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Edson Chagas: Muxima — feels like earth, smells like heaven

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José Marmeleira

 

 

 

Muxima — feels like earth, smells like heaven é a primeira exposição individual de Edson Chagas (1977) em Portugal e consiste numa série fotográfica que toma a forma de uma instalação. Esta, disposta numa sala escura, só se deixa ver fragmentada, dispersa em caixas de luz, focos iluminados no chão de terra, irregular, no qual podemos tropeçar. Se o espectador se entregar a um certo desvario, imaginar-se-á diante de improváveis pirilampos ou até fogueiras sem chamas ou fogo, meras coisas que bruxuleiam no escuro de uma gruta artificial. Mas está numa exposição de obras de arte, com os recursos, protocolos e estratégias que a constituem. O que encontra e vê são imagens reproduzidas com recurso às técnicas da fotografia e à tecnologia, imagens provenientes de um arquivo que o artista reencontrou e decidiu mostrar.

Foram realizadas nas circunstâncias de uma viagem de Edson Chagas, há 10 anos, ao santuário da cidade de Muxima, local de peregrinação e de devoção mariana de Angola. Não foi, contudo, a experiência religiosa, a poucos quilómetros de Luanda, que despertou a atenção do artista, mas os movimentos da vida na sua mais inefável e surpreendente transitoriedade. Desses movimentos, que transformou em memória por meio do registo fotográfico, captou os voos delicados e rasantes de pequenas borboletas sobre a terra. São esses voos que os visitantes observam. 

Se nos afastarmos do mundo natural, a perceção leva-nos a outros domínios. Sim, vêem-se seres que superam a gravidade, mas, também, partículas, sombras, marcas ou passagens subtis e fugidias de pinceladas. Um certo pender pictórico e até cinético assoma à superfície das caixas e escuta-se uma sinfonia silenciosa, feita de harmonia e dissonância. Movimento e imobilidade, abstração e representação mimética, documento e obra animam-se num diálogo com o visitante.

Artista premiado com o Leão de Ouro para melhor pavilhão na Bienal de Veneza de 2013, Edson Chagas tem vindo pautar o seu trabalho por uma série de questões e problemas, entre os quais o consumo, as políticas de identidade, a beleza ou o retrato. Nesta exposição com a curadoria de Inês Valle, que assinala a inauguração da galeria .insofar, em Lisboa, as obras deslocam-se noutro sentido, porventura mais abstrato e introspetivo. Afinal, falam-nos também da experiência de uma vida interior. Edson Chagas fez algo partilhado por muitos artistas neste último ano e meio. Revisitou o que fez no passado e redescobriu e resgatou memórias de trabalhos, viagens, lugares. Se fez algo de novo, foi a partir daquilo que já existia: imagens. Nessas imagens, o documental e a referências tendem a dissolver-se, deixando espaços para ambiguidade da perceção, para o mero encontro com os fenómenos óticos, para a experiências das cores, para a imaginação enquanto faculdade e atividade. Talvez seja pertinente dizer o seguinte: se estas foram as condições de trabalho de Edson Chagas, também são, de certo modo, partilhadas pelos espectadores na exposição.

Reconhecemos, ainda que à distância, a experiência de um isolamento e a existência de um espaço de liberdade (ou de evasão) que certas imagens (em particular as da arte) proporcionam, mesmo quando o chão permanece irregular, duro, acidentado. É curioso aliás assinalar uma dicotomia: entre as imagens, lisas e polidas, e a solo da galeria, terroso, orgânico. Nesta dialética, ressalta a presença discreta (sem som, sem imagens em movimento) do mundo natural. É da sua vulnerabilidade de que Muxima também nos fala, para lá de qualquer esteticismo. As imagens que vêm do chão, levam-nos ao chão, a descer os olhos e os corpo, abandonar a nossa rígida verticalidade. Não paramos apenas ou tentamos montar as imagens dispersas, como se refazendo um filme ou uma sequência de imagens fixas, mas contemplamos o que já foi: os voos e a vida de pequenos seres que de tão frágeis parecem transparentes, cores ou formas que passam.

Escrevem-se esta últimas palavras com cautela: Edson Chagas nunca cede a uma transformação visual, pelas imagens, dos seres e da vida. Dito de outro, não há uma reificação total. Aquelas borboletas, aquela Muxima permanece e repete-se no seu ciclo natural (e cultural). Resta saber se chegará um dia em que serão para sempre, em absoluto, imagens de um mundo que se tornou deserto.

 

Edson Chagas

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Inês Valle

 

José Marmeleira é Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (ISCTE), é bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações (Ípsilon, suplemento do jornal PúblicoContemporânea Ler).

 

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Edson Chagas: Muxima — feels like earth, smells like heaven. Vistas gerais da exposição na .insofar art, Lisboa, 2021. Cortesia do artista e .insofar.

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