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No Reino das Nuvens: os Artistas e a Invenção de Sintra

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José Marmeleira

 

A Ficção, a Arte e a Paisagem: entrevista com Victor dos Reis, curador da exposição No Reino das Nuvens, os Artistas e a Invenção de Sintra, no Mu.Sa, Museu das Artes de Sintra.

 

A exposição que se mostra na vila de Sintra, No Reino das Nuvens: os Artistas e a Invenção de Sintra, com curadoria de Victor dos Reis é uma das exposições mais interessantes de 2021. À partida, sob certos pressupostos, esta proposição pode parecer questionável. Afinal, trata-se de uma exposição temática, com um assunto, ainda para mais razoavelmente tangível: Sintra, na condição de lugar, paisagem, imagem com um referente físico. Mas é precisamente por causa desse referente que a exposição logra ser tão bem-sucedida. 

A curadoria de Victor dos Reis parte de um lugar, consciente da sua inscrição na História do património e cultura visual dos séculos passados, mas também de uma ficção. Ou se se quiser de um lugar que é uma ficção e, em última análise, uma obra artística construída na natureza pelo homem. Daí, a exposição vai sugerindo um leque de analogias, produzindo um conjunto de ressonâncias entre a arte e a cultura, o artificial e o natural, aproximando, por vezes colocando lado a lado, tempos, ideias, sensibilidades e linguagens muito distintas.

O percurso não é cronológico, mas vai-se desenhando por meio de elementos que provém dessa Sintra tão imaginária quanto real: o céu, os ventos, as águas, o mar, os cumes, os penedos, a floresta, os vales, a bruma, a névoa. São eles que se encontram evocado no espaço, numa montagem surpreendente, com uma selecção de obras provenientes de 25 coleções nacionais [públicas, privadas, institucionais e particulares] e de 27 acervos de artistas contemporâneos. É um conjunto extenso ao qual o curador dá um sentido harmonioso, fazendo conviver o desenho, a fotografia e a gravura do século XIX com obras do modernismo português e a arte contemporânea; ou integrando a arte, com subtileza, na cultura visual.

De algum modo, Victor dos Reis cria uma Sintra, porventura irrepetível, não apenas com o passado, mas, também, trazendo do passado obras e artistas. Inscrevem-se neste plano, a título de exemplo, desenhos de João Cristino da Silva, Bernardo Marques ou D. Fernando II, pinturas de Mily Possoz, Patrícia Garrido, Rosa Carvalho, entre outras e outros. Há uma recuperação, uma redescoberta a que se junta uma descoberta de trabalhos que, sem o olhar de Victor dos Reis, não poderíamos ver, como são os casos de obras notáveis assinadas por José Pedro Croft ou Julião Sarmento. A estes juntam-se ainda trabalhos produzidas especificamente para a exposição, como é a proposta de Nuno Nunes-Ferreira ou a série de esplêndidas pinturas de Pedro Cabrita Reis.

Mas a exposição aponta, igualmente, ao futuro, no seu momento final. O primeiro piso do Museu, ao qual se expandiu em 2021, incide sobre a fragilidade de Sintra na condição de microclima. Nesse sentido, No Reino das Nuvens, os Artistas e a Invenção de Sintra não se resume apenas a uma evocação cultural, imagética e estética de um certo lugar. Permite-se pensar, com a indiscernibilidade da arte e face à incerteza trazida pela acção humana, o futuro delicado deste verdadeiro reino das nuvens. Sobreviverá ele, para lá desta carta de amor?

 

José Marmeleira (JM): É o terceiro projecto de curadoria que realiza no espaço de dez anos. O que o fez avançar para esta terceira experiência?

 

Victor dos Reis (VdR): De alguma forma, tudo começa com o convite para a primeira, A República e a Modernidade, no Museu Carlos Machado [em Ponta Delgada, Açores, 2010], que me deu um prazer enorme. Tinha características parecidas. Tratou-se de, a partir de colecções, fazer uma selecção de obras e definir um projecto. Naquele caso, a pergunta era “como tratar a República”? Defini uma ideia com base no material que tinha, obras que estavam nas colecções dos museus açorianos. Tratou-se, como agora, de um trabalho de montagem, de juntar peças e, ao mesmo tempo, de inventar uma narrativa, uma história, mesmo que apenas exista na minha cabeça, e não seja clara fora desse lugar de acesso difícil. 

