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Belén Uriel: Antes, despues, ayer, mientras, ahora

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Cristina Sanchez-Kozyreva

 

Histórias de vida

transformadas em vidro

 

As esculturas de Belén Uriel são construções intrigantes. Feitas de materiais orgânicos como polpa de papel, vidro e bronze, a artista nascida em Madrid cria réplicas estranhas e fragmentadas de objectos do quotidiano, como cestos, pequenos colchões insufláveis ou mochilas, que possuem várias marcas de interacção humana. As formas criadas pela artista conservam algumas características dos modelos originais, mas são também objecto de uma grande transformação pelas suas mãos. “São na verdade objectos muito básicos de consumo. Não tenho assim tanta imaginação”, diz Uriel com um sorriso, “Uso coisas que existem e que utilizamos em sociedade. Depois a fase da transformação é muito importante para mim”, explica sobre o seu processo.

Na sua última exposição na Madragoa, Antes, despues, ayer, mientras, ahora, (título que parte de um poema de Jorge Luis Borges, a exposição está patente até 31 de Outubro de 2020), Uriel apresenta uma série de peças feitas de metal pintado, bronze e vidro que cristalizam momentos na relação entre o corpo, os nossos corpos, e as mochilas da vida moderna que frequentemente carregamos durante o dia. Partindo da sua habitual paleta de tons pastel (as suas decisões cromáticas são sempre muito específicas para cada trabalho), esta nova série é praticamente toda ela em vidro preto, conferindo ao material uma estranha qualidade opaca e densa. Durante o processo de produção, a artista manipulou os objectos que viria a criar dando uma enorme ênfase ao modo como as mochilas são usadas e como as suas formas mudam quando o seu peso e os nossos corpos se encontram.

A artista pesquisou sobre proporções em manuais de referência para desenhar objectos e ambientes de acordo com as dimensões humanas, teve em conta a forma como uma mochila é passada de ombro para ombro ou como se pousa sobre as nossas costas enquanto caminhamos. Criou fragmentos, moldes de estudo da lateral do seu corpo, para registar como uma massa repousa sobre os ombros e os lados do corpo. Tal é particularmente notável nos fragmentos que fazem parte de S, M, L, uma escultura de bronze e resina acrílica em que grossas faixas de material escuro estão penduradas numa espécie de cabide para casacos. A artista quis que as peças tivessem um ar pesado, metálico. Sobre aquilo que a mochila representa, Uriel observa que “faz parte de uma rotina, é pesada, carregamo-la connosco, mas é também uma espécie de armadura”, sublinhando a grande mas discreta interferência que objectos triviais têm nas nossas vidas. “Não reparamos nas mochilas, mas elas são universais”, diz Uriel.

Em QUECHUAS (título que parte do nome alterado de uma colecção de desporto da Decathlon, nome em si mesmo tomado de uma tribo das montanhas no Perú), a artista apresenta cinco volumes, híbridos entre almofada e concha, pendurados a diferentes alturas num dispositivo preto em metal. Pouco claro, o material parece silenciar sons ao seu redor. Pequenas notas de cor surgem aqui e ali sobre os volumes e funcionam como lembretes visuais de fechos e bolsos. O trabalho, concebido como um conjunto de objectos, sugere as diferentes posições que uma mochila pode tomar à volta do corpo que a carrega. Apesar de estáticas, as formas fragmentadas evocam no seu conjunto movimento, pela leveza que as suas posições desenham no espaço. Outras peças fazem parte da exposição, incluindo BACKWARD, uma escultura rectangular feita de vidro, que remete para o interior das costas de uma mochila. A sua forma pendurada na parede faz lembrar as costas de um corpo, com altos e baixos expressivos que revelam as marcas do peso sobre um corpo cansado. A presença das peças não parece estar distribuída confortavelmente no espaço, que eu gostava de ter visto ocupado de uma outra forma. Os vincos criados pelas estruturas das mochilas, produzidos na relação com um corpo imaginado e suspenso no ar, merecem uma consideração espacial mais cuidada com o espaço negativo que produzem. Existe um equilíbrio delicado entre o peso e a invisibilidade. Os trabalhos de Uriel têm a capacidade de potenciar o espaço à sua volta, mas este dom é por vezes acompanhado por uma dependência debilitante do seu meio envolvente. No entanto, o poder de absorção destas formas negras e intrigantes reside em última análise nelas mesmas, e deixa o espectador assombrado mas com sentimentos contraditórios ao olhar para algo que é simultaneamente familiar e encenado.

