Crítica — por Susana Ventura
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Após a visita à exposição A Cidade Incompleta, de Fernanda Fragateiro, no Museu de Arte Contemporânea de Elvas, sob a curadoria de Delfim Sardo, uma imagem insurgiu-se no meu pensamento: o desenho de Aldo Rossi L’architecture assassinée a Manfredo Tafuri (1975), que ilustrou a tradução inglesa do livro Progetto e Utopia, de Manfredo Tafuri. Desfazendo-me da possível ressonância entre este desenho e a obra Muro (2017) de Fragateiro em exposição (assumindo esta obra, na exposição, uma função de limite, assinalando o limiar a partir do qual o que se vê não pode ser limitado a uma interpretação das formas, dos materiais e respectivas composições estéticas, mas sempre a partir da nossa condição humana perante os signos que as obras enunciam e colocam em movimento).
Crítica — por Camila Bechelany
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Em 2021, após muita incerteza sobre sua realização e tendo sido adiada por um ano, devido à gravidade da pandemia no país, a 34a Bienal abriu suas portas apresentando um formato inédito. Visando expandir a apresentação de obras na cidade para além do pavilhão Ciccilo Matarazzo, criado em 1957 para acolher a mostra, o projeto se ampliou para outras 21 instituições na cidade, articulando diferentes situações arquitetônicas e ampliando as abordagens curatoriais. Esta estratégia demonstrou-se muito positiva até agora por ter criado uma rede de colaborações institucionais e diálogos num momento em que o meio cultural no Brasil enfrenta uma grande crise.
Ensaio — por João Sousa Cardoso
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O Palais de Tokyo apresenta, nestes dias, uma extraordinária mostra de Anne Imhof (1978), artista alemã que tem causado furor à sua passagem, reivindicada herdeira da tradição maldita dos românticos e galardoada com o Leão de Ouro para a melhor representação nacional na 57ª Bienal de Veneza em 2017. Ocupando o edifício numa obra de arte total de ressonância wagneriana (GesamtkunstwerkI), o projeto de Anne Imhof integra o ciclo de cartas brancas que o Palais de Tokyo tem vindo a dirigir a artistas singulares.
Ensaio — por Eduarda Neves
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Querido amigo, há alguns meses que não te escrevo. Sempre presente e fastidioso este modo darwinista no espaço académico e no mundo da arte. Excessos de morte nem sempre visíveis. Neste país, que não é o teu, o poder central continua, num estilo convicto, a falar para dentro de si mesmo. Só e compulsivo. A fraqueza de quem pensa já ter compreendido tudo e todos. A palidez do medo. Acabo de ouvir que centenas de pessoas fugiram de Cabul num avião militar norte-americano.
Entrevista — por João Seguro
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Quando entrei para o Ar.Co no início dos anos 90 comecei por fazer o curso regular de fotografia, foi o que sempre quis estudar. Nessa altura ainda estava no liceu em Santarém e viajava duas vezes por semana para as aulas do curso nocturno no antigo palacete da rua de Santiago. A certa altura entreguei um trabalho que partiu de uma caminhada na Serra dos Candeeiros que não correspondia ao pedido da professora e chumbei. Triste e desiludido, fui com esse mesmo trabalho a uma entrevista para o segundo ano de Desenho na mesma escola e surpreendentemente entrei. Disseram-me que eu poderia continuar o que estava a fazer mas que iria ser avaliado como desenho, e sem saber muito bem o que aquilo queria dizer, acabei por começar a ver a fotografia e o desenho como duas coisas que estão lado a lado.
Ensaio — por João Sousa Cardoso
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"Dead Souls Whisper (1986 – 1993"), exposição de Derek Jarman , co-produzida com o Festival d’Automne à Paris, exigiu três anos de investigação e de recolha de informação junto de assistentes, amigos e amantes do artista. "Dead Souls Whisper" reúne cerca de cinquenta obras, congregando o cinema, a pintura brutalista e a assemblage, num confronto de manifesta fisicalidade, ao longo das três galerias com os amplos janelões de vidro toldados (também excecionalmente) por cortinas translúcidas de modo a coarem a iluminação exterior. A exposição termina numa sala de cinema, onde se assiste em exibição contínua — na versão original, alternando com a dobragem francesa — a Blue, o filme monocromático e a opus magnum de Derek Jarman. O que de imediato suscita uma forte impressão na visita a esta exposição é a força plástica e a potência mágica das formas, a pulsão da urgência no sentido do gesto e na economia dos recursos, a omnipresença da morte que paira, solene e devoradora, sobre todos os trabalhos. E com isto, é sempre da energia da matéria que Jarman trata. Com a intrepidez única de uma voz política na cidade.