 

JM: Esta curadoria ter-lhe-á permitido estabelecer outro tipo de relação com os artistas?

 

VdR: Sobretudo alterou a minha relação com eles. Lembro que as duas exposições anteriores, A República e a Modernidade e A Imagem Paradoxal: Francisco Afonso Chaves (1857-1926) não envolviam artistas contemporâneos vivos. Mas trouxe ao de cima, também, coisas do meu próprio percurso pessoal. Fui estudante de Belas-Artes, sou licenciado em Pintura, tenho um início de carreira como artista, antes de me dedicar exclusivamente à docência e à investigação. Esta curadoria permitiu-me, acima de tudo, estabelecer uma relação que é mais adulta ou muito diferente daquela que tenho com os estudantes mais jovens. Diria que é mais paritária ou mais profundamente paritária. É um diálogo, um trabalho em equipa. Por outro lado, também me permitiu ter outro tipo de relação com artistas que conhecia apenas na atividade de estudantes, que tinham comigo uma relação com um código muito próprio, que é o da relação aluno e professor. Por vezes, até pude perceber como é que algumas obras surgem. Isso foi interessante.

 

JM: Na sua experiência, diria que a curadoria é um trabalho mais autoral ou criativo que o da docência?

 

VdR: Diria que é mais livre, porque na curadoria sou eu que defino, à partida, uma série de dados. Nesse sentido, aproxima-se ou tem semelhanças com a própria criação, incluindo aquela que faço quando escrevo, incluindo textos de investigação. Não sou nada ortodoxo a escrever, não escrevo de forma académica e tenho, em regra geral, pouco respeito pelas fronteiras e pelos muros. Prezo essa liberdade de escrever. A curadoria aproxima-se dessa liberdade. Já as aulas são mais delimitadas por uma série de fatores. Há uma exigência direta para comigo, tenho que conseguir estabelecer a comunicação. Tem que correr bem. Aqui acontece ou pode acontecer o mesmo, mas o público é uma identidade distante, mais anónima. Quando o trabalho se torna presente, já não há nada a fazer. Leccionar é uma atividade definida por regras que me são impostas e que exigem uma autoconsciência muito grande do que estou a fazer. Este trabalho de curadoria é semelhante à experiência de fazer uma exposição, mas o público é uma entidade abstracta. 

 

JM: O processo de escrita dos textos do catálogo acompanhou a curadoria?

 

VdR: Sim, correram em paralelo, não se tratou de uma etapa final. Neste caso, foi um processo mais demorado.  A exposição começa por ser cancelada e fiquei com mais um ano para a pensar no piso inferior do Museu. Em grande parte, tudo o que se pode ver no piso superior já ia ser exposto em 2020. Ou seja, a exposição já estava pensada. Em 2021, trabalhou-se, então, com outras salas e procurei tornar o texto de apresentação e os textos finais minimamente legíveis para o catálogo. Porque a minha obrigação é ser compreensível.

 

JM: A exposição conclui-se com um conjunto de obras a que deu o título “Epílogo ou um novo Começo” que precisamente ocupa as salas inferiores...

 

VdR: Quando regresso em Setembro de 2020, a exposição sugere esse epílogo. É uma ideia com tonalidades mais escuras que o período que estava a viver pode ter proporcionado. Gosto do facto de a exposição não ser meramente celebrativa. Os objetos das artes visuais, ao contrário da palavra e de literatura, são menos diretos quando nos querem interrogar ou estabelecer um diálogo [connosco]. Ainda assim, quis que essa estranha capacidade da linguagem visual nos pudesses fazer questionar um tema. Já a exposição do piso superior é de facto uma celebração com várias tonalidades. Umas mais claras, outras mais escuras, outras mais físicas ou até eróticas.

 

JM: O Victor dos Reis vive em Sintra, é habitante de Sintra. De que modo essa condição foi influente na concepção da exposição?

