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Nuno Sousa Vieira: Linha Funda

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José Marmeleira

Na Fundação Carmona e Costa, Nuno Sousa Vieira perscruta as relações entre o céu e a terra, sublimando algumas das interrogações e tensões que têm guiado o seu trabalho. Concebendo a visão enquanto relação entre o ver e o interpretar e introduzindo o espectador enquanto sujeito que se vê e vê.

Entre o não visível e o visível.

Talvez se possa dizer que Linha Funda de Nuno Sousa Vieira, com curadoria de Sérgio Fazenda Rodrigues, é uma exposição que expande de um modo inédito os tópos conceptuais e estéticos de Nuno Sousa Vieira. Ou, dito de outro modo, torna visível e pensável a multitude de questões sobre as quais o artista tem vindo a refletir. A saber, o significado da visão na representação do mundo, a perceção do objeto artístico, os sentidos espoletados pela intervenção nos objetos e no espaço, a dialética entre o mundano e o abstrato. As tensões, correspondências, aproximações, paralelismos, paradoxos que suscitam estão no cerne da experiência que é proporcionada ao visitante na Fundação Carmona e Costa. Experiência que solicita, quando não exige, o conhecimento dos protocolos da arte e uma memória prévia do universo artístico em causa. A exposição começa com uma alteração que é um desvelar. O artista abriu o acervo da Fundação Carmona e Costa, ação delicada na sua precisão. O acervo esteve sempre ali, mas agora vemo-lo aberto. Podemos ver o que guarda, neste caso, 14 desenhos a grafite sobre papel, cujo títulos — Sol intenso, Dia estrelado e Estudo para um céu noturno — remetem para fenómenos astronómicos e, no entanto, assaz prosaicos. Emoldurados, os desenhos podem ser observados no acervo do qual Nuno Sousa Vieira se apropriou. Mas não é a única ação que o visitante pode executar.

Diz-nos Nuno Sousa Vieira: “Este conjunto de imagens aparece como se fosse um atlas. Podem ser consultadas, mas despoletam, também, um conjunto de situações que não são hierárquicas, que permitem não apenas estabelecer relações entre os desenhos, mas intervir sobre o espaço. Aumentá-lo, diminuí-lo, encerrá-lo”.

Este abrir e fechar o espaço com os desenhos não é um mero prólogo. É um momento que sublinha, desde logo, uma série de elementos que são constitutivos do fazer de Nuno Sousa Vieira. O gosto de transformar as coisas, de lhes alterar a disposição, de mudá-las de lugar, de, por meio de uma alteração precisa, lhes modificar o sentido, práticas que desenvolve com frequência no atelier, bem como entre o atelier e espaço de exposição. Sabendo nós de antemão, que muitas das suas peças escondem, insinuam ou mostram um qualquer tipo de parentesco com outras obras: com frequência, cada trabalho de Nuno Sousa Vieira fala de outro trabalho.

Volte-se então ao conjunto de 14 desenhos. São superfícies quadriculares, em forma de grelha, branco e negro (e outros a que se adiciona o laranja). A uma certa distância, julgamos serem reproduções de desenhos técnicos, mas um olhar mais aproximado faz uma revelação. É um desenho feito à mão, delicado e expansivo, de grandes e concentrados gestos. Um desenho que parece querer agarrar o que representa. Mas o que de facto representa? Do lado direito do acervo, por detrás de uma parede, um objeto assoma no espaço. Trata-se de uma caixa de madeira com 80 slides de vidro para lanterna mágica que documentam uma compilação do projeto científico realizada pelo observatório de Bona, na Alemanha, entre 1859 e 1903. A obra tem o título de Atlas Der Bonner Durchmusterung e pode ser considerado um catálogo de estrelas. Ao contrário dos desenhos do acervo, não pode ser aberto ou manipulado. É um objecto hermético, quase selado, mas que a percepção do visitante consegue abrir. Nuno Sousa Vieira é um artista que confia na sensibilidade do espectador, na sua capacidade de estabelecer associações. Permiti-lhe, mesmo, entrar, perscrutar o seu processo de trabalho.

