tania Loschi (por enquanto apenas em italiano, infelizmente). É assim que, enquanto caminho, acabo por ouvir histórias de CEOs de grandes multinacionais que destroem a imagem das suas empresas através de anúncios discriminatórios e ofensivos ou episódios de gestores de social media que aproveitam todo o tipo de ocasiões para exibir o pior lado da sua ironia.

Pergunto-me quando é que a calma voltará a ser “cool”, se alguma vez deixaremos de correr atrás de todas as notícias e de todos os aniversários, apenas para andarmos sempre aos tropeções.

Toco à campainha do ateliê do Fernão.

Consigo já espreitar algumas das pinturas através da janela. Vejo-o depois a subir as escadas, ele coloca a máscara e abre a porta. O encontro começa.

O ateliê do Fernão (partilhado com Horácio Frutuoso) estende-se por dois pisos: uma montra de loja que dá para rua funciona como entrada principal e área de exposição para algumas das suas peças, mas é na cave mais espaçosa que a maior parte dos trabalhos se encontra.

A Covid-19 ajudou-nos a quebrar o gelo. Este ano não existem mais conversas inúteis sobre o tempo, o desconforto do uso permanente da máscara é já um óptimo assunto para uma conversa casual e despreocupada.

Não terá sido talvez coincidência que os primeiros trabalhos que o Fernão escolheu mostrar-me foram precisamente aqueles que fez durante o confinamento: uma longa série de grandes bordados. E é nesse momento em que começamos realmente a ligar-nos: o meu confinamento foi também dedicado a uma “irreflectida” incursão pela costura e bordados, evidentemente em nada comparáveis aos trabalhos de bom gosto do Fernão.

Para criar estas peças, Fernão pediu emprestados à sua avó pedaços de tecido antigos e começou a bordá-los, seguindo tanto desenhos seus como imagens encontradas.

“É um processo muito solitário”, diz, “deixa-me bastante calmo”.

Ele vê-as agora como peças diferentes da mesma história que, talvez um dia, venham a ser bordadas todas juntas.

Ao falarmos sobre bordado, ele quer depois mostrar-me um projecto enorme que está a realizar em colaboração com a avó. Um conjunto de 10 pinturas acrílicas sob telas gigantes sem preparação, cosidas com a sua ajuda sobre retalhos de tecido grandes e coloridos. As cenas representadas nas telas são retiradas das ilustrações de F. D. Bedford para Peter Pan.

Fernão inclui as legendas na parte inferior de cada peça, modificando algumas delas de acordo com a sua interpretação pessoal das aventuras de Peter Pan. Para me mostrar as telas, Fernão trepa por uma cómoda e abre as gavetas uma a uma, literalmente desaparecendo por trás delas. As pinturas são enormes e algumas repletas de detalhes: as suas dimensões e precisão convidam a que me perca nelas.

No momento em que recuo alguns passos para ver melhor as pinturas, dou um encontrão numa pequena mesa posta com oito pratos e oito colheres no meio do espaço. Fernão diz-me que foi posta para as oito personagens que, reparo agora, se encontram encostadas à parede. E quando começo a pensar que elas parecem claramente demasiado altas para poderem desfrutar juntas de uma refeição à volta daquela mesa pequena, Fernão revela como se sentiu esmagado pela presença constante das mesmas pessoas à sua volta, o tempo todo, e de repente tudo faz sentido. Estas estranhas criaturas feitas de madeira e papier-mâché são definitivamente estranhas o suficiente para nos deixar desconfortáveis apenas por estar perto delas.

Fernão aproveita prontamente esta oportunidade para me dizer que adoraria começar a criar espaços a sério, onde personagens, esculturas e objectos pudessem ganhar vida, criando atmosferas que, apesar de complexas, pudessem ser facilmente abordadas e vividas pelos visitantes. Acho uma ideia maravilhosa.

Olhando para os seus trabalhos, sinto muitas vezes a necessidade de trazer o público para a sua esfera privada.

Talvez seja devido ao enorme leque de símbolos que povoam a sua prática e cujo sentido mais profundo só ele conhece. No entanto, quando ele me mostra os trabalhos que produziu durante uma residência na China em 2017, percebo que é nos seus desenhos e pinturas que os símbolos se tornam cada vez mais visíveis.