 

VdR: Teve uma enorme influência. Não tenho sequer distanciamento físico em relação ao tema. Decidi viver em Sintra, na passagem da adolescência à idade adulta, e isso naturalmente produziu consequências. Para o bem e para o mal, não há grande distância entre mim e o tema. Nesse sentido, é uma espécie de acto de amor. Considerei, no entanto, e daí o epílogo, que não podia ser uma coisa onanista. Gosto muito de Sintra, mas sou capaz de pensá-la para lá desse sentimento. É possível, mesmo vivendo em Sintra, perceber que é uma gota de água num mundo complexo a todos níveis. A começar por coisas que dominamos mal ou de que perdemos o domínio. Essa reflexão era fundamental e necessária, até porque se o tema é uma paisagem construída, como todas as construções, qual será o seu grau de resistência?

 

JM: Há uma analogia com a própria ideia de obra de arte...

 

VdR: Sim, e de ficção, também. Acho que Sintra é uma ficção. E é uma ficção da cultura visual, uma invenção. Todas as pessoas têm uma ideia de Sintra. A partir do século XVIII passa a ser, com Lisboa, um dos lugares mais visitados em Portugal pelos estrangeiros. Passa a integrar uma espécie de petit tour do sul ocidental da europa e muitos estrangeiros ficam por cá. Trata-se de um fenómeno que é exterior ao resto do país e isso tem que ver com a influência da gravura e, depois, da fotografia e da literatura de viagens que criarão, rapidamente, uma imagem muito forte de Sintra. E todos aqueles, a começar pelos portugueses, que nunca vieram a Sintra, antes de visitarem Sintra já têm uma ideia de Sintra. Até se podem dar ao luxo, no sentido da vantagem, de confrontarem a ideia mental com a realidade. E isso porque Sintra, no sentido de território em Portugal, para além de Lisboa e pouco mais, foi muito apropriado pela cultura visual. O que se deve, sobretudo, ao trabalho de estrangeiros com a gravura e a fotografia. Grande parte das fotografias presentes na exposição são da autoria de estrangeiros...

 

JM: Que contribuíram para a construção de uma representação ficcionada, que não é fiel à totalidade da paisagem.

 

VdR: E da realidade. Quando pensamos em Sintra, não pensamos em Cacém e Massamá. É como se fossem incompatíveis com a palavra. Esta Sintra é incompatível com o Município de Sintra, mas não com Sintra enquanto lugar mágico, da montanha, da floresta, do nevoeiro...

 

JM: Por outro lado, é um lugar completamente diferente do resto do país. Perguntava-me se os estrangeiros de que fala, e em particular os europeus do Norte, não se reconheciam de algum modo nas paisagens de Sintra...

 

VdR: Sim, uma das coisas que pude perceber melhor, por causa da exposição, com as leituras e releituras que fiz, especialmente da literatura de viagens e da poesia, é essa recorrente afirmação das pessoas de que, quando chegam a Sintra, se sentem em casa. São pessoas muito diferentes, oriundas de locais muito diferentes. É como se a própria paisagem, que é uma construção, que é plantada de raiz, tivesse um pouco de todos os lugares. Permite que pessoas diferentes se reconheçam nela. Isso faz sentido a partir do momento em que o projecto da curadoria é o de uma exposição que celebra a formalização de Sintra enquanto património da Humanidade. Como é que um lugar visitado por uma ínfima parte da humanidade pode ser da humanidade? E através dos testemunhos daqueles que cá estiveram nos últimos 150, 200 anos? Autores como Hans Christian Andersen, Lord Byron, entre outros, comentam como é incrível reconhecerem-se em Sintra. O William Beckford está sempre a fazer analogias entre Sintra e lugares diferentes. Nos seus diários, de três em três dias, diante um sítio na Serra, lembra-se de um lugar diferente da Inglaterra e que conhece bem. Sintra não pode ser apenas uma assemblage desses sítios todos, com a floresta e o castelo de D. Fernando, mas ao mesmo tempo acaba por ser.

 

JM: A fotografia contribuiu também para essa representação ficcional?