Crítica — por Cristina Sanchez-Kozyreva
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É o espírito da emancipação existencial que permeia o ADN da mais recente exposição de Vasco Araújo, intitulada "Ensaios". Recheada de peças, esta mostra debruça-se sobre a emancipação individual, tanto em termos psicológicos como físicos. Através de uma série de obras que recorrem à escultura, à fotografia, à instalação e à escrita, este processo de libertação ganha expressão através das estéticas do passado e da repetição. A linguagem visual da exposição recupera um tempo em que a escrita à mão ainda derivava de alguma arte caligráfica.
Crítica — por Cristina Sanchez-Kozyreva
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Grada Kilomba é uma artista interdisciplinar, professora e escritora portuguesa. Ao longo dos seus anos de carreira, tem-se focado não só na recuperação de episódios esquecidos da história negra mediante a revisitação da memória e do trauma num enquadramento descolonizador, como também no questionamento das narrativas que se baseiam em conceitos coloniais de conhecimento, género e poder. No MAAT, apresenta a instalação "O Barco", composta por cerca de 140 blocos de madeira queimada que, dispostos no chão, à beira do rio Tejo, formam a silhueta do fundo de uma nau de 32 metros de comprimento.
Entrevista — por Isabel Carlos
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A exposição patente na 3+1 Arte Contemporânea serviu de mote a esta conversa, entre Catarina Rosendo e Isabel Carlos, sobre um dos mais importantes escultores portugueses. Um artista com uma das obras mais radicalmente genuínas da arte contemporânea portuguesa, onde natureza, arte e corpo confluem num discurso simultaneamente universal e pessoal, nas palavras de Isabel Carlos.
Crítica — por Sérgio Fazenda Rodrigues
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A exposição “Entre paredes: futuros - Obras da Colecção António Cachola”, com curadoria de Sara Antónia Matos, apresenta uma seleção de diferentes obras e artistas na Galeria Municipal de Torres Vedras, e traduz a vontade de expansão que esta coleção tem vindo a afirmar. Assim, a mesma deve ser entendida no âmbito de um conjunto de acções mais vastas que, ao longo dos anos, pela visão do colecionador e pela proposta de vários curadores convidados, têm vindo a ser trabalhadas em consonância com instituições, locais e públicos distintos.
Crítica — por Susana Ventura
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Algures no tempo, José Pedro Cortes fez uma escolha. A passagem de um meio ao outro, do analógico ao digital envolve sempre uma transformação (pela própria relação que se constrói entre o corpo do fotógrafo e a câmara, extensão do primeiro), que o artista acolheu, reinventando-se, necessariamente, também, com esta passagem, em que os limites ou constrangimentos (como Maria Filomena Molder sugere, embora referindo-se à técnica da fotografia em geral) do digital funcionam como expoentes das “possibilidades inventivas”. A fotografia é elevada a um limite que, muitas vezes, a coloca perto da pintura, no tratamento plástico das superfícies, da luz e da cor.
Crítica — por Isabel Nogueira
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Esta rubrica da Contemporânea elege quatro exposições circunscritas a um tempo e lugar específicos, neste caso a rentrée da cidade de Lisboa. Um dos objectivos é mapear o cenário artístico da cidade, identificar tendências de fundo e reflectir sobre as propostas escolhidas. Roundup #1 . Lisboa: vários locais
Ensaio — por Luisa Salvador
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Foi numa quinta-feira. Umas boas semanas antes, tínhamo-nos encontrado, sem aviso, numa tarde de sábado à porta da Faculdade de Belas-Artes. Foi a instituição onde ambos nos formámos. O Fernão Cruz tinha acabado de inaugurar a sua exposição individual Morder o Pó na Fundação Calouste Gulbenkian, e eu ainda não a tinha visitado. Nessa quinta-feira, esse era o propósito. Encontrámo-nos previamente na cafetaria e, enquanto falávamos, o Sol de Outono iluminava-nos as caras. Ainda não sabia, mas esperava-me também a entrada num novo lugar.
Entrevista — por Alberta Romano
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Já faz algum tempo desde a última vez que fui a um ateliê com o propósito de escrever sobre a visita para publicação numa revista. Ao longo destes últimos meses que me distanciaram de novas visitas, foi-me recorrente o pensamento de que existem certos mecanismos e estruturas que só funcionam em certos momentos. It's a date é um desses muitos formatos que nasceram durante a pandemia, um momento em que, compreensivelmente, se nos acometeu uma ânsia brutal de ter dates, prazos de entrega, bem como uma vontade de partilhar basicamente qualquer interação que tivéssemos com os outros.