“Há uma ressonância, um paralelismo entre os desenhos no acervo e os slides da caixa. Nestes, encontramos uma cartografia celeste, desenvolvida na segunda metade do século XIX, um mapeamento das estrelas do hemisfério norte, não visíveis a olho nu. Aqui temos uma coisa não visível que é tornada visível, tal como acontece com o acervo, que habitualmente, numa exposição, não é um lugar visível.”

A visão e ato de ver têm sido progressivamente questões que o artista explora, interroga. São sentidos e conceitos que permanecem “leitmotifs” no interior da sua indagação. Recorde-se por exemplo a série de desenhos Baixa as pálpebras e vê ou série fotográfica Ícones. Nesta exposição, o objeto do desejo e do ato é o céu, ora estrelado, ora noturno, ora iluminado pelo sol, sobre a terra. O céu, um espectro de refrações e reflexões, que podemos percorrer, mas que não sendo tangível, tem um fim, tem um limite. Pode ser cartografado.

Nuno Sousa vieira olha para cima, para o espaço celeste, contudo não a fim de o cartografar — essa é a função do cientista que tem vontade de conhecer, de corrigir as aparências do mundo — mas de nos tornar consciente do nosso lugar terreno, do modo como o percecionamos, concebemos, apreendemos; dos limites e possibilidade que compõem essa relação.

“A ideia do céu tem várias leituras, vários sentidos. Não raras vezes, esperamos que dele venha alguma coisas de positivo. Afinal, os nossos antepassados guiavam-se pelas estrelas e ainda hoje olhamos para o céu como algo que nos possa guiar”.

Aos desenhos das grelhas e dos slides, alguns dos quais partidos, contrapõe-se o desenho mais figurativo. Na sua superfície, estão desenhos de seis homens, um dos quais perscruta o céu à espera de alguma coisa ou de alguém. É um desenho largo em termos de dimensões, colocado isoladamente, como se nos aguardasse. E tem o título de A falling man“É um contraponto, uma imagem que remete para os estudos composicionais da pintura do século XIX, que retirei de um livro de astronomia [que aparecerá fisicamente na exposição]. Há um aparato que enuncia qualquer coisa que vem do céu. Eles estão neste lugar que é a terra, mas à espera de um acontecimento que está fora de campo”.

Não vemos o Ícaro que aqueles homens aguardam. Alguma vez aparecerá na Linha Funda? Uma resposta pode estar mais à frente. Formando um longo corredor, uma série de desenhos atravessa a outra metade da exposição. Branco, negro e laranja sucedem-se em desenhos astronómico(s) de estrelas e céus. Imprimem um ritmo e uma temperatura, mas não podem ser vistos na sua totalidade. De novo, coloca-se de novo a questão do ver, da sua possibilidade e impossibilidade, no espaço e no interior dos desenhos. Foram realizados com movimentos largos, mas deixam entrever outro tipo de gestos, rigorosos, contidos, delicados. Para reparamos nas linhas e na força do desenho sobre o papel, delimitado rigorosamente, temos que ver mais do que olhar. E nesse momento, saímos da representação do céu e das estrelas, para a representação do desenho como coisa visível. Mas volte-se ao homem que cai, que está fora de campo. Por momentos, Sousa Vieira fá-lo aparecer nos seus desenhos estrelares.

“Quando percorremos as salas, encontramos, ao fundo de dois corredores, dois espelhos negros. São desenhos negros [Noite Profunda #4 e Noite Profunda 3#] que possuem pouca informação, mas que permitem ao espectador descobrir o seu reflexo. O reflexo é parte integrante deste processo. O facto de estar emoldurado com vidro, faz com que o espectador saia ou entre dentro do plano da imagem. O desenho negro é aqui um lugar de maior profundidade, que reflete a nossa imagem e espelha o percurso especulativo do nosso corpo em relação aos desenhos”.

As estrelas são pontos de luz — é assim que nos aparece nos céus noturnos — mas na maior parte dos desenhos de Nuno Sousa Vieira aparecem enquanto pontos negros. O artista alude ao processo abstrato de representação pelo desenho. “É mais eficaz, mais prático. É o próprio desenho enquanto estrutura de pensamento e explicação simples de uma coisa. Todos estes desenhos movem-se numa dialética entre aquilo que são e aquilo que representam”.

