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Diana Policarpo: Solar Watch

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Miguel Mesquita

 

Diana Policarpo pertence a uma categoria de artista que, associada a uma investigação técnica e conceptual sobre os meios de produção e reprodução artística, adopta no espaço criativo um pensamento crítico, complexo e inter-relacional que considera a condição do antropoceno — no caso de Policarpo, analisando as causas e consequências de transformações antropogénicas na concomitância com as inevitabilidades do desenvolvimento civilizacional. Esta abordagem implica uma hábil gestão, muita vezes difícil e de grande fragilidade, entre investigação e processos de comunicação dos resultados formais desta postura. Neste sentido, ainda que as obras possam existir autonomamente, dentro de um sistema de valores e interpretações próprio, a concepção do formato expositivo e os modelos adoptados para a coerência da sua narrativa torna-se um factor fundamental para a formalização e assimilação da teia de relações das diversas investigações artísticas que se podem manifestar na suas obras.

Resultante de uma reformulação da exposição Overlay, presente durante o Verão na Galeria Lehmann + Silva, a exposição apresentada no Centro de Artes Visuais (CAV), em Coimbra, com a curadoria de Ana Anacleto é paradigmática desta abordagem. Em caso de dúvida, uma pesquisa rápida convirá para perceber o termo inglês utilizado como título e deduzir a alusão à noção de camadas e, por extensão, à acção de cobrir com camadas. Desde logo remete a uma metodologia de investigação e produção artística que reconhece a sobreposição de acontecimentos no percurso histórico e evolutivo, ao mesmo tempo que determina uma lógica de exposição. Os objectos apresentados acumulam sucessivas camadas de pensamento que são, por sua vez, influenciadas pela sobreposição das características estéticas, formais e também conceptuais, dos outros elementos. Esta condição depreende-se através de dois excertos de Ana Anacleto que, por se repetirem quase ipsis verbis no texto de ambas as exposições, identificam uma estratégia de actuação:

“... somos convidados a entrar num mundo onde matéria visual e matéria sonora se cruzam, onde um conjunto de sistemas se interligam e onde, diríamos, as condições perceptivas definidas pela artista condicionam mas estimulam, simultaneamente, todo e qualquer processo de produção de sentido.”

“ As várias camadas que cobrem os objectos presentes na exposição — assentes numa relação dialógica entre história, ciência, mitologia, ecologia e contaminação — resultam da sua investigação e de uma posição crítica engajada que assume o trabalho artístico enquanto plataforma exploratória e elemento determinante nos processos de produção de conhecimento.”

Com o título Overlay assume-se, literalmente, uma condição de sobreposição de leituras, formatos e investigações, antevendo como consequência uma transformação das percepções mas também das construções formais das obras apresentadas.

O título da exposição patente no CAV, por sua vez, não traduz qualquer género de clareza sobre esta formulação. Sem se apresentar uma tradução nem qualquer indício que descodifique a expressão, Solar Watch, o título desta nova exposição, parece ser intencionalmente enigmático. Composto por dois termos amplamente identificáveis, a sua junção não é eficaz a enunciar uma imagem clara da premissa da exposição. Estabelece-se assim quase como elemento complementar que se afasta da referência à metodologia e organização da exposição anterior — uma lógica mais de encontro às necessidades e requisitos de uma exposição em galeria comercial — passando a assumir a importância de uma narrativa expositiva como procedimento unificador dos objectos apresentados e dos temas inerentes à investigação.

Na qualidade de substantivo “watchsignifica relógio, sendo que um “solar watch” é um relógio alimentado a células solares. Admite-se portanto pressupor uma relação entre tempo e energia, ou antes da recolha de energia em função de uma relação entre tempo e exposição. Esta dedução é alimentada pelo título da primeira obra com que nos deparamos, The Ultimate Capital is the Sun. No processo de reformulação, a transformação desta obra tornou-se nitidamente um componente fundamental para estabelecer uma congruência da exposição. Sendo uma composição sonora resultante de sonificações de matéria solar recolhida por cientistas e obtidas através de arquivos sonoros on-line da NASA, a obra é apresentada no CAV, não como a instalação sonora que havia sido proposta em Overlay, mas através de uns auscultadores Bluetooth aos quais temos acesso logo à entrada da exposição. A portabilidade do dispositivo permite que a obra acompanhe o espectador ao longo da exposição, conferindo-lhe uma qualidade atmosférica que contribui para a construção da experiência do visitante.