 

VdR: Vai ter um papel fundamental na integração de Sintra na cultura visual. Até aí, era feita por via da gravura. Dei apenas um vislumbre da insistência da gravura, quase sempre feita por estrageiros, em representar Sintra. Tirando a Corte, que passava cá o Verão e que habitava Sintra, são eles que vão admirar este local. Fazem parte de uma camada ínfima de pessoas que pode viajar, têm uma educação artística e visual. Quase todos desenham, e vários sabem desenhar bem e vão levar os desenhos de regresso para casa. Vão pedir para serem passados para gravura ou usá-los como ilustrações dos seus diários e reflexões das viagens. A fotografia vem facilitar isso tudo. As pessoas já não precisam de saber desenhar, não é preciso ter aprendido a desenhar ou possuir qualidades que, como sabemos, são injustamente distribuídas. A máquina fotográfica vai permitir registar um local e difundi-lo em quantidades que a gravura nunca pôde. Nesse sentido, é curioso como no caso de Lisboa são, sobretudo, os monumentos que se vão tornar icónicos na cultura visual moderna e fotográfica, enquanto no caso de Sintra é o contexto. Mais do que só mostrar o Palácio da Pena ou o Palácio da Vila, o que importa é mostrar o contexto onde esse palácio se integra. E isso vai-se tornar um ícone da cultura visual moderna, vai-se popularizar. Daí aos postais que fazem parte do trabalho Nuno-Nunes Ferreira, que podemos ver na exposição, é um pequeno salto. Sintra torna-se num dos locais mais fotografados do mundo. A primeira geração de fotógrafos que passa por Portugal ou que se estabelece em Portugal, faz fotografias de Sintra. Sintra é incontornável.

 

 

JM: Essa relação com Sintra chega à pintura moderna portuguesa? Encontra-se na pintura moderna portuguesa?

 

VdR: Em Portugal, há um fim prolongado do século XIX e a afirmação tardia de um século XX pleno que corresponderá a uma passagem para uma cultura marcadamente urbana. Ao contrário de Cristino da Silva e dos seus colegas revolucionários, em termos estéticos, e a partir dos anos 20 e 30 do século XX, os artistas não estão interessados no campo. Mesmo os neo-realistas têm uma versão muito peculiar do que é o campo ou do que é o trabalhador do campo.

 

JM: Já não há esse encantamento...

 

VdR: Não há porque nos vamos tornando cada vez mais conscientes, por múltiplos acontecimentos e movimentos de pensamento e ideológico, que o campo está longe de ser uma imagem rousseauniana, idílica, do bom selvagem. É um lugar de uma enorme pobreza, de um enorme sofrimento. E este é um país que vai manter uma relação com o campesinato empobrecido durante mais tempo que os outros países europeus. Muitos de nós somos filhos de pais ou avós que vieram do campo para cidade e isso foi há muito pouco tempo. E, portanto, queremos afastarmo-nos do campo. Sendo que este campo não é campo, é uma cenografia.

 

JM: O olhar de alguns artistas portugueses modernos ou contemporâneos já será muito diferente daquele que caracterizou os séculos XVIII e XIX...

 

VdR: Sim, já não é naturalista. Em alguns casos concretos é mais por via de uma idealização, de uma espécie de pós-romantismo.

 

JM: Esta Sintra é um lugar que inspira solidão e desejo de fuga. Perguntava-me se alguns dos artistas contemporâneos presentes na exposição terão sido sensíveis a essas experiências.

 

VdR: Sei que entre Rui Chafes, cujo atelier tem vista para a Serra de Sintra, o Julião Sarmento que tinha um atelier-armazém em pleno concelho de Sintra e os artistas que vieram a Sintra para produzir obras, há enormes diferenças. O que há de comum? É essa existência de Sintra como um lugar...

 

JM: Artificial?

 

VdR: Como todas as imagens. Sintra existe como uma imagem, uma obra de arte admirada. Sim, é real como imagem, mas não como lugar.

 

JM: Uma imagem em que está presente uma ideia de belo nem sempre partilhada pela arte moderna ou contemporânea. Um belo que não deixa de ser artificial, criada sem demasiada violência, também cultivada.

 

VdR: Julgo que para a maior parte dos artistas é assim que é aceitável a beleza de Sintra. De outra maneira, seria intoxicante, no sentido em que deixaria de ser produtiva, porque não encaixa no nosso conceito de beleza ou na função da beleza na arte contemporânea...

 

JM: Qual será a função de beleza na arte contemporânea?

