Artigo — por Cristina Sanchez-Kozyreva
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Durante os dias de antevisão da documenta 15, antes de toda a conjuntura azedar — fruto de várias acusações de antissemitismo e de ações de comunicação despropositadas —, o ambiente era de entusiasmo e inspiração. Tudo começou numa alegre conferência de imprensa que, tal como a festa de inauguração, teve lugar num estádio — quão classe trabalhadora e quanta discrição da parte dos organizadores, diga-se. Aberta ao público em geral e com direito a salsichas vegan ou de carne, cerveja e música ao vivo, a sensação não diferiu muito da de ir a um festival de música: pessoas sentadas no chão ou em bancadas a falar com novos e velhos amigos, sujeitas de quando em vez à fragância de cigarro-de-cravo proveniente das zonas de fumo.
Crítica — por João Sousa Cardoso
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Os três artistas, reunidos sob o mote de um verso de Ricardo Reis/Fernando Pessoa que confere o título à exposição [“mas não é a sombra que me interessa, é o resto” esclarece Pedro Costa numa conversa que manteremos, perto dali, no Café Beaubourg, dias depois da inauguração: “eu trabalho com restos de pessoas”] confrontam o nosso corpo com outros corpos estrangeiros, mudos e potentes, animados de vida, jacentes ou fantasmáticos, habitantes de espaços lunares onde nunca nos aventurámos. E damos conta de participar na excursão a uma terra incógnita onde encontramos gente de carne e osso assaltada pela argúcia, pela violência e pela morte que persegue os humanos; e pela destruição que nós — fabricantes da velocidade, da abundância e da distração — produzimos sem descanso e arrastamos, com má consciência, pelos continentes.
Crítica — por Susana Ventura
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A presente crítica foca, apenas, a exposição central de Meia-Noite, no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, embora a Anozero’ 21-22 — Bienal de Coimbra compreenda um conjunto vasto de eventos colaterais e programas convergentes, entre exposições, acções performativas, conversas, workshops, entre outros. A primeira parte de Meia-Noite — proposta curatorial de Filipa Oliveira e Elfi Turpin para a Anozero’ 21-22 — Bienal de Coimbra — apesar de contida na sua estrutura e desenho [em estreito diálogo com a sala da cidade], funcionou como um sismograma do que estaria por vir, apontando para várias direcções possíveis, no sentido de convocar uma pluralidade de expressões que, afinal, caracterizam a arte contemporânea.
Artigo — por Cristina Sanchez-Kozyreva
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Logo à partida, a mensagem da Bienal de Berlim de Kader Attia — intitulada "Present! Still" e com co-curadoria de Đỗ Tường Linh, Marie Helene Pereira, Rasha Salti, Noam Segal, e Ana Teixeira Pinto — é que a atualidade internacional não configura uma aleatoriedade histórica, antes decorrendo de séculos de desenvolvimentos do foro económico e de mecânicas de poder diversas, da escravatura à colonização, passando pelo racismo e pela subjugação; e, na base disto, encontramos a crença iludida do modelo capitalista ocidental na suposta preeminência da sua modernidade e do seu progresso. Com as suas 70 propostas, entre as quais se incluem trabalhos históricos e mais de 30 novas comissões [ou coproduções], e espalhada por seis localizações na cidade de Berlim, a 12.ª edição da Bienal aponta a responsabilidade do atual modelo dominante — bem como a sua relutância em assumi-la — na produção deste "mundo de feridas".
Artigo — por Alexandra Balona
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Ao entrar num antigo armazém recuperado, agora o K1 KANAL Centre Georges Pompidou em Bruxelas, o público depara-se à entrada com uma imagem desconcertante: dentro de uma caixa de vidro transparente, uma estranha figura, corpo humano, rosto-coisa, equilibra-se sobre uma pequena cadeira azul, enquanto o seu corpo se suspende por duas cordas penduradas no topo da estrutura. Trata-se da estreia mundial de idiota, um dos espectáculos que abriu o Kunstenfestivaldesarts no início de Maio, e a mais recente obra da coreógrafa e bailarina cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas, sediada em Lisboa, e premiada em 2018 com o Leão de Prata da Bienal de Veneza, em 2021 com o Chanel Next Prize e o Evens Art Prize.
