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Adriana Proganó: Somos todos patos a querer ser cavalos

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David Silva Revés

 

Seremos de facto patos que querem ser cavalos? Por um lado, colocar a pergunta, ou fazer a afirmação, implicaria, desde logo, pressupor uma qualificação dissimétrica entre estes dois seres. Com prejuízo para o pato, este ocuparia uma posição inferior na hierarquia humana das ontologias animais. Contudo, há que não esquecer — e é esse o outro lado — que qualquer decalque classificatório ou valorativo dirá muito mais sobre aquele que classifica do que sobre aquilo que é classificado. Com prejuízo para nós, uma dada projecção imagética quanto ao estatuto e alcance intrínsecos de qualquer pato ou de qualquer cavalo, numa relação connosco próprios, dirá mais sobre a sobranceria simbólica e estatutária humanas, suas superficialidades, inseguranças e baixas paixões, do que sobre a actual vida desses animais e das suas potencialidades no mundo.

A exposição de Adriana Proganó na Casa da Cerca, com curadoria de Filipa Oliveira, inserir-se-á com especial determinação nesse segundo lado, e, com um outro tipo de sobranceria (mais benigna, mais implicada, mais vidente), a artista gargalha sobre todos esses patos que, querendo ser cavalos, pensam que sê-lo é ficar do lado confortável dos privilegiados, ou aceder, de alguma forma, à figura de um melhor porte, à pretensiosa nobreza de uma posição que autojustifique a validade de um discurso. Sem agressividade, mas com a sua já característica acutilância satírica, todos os trabalhos que a Adriana apresenta partilham, naquilo que é dito e que é mostrado, de uma remissão crítica para o que que fica de fora: uma espécie de fora de campo, composto de forças, permissões e sentidos, que não só condiciona as imagens postas no mundo como modela geometrias nos lugares onde se produzem. Falo das convenções e dos espartilhos sociais, das formas ideais de sociabilidade e de determinações instituídas, do que se impõe como padrão normativo e das trajectórias invisíveis da sua perpetuação. E falo igualmente do que daí escorre para a arte e para as vivências do sistema artístico, para aquilo que acede a um plano de visibilidade e para a forma como tal acontece. Das possíveis reificações e territorializações do expectável nos objectos, nas imagens e nos corpos.

A Adriana desobedece a todas as pressões que esses movimentos possam impor, ridicularizando-as no limite da saturação.

Ainda assim, não deixará de ser curioso que o ainda curto percurso desta artista tenha vindo a ser feito, nos últimos anos, quase exclusivamente dentro do circuito institucional e galerístico: como se esses espaços lhe encontrassem, inusitadamente e em número, a sua pertinência e valor; ou constatassem uma prolongada falta que os novos tempos impõe suprir. Esta exposição não é excepção, e é bom que tal aconteça. Alinhando-se, ainda que indiferente a tudo isso e alheia à intensidade das luzes ou avessa a cerimónias e critérios de adequação, a artista naturalmente procura inserir a provocação dentro da instituição (não para que caia, mas para que algo se agite no seu interior). Não de modo descomprometido ou inconsciente, embora o seu trabalho se possa caracterizar por uma certa ingenuidade festiva ou um não-refreamento na forma de construir imagem-discurso. Está aí, também, a sua força. Porque o gesto da Adriana se faz, acima de tudo, num espaço de liberdade do fazer, do pensar e do dizer, sem medir as consequências mais lateralizáveis ou superficiais daquilo que não suceda directamente do seu trabalho. É localizando-se aí, e gerando aí a sua ética, que a artista poderá contribuir, como exemplo do que se lhe contrapõe, para que, parafraseando uma das telas que agora apresenta, nenhum bonito cavalo necessite fazer um aborto para perseguir uma carreira artística — mesmo que esse cavalo seja, na verdade, um pato. E para mostrar, sendo disso exemplo, que esse pato possa, como a Cicciolina, e parafraseado uma outra tela, fazer xixi onde bem entender.

As frases que vemos escritas, claramente atentatórias a uma certa moralidade da linguagem e dos comportamentos, e que vemos surgir na maioria das telas expostas, foram coleccionadas, soube-o pela Adriana, de forma intuitiva e afectiva. Antecedendo, na maioria das vezes, a formação da imagem que as completa, e que tanto artista como curadora consideram no seu conjunto como desenhos, poderiam ser cómicas se não fossem sérias. Ou são sérias sendo também cómicas. Utilizando o humor como arma e como mecanismo catalisador e imersivo, eles (imagens e texto) traduzem uma certa urgência implícita ao desenho, estendendo-se à vida na qual a artista naturalmente se integra.

Porque, se esta exposição pode dizer respeito à deflagração da perversidade de muitos códigos sociais e de disposições subterrâneas de enviesamento do lugar do artista, isso é concretizado através da construção de um espaço de intimidade onde a Adriana, poderemos supor, se faz também reflectir (numa das telas, de forma bastante literal, diria). Se a alcatifa rosa-choque faz aumentar a intensidade daquilo que se mostra e acentua o seu carácter urgente, ela instaura igualmente a união entre todas as obras dispostas, quase como de uma espécie de galeria Tumblr, feita de telas e tinta, se tratasse. Entramos num espaço que querendo ser abrangente na postura é também bastante pessoal no lastro individualizante (porque individualizado) que carrega. E que não é só corrosivo como expõe uma certa vulnerabilidade sem receios do ridículo (antes a integrando). A vulnerabilidade de uma artista, mulher, que vive no tempo presente e que dentro dele procura existir livre de condicionamentos que pesem na sua total liberdade. A de alguém que sabe que dentro de um indivíduo cabem muitos outros; que assume e valoriza que por vezes todos temos pensamentos sem sentido; que chora; que se permite relacionar com quem quiser e ser o que quiser (mesmo que já nem sequer humana). Que possa, afinal — sem que nada a condicione a sê-lo que não si-própria — ser pato, ser cavalo, ser pato-cavalo. Ou nada disso: uma outra coisa qualquer. É a partir daí que esta exposição se faz também como proposta: uma forma de manifesto para as possibilidades de formação da subjectividade contemporânea — sensível, feminista, queer, pós-humana.

 

Adriana Proganó

Casa da Cerca

 

David Revés (Lisboa, 1992). Investigador e curador independente. Mestre em Estudos Artísticos, vertente Teoria e Crítica de Arte, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (2018). Tem explorado a área dos novos media e redes sociais, interessando-se pelos seus cruzamentos com a arte, museologia, sistemas expositivos e pelas questões ligadas à figura do espectador. Desenvolve uma prática crítica e ensaística com a qual contribui regularmente para algumas publicações, projectos de âmbito artístico ou académico.

 

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Adriana Proganó: Somos todos patos a querer ser cavalos. Vistas da exposição na Casa da Cerca, Almada. Fotos: António Jorge Silva. Cortesia da artista e Casa da Cerca. 

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