19 / 27

Joana Fervença: yes, unless

5.jpg
Filipa Correia de Sousa

 

Fui debruçar-me sobre todos os segredos do universo

E regressei à minha solidão, invejando os cegos que encontrava.

Omar Khayyam[1]

 

“Atlas do impossível”, chamou Foucault, deslumbrado, à menção que Jorge Luis Borges fizera, num dos seus muitos ensaios, de uma enciclopédia chinesa intitulada Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos, a qual determinava que as classes dos animais eram divididas de um modo que, para o filósofo francês, abalava genuína e prazenteiramente a familiaridade com as categorias tradicionais concebidas pelo pensamento moderno. Esse escrito apócrifo dividia e enumerava então as classes dos animais em vários grupos, dos quais faziam parte essoutros “pertencentes ao imperador”, aqueles que eram “sereias”, os “fabulosos”, os “que se agitam como loucos”, aqueles “desenhados com um pincel finíssimo de pelo de camelo”, os “que acabam de partir o jarrão”, e ainda os “que ao longe parecem moscas”. Mas aquilo que chamou a atenção de Foucault no texto de Borges, e que vem mesmo, segundo o filósofo, a originar e depois a prefaciar uma das suas mais célebres obras[2], é a ideia de que a franca fascinação com esta arbitrariedade ou, no limite, incoerência, na classificação dos seres, se deve à aparente limitação e impossibilidade de pensarmos assim o próprio solo de afinidades das coisas no universo. Não apenas pela bizarra hipótese de se poder classificar num mesmo plano os seres reais e os seres imaginados, mas sobretudo pela tão próxima vizinhança estabelecida entre esses e aqueles “que se agitam”, que partem jarrões, os que estão tão distantes que “parecem moscas” e aqueles que são desenhados com um muito fino pincel. Ora, fazendo o exercício de subtrair o solo sobre o qual esses seres convivem, o espaço que aí se abre passa então a ser, na sua indeterminação e imprevisibilidade, livre de normas e de regras preceituadas. E, como observou Foucault, é justamente nesse domínio que “desde o fundo dos tempos, a linguagem se entrecruza com o espaço”. Uma superfície translúcida, primitiva e original, limpa de uma moderna cristalização das categorias e classificações, das semelhanças e diferenças ordenadas pelo pensamento. Nas palavras de Borges, esta estranha enciclopédia apócrifa torna, portanto, muito claro que “não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjectural”, ainda que tentemos rigorosa e insistentemente fazê-lo, pela tão simples razão de que “não sabemos o que é o universo”[3].

No entanto, como bem viu Borges, o facto de reconhecer que não se possui a chave para todos os segredos do universo, ou mesmo de questionar se o universo se cumpre como o domínio de união e mobilidade que o próprio termo evoca, nunca impediu os homens de imaginar, de sonhar, de desejar e de procurar representar, ao longo dos tempos, as ligações entre eles e esse estranho reino que os acolhe. Tanto assim é que, por isso, ainda se vislumbram jogos e figuras animalescas nas estrelas, mundos distantes nas nuvens, monstros escondidos no cume das montanhas, presságios no voo lento dos pássaros, mensagens na luz ténue dos pirilampos, seres fantásticos e seres temíveis que assolam os mares e bafejam ventos de tempestade, sombras e espectros evocados por danças e encantamentos xamânicos, crepúsculos que trazem consigo destinos por traçar, deuses e labirintos infinitos que aguardam a chegada dos homens, em momentos de cegueira. É curioso pensar que foi a névoa da sua progressiva cegueira, “esse lento crepúsculo”, que marcou o momento em que Borges, nas suas palavras, começou a ver.[4] A chegada desse crepúsculo vagaroso e crescente, clarividente, que o autor partilhou com nomes como Homero, Milton ou Joyce. Uma noite que traz consigo a mestria da memória, criadora de novos mundos e de novas paisagens. Uma memória clara, precisa e detalhada que traz para o papel as vontades, os delírios, os medos e os sonhos que movem os homens, demarcando esse espaço original, translúcido, que abre o horizonte do impossível.

E é a partir desta nossa proposta de pensarmos essa tão rigorosa memória, mediante uma cegueira que é aqui análoga à vigília, à insónia, ao tácito desejo de nitidez, ao atento escrutínio dos detalhes de um universo desconhecido, mistério tornado tangível, no devir de uma noite que vai sendo criada, porquanto é desenhada, que chegamos ao encontro do trabalho de Joana Fervença.