 

VdR: Boa pergunta, não sei se tenho resposta. A beleza é um enorme fantasma para os artistas, está sempre a assombrá-los. Há um jogo de aproximação e afastamento. Do ponto de vista do discurso e da ideologia, a palavra beleza é uma palavra perigosa.

 

JM: A exposição assenta numa selecção muita diversa de obras originárias de colecções de artistas, museus, fundações. Como se desenrolou esse processo de selecção?

 

VdR: À medida que fui desenvolvendo a ideia, tornou-se claro que precisava de fazer um levantamento sistemático de obras sobre ou com relação com Sintra, para além daquelas que conhecia. Era, também, interessante aproveitar esta oportunidade para reunir um conjunto muito alargado de obras de 25 coleções nacionais [públicas, privadas, institucionais e particulares] e de 27 acervos de artistas contemporâneos. Isso torna-se desde muito cedo inseparável do próprio projecto. Isto é, a ideia de, durante um período de tempo, reunir em Sintra um conjunto muito variado de obras que, entre si, sejam capazes de estabelecer relações. Em determinada altura, aconteceu aquilo que queria muito, mas que achava que seria impossível. Não sendo possível ter um orçamento para a encomenda de obras feitas propositadamente, percebo que afinal, de uma outra forma, por empatia com os artistas e por causa da sua disponibilidade, ia poder contar com obras inéditas na exposição. Quase 30.

 

 

JM: Como explica isso? Sintra?

 

VdR: Sim, acho que tem que ver com a palavra mágica Sintra. Por mais longe que os artistas e nós andemos de Sintra, há esse apelo, ainda que, devo dizer, ninguém vem a Sintra ver exposições. Temos que ter consciência disso. Desde a saída da colecção Berardo, não me recordo de nenhum amigo que tenha vindo visitar e ver uma exposição em Sintra. E a responsabilidade, em grande parte, por essa situação deve ser atribuída a quem tem gerido Sintra, porque há uma apetência pelo lugar e pela paisagem. Não foi a minha intervenção que tornou isto possível, mas o facto de ser Sintra. Por isso, coloca-se a questão: quer Sintra ser um parque temático, continuar a viver do passado? Ou quer ser contemporânea, como no tempo de D. Fernando, quando este comprou uma pintura de Cristino da Silva, artista que não terminou o curso porque considerava o ensino muito académico? Isso é ser contemporâneo. A beleza local é uma maldição para as instituições. Concelhos que não têm a ínfima parte do que Sintra tem, esforçam-se imenso. Sintra é uma marca, a questão é o que se faz com a marca.  

 

JM: Na exposição, coloca vários tempos da história de arte em diálogo, mas também diferentes abordagens à imagem de Sintra e com diferentes linguagens. Há trabalhos em que Sintra está representada, com diferentes graus de mimetismo, outras em que isso não acontece. Remetem, de um modo mais livre ou abstrato, para a paisagem ou a natureza.

 

VdR: Foi uma abordagem absolutamente consciente, é propositado. No sentido, em que algumas coisas surgiram como óbvias. Se esta obra está presente, aquela também deve estar. Há outras em que só tomo consciência de que estou a ficcionar a posteriori. E aí tenho que me colocar no que as pessoas vão pensar. Vão perceber isto? E depois, trata-se de tomar a decisão. Vou tentar ser o mais claro possível no estabelecimento dessas relações e nos casos em que não consigo, o que faço? Volto atrás ou avanço? Na maior dos casos, avanço na mesma.

 

JM: Não há didatismo no modo como estabelece relações e diálogos entre obras e tempos. Aproxima as coisas sem as sobrepor, sendo que o visitante não pode ver umas obras sem ver outras. Por outro lado, e a propósito dos textos que acompanham a exposição, alguns podiam ser relativos a outros lugares. Levam-nos para fora de Sintra, sem que deixemos de estar em Sintra.

