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Lena Henke: Ice to Gas

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Cristina Sanchez-Kozyreva

 

Paisagens de sonho,

de Nova Iorque a Lisboa

Em A Interpretação dos Sonhos, publicado em 1899, Sigmund Freud defende que o estudo dos sonhos oferece uma ferramenta eficaz para o desmontar das actividades inconscientes da mente. Sugere que tomemos notas de tudo aquilo que nos lembramos, sem qualquer julgamento imediato, confiando apenas na propensão humana, natural e criativa, para a associação de ideias e descrições. Ao fazê-lo, somos capazes de revelar até os mais estranhos fragmentos narrativos. Com efeito, é apenas o sonhador a única pessoa que se pode aproximar de uma interpretação. Nos sonhos nada é linear e a sua explicação é tão pessoal quanto o próprio sonho. Os sonhos foram uma das principais fontes de material para os Surrealistas, que os incluíam abertamente nos seus processos artísticos, mas também para muitos artistas que os precederam e que os sucederam. Lena Henke, artista alemã baseada em Nova Iorque, é uma delas. Revelando que a ideia para esta exposição lhe surgiu num sonho e seguindo a sua linha inconsciente de imagens, Henke criou The Holy Trinity or Three Points in Time (2020), uma grande instalação que ocupa a primeira sala da galeria. A receber o visitante está a escultura de um bebé (representando a artista), feita de aço vermelho e forton (um material arquitectónico utilizado em ornamentos exteriores), de frente para a porta de entrada. A sair pelas suas costas está um fio (ou cabo) preto que se fixa a um estendal amarelo Hills Hoist (representando a mãe da artista), e esse estendal está por sua vez ligado a um grande poste preto e amarelo (que representa o seu pai), ambos feitos de ferro. Os cabos pretos que se interligam no ar acima do estendal e do poste dão a sensação de uma espécie de nuvem negra que paira sobre a figura da criança. Ela está de costas para a cena formada pelos pais e parece afastar-se.

O conjunto, não muito diferente de um cenário de um filme ou de um diorama, faz sentido do mesmo modo que um sonho faz, onde as pessoas que conhecemos podem ser representadas por uma ideia, um objecto, outra pessoa qualquer ou mesmo por uma situação. A escultura da criança foi feita à imagem da artista quando tinha três anos. A perna direita da criança, como se fosse uma perna prostética de um pirata, é um modelo do edifício Chrysler de pernas para o ar, e no lugar da mão esquerda tem um casco de cavalo. Henke mudou-se para Nova Iorque onde actualmente vive e trabalha, mas quando era criança, na Alemanha, cresceu numa quinta com cavalos. Elementos de Nova Iorque e cascos de cavalos são temas autobiográficos recorrentes na sua obra. A criança parece estar a fugir, cristalizada, como é próprio da escultura, num momento de fuga precipitada. Para além de teriantropa (parte humana, parte animal), esta criança também se funde com arquitectura, ao estilo do pintor greco-italiano de Chirico, uma referência que Henke aceitou nos seus trabalhos anteriores. Nesta exposição, ela refere-se afectuosamente à escultura como um “mini-eu”, um ciborgue, especialmente devido à prótese Chrysler. A santíssima trindade é aqui uma trindade familiar: a criança (a escultura), o pai (o poste multifunções) e a mãe (o estendal de roupa aberto). E com estas imagens vêm alguns constructos sociais reconhecíveis: o domínio doméstico estático para a mãe, o símbolo itinerante mas fixo do progresso industrial e económico que representa o pai, bem como as muitas ligações (sociais? emocionais? aparências?) que existem entre eles (fios). Tanto quanto sei, Henke tem um irmão, mas quando se trabalha com sonhos e metáforas surrealistas o rigor está longe de ser uma necessidade.

A instalação lança os tons freudianos numa expressão criativa surrealista.

É também ligeiramente desconfortável. Estará esta criança-cavalo-arranha-céus deficiente e monocromática sequer segura? Talvez não interesse. Os três elementos da instalação parecem familiares no seu conjunto — provavelmente devido aos fios e à cor amarela comum ao poste e ao estendal —, mas são simultaneamente estranhos. Mais do que uma santíssima família, talvez a instalação seja sobre a continuidade e o avançar da vida, independentemente dos obstáculos. O bebé, ligado à mãe-estendal por um fio preto que a artista chama de corda de segurança, está a olhar para longe, com a mãe direita no ar, optimista ou determinado, como se se afastasse da estrutura ou se dirigisse a outra coisa qualquer. Deste modo, é o tempo em movimento.