Ensaio — por Gabriela Vaz-Pinheiro
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Irei tentar fazer esta reflexão por dois ângulos principais. Por um lado, procurar estabelecer uma ligação entre acção e arquivo, recuperando acções das Guerrilla Girls, a sua passagem à condição de arquivo, e a forma como este pode ser significante para a emergência de novas acções, que a exposição patente na Rampa concretiza. E por outro, afirmar [ou melhor reafirmar] a necessidade de fazer evoluir o discurso feminista e pós-feminista à luz da actualidade que vivemos. Começo por dizer que seria talvez importante retraçar as genealogias, evolução e multiplicidade dos discursos em torno da própria ideia de arquivo, de Derrida a Foucault, ou mais recentemente Enzewor, mas o espaço editorial deste texto tornaria esta em mais uma questão apenas aflorada. Pretendo inicialmente levantar algumas pontas para discussões [ainda] muito necessárias sobre representação e representatividade, sobre cegueira e invisibilidades... para depois trazer à escrita alguns assuntos que me interessam e têm ocupado desde há algum tempo.
Entrevista — por Catarina Rosendo
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Nos desenhos de Mattia Denisse há animais, seres imaginários e pessoas, algumas de escafandro, outras nuas, árvores, grutas, construções que parecem encastradas nas rochas, fenómenos atmosféricos, máquinas estranhas e aparelhos de medição, máscaras ritualistas, esqueletos, sexo e experiências mais ou menos incompreensíveis. As histórias que lhes dão sentido enquanto conjuntos perdem-se no emaranhado de referências que os percorrem. Cada desenho torna-se um acontecimento em que os desvios intencionais à clareza enunciativa servem a contrução de uma mitografia muito pessoal onde se cruzam e sobrepõem o natural e o laboratorial, os mitos de origem e as acções experimentais. Desenhador compulsivo, Mattia Denisse conjuga pedaços de narrativas que vivem numa tensão entre a ciência e o esoterismo, entre o texto e a imagem, entre o saber erudito e a cultura popular, acumulando ideias sem se importar com a sua saturação pois, no final, o resultado é um universo visual especulativo que mostra o contra-pensado que existe, em potência, em todas as coisas. A Contemporânea falou com o artista na Culturgest, a propósito de “Hápax”, a sua mais recente exposição, que é também a mais extensa de todas as apresentadas até agora em Portugal, com curadoria de Bruno Marchand.
Crítica — por Sara Castelo Branco
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Num dos segmentos da instalação fílmica É Noite na América [2022] seguimos a captura e o tratamento médico de um graxaim-do-mato no jardim zoológico de Brasília. Ouve-se que o animal chegou prostrado devido a uma doença chamada cinomose, uma patologia que gera desorientação e afastamento da matilha. Trata-se de uma perturbação transmitida pelos humanos aos animais selvagens quando estes se abeiram de fazendas e de cidades. A veterinária, cujos gestos vamos seguindo ao longo desta sequência, profere que os animais que ali chegam normalmente não conseguem regressar às dinâmicas do seu habitat natural, transformando-se assim em “refugos da natureza”: aquilo que sobra, que é posto de lado. As imagens que compõe este segmento por vezes deslocam-se para grandes planos dos olhos do graxaim-do-mato que, num formato semelhante ao da própria lente que o filma, nos observa de forma inversa. Mais tarde, uma coruja enfrenta também directamente a câmara, desafiando longamente o olhar do visitante.
Artigo — por Ana Sophie Salazar
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Concebido em 2012 como um Museu-Mundo, um atlas da memória onde se fundem o futuro, o passado e o presente, tal como geografias e culturas diversas, o Centro Internacional das Artes José de Guimarães [CIAJG] propõe-se como uma casa para todes, desenhada com a intuição de provocar através da arte contemporânea —provocar curiosidade, espanto, reflexão, entendimento ou desentendimento inquieto. No âmbito de Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012, o artista José de Guimarães legou generosamente o seu espólio e fabulosas colecções de arte de origem africana, pré-colombiana e chinesa antiga para a criação de um oásis enriquecedor. Assim, o CIAJG abrange diferentes linguagens e disciplinas, com um entendimento especial do significado de história e de legado, onde convivem conhecimentos diversos e cosmogonias não-lineares.
Crítica — por Isabel Nogueira
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O título da exposição é homónimo ao de uma pintura de 1997, também agora exposta e que genericamente pertence a um conjunto conhecido como Pinturas brancas, realizadas com todos os tons de branco de que Julião Sarmento [1948-2021] dispunha no seu estúdio. Deste mesmo ano de 1997 data a sua representação de Portugal na 46.º Bienal de Veneza. Com curadoria de Catherine David, esta exposição é a primeira desde a sua partida, no ano passado, e em cuja organização ainda interveio activamente. A exposição reúne trabalhos fundamentais e que vão pontuando um percurso artístico que se cruza, de modo mais evidente ou mais discreto, com aspectos do seu percurso vivencial.