 

VdR: Levar o visitante ou o observador a ver coisas muito díspares no tempo, na história, em termos estéticos é propositado, mas não como uma espécie de acção programática. É algo intrínseco à minha forma de pensar, ao modo como, por exemplo, dou as minhas aulas que estão repletas de imagens. Trata-se de mostrar porque é que as coisas não existem de facto em gavetas. E que o modo de os artistas se envolverem com outras imagens, ultrapassa, muitas vezes, a barreira da física, do tempo e do espaço. Os artistas são capazes nas suas paixões, e naquilo que fazem, de se associarem a imagens que existem a uma distância que não é apenas temporal, também é estética. E Isso está na raiz da criação. Uma das vantagens da época em que vivemos, é que nos chega um pouco de tudo quase simultaneamente. Nesse sentido, esta exposição é uma pálida ideia do que é a vida contemporânea em que estamos em contacto com coisas muito díspares produzidos em tempos muito diferentes. Isso faz parte da nossa condição contemporânea. A partir daí tenho dificuldade em pensar as coisas de forma muito fechada. É importante que as pessoas percebam isso e que possam discordar.

 

 

JM: A figura de D. Fernando II (1816-1885), segundo marido da Rainha D. Maria II e Príncipe Consorte de Portugal é, em certa medida, um eixo na exposição.

 

VdR: Sim, há um antes e um depois. Há uma Sinta pré-D. Fernando e outra pós-D. Fernando. Ele é um esteta e um artista que tem de se apagar, dada a sua condição de Rei-consorte. É mecenas, é responsável pelos primeiros grandes programas de recuperação do património em Portugal, de restauro de monumentos, alguns dos quais chega a comprar. Outros não compra, mas paga integralmente o restauro ou convence o governo da Rainha D. Maria II a pagar. Há uma acção dele na vida cultural do país que não tem precedentes e que só vai encontrar consequências em tempos muito próximos de nós. Ele podia ter tido uma carreira artística, podia ter sido uma séria de coisas. Foi um pouco disso tudo e teve no país um papel fundamental de que, por vezes, não nos lembramos ou que não conhecemos.

 

JM: A exposição também permite que possamos rever, reapreciar ou descobrir trabalhos como os de Emília Possoz, ou obras que permaneceriam nos ateliers dos artistas, como os de Julião Sarmento, José Pedro Croft, entre outros. É um traço que está para lá de Sintra e um dos mais fascinantes da exposição.

 

VdR: É verdade. E aproveito para contar um episódio. Ao pé dos desenhos de Rui Vasconcelos, está uma pequena pintura em muito mau estado de um artista português do século XIX, Isaías Newton. Não o conhecia. Descobri-o depois de fazer um levantamento sistemático de obras que tivessem uma relação directa com Sintra. Lembro-me que, da parte do MNAC, perguntaram-me porque queria aquela pintura. Há muitas décadas que não era mostrada uma obra dele. É alguém completamente desconhecido e, de facto, aquela pintura não precisava de estar naquele espaço, mas gosto da ideia de que é possível resgatar coisas que saem fora dos itinerários mentais habitais.

 

JM: O que acontece também com os trabalhos dos cenógrafos... 

 

VdR: A maior parte deles teve formação académica de arquitectura. Os cenógrafos no século XIX, durante o período áureo da ópera italiana e não só, são arquitectos. Vão conceber as maquetas, os cenários projetados. E ficam num limbo não só por aquilo que fazem, os objectos que criam, os cenários, mas por causa da sua formação. Não é arquitectura, nem é propriamente artes plásticas no sentido contemporânea do termo. Gosto de os trazer para que as pessoas os olhem de outra forma. Porque aquilo é criação visual e a exposição é acerca de criadores visuais e da sua relação com Sintra.

 

JM: Houve obras que gostava de ter exposto e não conseguiu?

 

VdR: Houve. Para além de uma outra Fonte de Sintra de António Dacosta, não consegui incluir uma pintura extraordinária do Eduarda Viana que se chama Sintra. É uma vista enorme de Sintra. Está no Palácio de Belém, na sala em que o presidente recebe formalmente todos os seus convidados. 

 

JM: Como surgiu o título?

