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Yuli Yamagata: Bruxa

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Cristina Sanchez-Kozyreva

 

Uma Inesquecível Reunião de Bruxas

Na noite de 31 de Outubro celebra-se o Halloween, a véspera da festa cristã de todos os santos, o “Dia de Todos os Santos”. Mas é também o dia de aniversário da artista baseada em São Paulo Yuli Yamagata. Para a sua primeira exposição na Madragoa em Lisboa, intitulada BRUXA (patente até 31 de Outubro), Yamagata encheu a galeria de personagens dramáticas e adereços de bruxas, como se fosse uma explosão de guloseimas. A ideia de bruxaria é muitas vezes abordada como se se tratasse de crenças infantis ou ideologia cultural. Nesta última acepção, pode ser uma forma de descrever as adversidades da vida ao atribuí-las a pessoas ou seres ocultos que não são bem-vindos para uma determinada comunidade (especialmente no caso de bruxas, as mulheres eram historicamente o alvo). Por outro lado, os contos de fadas oferecem respostas claras e plausíveis para as angústias das crianças, informando-as sobre os esforços que devem fazer e sobre os desafios que a vida lhes colocará pela frente. São também de certo modo catárticos porque oferecem um escape para a libertação emocional. No final de contas, por mais assustadora que seja a feiticeira, ela é habitualmente contida ou transformada no final da fábula.

Apesar de amontoados no pequeno espaço da galeria, os trabalhos de Yamagata — praticamente uma dúzia — oferecem certamente a noção de libertação. São feitos de tecido, licra, cerâmica, acrílico e outros artigos caseiros e materiais de produção barata. Vibrantes, eles atingem o espectador com blocos de cores variadas, mas também padrões em vermelho, amarelo, verde, castanho e cor-de-rosa, que se tornam mais intensos contra o fundo branco das paredes da galeria. Yamagata trabalha muito com têxteis, cosendo restos de tecidos coloridos para criar uma linguagem visual vívida, repleta de monstros, bruxas e olhos a saírem das órbitas sobre estruturas semelhantes a telas ou enquanto esculturas autónomas.

As suas referências e sugestões visuais vêm do seu meio envolvente, de São Paulo, a cidade onde vive, da BD, da publicidade e de qualquer outro elemento da sua vida quotidiana, experienciado pessoalmente, através dos media ou online.

Dois grandes plintos monocromáticos cobertos por azulejos, um amarelo vivo e outro vermelho brilhante, estão no meio do espaço. Sobre o amarelo, Sopa (todos os trabalhos de 2020), encontra-se uma escultura com vários materiais (cerâmica, silicone, poliéster, veludo…) que consiste num prato cheio de um molho castanho e ossos sobre os quais está uma maçaroca de milho. Ligado à maçaroca, e a crescer sinuosamente em direcção ao tecto, está um fio aveludado, supostamente representando o fumo da maçaroca e que me faz lembrar um cordão umbilical ou o caule do Pé de Feijão mágico do João, aquele que cresce vigorosamente em direcção ao céu no conto de fadas inglês. E, tal como no conto de fadas, o trabalho evoca uma inquietação juvenil misturada com mistério e a promessa de perigo. Tal como o Pé de Feijão do João, esta exposição oferece uma passagem entre a realidade (talvez uma realidade ameaçadora) e um domínio mágico onde, se formos corajosos, as possibilidades abundam. Sobre o plinto vermelho está aquilo que parece ser uma cobra gorda e castanha feita de tecido, confortavelmente enrolada. Podia ser confundida ao longe por uma escultura a representar um emoji de cocó. Em cima da cobra encaracolada está um olho. Será isto uma criatura metade cobra, metade globo ocular? Terá a bruxa deixado ali aquele olho? (Será dela ou servirá para a sopa de milho?) Macabro? Certamente, mas também grotesco, livre e divertido.