Crítica — por Sérgio Fazenda Rodrigues
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A exposição to go to. — Jorge Queiroz, Arshile Gorky, em exibição na Fundação Calouste de Gulbenkian, reúne trabalhos dos artistas Arshile Gorky [Khorkom, Arménia, c. 1904 — Sherman, Connecticut, 1948] e Jorge Queiroz [Lisboa, 1966], e adopta como título uma capicua que invoca a ideia de deslocação. A deslocação, ou a fuga, é algo que caracteriza a natureza das obras apresentadas e que enquadra um conjunto de singularidades estabelecidas entre os dois artistas, servindo de mote à exposição. Partindo de um convite lançado em 2019, com o apoio da curadora Ana Vasconcelos, Queiroz concebeu um diálogo entre uma selecção de obras suas, algumas especificamente desenvolvidas para esta exposição, e um conjunto de obras de Gorky, provenientes do acervo da Fundação. Os adiamentos sofridos permitiram que a exposição integrasse obras da colecção Gulbenkian, obras da coleção da Diocese da Igreja Arménia de Nova Iorque [Oriental], em depósito na Fundação, e ainda uma obra cedida pelo Museu Tyhssen-Bornemisza [Madrid], conhecida como a última pintura do artista arménio.
Crítica — por Isabella Lenzi
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O universo fotográfico do artista Mauro Restiffe [São José do Rio Pardo, 1970] é de uma generosidade tal, que saímos desta sua exposição individual a julgar que realmente o vamos ver Amanhã de Manhã, como se já fizéssemos parte da sua esfera íntima. Ocupando dois andares, as 69 fotografias seleccionadas foram captadas entre 1996 e 2021, formando um conjunto em parte alinhado com o verão que agora se aproxima. Corpos seminus que repousam preguiçosamente em sofás, camas, redes, cadeiras, na relva ou no chão, banhistas felizes na praia, em cascatas, em saunas ou em barcos. Ao longo da exposição, vamos revendo várias caras de pessoas próximas ao artista, que reconhecemos também através dos lapsos de tempo entre os momentos retratados, apesar de não haver uma ordem cronológica. Seguimos antes uma espécie de montagem mais cinematográfica, porém sustida por um tempo não-linear.
Crítica — por Isabel Nogueira
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Esta rubrica da Contemporânea elege exposições circunscritas a um tempo e lugar específicos. Um dos objectivos é mapear o cenário artístico da cidade, identificar tendências de fundo e reflectir sobre as propostas escolhidas. No RoundUp #5: 48 artistas, 48 anos de Liberdade @ MAAT; Words Don’t Come Easy — Rui Calçada Bastos @ Galeria Bruno Múrias; Escola de Libertinagem @ Galeria Francisco Fino.
Entrevista — por David Silva Revés
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"É uma coisa simples. Quando digo que algo me lembra pintura o que quero dizer é que estou a olhar para algo que me faz querer pintar, ou que de forma instantânea me lembrou pinturas que vi, que fiz, ou que quero fazer. Isso acontece mais quando estou em períodos em que passo muito tempo a trabalhar. Se estiver a pintar flores, por exemplo, quando saio do atelier e passo pelo parque, muitas das plantas que vejo parecem-me feitas de tinta." A Contemporânea conversou com João Gabriel a propósito de Almost Blue, a sua primeira individual na Alemanha. Com curadoria de Nuno Brito da Rocha e Benedikt Johannes Seerieder, a exposição estará patente até 2 de Outubro na Kunstverein Braunschweig.
Entrevista — por José Marmeleira
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"Overlapses, Riddles & Spells", apresentado no contexto da BoCA 2021, é um projecto concebido por Andreia Santana que contempla uma instalação inédita com obras de vidro e ferro acompanhadas por duas projecções de vídeo, concebido em colaboração com Vânia Doutel Vaz, António Poppe e João Polido. A instalação funciona como um espaço híbrido e mutante accionado através de performance, poesia e som. O filme apresentado na Solar foi desenvolvido no âmbito de uma Residência Artística na Solar: Galeria de Arte Cinemática, Curtas Vila do Conde, com a coparticipação da Normax [Fábrica de Vidros Científicos] que disponibilizou o seu espaço para as filmagens. José Marmeleira conversou com Andreia Santana sobre esta singular proposta.