“Tenho interesse na ambiguidade: quando pensas que estás a olhar para algo, mas na verdade estás a ver outra coisa. Isto acontece através da construção de camadas e depende de como se manipula o objecto através do processo escultórico” 

diz Uriel no seu estúdio de pé-direito alto em Lisboa, onde livros, modelos, trabalhos por terminar, e pedaços de imagens e notas colados sobre a parede são testemunhas do seu processo contínuo. Embora não procure no seu trabalho reclamar qualquer referência particular, a artista tem muitos livros sobre escultura, sobre a relação entre design e objecto, e arquitectura. Uriel parece ser conduzida por ideias.

“Mudámo-nos para Lisboa em 2008, mas estávamos sempre entre cá e Londres”, recorda. Actualmente passa mais tempo em Lisboa, especialmente desde que começou a trabalhar com o ateliê Vicarte em 2015. “Não consigo produzir em Londres. É praticamente impossível produzir vidro, devido aos custos. Tenho a oportunidade de conseguir fazê-lo aqui em Lisboa. O ateliê Vicarte é muito especializado. É um lugar onde a arte e a ciência estão unidas”, diz Uriel sobre esta unidade de pesquisa, comum às faculdades de Ciências e de Belas-Artes de Lisboa e que inclui entre as suas actividades o desenvolvimento de novos materiais para arte contemporânea em vidro e cerâmica. Enquanto artista, Uriel foi convidada a trabalhar com o ateliê: carte blanche. Os primeiros cinco, seis meses foram de uma grande aprendizagem técnica. Até “ser capaz de trabalhar sozinha, com alguma assistência técnica pontual”, recorda.

Um dos seus primeiros desafios no ateliê foi a concepção de um objecto inspirado na obra do arquitecto alemão Bruno Taut: um conjunto de módulos em vidro colorido. Taut criou o brinquedo nos anos 20. Uriel gostou da dimensão doméstica, e simultaneamente pouco prática, do brinquedo de vidro de Taut. Trabalhou numa escala aproximada à de uma garrafa, The fairy place (1), (2016), uma torre de vidro à escala humana feita de blocos de vidro. Ela diz que quase se aproxima da “ideia de um bolo, uma espécie de arquitectura apetitosa, como se fosse uma distinção, um prémio, algo que é diferente do resto, uma celebração”. E confessa: “a minha formação é em belas-artes, mas sempre estive rodeada de arquitectos. Interesso-me por uma arquitectura que pensa a relação com o corpo, e, mais especificamente, tenho interesse no trabalho de arquitectos que criaram mobiliário”. Fala também das mudanças neste campo, desde a arquitectura moderna centrada no humano à arquitectura de vidro que apresenta valores mais orientados pelas corporações. “Taut foi um arquitecto do utópico, um designer que acreditava que a arquitectura podia mudar e melhorar a vida das pessoas que nela habitassem”, diz Uriel, destacando os valores visionários que a atraíam no trabalho de Taut que coloca a arquitectura e os objectos de uso quotidiano no centro das nossas vidas sociais, hábitos e organização — com o potencial para os mudar. Na altura ela estava interessada no que é que podia fazer sem que fossem necessárias competências técnicas extremamente apuradas exigidas para o trabalho em vidro. Mas as dificuldades de natureza técnica e questões de produção geraram as próprias oportunidades. Ela explica que o processo lhe permitiu encontrar novas soluções quando alguma coisa não resultava, o que abriu caminho para outras coisas. “Tenho muito interesse naqueles momentos em que os erros aparecem durante o processo”, diz. “É bastante libertador. Quando dominamos todas as questões técnicas, ficamos muito restringidos. Pelo contrário, quando comecei, pensava nas coisas que queria fazer primeiro, e só depois é que pensava como era possível fazê-las em vidro. Pensar desta forma deu-me muita liberdade”.

Quando questionada sobre a frieza associada ao vidro, Uriel concorda, mas acrescenta que apesar de ser um material muito rígido é também muito frágil. Ela tem muito interesse na qualidade transparente do vidro. Está em linha com um movimento generalizado na sociedade moderna que exige uma maior transparência, e que por sua vez foi aplicado à arquitectura. A ideia de que “tudo tem de ser transparente”, um conceito universal que inspira confiança, mas que também pode ser usado como uma forma de controlo, é questionada por Uriel nas suas explorações com o vidro. Este material tem uma qualidade reflectora, não só é transparente como também reflecte, e por isso consegue estar no centro de diversas formas de vigilância e demonstração de poder. Quando diz isso, lembro-me do romance distópico dos anos 1920 do autor russo Evgueni Zamiatine, no qual cidadãos de um estado totalitário vivem em edifícios transparentes sem qualquer privacidade. Mas o vidro pode também ser lido através das suas próprias metamorfoses, da natureza até ao objecto criado pelo homem. Tem essa multiplicidade.

“O vidro vem da terra, mas está muito ligado ao homem”, confirma Uriel, enfatizando mais uma outra linha de investigação sobre o medium.