“Eu estava a fazê-los, um atrás do outro, mesmo durante a noite. Não consegui ultrapassar o jet lag, por isso continuei a viver no horário português”.

Os desenhos feitos nesta fase são muito pequenos mas ainda assim surpreendentemente vívidos, cada um brilhando com uma luz diferente. Um deles (talvez o meu favorito) faz-me lembrar M¥SS KETA, mas como é evidente o Fernão não sabe quem é, por isso precisamos de algum tempo para passar em revista alguns dos seus melhores looks.

As pinturas que foram feitas durante a mesma residência na China são, pelo contrário, enormes e encorpadas. São feitas a partir de muitas camadas de tinta que dão força a todos os pequenos detalhes que as compõem. A sua sexualidade e esfera pessoal parecem aqui um pouco inquietas, mas Fernão constrói continuamente a sua própria linguagem através deste código criptográfico. Uma vassoura mantém afastado um tipo com uma espada (é divertido notar a sua semelhança com o Capitão Gancho nos trabalhos mais recentes sobre o Peter Pan); vêem-se pénis por todo o lado, mesmo nos desenhos pendurados dentro da pintura; uma bandeira vermelha ondula numa esquina; um avião cai; todas as escadas conduzem o nosso olhar para lado nenhum…

“Estou permanentemente a perder as minhas pinturas enquanto acrescento camadas e mais camadas. É exactamente no momento em que detesto uma pintura que percebo que ela está terminada”.

— Um tipo canta em voz alta na rua —

“Para pintar preciso de sossego, preciso de concentração, apesar de recentemente ter sentido esta sensação de adrenalina. É por isso que não tenho pintado tanto ultimamente”.

A visita está a chegar ao fim e o Fernão e eu falamos agora sobre exposições recentes que vimos, artistas de que gostamos e desenhos animados que costumávamos ver (encontrarão tudo na caixa-mistério).

O encontro foi muito agradável e perdemos a noção do tempo.

Lá fora chove, acho que vou chamar um Uber.

Entro no carro. A chuva agora bate com força na janela e o condutor fala depressa demais numa língua que não é a minha. Olho para fora e através da chuva não reconheço uma única rua.

Começo a pensar no trabalho do Fernão e percebo como, mais do que o de outros artistas, parece perfeito para ilustrar este tipo de sentimento, íntimo e partilhado. Nunca ninguém os poderá descrever de forma objectiva, mas felizmente haverá sempre alguém que não receia aproximar-se delas de modo subjectivo.

 

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A Caixa-Mistério é composta por links, dispostos de forma aleatória e que transportam o leitor para alguns dos assuntos falados durante a visita. A forma como estão apresentados não é apenas uma maneira nostálgica de recordar o suspense mágico que pertencia a estruturas do início da internet, mas oculta também a esperança de suscitar a curiosidade dos leitores um pouco mais do que as clássicas notas de rodapé.

 

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Fernão Cruz (1995) vive e trabalha em Lisboa. A sua prática artística tem resultado do encontro entre pintura e escultura, mostrando-a como uma representação quando nos passeamos por uma situação ou cena imaginada. O seu trabalho tem sido apresentado em galerias, instituições e feiras de arte internacionais. O trabalho de Fernão encontra-se representado nalgumas das mais relevantes colecções de arte portuguesas. O artista é representado pela Galeria Balcony

 

Alberta Romano é historiadora e curadora de arte contemporânea, nascida em 1991 em Pescara. Actualmente é curadora da Kunsthalle Lissabon. Desde 2017, tem trabalhado com a Fundação CRC em Cuneo, coordenando as aquisições para a sua colecção de arte contemporânea. Depois de se formar em História da Arte na La Sapienza em Roma e com um Mestrado em Culturas Visuais e Práticas Curatoriais da Academia de Belas Artes de Brera em Milão, frequentou o programa curatorial CAMPO16 na Fundação Sandretto Re Rebaudengo em Turim. Escreveu para publicações como Artforum, Flash Art, Contemporânea, Kabul Magazine e outras revistas.

 

Tradução do EN por Gonçalo Gama Pinto.

As imagens do atelier são cortesia do artista.

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