Crítica — por José Marmeleira
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Pedro Henriques é um artista de quem, habitualmente, só temos notícias, quando realiza exposições ou participa em exposições. Não se afirma que essa é a única actividade a que deve aspirar, mas certamente que ninguém ousará questioná-la. É importante. Pedro Henriques faz e mostra obras. Assim tem sido, pelo menos, desde 2014, quando venceu com Lúcia Prancha, o Prémio Novo Banco Revelação 2014. Desde então recortam-se exposições na Galeria Pedro Alfacinha "Sidewinder", em 2015, e "Solid State Drive", em 2016, um projecto desenvolvido no espaço Oporto, em Lisboa, que contou com a colaboração de Alexandre Estrela, ou em 2018, "Birbante", com a curadoria de Nuno Faria no espaço Quartel, em Abrantes.
Crítica — por José Marmeleira
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E paulatinamente, no Centro de Artes Visuais, em Coimbra, o ciclo de exposições "Museu da Obsessões" foi resistindo aos obstáculos. Sabemo-lo, não foram poucos e não foram menores. E, no entanto, não foram suficientes para ferirem, com gravidade, o projecto. Passados dois anos, com a curadoria de Ana Anacleto e o apoio de uma equipa fiel e atenta, construiu-se uma história da qual fazem parte exposições e obras de Noé Sendas, Henrique Pavão, Horácio Frutuoso, Tatiana Macedo, Tris Vonna-Michell e Catarina de Oliveira. A estes nomes juntam-se agora Ana Santos e Hugo Canoilas, compondo um elenco que permanece aberto, espelhando uma a linha de programação delineada.
Crítica — por José Marmeleira
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Migrantes são bem-vindos do artista argentino Gabriel Chaile na Kunsthalle Lissabon tem, desde logo, uma virtude. Traz, à esfera local das artes, a pertinência da participação, da sociabilidade e da vivência comunitária na condição de elementos constitutivos de uma exposição e de uma obra. Portanto, coloca em debate questões que não sendo inéditas entre nós, nunca foram as dominantes. Gabriel Chaile vive em Lisboa, em cujo contexto artístico e cultural se integrou há vários anos. Na cidade, já realizou exposições e fundou espaços independentes, mas a sua intervenção e vivência no tecido social [e nas relações que o formam e transformam] não se restringe ao campo artístico. Muitos dos seus projectos incluem a partilha de histórias, música e culinária.
Entrevista — por Carolina Pelletier Fontes
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Filipa Correia de Sousa e António Neves Nobre co-fundaram o espaço Uppercut em 2019 quando surgiu uma vontade mútua de dar a conhecer ao público obras que consideram fundamentais para o contexto da arte contemporânea. Este espaço, independente e sem fins lucrativos, concebe a sua programação mediante três premissas muito distintas: o diálogo entre diferentes gerações de artistas, a colaboração entre curadores/artistas convidados e a mostra de trabalho inédito de artistas consagrados. Com morada permanente no centro de Lisboa, e uma ampla e convidativa montra, o Uppercut surgiu de uma adaptação temporária do atelier do António para um espaço expositivo. Com a necessidade de se expandir e assumir contornos multifacetados, contam já com 9 exposições no seu reportório e uma agenda preenchida para pelo menos mais um ano.
Entrevista — por Gisela Casimiro
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Ao visitar a exposição “Interferências”, no dia da sua inauguração, em Março de 2022, foi notória a presença de visitantes negros. Notória como se, não há tantos anos quanto isso, Kiluanji Kia Henda não tivesse desafiado convenções e colonizações ao fotografar uma série de jovens no Padrão dos Descobrimentos. Agora, existem convites, os espaços abrem-se, e o que era transgressão renova-se em disrupção. Ao longo da Primavera e Verão deste ano, exposições, oficinas, debates, concertos e festas nos jardins têm reunido em espaços privilegiados e centrais da cidade de Lisboa comunidades anteriormente mantidas a uma certa distância. Pessoas imigrantes, trans, racializadas, ligadas ou não às artes e à cultura, com mais ou menos habilitações, de diferentes graus de precariedade, geografia e classe.
Crítica — por José Marmeleira
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No espaço da Fundação Leal Rios, até dia 30 de Julho, várias obras aguardam os visitantes, compondo uma série de relações de ordem conceptual, visual, estética, formal e plástica. Essas relações aparecem no que poderíamos designar por um ambiente definido. Vinda de cima, uma luz crepuscular e terrosa atribui ao espaço uma qualidade artificial, senão mesmo cénica. Poder-se-ia mesmo falar de um palco que se efectivará mediante a presença do espectador. Caberá a este, afinal, encontrar as tensões, os confrontos, os diálogos que o ambiente torna latente nas e entre as obras. Só assim haverá exposição.