Crítica — por José Marmeleira
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Com a desejável prudência afirme-se que a programação de exposições de arte contemporânea da Galeria Municipal do Porto reclamou um espaço que outra instituição da cidade deixou de reconhecer. Não se trata apenas de um espaço em que os objectos artísticos aparecem para serem vistos e julgados. Trata-se de outra condição mais específica: a de um espaço em que a arte contemporânea, não obstante todos os seus paradoxos (espelhando os da sociedade), pode, com a riqueza da sua heterogeneidade interpelar aqueles que por ela passam. Ou, reformulando, a programação da GMP logrou, nos últimos cinco anos, religar a arte à cultura, sem prender a primeira à segunda.
Entrevista — por Luísa Santos
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A exposição Cum Laude, de Rita GT, com curadoria de Ana Cristina Cachola, inaugurada a 28 de Novembro na Movart, em Lisboa, é a continuação de um percurso sólido que demonstra, por um lado, que a arte é uma ferramenta de produção de conhecimento e, por outro lado, que esta produção é um ato social, cultural, e político. O ponto de partida para esta conversa é a exposição Cum Laude, mas é impossível falar sobre a mesma sem olhar para a prática artística de Rita GT, em particular das suas instâncias colaborativas, nomeadamente com a curadora Ana Cristina Cachola.
Crítica — por José Marmeleira
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"Muxima — feels like earth, smells like heaven" é a primeira exposição individual de Edson Chagas (1977) em Portugal e consiste numa série fotográfica que toma a forma de uma instalação. Esta, disposta numa sala escura, só se deixa ver fragmentada, dispersa em caixas de luz, focos iluminados no chão de terra, irregular, no qual podemos tropeçar. Se o espectador se entregar a um certo desvario, imaginar-se-á diante de improváveis pirilampos ou até fogueiras sem chamas ou fogo, meras coisas que bruxuleiam no escuro de uma gruta artificial.
Crítica — por Isabel Nogueira
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Uma exposição de Lawrence Weiner (n. 1942) começa por colocar em causa, de modo irónico, o próprio conceito de originalidade em arte, no sentido do novo, do espanto. Teoricamente, uma atitude ou descoberta de vanguarda não poderá ser repetida de modo idêntico, isto é, a partir do momento em que um artista descobre uma linguagem, até que ponto a sua obra, e a obra de outros que o seguem, não será uma repetição dessa linguagem? Rosalind Krauss, no texto "The Originality of the Avant-Garde and Other Modernist Myths" (1985), exemplifica com a quadrícula, emblema da modernidade pictórica, descoberta por Mondrian e pelos cubistas, que, não obstante a sua recorrência, se apresenta paradoxalmente inovadora.
Ensaio — por João Sousa Cardoso
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Wang Bing é um cineasta heroico numa época que deixou de acreditar em heróis. O cineasta nascido em 1967 em Xian, a capital da província de Shaanxi na China profunda e antigo extremo oriental da Rota da Seda -, é um bravo destituído de motivação além do desejo irreprimível de acompanhar, observar, compreender melhor, tornar visíveis as relações que de outro modo nos resistiriam desconhecidas. Evitando os a priori de ordem ideológica ou estética, coloca-se no terreno ao lado de indivíduos ou comunidades precarizados, auscultando a crueza em que, sem teoria nem romantismo, os fenómenos tomam forma. O impulso tem sido o de filmar em regiões distintas na vastidão continental da China as “vidas vulgares” dos habitantes mais vulneráveis, omissos e explorados do país aclamado pelo milagre económico e volvido uma potência global.
Entrevista — por José Marmeleira
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A Ficção, a Arte e a Paisagem: entrevista com Victor dos Reis, curador da exposição "No Reino das Nuvens, os Artistas e a Invenção de Sintra", no Mu.Sa, Museu das Artes de Sintra. A curadoria de Victor dos Reis parte de um lugar, consciente da sua inscrição na História do património e cultura visual dos séculos passados, mas também de uma ficção. Ou se se quiser de um lugar que é uma ficção e, em última análise, uma obra artística construída na natureza pelo homem. Daí, a exposição vai sugerindo um leque de analogias, produzindo um conjunto de ressonâncias entre a arte e a cultura, o artificial e o natural, aproximando, por vezes colocando lado a lado, tempos, ideias, sensibilidades e linguagens muito distintas.
Crítica — por Cristina Sanchez-Kozyreva
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Patente na Galeria Foco, no Intendente, a exposição "Circular Visions", de Clara Imbert, ocupa os dois andares do espaço com um número considerável de esculturas e objetos integralmente alicerçados no motivo do círculo. O círculo é o símbolo geométrico supremo, sem início nem fim, capaz de representar tanto a unidade como o infinito. As formas que se lhe associam — esferas, semicírculos, arcos — são igualmente ubíquas e simultaneamente misteriosas e habituais, manifestando-se na ciência, no design, na mecânica, na arte e nos objetos quotidianos.
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