Yes, unless, exposição de Joana Fervença — a segunda exposição do projecto curatorial quéréla[5], de Ana Cristina Cachola —, cumpre-se em dois momentos distintos que se contaminam. A sala é escura, pontuada por dois focos de luz e por ecos ritmados de um pulsar que ressoa perto do lugar que o espectador ocupa na antecâmara. Num grande ecrã branco, suspenso, está projectada a imagem de um desenho. E porque as obras de Joana Fervença, pela sua minúcia, pedem proximidade ao espectador, apercebemo-nos que a imagem do desenho é animada, e que determinadas formas desenhadas ondulam, vibram, agitam-se, compassadas pelo som de Holly Herndon. Uma imagem que convoca os movimentos próprios da respiração, afirma a curadora, no texto que acompanha a exposição.

De seguida, numa parede mais distante, encontramos um desenho tenuemente iluminado. É necessário chegarmos perto, a fim de perscrutar os vários mundos que nele se manifestam. E, tal como o anterior, este desenho é também traço negro sobre o branco incólume, trabalhado da claridade para a escuridão, da alvura do papel liso para um denso e entrelaçado negrume onde formas metamorfoseadas são postas a descoberto por ondulantes fios de luz. Elas aí coabitam, fulgentes, na densidade da escuridão. Formas e figuras sinuosas, detalhadas, reconhecidas pelo seu brilho nas diferentes extensões, horizontes e profundidades que são convocados ao olhar. Tal como no cair da noite, momento de prenunciada cegueira, se reconhece, por fim, o espaço que as estrelas ocupam, distantes, na abobada celeste. Um cair da noite que carrega em si toda a eternidade, uma escuridão imensa e misteriosa que os homens vêm a construir e a admirar desde o início dos tempos, como nos diz Borges num poema[6].

A noite que é lugar de segredos, de lembranças, reino de ecos e de incomensuráveis silêncios, de histórias contadas, de confidências e de coisas que ficaram por contar, de certezas e de incertezas, de monstros e assombrações antigas, de reflexos informes nos espelhos de água sob o luar, de rostos iluminados pela magia de uma chama que arde, de gestos contidos, de gestos culpados e de corpos adormecidos, de profecias, de oráculos e de vigílias. O trabalho de Joana Fervença abre esse tal empório do impossível, do inesperado, que se cumpre, verossímil, na tangibilidade do papel, conduzindo-nos por caminhos de paisagens desconcertantes, caleidoscópicas, labirínticas, por entre reflexos do imaginado, do estranho e do desconhecido, vislumbrados na chegada de um anoitecer que vai sendo, rigorosa e demoradamente, construído. O desenho, que cria mundos através do pó, traz consigo essa memória primeira do devir da noite. Cerimónia mística, ancestral, na qual a luz é pedida e finalmente encontrada, na chegada do ocaso.

 

Joana Fervença

O Armário

 

Filipa Correia de Sousa (Lisboa, 1992) é curadora independente, ensaísta e co-directora do espaço UPPERCUT, em Lisboa. Mestre em Filosofia - Estética pela FCSH - Universidade Nova de Lisboa, pós-graduada em Filosofia Geral pela FCSH - Universidade Nova de Lisboa e licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia

 

Desenho 2 300dpi
4
1
2
Desenho 1 300dpi

Joana Fervença, yes, unless. Vistas da exposição no espaço O Armário. Cortesia da artista e O Armário.


Notas:

 

[1] Omar Khayyam, Rubaiyat – Odes ao Vinho, trad. de Fernando Castro, pref. de E. M. de Melo e Castro, Lisboa: Editorial Estampa, 3ª edição, 1999, p. 43.

[2] Michel Foucault, Les Mots et Les Choses (1966), tradução portuguesa: As Palavras e as Coisas, trad. de António Ramos Rosa, textos introdutórios de Eduardo Lourenço e de Vergílio Ferreira, Lisboa: Edições 70, 2014

[3] Jorge Luis Borges, Outras Inquirições, trad. de José Colaço Barreiros, in Obras Completas 1952-1972, vol. II, Lisboa: Editorial Teorema, 1998, p. 83.

[4] Veja-se o lúcido ensaio “A cegueira”, no qual Borges faz referência à sua cegueira pessoal, originado a partir de uma conferência dada pelo autor no Coliseo de Buenos Aires, em 1977, in Jorge Luis Borges, Sete Noites, trad. de José Colaço Barreiros, in Obras Completas 1975-1985, vol. III, Lisboa: Editorial Teorema, 3ª edição, 2010, pp. 288-299.

[5] O projecto quéréla, com programação e curadoria de Ana Cristina Cachola, tem lugar numa sala adjacente ao projecto O Armário, em Lisboa, sendo que este último conta com a direcção e organização de Benedita Pestana.

[6] Jorge Luis Borges, História da Noite, trad. de Fernando Pinto do Amaral, in Obras Completas 1975-1985, vol. III, Lisboa: Editorial Teorema, 3ª edição, 2010, p. 205.

 

Voltar ao topo