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Entre paredes: futuros — Obras da Colecção António Cachola

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Sérgio Fazenda Rodrigues

 

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A exposição Entre paredes: futuros — Obras da Colecção António Cachola, com curadoria de Sara Antónia Matos, apresenta uma selecção de diferentes obras e artistas na Galeria Municipal de Torres Vedras, e traduz a vontade de expansão que esta colecção tem vindo a afirmar. Assim, a mesma deve ser entendida no âmbito de um conjunto de acções mais vastas que, ao longo dos anos, pela visão do coleccionador e pela proposta de vários curadores convidados, têm vindo a ser trabalhadas em consonância com instituições, locais e públicos distintos.

Propondo múltiplos olhares em torno do recorte, do crescimento e da lógica que estrutura a colecção, estas acções adoptam diferentes perfis sob a forma de diálogos, exibição de novas aquisições, exposições em torno de um único artista, comissões a artistas, exposições simultâneas com intuito celebratório, ou visões transversais do espólio existente, como no caso actual, que pensam a colecção sob um ponto de vista específico. Assim, o espírito que enquadra a presente exposição reflecte uma manifesta conduta cívica que, por elaborados processos de itinerância e envolvimento, concede acesso às obras, trazendo-as para fora do território e da instituição onde se encontram sediadas (MACE, Elvas).

No caso de Entre paredes: futuros, a abordagem da curadora centra-se na articulação de três pontos que delineiam uma evolução gradual, da esfera comunitária à esfera pessoal. Apoiada nas referências ao espaço cosmológico, ao local de pertença (paisagem/casa) e ao lugar do corpo, num trajecto que progride do geral para o particular, ou numa leitura que evolui da expressão colectiva para a expressão individual, a exposição desenrola-se por várias salas, acompanhando as mudanças do edifício que a acolhe. Assim, a estratégia empregue para contornar as exíguas e muito restritivas condições do espaço existente, passou por considerar não só a ocupação das salas de exposições, mas também uma série de divisões contíguas que permitiram disseminar os trabalhos ao longo de vários ambientes. Nesse sentido, operando com a proximidade doméstica que a compartimentação do local ainda induz, as obras espraiam-se por átrios, salas, corredores, nichos e vãos de escada, adoptando, nas palavras de Sara Antónia Matos, a ideia de “um confinamento entre paredes, lembrando o enclausuramento vivido em período de pandemia”.

Nos diálogos que as obras estabelecem cruzam-se épocas, meios e escalas distintas, e explora-se o potencial de surpresa que daí pode surgir, mas o inesperado emerge, também, da ocupação de alguns lugares menos expectáveis. Em todos os casos, importa ainda perceber que o campo de investigação da curadora está intimamente ligado à expressão do corpo e da escultura, e que as opções tomadas denotam uma atenção especial às questões do movimento e da materialidade, bem como ao modo como estas problematizam a noção de contaminação, miscigenação e evolução, afirmando a vontade de chegar a novos públicos, com uma colecção que está em transformação, inscrita numa sociedade que se encontra em rescaldo pandémico.

As opções de Sara Antónia Matos optam por dar a ver uma parte menos conhecida do espólio e engendrar relações que, por vezes, sendo menos directas, assumem maior interesse. Atente-se nas conexões entre as obras de Pedro Cabrita Reis e Mané Pacheco que, na sala de exposições do piso 0, apontam para uma multiplicidade de vias e futuros incertos — entre os múltiplos painéis/portais (Ala Norte, 2000) e a mesa circular, suspensa (Eclipse, 2009), do primeiro, e os vários fios de prumo e ímanes (Sistemas Perpétuos, 2018), da segunda. Considere-se ainda, na mesma sala, as obras de Andreia Santana e João Queiroz que indagam a definição de ciclo ou de percurso — entre as placas metálicas que conectam o céu e a terra (Barter, 2017), da primeira, e a pintura dos pés de uma figura que caminha (Sem título, 1998), do segundo.

Refira-se o modo como algumas obras exploram as particularidades do local, como no caso de Bruno Cidra (Sem Título, 2012) que na parte mais recôndita do edifício marca uma linha vertical, de ferro e papel (entre a escultura e o desenho), para nortear o espaço em seu redor ou, como seu contraponto, uma outra peça de Mané Pacheco (Um Par (2), 2018) que também no pavimento, apresenta um rígido casulo de cimento e poliestireno expandido onde se acolhe e enrola um fio de sisal. Note-se, ainda, a conexão entre os trabalhos de José Pedro Croft (Sem título, 2012) e Igor Jesus (Novo Dicionário de Conversação, 2014), no átrio do auditório, onde se extrema a escala e se revela a constituição de ambas as obras. Neste caso, os dois artistas trabalham com a inversão e transpõem o interior para o exterior, dando a cumprir, na exposição, a passagem da atenção ao meio (no piso inferior) para a atenção ao corpo (no piso superior).

Repare-se, também, no cuidado em incluir um conjunto de obras de artistas mais novos, como Jaime Welsh (The Visitor — Arrow, 2017), António Neves Nobre (Sem Título, 2018), ou Horácio Frutuoso (In The Future You Know Who You Are, 2019), evitando uma compilação de nomes previsíveis para, com um outro olhar, no âmbito do espírito proposto, explorar novos tipos de encontro ou de fusão, em detrimento do confronto ou da oposição.

Da exposição, dir-se-ia, então, que existe a argúcia de explorar o menos óbvio, acolhendo as obras em lugares pouco expectáveis, porém, dir-se-ia também que o resultado fica, por vezes, refém dos condicionalismos do local. Na verdade, a exiguidade, a fragmentação e a vocação do espaço (sobrepondo os Paços do Concelho, um posto de turismo, e um local de actividades culturais), mostram-se desajustadas para o respirar que as obras solicitam. Apesar da vontade, louvável, que permite dar e receber novos conteúdos, importa perceber que, por vezes, as condições disponíveis não são as desejáveis, tornando, neste caso, a exposição ingratamente constrangida e injustamente confusa.

 

Colecção António Cachola

Galeria Municipal de Torres Vedras

 

Sérgio Fazenda Rodrigues é Arquitecto e Mestre em Arquitectura (Construção), foi doutorando em Belas Artes e é doutorando em Arquitectura, onde investiga as relações espaciais entre Arquitectura e Museologia. Faz curadoria de arquitectura e artes visuais e integrou a direcção da secção portuguesa A.I.C.A. Desenvolveu, com João Silvério e Nuno Sousa Vieira, o projecto editorial Palenque. Foi consultor cultural do Governo Regional dos Açores, tendo a seu cargo, nesse período, a construção da colecção de arte contemporânea do Arquipélago: C.A.C.

 

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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Entre paredes: futuros — Obras da Colecção António Cachola. Vistas/pormenores de algumas obras em exposição na Galeria Municipal de Torres Vedras. Imagem de capa: cortesia da Galeria Municipal de Torres Vedras. 

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