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Andreia Santana: The Skull of the Haunted Snail 

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Susana Ventura

Do fogo, nasce alma e corpo

 

A cada trabalho de Andreia Santana somos surpreendidos pelos limites que este tem proposto transpor, sendo-nos difícil qualquer designação ou ideia síntese, para além desse questionar constante sobre o próprio domínio da escultura e de se lhe reconhecerem alguns traços de estilo entre obras ou vestígios de um pensamento contínuo sobre a prática artística, a sua exposição, classificação e conservação (temas que atravessam a obra da artista e que encontram na presente exposição uma nova consideração). Sem dúvida que assistimos a um renascimento a cada nova obra, pulsante e solto (expressão, também, do gesto livre da artista, cristalizado nas linhas arabescas presentes em muitas das suas obras) e, simultaneamente, profundo e complexo, tais são as teias que as suas obras entretecem por entre mundos e tempos díspares e longínquos e o constante anseio da artista em desvelar as camadas que, muitas vezes, recobrem objectos tornados mudos e segregados pelas grandes linhas museográficas e historiográficas.

A exposição The Skull of the Haunted Snail, com curadoria de Bruno Leitão, abriu poucos dias depois de Andreia Santana ter inaugurado, na Travessa da Ermida, Mist,[1] uma instalação composta por duas esculturas em ferro submetido a um tratamento químico que cria manchas informes de cor, entre tons metálicos de dourado, cor-de-rosa, verde, lilás e outros indefinidos, que se vão alterando e fundindo uns nos outros, consoante a luz e a perspectiva, convidando-nos a circular em torno das peças e, sobretudo, a movimentá-las connosco, num jogo sincronizado entre corpo e obra, como num pas de deux, intensificado pela sensualidade e liberdade das linhas que compõem a imagem total de cada peça. Criadas a partir de um diálogo íntimo com a arquitectura do espaço, as esculturas acabam por transformar os limiares, onde se situam, em experiências cinéticas e caleidoscópicas: a cor, a luz, o movimento são forças livres que se interpenetram para nos revelar (num sentido duplo, pois a experiência da obra e a sua qualidade inefável, proveniente da indefinição dos limites que transborda, é, por si, mística) uma obra em constante mutação.

Por sua vez, no espaço da galeria do Hangar: Centro de Investigação Artística, onde se encontra a exposição The Skull of the Haunted Snail, as esculturas, em ferro e cristal ecológico, encontram-se dispostas, aparentemente, de forma livre no espaço, onde parecem aguardar pelos visitantes, enquanto conversam entre si. As linhas invisíveis, que criam entre elas (e que determinaram, afinal, o seu lugar), provêm tanto dos afectos, como das forças que estiveram na origem de cada uma e que permanecem sob outra (trans)figuração, que, como se constatará, será perpétua. É impossível não nos recordarmos de Figures, de Louise Bourgeois, um conjunto de esculturas expostas na Peridot Gallery, em Nova Iorque, nos anos 50, que a artista gostava de ter consigo e transportar para vários lugares (são, sobejamente, conhecidas as fotografias da artista com algumas das Figuras no terraço de sua casa), como se fossem membros da família que deixara em Paris após ter-se mudado para os Estados Unidos da América. Embora as esculturas de Andreia Santana não personifiquem qualquer abandono e saudade como em Bourgeois, nem sejam portáteis, pelo contrário a sua leveza aparente dissimula o elevado peso de cada uma, partilham, num primeiro plano, problemas comuns, desde a sua exposição num espaço livre (Bourgeois, por exemplo, referia não querer qualquer base ou plinto, porque iria isolar as suas Figuras e destruir o espaço social que estas habitavam, resultante do diagrama invisível que criavam entre elas) à relação que podemos depreender entre afecções e afectos. As esculturas de Santana assemelham-se, de certa forma, a figuras, em que a parte em ferro não pode ser entendida como um suporte, mas sim como um membro que prolonga, acentua ou, por vezes, equilibra, o objecto cristalino, num jogo dinâmico entre volume e linha, peso e leveza, em que a linha escura e sólida deseja soltar-se no mesmo movimento em que acolhe e entrelaça a transparência do corpo em vidro.    

Todas as esculturas contêm a designação de Soul House (Casa da Alma) seguida de um nome próprio. O nome próprio, como o filósofo francês Gilles Deleuze referiu, não pode ser entendido em termos de representação, mas como os efeitos de uma variação intensiva sobre um campo de potenciais (como sucede na física, onde existe um efeito Joule, um efeito Kelvin, etc.). Ao definir o que é uma obra de arte, Deleuze e Guattari descrevem algo semelhante, também, para explicar os afectos (sendo a obra de arte, para estes autores, um bloco de perceptos e afectos). Estes já não são sentimentos ou afecções, embora possam ser extraídos a estes (como resgatar um gesto ou uma singularidade de alguém sob a forma de uma linha ou de um bloco de pedra?). São seres[2] que valem por si próprios e excedem a experiência vivida, transcendem a própria subjectividade, compondo uma sensação, uma variação intensiva que passa a pertencer à obra (e nela permanecerá viva).

Nas Soul Houses de Santana, o nome próprio designa o que a artista extrai da sua relação íntima com pessoas que lhe são próximas como variação intensiva, a qual é, por sua vez, inseparável do processo de formação das peças, do seu tomar forma, da fundição, da liquidificação e da solidificação geradas e alimentadas pelo fogo e pelo sopro.