A presença da cor laranja introduz uma interpelação aos sentidos e, de novo, à capacidade de associação de quem vê. Sugere a presença de uma luz e de uma temperatura, uma ressonância climática, atmosférica. Uma tensão ou relação reaparece entre a representação das estrelas, na geometrização da cartografia e a pura presença das estrelas, como representada por Nuno Sousa Viera, na cor e na temperatura, mas, acima de tudo, no desenho.

“Agrada-me a ideia de haver uma organização subjacente às coisas, seja ela ditada pela realidade ou pelo próprio fazer. Mas a grelha não existe no céu. É um conjunto de linhas que colocamos entre nós e o próprio céu para o podermos organizar. A ideia do ver trespassa todo o meu processo criativo. Até o meu processo escultórico. Interesse-me muito o que vemos e de que modo é que vemos. A visão é um ato completamente hierarquizado. Elegemos coisas para ver. Ora, esta grelha, obriga-nos a ver de uma certa maneira”.

Pese embora este desejo de organização, quase de ordem, o trabalho de Nuno Sousa Vieira permite-se a uma série de fugas, como é possível constatar nas esculturas e objetos expostos. “Raramente os meus objetos são ortogonais em relação ao espaço. Estão, por vezes, numa relação de desconforto com o lugar, não lhe pertencem. O lugar expositivo não é um lugar confortável, é um lugar de confronto, é um lugar social e aí a ideia de personificação interessa-me bastante. Gosto de explorar diferentes modos de tensão, sensações de conforto e desconforto.“

No chão, um suporte escultórico de madeira sustenta e apresenta uma série de objetos e réplicas de objetos, provenientes do processo de trabalho, do atelier e da vida de Nuno Sousa Vieira: um pantógrafo — aparelho utilizado para transferir e redimensionar figuras —, dois slides de vidro, uma régua, uma bata de trabalho intervencionada pelo artista — uma sola de borracha, o livro de astronomia. “Por vezes, sinto a necessidade de introduzir alguns objetos que fazem parte do meu dia a dia. E, a propósito desse facto, é curioso que algumas das minhas esculturas tenham exatamente a minha altura. Isso tem que ver muito com a ideia de visão. Nós vemos à altura que estamos, por isso o que vemos é sempre diferente. A arte contemporânea foi nesse sentido muito importante. Já não é a visão ampla, humana, no sentido do que é comum.  Traz aquilo que é específico de cada sujeito, inclusive os problemas de visão que cada um pode ter. A visão é uma relação entre o ver e o interpretar”.

A presença de uma cadeia de agrimensor, usada para medir terras e de uma obra intitulada pintura de assento (produzida a partir do revestimento de uma cadeira de pele sintética do atelier do artista), sublinham a importância da ideia de visão, enquanto modo do artista contemplar e organizar o mundo, contudo, sempre sujeito a distorções, embaciamentos, perspetivas. Na última sala, esta questão intensifica-se com Visão Canhestra, uma réplica dos óculos do pai do artista, com a réplica de um estore, uma fisga construída pelo artista na sua infância e sublima-se com Spectrum, um candeeiro de teto do atelier que projeta na parede um simulacro de uma experiência.

“Permite-te ver o teu corpo na maior dimensão possível. Subindo ao alto de uma montanha, quando o sol se põe, podes ver a tua sombra projetada a uma escala gigantesca numa nuvem. O teu corpo passa a ser celeste e a ter uma dimensão cósmica. Aquilo que se vê, é sempre filtrado pelo lugar onde se está, lugar que é físico, antropológico, do sujeito. Essa imagem só aparece quando tu chegas a esse lugar. Gosto dessa dialética entre os lugares”.

 

Nuno Sousa Vieira

Fundação Carmona e Costa

 

José Marmeleira. Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (ISCTE), é bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações (Ípsilon, suplemento do jornal PúblicoContemporânea Ler).

 

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Spectrum - cópia

Nuno Sousa Vieira: Linha Funda. Vistas de algumas obras da exposição. Cortesia de Nuno Sousa Vieira e Fundação Carmona e Costa.

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