Ali perto, outra construção semelhante a uma cobra encontra-se pendurada na parede, Caipira I, mas em vez de pele de cobra nos padrões do tecido vemos desenhos de botas decoradas com motivos folk sobre um fundo castanho. Podia ser o padrão do quarto de um rapazinho que sonha com a vida na quinta. Tirando o facto de que, em vez de um olhos como na cobra do plinto vermelho, esta tem ao centro uma protuberância em tecido verde que parece um pénis. Faz sentido: cobra e falo. Mais trabalhos pendurados nas paredes. Alguns são óleos sobre telas, outros feitos de materiais mistos: tinta sobre licra esticada com pedaços de porcelana, fibra de silicone, veludo e fios.

Bruxas e gatos estão frequentemente ligados no imaginário de Halloween, e a exposição parte desta relação para incluir vários felinos irados. Overthinking cat, um gato cartunesco, feito de veludo e pedaços recortados de licra colorida, está empoleirado no cimo de uma parede a um canto. Talvez esteja a pensar saltar sobre alguém que passe em baixo? Um gato que grita em Gato berrando olha para o espectador a partir da sua tela. É composto por vários bocados de licra e veludo. A boca está escancarada, exibindo uma úvula que não deixa dúvida sobre a intensidade do silvo do gato. Os dentes são verdes e estão prontos a atacar. Não é o único. Gato, uma grande tela com um gato preto sobre um fundo vermelho, impõe-se pela vivacidade dos tecidos esticados sobre a tela, bem como pela sua postura inequivocamente ameaçadora: dentes arreganhados, um olhar louco e o corpo arqueado.

Várias pinturas têm títulos evocativos que suscitam no espectador um sentido de olfacto, como por exemplo Pé com veias, uma pequena pintura a óleo em que um pé e veias cor-de-rosa competem contra um fundo colorido vermelho e amarelo, com alguns desenhos que parecem grafittis ou saídos de BD. Outro trabalho que descreve uma experiência olfactiva é Mão cortando cebola, um óleo sobre tela em que mãos amarelas saídas de um cartoon cortam cebolas. E outra ainda da série olfactiva é Stinky Feet, um óleo sobre tela que poderia também ser descrito como o desenho de um pé com um sapato de salto alto calçado e a pisar fogo de artifício.

Os trabalhos são divertidos e tácteis, como brinquedos. A abundância de tecidos suaves e esticados atenuam os ataques agressivos de algumas das imagens. A estética infantil também tem esse efeito. Mas todos questionam o gosto ou talvez o ignorem por completo. Seja como for, são confrontativos. Visualmente, a exposição mistura um léxico de referências ao Halloween, à cultura pop e subculturas de animação, com uma energia esfuziante que aparece como uma distracção ou celebração bem-vinda. Na sua maioria, os tons alegres e exuberantes libertam uma agradável energia jovial. Mas os trabalhos também evocam violência e medo. Distantes da realidade, tal como a psicanálise se desenrola por vezes a partir dos nossos sonhos, da narração e do imaginário mitológico para explicar os nossos comportamentos, estes trabalhos são testemunhas de um processo associativo de pensamentos. Yamagata cria, assim, um vocabulário pessoal como se moldasse barro, partindo de um fluxo inconsciente de imagens. A sua linguagem pessoal podia criar o seu próprio subgénero de terror amigável, que incluiria estratégias de choque cómicas e algumas justaposições surrealistas irracionais.

 

Yuli Yamagata

Galeria Madragoa

 

Cristina Sanchez-Kozyreva é uma autora com experiência em relações internacionais e estratégia. Viveu na Ásia durante 15 anos. Actualmente trabalha e vive entre Lisboa e Hong Kong. É co-fundadora e editora-chefe da revista de arte Pipeline, com sede em Hong Kong (impressão 2011-2016). Contribui, regularmente, para várias publicações na Ásia, Europa e EUA, como Artforum, Frieze e Hyperallergic.

 

Traduzido do inglês por Gonçalo Gama Pinto.

 

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Yuli Yamagata, Bruxa. Vistas gerais da exposição na Galeria Madragoa. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia da artista e Galeria Madragoa. 

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