Na segunda sala da galeria, vários pedestais modulares estão dispostos diagonalmente de uma parede à outra. Uma homenagem visual a uma infraestrutura histórica da arquitectura barroca de Lisboa: o Aqueduto das Águas Livres do século XVIII. A instalação contém espelhos colocados em cada uma das pontas e esculturas de cerâmica ao longo de cada plinto. Esta representação simplificada do contorno do aqueduto com espelhos cria um efeito de reflexo infinito, uma ilusão visual inteligente que o torna infinito em ambas as extremidades. Visível em partes, a silhueta característica de arcos monumentais do aqueduto é um marco da capital portuguesa. Referências às pinturas oníricas povoadas por arquitecturas de Chirico — repletas de elementos arquitectónicos clássicos mas simplificados, em especial arcos de praças — ganham vida pela cor terracota dos plintos. A sua simplicidade tanto evoca a vastidão como a solidão, no que podia ter sido um espaço vazio (com a excepção de alguns pequenos azulejos de cerâmica supérfluos nas paredes, azulejos brancos e azuis com motivos de aves e cascos de cavalos, Untitled 1, 2, e 3). Sobre cada plinto encontram-se as esculturas de cerâmica de Henke. Entre elas, uma forma branca que parece o casco de um cavalo, Spreading its waters over the marble city! (2020), título que se relaciona com o aqueduto porque juntava e transportava água pela cidade de Lisboa ao longo de quilómetros, usando a gravidade. Outra referência é sugerida por The poetry of fresh water! (2020), em que dois híbridos azuis entre o casco de cavalo e canos estão colocados frente a frente. Perto, No more clouds, no more bronchitis (2020) representa dois cascos de cavalos entrelaçados com um fio enrolado numa cerâmica em tons de amarelo pálido, e em Lisbon 39º in the shade (2020) duas formas que fazem lembrar um tubo torcidas em azul escuro contorcem-se uma à frente da outra. A cerâmica tem o aspecto final do azulejo, o mesmo acabamento que pode ocupar tanto espaços interiores como exteriores, um conceito muito característico de Lisboa, cidade conhecida pelos seus azulejos em praças públicas bem como nos interiores de igrejas e casas. Aqui a escala é acessível, contrastando com a primeira sala onde ficámos em certa medida desorientados. O interesse pelo aqueduto vem do interesse da artista pela água. Os objectos em cerâmica são comuns à sua obra e podem ter origem em diversos elementos, como por exemplo o fetiche por pés. Ao contrário da autonomia da primeira instalação, a série de esculturas em cerâmica sobre plintos faz-me lembrar uma linha de montagem, especialmente pelo seu alinhamento e pelos reflexos infinitos no espelho. Tirando o facto de que cada cerâmica vem de uma forma maleável, em forma de coluna ou tubo, elas são em última análise idiossincráticas (parecem, no entanto, ser fáceis de agarrar).

Tal como uma série de enigmas sugestivos, especulações associativas poderão ser necessárias para encontrar um sentido coeso para esta dupla apresentação. Há aquelas ideias que atribuímos à psique do artista e outras que vêm das construções dos nossos próprios mundos interiores. Uma leitura única é impossível, o que se reflecte no texto excêntrico da folha de sala que a artista preparou para acompanhar a exposição: trata-se provavelmente da descrição de um transe, possui claramente características de um sonho. De qualquer modo, parece cheio de palavras-chave importantes. Parte de viver num ambiente moderno e urbano é tornar nossos os marcos que nos rodeiam. As imagens podem ser o nosso mestre, um modo de compreender e reorganizar o mundo. Ideias e pensamentos fragmentados povoam o interesse de Henke pelo planeamento e desenvolvimento urbanos, criando um lugar onde o desenho urbano pode ser criador de um significado estético. Como resultado, parece que a construção de paisagens mentais no espaço de uma galeria pode ser feita tendo grandes escalas em mente, mas pode também, no entanto, ser composta por memórias, fantasias e interesses pessoais.

 

Lena Henke

Galeria Pedro Cera

 

Cristina Sanchez-Kozyreva é uma autora com experiência em relações internacionais e estratégia. Viveu na Ásia durante 15 anos. Actualmente trabalha e vive entre Lisboa e Hong Kong. É co-fundadora e editora-chefe da revista de arte Pipeline, com sede em Hong Kong (impressão 2011-2016). Contribui, regularmente, para várias publicações na Ásia, Europa e EUA, como Artforum, Frieze e Hyperallergic.

 

Traduzido do inglês por Gonçalo Gama Pinto.

 

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Lena Henke: Ice to Gas. Vistas gerais da exposição na Galeria Pedro Cera. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia da artista e Galeria Pedro Cera. 

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