Na sequência da recomposição dos elementos da exposição outro factor que assume particular significado para a orientação de uma narrativa expositiva é a autonomização de The Living Currency [A Moeda Viva], um conto de ficção científica escrito por Diana Policarpo em colaboração com Lorena Muñoz-Alonso que se inspira e resgata o título ao ensaio de Pierre Klossowski, La Monnaie Vivante (1970). O conto, que ocupa quase integralmente a parede da antecâmara do espaço expositivo, transporta-nos para um cenário distópico, simultaneamente dramatizado e plausível, num futuro relativamente próximo no qual a população mundial reduziu drasticamente devido às alterações climáticas e doenças como a proliferação de cancros com origens ambientais ou do SARS-CoV-2. Neste cenário quase todas as espécies animais foram extintas e o declínio do sistema económico, resultante da escassez de matérias primas minerais, forçou as civilizações humanas a retomarem sistemas económicos baseado na troca de bens, levando à exploração e tráfico de algumas espécies animais ainda existentes, como os pangolins ou os búzios do mar, pelo seu elevado valor. Oona, a personagem principal, resgatou alguns pangolins e criou um abrigo na sua fazenda no Arizona, onde tenta recriar sinteticamente as suas escamas para as inserir clandestinamente no mercado diminuindo o seu valor e, assim, procurando terminar com a necessidade de traficar estes animais. Nesta era em que os recursos são escassos, a fazenda de Oona é alimentada a energia solar incentivando-a a observar obsessivamente fenómenos atmosféricos e a desenvolver projectos para a previsão destes fenómenos através da detecção de emissões electromagnéticas utilizando o seu corpo para as absorver, citando o conto, “com a convicção de uma adoradora do sol”.

O conto impõe assim, uma linha narrativa que desencadeia um imaginário que conduz o espectador. Acompanhando a leitura com The Ultimate Capital is the Sun, a sonoridade acentua a sensibilidade sci-fi, distanciando o terror da plausibilidade do cenário que nos é apresentado. Esta sensibilidade assenta durante o resto da exposição e é intensificada quando entramos na sala seguinte. Lâmpadas fluorescentes amarelas tingem as paredes de seis metros e a abóbada em canhão, criando de tal forma uma vibração de temperatura no espaço que se torna quase impossível escapar à evocação do sentimento de Oona a absorver as radiações solares com o corpo.

Um conjunto de esculturas de ferro ocupam as paredes da sala, numa composição aparentemente aleatória. Através do texto da exposição percebemos que são formas estilizadas de “artefactos utilizados em cerimónias potlatch ou como moeda de troca por comunidades indígenas dos territórios americanos do norte”. A ambivalência destas obras entre escultura e desenho tridimensional fundamenta, neste sentido, uma necessidade de manter a condição de objecto de troca ao mesmo tempo que estabelece uma espécie de grafia que se aproxime do símbolo, constituindo assim um vocabulário de formas que reflicta a volatilidade dos sistemas de valorização e desvalorização como resultado da desvirtuação dos bens no decorrer dos processos históricos. Conservando a objectualidade destas representações somos, mais uma vez, remetidos para o conto da entrada, num momento em que Oona abre uma gaveta e encontra, junto com escamas de pangolim um conjunto de objectos para troca. Esta alusão torna-se ainda mais evidente com Shell Coin [Moeda concha], um políptico de 8 serigrafias sobre papel que enquadram imagens de segmentos de búzios, atribuindo-lhes aparências alienígenas ou antropomórficas, quase que parecendo radiografias, exacerbando o seu exotismo e, assim, o seu valor.

Gift XIII (Coin) [Oferta XIII (Moeda)], uma escultura circular em ferro lacado constituída por duas semicircunferências ligeiramente afastadas e com uma trama horizontal, ocupa o espaço central da sala, evidenciando novamente a alusão ao sistema económico e da valorização de bens. Ao fundo da sala, alinhada com o espaço entre as semicircunferências, uma escultura de parede sugere um sol nascente. A sobreposição destas duas peças cria uma imagem que sugere a simbologia das antigas civilizações sul-americanas como os Incas. Evoca-se, desta forma os rituais de adoração ao sol e esse mesmo misticismo é transposto em torno do ritual da troca. A escultura ao fundo da sala encerra o ciclo da narrativa expositiva. Gift XII (Sun Watch) [Oferta XII (Relógio de Sol)] contrapõe ao armazenamento energético de um “solar watch” a economia de energia contabilizada por um relógio de sol.

 

Diana Policarpo

CAV: Centro de Artes Visuais

 

Miguel Mesquita é licenciado e Mestre em Arquitectura pelo Departamento de Arquitectura da FCT da Universidade de Coimbra e Mestre em Estudos Curatoriais pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra. Em 2013 integrou o Centro de Estudos Sociais como Jovem Investigador em projectos interdisciplinares com foco nas áreas de arquitectura, sociologia e arte. Entre 2014 e 2015 estagiou no Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves. Foi Director Artístico da galeria BAGINSKI, entre 2015 e 2018. 

 

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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Diana Policarpo: Solar Watch. Vistas gerais da exposição no CAV: Centro de Artes Visuais, Coimbra, 2020. Cortesia da artista e CAV. 

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