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Vasco Araújo: Ensaios

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Cristina Sanchez-Kozyreva

 

A teatralidade do autoaperfeiçoamento

 

É o espírito da emancipação existencial que permeia o ADN da mais recente exposição de Vasco Araújo, intitulada Ensaios. Recheada de peças, esta mostra debruça-se sobre a emancipação individual, tanto em termos psicológicos como físicos. Através de uma série de obras que recorrem à escultura, à fotografia, à instalação e à escrita, este processo de libertação ganha expressão através de estéticas do passado e de repetição. A linguagem visual da exposição recupera um tempo em que a escrita à mão ainda derivava de alguma arte caligráfica; a fotografia ainda não se tornara digital; e os dispositivos de som militares mais avançados, se vistos hoje, pareceriam rudimentares — e isto para não falar do tamanho, semelhante ao de peças de mobiliário. 

Uma série de esculturas sonoras, ou Listening Machines [máquinas de escuta] (todas as peças são de 2021), desdobra-se em dois modelos distintos. Algumas parecem projetores cinematográficos ou rádios com colunas de cores claras; cada uma emite uma única voz (masculina ou feminina) que lança uma série de perguntas:

És feliz? És livre o suficiente para ser feliz? Tens a positividade necessária para mudar a tua vida?

Em repeat, o som foi concebido para suscitar nos ouvintes uma resposta interior automática. Araújo baseou o design destas esculturas sonoras nos dispositivos de escuta produzidos durante a Primeira Guerra Mundial — altifalantes amplificados apontados para o céu, com o objetivo de captar o som dos aviões alemães em aproximação. Uma espécie de máquinas de alerta retrofascinantes, dizem-nos estas de forma inconspícua que, para se ser bom ouvinte, é preciso estar-se recetivo e vigilante.

O outro tipo de máquinas de escuta é composto por soft boxes cobertas de textos ininterruptos aparentemente escritos à mão — por exemplo, linhas e linhas de “[…] like me or like me not or like me or like me not or […] ” [gostes de mim ou não gostes de mim] ou “[…] do what you want, don’t do what I do, do what you want, don’t do what I do […]” [faz o que quiseres, não faças o que eu faço]. É a repetição — tal como a aplica um ator a fim de interiorizar a sua personagem, ou como num mantra ou numa prece — que unifica a exposição nos seus vários loops sónicos e visuais. Contudo, ao contrário de uma prece, trata-se de uma repetição de uma ligeira tensão. Como que cedendo ao peso de um conjunto de problemas por resolver, as suas diferentes instâncias deixam escapar uma certa defensividade; ou, no caso das questões, a velocidade do ritmo, na reiteração incessante do seu interrogatório existencial, tende a apanhar-nos desprevenidos. O crescimento é um processo.

A exposição também recorre ao mundo da fotografia, do teatro e da dança, especialmente segundo o prisma daquilo que podem representar para o crescimento pessoal de alguém, no cruzamento entre a psicanálise e o autodesenvolvimento. Os títulos das séries Mise en imageStudium e Punctum — uma série de fotografias digitais e esculturas em variados materiais — vêm de A câmara clara, de Roland Barthes, e fazem alusão à fotografia e à sua capacidade de veicular uma variedade de registos e mensagens, apresentando narrativas cuja força reside em todo um contexto e/ou num detalhe menor. Através destas séries, ao jeito de escalas musicais, Araújo, que também é ator de teatro e cantor de ópera, emprega aquela capacidade técnica da fotografia para transmitir diferentes significações e histórias. A fotografia reporta-se ao nosso intelecto mas também às nossas emoções; é capaz de navegar o espaço entre os factos e a especulação, entre aquilo que reconhecemos conscientemente e aquilo que se nos esquiva e acede diretamente ao nosso subconsciente; e pode reportar-se ao coletivo ou à história pessoal do observador. Por exemplo, em Studium #1, uma impressão de uma prova de contacto, utilizada por fotógrafos para ver todos os negativos de um rolo, encontramos imagens de um grupo de dançarinos a ensaiar. Os dançarinos mexem-se, mostram nos rostos e nas expressões faciais quanto se esforçam, trabalham para um objetivo comum; e também evocam a experiência da dinâmica de grupo e a importância do corpo na comunicação.

A libertação, o ato de tornar ou ficar livre, tem de se dar também através do corpo.

Por perto, em Punctum #2, e servindo de moldura a uma imagem a preto e branco de um homem a dar um beijo na bochecha de outro, encontramos um chassis de uma câmara fotográfica em madeira; nesta série — escultural, mais intimista, com enfoque no pormenor —, o olhar do observador ganha um carácter quase voyeurista. No seu todo, estas três séries, dispersas pelas duas salas da galeria, oferecem um conjunto de narrativas visuais simultaneamente fragmentárias e pessoais. Retratos de personagens isoladas, casais, grupos: todos, em conjunto, parecem transformar-se num arquivo de memórias pessoais que é evidente tão-só para os envolvidos. Ainda assim, existe a potencialidade de o observador com eles se identificar, dada a intimidade que expõem e a aparência pitoresca, sugestiva de tempos idos.

Também encontramos na exposição uma série de mãos dadas ou pés entrelaçados em resina — resquícios de momentos de afeto, com títulos evocativos como When what you see reminds you of your love [Quando o que vês te faz lembrar o teu amor]; e escrita sobre a parede, com Araújo a interagir com a escrita de Félix González-Torres em From Felix to Phoenix e a falar da necessária abundância do amor — universal, aquele envolve todos os outros. Ensaios fala de ligações e de relações, da que temos connosco mesmos à que temos com os nossos entes queridos, com a quem amamos, com um grupo, com uma vocação; e evoca perceções e emoções que guardamos dentro de nós, para lá da forma como os nossos corpos complexos se desenvolvem à volta uns dos outros. Para realmente ouvirmos alguém, incluindo nós próprios, é preciso ligarmo-nos, e esta ligação muda-nos.

 

Vasco Araújo

Galeria Francisco Fino

 

 

Cristina Sanchez-Kozyreva é uma autora com experiência em relações internacionais e estratégia. Viveu na Ásia durante 15 anos. Actualmente trabalha e vive entre Lisboa e Hong Kong. É co-fundadora e editora-chefe da revista de arte Pipeline, com sede em Hong Kong (impressão 2011-2016). Contribuiu, regularmente, para várias publicações na Ásia, Europa e EUA, como Artforum, Frieze e Hyperallergic. É editora chefe da revista digital Curtain Magazine.

 

Tradução do EN por Diogo Montenegro.

 


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Vasco Araújo: Ensaios/Rehearsals. Vistas da exposição na galeria Francisco. Fotos: Photodocumenta. Cortesia do artista e galeria Francisco.

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