 

VdR: É uma ideia que está no final de frase do Hans Christian Andersen que viveu em Santa Maria, a meia altura da serra. Ele escreve que o D. Luís, que já reinava, vivia no palácio da vila, enquanto o D. Fernando vivia no palácio das nuvens. A nuvem que rodeia habitualmente a serra é das coisas mais marcantes para quem vive em Sintra. A aproximação a Sintra é a aproximação da nuvem que cobre a serra. Por outro lado, nestes últimos trinta anos, ouvi, com frequência, o mesmo comentário: “por que escolheste viver aqui? É só nuvens, nunca está sol, é muito húmido”. E gosto da palavra reino porque remete para algo de onírico, ficcional. 

 

JM: E para um estado de devaneio...

 

VdR: Sim, num certo sentido, também é um devaneio. O Parque da Pena é um devaneio de D. Fernando II, um homem com posses suficientes para encomendar árvores de todas as partes do mundo e plantar em grande escala uma floresta que não existe em lado nenhum.

 

JM: Neste encontro entre Sintra e a exposição, o que é que vence? A ficção de Sintra ou as obras artísticas?

 

VdR: Acho que se autorreforçam, há um reforço mútuo. A paisagem torna-se mais extraordinária por via das obras, e as obras mais extraordinárias porque têm por detrás algo que é forte. Nesse sentido, sou optimista. Se tudo correr bem, sim, acho que há um reforço mútuo.

 

JM: Volto ao epílogo da exposição. No texto de apresentação, menciona a fragilidade de Sintra, a incerteza e a instabilidade trazidas pelas alterações climáticas.

 

VdR: Foi uma reflexão. As pessoas antes de saírem do museu, se tudo correr bem, descobrem essa sala. Não pretende estragar o prazer, não é um unhappy end. De facto, Sintra é uma realidade geológica, uma montanha com um determinada extensão e altura que culmina num monte com quase 500 metros de altura. Tem uma determinada orientação e proximidade face ao oceano que, por sua vez, é marcado por correntes oceânicas. Estas correntes têm consequências na temperatura. A confluência disto tudo, com os ventos, faz este microclima. A serra não vai sair do sítio nem o oceano se vai afastar ou aproximar muito, mas as correntes e os ventos e o modo como estes se interdependem fazem com que nesta serra se forme, com enorme facilidade, uma certa temperatura, uma determinada humidade e o tal nevoeiro. Ora, nesse sentido, o epílogo visa pensar que este microclima é uma coisa muito frágil.

 

Victor dos Reis (1965). Professor Auxiliar no Departamento de Arte Multimédia da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL), da qual foi Presidente (2014-2019). Licenciado em Pintura pela antiga Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (1990), obteve o grau de Doutor em Teoria da Imagem na Universidade de Lisboa (2007) e em 2017 concluiu o seu pós-doutoramento em Teoria da Imagem com o estudo do relações entre arte e ciência nas desconhecidas fotografias estereoscópicas do naturalista português Francisco Afonso Chaves (1857-1926). Curador (em conjunto com Emília Tavares) das três exposições intituladas "A Imagem Paradoxal: Francisco Afonso Chaves (1857-1926)", resultante da sua pesquisa de pós-doutoramento, que decorreram de outubro de 2016 a setembro de 2017 no Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), no Museu Nacional de História Natural e Ciência (MUHNAC), ambos em Lisboa, e no Museu Carlos Machado (MCM), em Ponta Delgada (Açores). Curador das exposições "O Futuro do Presente: Simples ou Composto?" com obras de jovens artistas (Lisboa, FBAUL, 2018); Imersive / Imersivo (Lisboa, SNBA, 2018); e A República e a Modernidade (Museu Carlos Machado, Açores, 2010). Membro das comissões científicas e organizadora de diversas conferências internacionais. Na última década publicou um livro, três catálogos de exposições, 20 capítulos de livros e 12 artigos e apresentou trabalhos em diversos congressos, nacionais e internacionais (Hangzhou, Londres, Montreal, Seattle) nas áreas da Teoria da Imagem; Cultura Visual; Fotografia; Arte, Ciência e Tecnologia.

 

 

Mu.Sa Museu de Artes de Sintra

 

José Marmeleira é Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (ISCTE), é bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações (Ípsilon, suplemento do jornal PúblicoContemporânea Ler).

 

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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No Reino das Nuvens: os Artistas e a Invenção de Sintra. Vistas gerais da exposição no Mu.Sa Museus de Artes Sintra. Fotos: Rui Grazina e Victor dos Reis.

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