Uma parte significativa do seu trabalho com vidro consiste em instalações e objectos que devem parte das suas formas e significado ao painel de vidro: especialmente o painel partido que foi novamente colado. Representa aquela superfície plana cuja grossura e nível de transparência relativos determinam a claridade com que vemos de dentro para fora ou de fora para dentro. Dentro das estratégias artísticas de Uriel, somos conduzidos para a relação entre corpo e arquitectura, acompanhada por todos os detalhes subtis sobre o modo como um corpo entra em qualquer espaço arquitectónico e os compromissos que fisicamente negoceia para nele se adaptar.

A primeira vez que Uriel criou painéis de vidro para uma exposição foi em Scissor, Sand, Paper, no Museu Wiesbaden na Alemanha, em 2016. Ali, Uriel substituiu alguns dos painéis de vidro de uma grande janela por outros feitos por si. “Foi a primeira vez que fiz painéis feitos de vidro e que intervim directamente na fachada”, recorda. Como resultado, algumas das janelas grandes contêm quadrados de vidro mais turvos, filtrando a luz de modo diferente e silenciosamente impondo-se sobre o ambiente do espaço expositivo, ou pelo menos é assim que me parece. “No início queria a ideia do vitral ou do vidro partido que se consegue reparar com fita cola”, aponta para uma peça dessas no seu ateliê, como um ponto de partida para esta pesquisa muito física mas também muito específica.

Na sua exposição na Culturgest, em 2016, intitulada segunda-feira, comissariada e curada por Miguel Wandschneider, Uriel continuou as suas investigações sobre fachadas. Apreendendo o espaço de um modo muito preciso, desta vez foram colocados painéis inteiros feitos por Uriel de modo a bloquear algumas das passagens, enquanto filtravam alguma da luz, tal como um vitral faria. Ao criar novas separações, orientando a circulação pelo espaço e criando novas salas fechadas, o curador e a artista foram directamente à caixa de ferramentas do arquitecto. Desde a intervenção sobre janelas de vidro à criação de fachadas inteiras como se fossem paredes, Uriel parece jogar com um leque de possíveis intensidades para alterar o nosso campo de visão e/ou sentido de mobilidade.

Outros significantes fazem parte do vocabulário visual de Uriel, por exemplo a arte do display. Alguns dos objectos que cria são autónomos, outros relacionam-se com o próprio sistema de display, tal como as estruturas na exposição na Madragoa. Mas também, por exemplo, na sua exposição Bonança, no CA2M Centro de Arte Dos de Mayo, em Madrid, em 2019. Aí, estruturas metálicas suportavam objectos de vidro cor-de-rosa, híbridos de órgãos e material médico, ocupando delicadamente, mas de forma solene, o espaço com o seu design limpo. “A forma como eu trabalho o vidro é muito orgânica. O vidro é muito fluido, o processo pode trazer imperfeições, transforma, e possui uma grande fragilidade”, Uriel enfatiza as diversas possibilidades de exploração. Por um lado, o seu processo de fundição está a par com o modo como objectos comuns são actualmente criados: produção em massa e moldes industriais. Isto permite ao trabalho um certo comentário social ao realçar a intimidade que nós humanos criamos com a mais rara das coisas. Por outro lado, o modo como cria as esculturas inclui um passo intermédio, onde trabalha primeiro em cera, moldando o objecto com as suas mãos. “É possível trabalhar sem o passo da cera, mas para mim é um momento em que consigo manipulá-lo. É muito importante para mim trabalhar com as mãos”.

Uriel trabalha sobre cera, acrescentando camadas de alterações antes da secagem. Para mim, ela parece acrescentar camadas condensadas de tempo, como se criasse a história de toda uma vida vivida por trás do uso de qualquer objecto a partir do qual partiu. A escala pertence também à gramática artística de Uriel, uma vez que considera cuidadosamente as dimensões doméstica e urbana, todas em relação com o corpo. Este corpo desenvolve-se então através da sua obra num mundo que tanto parte da classe trabalhadora como do mundo do design, onde objectos artísticos, objectos comuns, objectos emocionais, artefactos e objectos enquanto contadores de histórias, têm todos uma certa aura.

 

Belén Uriel

Galeria Madragoa

 

Cristina Sanchez-Kozyreva é uma autora com experiência em relações internacionais e estratégia. Viveu na Ásia durante 15 anos. Actualmente trabalha e vive entre Lisboa e Hong Kong. É co-fundadora e editora-chefe da revista de arte Pipeline, com sede em Hong Kong (impressão 2011-2016). Contribui, regularmente, para várias publicações na Ásia, Europa e EUA, como Artforum, Frieze e Hyperallergic.

 

Traduzido do inglês por Gonçalo Gama Pinto.

 

 

 

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Belén Uriel: Antes, despues, ayer, mientras, ahora. Vistas da exposição na Galeria Madragoa. Cortesia da artista e Galeria Madragoa. 

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