Em vez da utilização de um molde que daria à forma um aspecto consolidado, Santana preferiu moldar a matéria incandescente, abandonando-se às forças do próprio ser e à manipulação que este tem sobre os elementos da natureza, que, apenas um cuidado extremo e uma coreografia habilidosa, conseguem domar e controlar. Na forma final das obras, encontramos, antes, essas forças do escorrimento, do calor redondo e do ar insuflado, que preenche e une todas as ínfimas partículas da matéria, que é, também, a do ser. Talvez por isso estas peças sejam receptáculos de alma, a que é indissociável do corpo e se funde com a matéria e a natureza num círculo perpétuo de nascer e renascer, prolongado, nas esculturas, pela possibilidade que estas acolhem de se tornarem habitats de fungos, micróbios, bactérias ou outros organismos, tal como as pragas que invadem os museus, que a artista rastreia nas suas investigações.

À semelhança dos artefactos tornados invisíveis ou apagados pela História, existem outros tantos, em contextos museográficos, contaminados e consumidos por pragas que passam a ficar condenados ao esquecimento e à aniquilação. As Soul Houses de Santana propiciam, também, esse encontro e vida futuros, seguindo a ideia de sympoiesis desenvolvida, nos últimos anos, por Donna J. Haraway[3] e que esta descreve como “fazer-com”, para definir a coexistência, a partilha de ecossistemas e o desenvolvimento mútuo e simultâneo (“devir-com”) de espécies distintas, desde micróbios, plantas, animais, seres humanos e não humanos. Um “fazer-com” que se poderá pensar, igualmente, como um “habitar-com” em detrimento de um “habitar-em”, que marcou (e continua a marcar) a era antropocénica.

As esculturas de Santana não são, por isso, objectos estáticos e fechados (a sua forma já não o permitiria) ou unidades “auto produtoras” (recuperando a teoria de Haraway, quando esta opõe a sympoiesis à autopoiesis), mas sistemas complexos que propiciam o desenvolvimento de novas formas de vida comunitária, inclusivamente, de interespécies. Esta ideia de um futuro por-vir está implícito no próprio nome das esculturas. As Soul Houses eram pequenas esculturas em terracota de casas que continham oferendas (algumas eram recriações perfeitas e complexas em miniatura de casas, enquanto outras se assemelhavam a tabuleiros), que os egípcios colocavam nos túmulos dos seus familiares para providenciar alimento na vida futura, unindo, por conseguinte, espaços e tempos distintos: a casa-receptáculo da alma imortal transforma-se na casa de outras formas de vida, espécies que se alimentam da morte e da decomposição.

As esculturas de Santana problematizam, por último, essa relação entre corpo (qualquer corpo, qualquer estrutura ou modelo organizado capaz, no entanto, de acolher o imprevisível, o acaso e a surpresa) e alma (compreendida como força vital que liga toda e qualquer matéria viva) na sua transparência e (aparente) leveza, que a artista remete, ainda, para a metáfora de Ludwig Wittgenstein da garrafa de vidro utilizada para caçar moscas para explicar a tarefa da filosofia. A mosca iludida, teima em embater nas paredes transparentes da garrafa, não obstante os dois orifícios desta que possibilitam a sua fuga. A filosofia deve mostrar à mosca a saída da garrafa, dissolver ilusões e mal-entendidos (como a oposição entre corpo e alma), como deve, acima de tudo, colocar as questões que servem para apanhar a mosca na garrafa, ou melhor, apanhar o filósofo na armadilha (nas suas próprias armadilhas) para este alcançar uma nova compreensão dessas mesmas questões. As Soul Houses de Santana são, simultaneamente, abrigo e armadilha, para que continuemos sempre a ir além do objecto e em direcção à metamorfose.

 

Andreia Santana

Hangar

 

Susana Ventura (Coimbra, 1978) Arquitecta de formação (darq-FCTUC, 2003), contudo prefere dedicar-se à curadoria, à escrita e à investigação, cruzando diferentes áreas do conhecimento. Gosta de pensar sobre arte, arquitectura, fotografia, cinema e dança, e ensaiar, ora em textos, ora em exposições, outras possibilidades de pensamento. (Por isso, também, doutorou-se em Filosofia, na especialidade de Estética, FCSH-UNL, 2013, sob orientação científica de José Gil). Foi co-curadora de Utopia/Distopia, no Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia de Lisboa (MAAT). Recentemente, foi curadora da exposição Corpo Radial de Mariana Caló & Francisco Queimadela na Galeria da Boavista em Lisboa.

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 


 

Notas:

 

[1] Mist, exposição de Andreia Santana com curadoria de Alberta Romano, esteve patente na Travessa da Ermida de 12 de Setembro a 17 de Outubro de 2020.

[2] Gilles Deleuze et Félix Guattari, Qu’est-ce que la philosophie? Paris: Les Éditions de Minuit, 1991, pp. 154-155.

[3] Donna J. Haraway, Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene. Durham, London: Duke University Press, 2016.

 

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Andreia Santana, The Skull of the Haunted Snail. Vistas gerais da exposição no Hangar: Centro de Investigação Artística, Lisboa. Cortesia da artista e Hangar. 


 

Notas:

 

[1] Mist, exposição de Andreia Santana com curadoria de Alberta Romano, esteve patente na Travessa da Ermida de 12 de Setembro a 17 de Outubro de 2020.

[2] Gilles Deleuze et Félix Guattari, Qu’est-ce que la philosophie? Paris: Les Éditions de Minuit, 1991, pp. 154-155.

[3] Donna J. Haraway, Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene. Durham, London: Duke University Press, 2016.

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