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Pedro G. Romero: Os Novos Babilónios — Atravessar a Fronteira & Filipe Marques: Pandemic — I Don’t Know Karate, but I Know Ka-Razor!

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José Marmeleira

 

Com a desejável prudência afirme-se que a programação de exposições de arte contemporânea da Galeria Municipal do Porto reclamou um espaço que outra instituição da cidade deixou de reconhecer. Não se trata apenas de um espaço em que os objectos artísticos aparecem para serem vistos e julgados. Trata-se de outra condição mais específica: a de um espaço em que a arte contemporânea, não obstante todos os seus paradoxos (espelhando os da sociedade), pode, com a riqueza da sua heterogeneidade interpelar aqueles que por ela passam. Ou, reformulando, a programação da GMP logrou, nos últimos cinco anos, religar a arte à cultura, sem prender a primeira à segunda.

Os Novos Babilónios — Atravessar a Fronteira do investigador, curador, editor e artista espanhol Pedro G. Romero (Aracena, Huelva, 1964) e a exposição Pandemic — I Don´t Know Karate But I Know Ka-razor de Filipe Marques (Vila do Conde, 1976), são, ainda que de um modo desigual, exemplares desse trabalho. Comece-se pela primeira, uma das melhores que se pode ver neste tão peculiar ano. É uma exposição que comove e desperta o pensar. Articula com mestria o design expositivo e a sensibilidade conceptual, o saber fazer, em termos de uso e manipulação dos materiais, e o gosto da investigação. O desejo de transmitir e de dar a ver.

O título da exposição provém de um conceito elaborado pelos situacionistas Guy Debord, Constant Nieuwenhuys (artista e escritor nos anos 50, ligado ao movimento CoBrA), Har Oudejans (arquitecto dos Países Baixos) e Pinot Gallizio (artista italiano). Os novos babilónios corresponderiam a modos de vida que, por sua vez, inspiraram os situacionistas a formular as ideias e experiências de psicogeografia, deriva ou urbanismo unitários: ciganos, flamencos, exilados libertários precisamente ligados às margens da Internacional Situacionista.

Aquilo que Pedro G. Romero nos propõe é seguir as narrativas, os fluxos, os rumos e as derivas destes grupos, a partir do contexto português e dos seus territórios transfronteiriços (Galiza e Estremadura espanholas), com desvios ou viagens às Américas e ao continente africano.

Assim, quando entramos, no primeiro piso da GMP entregamo-nos a um percurso indefinido e incerto no qual participam imagens, objetos, textos e palavras. Composta de núcleos (que também poderiam chamar-se cenas ou clareiras), cada um velado por uma levíssima cortina de tecido, a exposição transfigura-se numa experiência epistemológica, sensível e emocional. Acompanham-na os textos que excedem a função da folha de sala.  São quase páginas de um diário que revelam o processo de trabalho e, sobretudo, as dúvidas, os anseios, as motivações do artista. E, não menos importante, contam histórias como as do território do Couto Misto, do Tenente Seixas, de Artur da Silva Quaresma (tio-avô de Ricardo, “O Cigano”) ou do cineasta espanhol Fernando Ruiz Vergara, autoexilado em Portugal depois do 25 de Abril.

A escrita é eloquente e clara, o tom despretensioso, mas sério, desapaixonado, mas envolvido. É incontestável a simpatia pelas personagens, pelos homens e mulheres retratados e evocados, o gosto sentido pela cultura flamenca e cigana, em particular pela música, mas não só. No mesmo passo, percebe-se a atenção dirigida ao preconceito, à exclusão e ao esquecimento. Sem nunca ceder à indignação do panfleto, Pedro G. Romero não se coíbe de apontar ausências ou paradoxos. O gesto é sempre transfigurador no e do espaço, de uma subtileza surpreendente, como acontece nos núcleos Orpheu, Corografia e ou no (espantoso) Povo que canta: vemos, em primeiro plano, os jovens ciganos a gostarem da sua própria música no “palco” da obra de Michel Giacometti.

O ver que Pedro G. Romero nos faculta é sempre um pensar. Também, por isso, não há qualquer esteticização dos grupos e das categorias que formam estes novos babilónios. A sua existência inscreve-se na História e esta é feita de histórias que, determinadas pela contingência dos acontecimentos, tanto constroem como derrubam mitos e identidades (especialmente nas dialéticas que as imagens e os objetos proporcionam em Fado flamenco e em Ziguinchor). A dada altura, num dos textos, Pedro G. Romero refere-se à exposição enquanto pesquisa. Certamente que o é, mas é uma pesquisa assente nos protocolos da arte contemporânea e das teorias e formas que a constituem. Ou seja, o que se descobre na exposição é produzido com as qualidades e as ferramentas estéticas, formais, visuais — e até sociais — de que alguns artistas se têm munido. Isso é notório em três momentos. Nas capas dos discos do cantor cigano Porrina de Badajoz (1924-1977) transformadas pelo artista em esculturas (numa celebração colorida da música e da arte pop e conceptual), na instalação do núcleo de Quaresma e nos sons (vozes e música) que escapam dos filmes da bio-filmografia dos ciganos no cinema português (no núcleo de A Severa). Uma exposição que se pensa e que se celebra, Os Novos Babilónios — Atravessar a Fronteira continuará certamente a sua deriva, deslocando-se não apenas fisicamente, mas também intelectual e espiritualmente entre os espectadores que tiveram a felicidade de o testemunhar.

A exposição Pandemic — I Don´t Know Karate But I Know Ka-razor de Filipe Marques começa por ser uma proposta sensorial. Há sons, fumo, uma construção que se move, uma parede que se desloca. Um ambiente que poderia ser uma gruta ou um palco. Resposta a um convite endereçado pela GMP ao artista para explorar conceitos víricos, a exposição encena um espaço de ecos e sombras em que as parede do exterior (das ruas, de uma cidade, das ruínas do mundo) se transformam nas paredes violentas e solitárias de uma casa nua, em que o néon ilumina o desespero desencantado do mundo (numa sinfonia melancólica de palavras), em que a doença (antropocêntrica) parece ter corroído a presença da natureza (reduzida a espectros suspensos). Uma paisagem apocalítica e malsã, mas habitada e no qual alguém deixou vestígios. Isto é, desenhos. Coisas.

 

Galeria Municipal do Porto

 

José Marmeleira é Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (ISCTE), é bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações (Ípsilon, suplemento do jornal PúblicoContemporânea Ler).

 

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Pedro G. Romero: Os Novos Babilónios — Atravessar a Fronteira. Vistas gerais da exposição na Galeria Municipal do Porto. Fotos: Dinis Santos. Cortesia da Galeria Municipal do Porto.

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Filipe Marques: Pandemic — I Don’t Know Karate, but I Know Ka-Razor! Vistas gerais da exposição na Galeria Municipal do Porto. Fotos: Dinis Santos. Cortesia da Galeria Municipal do Porto. 

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