Artigo — por Rômulo Moraes
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O ano é 2022, e nós estamos inadvertidamente fascinados com trabalhos que, em vez de produzir, desperdiçam eficácia. Vídeos em que indianos descamisados constroem piscinas de barro em florestas tropicais; propagandas de jogos de celular operadas por idiotas para desopilar raivas latentes; gatos miando e se amassando para caberem em copos minúsculos; casais pulando de enormes penhascos em direção a águas azul-turquesa. Costumeiramente rentes à primeira camada da atenção, nos vemos fissurados por atividades que não levam a coisa alguma senão a elas mesmas, girando em falso ou correndo atrás do próprio rabo.
Crítica — por Ana Sophie Salazar
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Uma meca energética e ancestral do mundo caribenho, o Haiti, ou Ayiti [terra das montanhas altas], é uma ilha repleta de riquezas espirituais, assim como um bastião de luta e resistência anti-colonial ao longo da história das Américas. Cecilia Lisa Eliceche [Argentina, 1986] e Leandro Nerefuh [Brasil, 1975] partilham um interesse comum por Abya Yala e o Atlântico Negro, e colaboram desde 2018 numa pesquisa profunda para desfazer mitos e enganos que prevalecem sobre este lugar sagrado que é hoje o Haiti, prestando homenagem às heranças culturais que continuam a florescer no país. Através de um programa ambiental [a cargo de Leandro] e de oferendas de dança experimental [a cargo de Cecilia] no espaço das Galerias Municipais — Galeria da Boavista, a dupla traz para o primeiro plano, cientes das complexidades de tal tarefa e com o máximo de cuidado que esta requer, a prática espiritual da ilha — o vodou.
Entrevista — por David Silva Revés
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O dispositivo cenográfico de toda a exposição é muito forte. E há gestos que me parecem muito consequentes e inteligentes, tais como a possibilidade de assistirmos ao documentário Continuar a Viver ou Os índios da Meia-Praia, de António da Cunha Telles, deitados numa espreguiçadeira, ou a projecção de slides da série Portobello, de Patrícia Almeida, assentar sobre um plinto de tijolos, o que realça os efeitos contraditórios e perversos da exploração turística em locais já de si bastante debilitados. No entanto, há também uma certa “coolness” que trespassa toda a exposição, dividenda do aparato estético. Se isso pode ser, em alguns momentos, conflituante com os trabalhos expostos, pergunto se essa tensão não poderá igualmente um sintoma das realidades artísticas e sociais algarvias que são exploradas na exposição.
Ensaio — por Alexander Burenkov
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Uma peregrina com uma indumentária tie-dye e, na mão, um bastão de caminhada talhado a partir de um ramo de árvore leva-me para as florestas de San Cristina, no vale montanhoso de Val Gardena, temperando a viagem com uma vertiginosa mistura de anedotas, observações poéticas sobre a natureza, de uma sensibilidade ecológica e diversas fábulas sobre a fauna e a flora locais. De quando em vez, interrompemos a marcha para nos sentarmos à sombra de carvalhos possantes e beber uma sopa de flores. Mais tarde, ela propõe que me deite sobre o feno de uma iurta de tecido tingido à mão e trabalhado segundo variadas técnicas de eco-estampagem. O rumor meditativo de um regato e as energias naturais circundantes precipitam então um fever dream semântico e sensorial que abre caminho à transformação interior dos participantes.
Crítica — por Sara Magno
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Matéria-Afecto, na galeria NO-NO, em Lisboa, é uma exposição colectiva constituída por uma constelação de obras artísticas multidisciplinares selecionadas pela curadora Susana Ventura e que surge na continuação do trabalho da curadora dedicado a tecer relações entre obras de artistas contemporâneos, a arquitectura do espaço expositivo e o prolífero campo das teorias do afecto. Distribuídos pelos dois pisos da galeria, encontram-se trabalhos de Pilar Mackenna [Santiago de Chile/Portugal], Jong Oh [Coreia do Sul/Espanha], Daniela Ângelo [Portugal], Nora Aurrekoetxea [Espanha], e Keke Vilabelda [Espanha]. A selecção destes artistas destaca-se, à partida, pela diversidade das áreas geográficas de onde são provenientes e, por conseguinte, por uma lógica intrínseca a um mundo globalizado da arte contemporânea que, segundo Lauren Berlant em Cruel Optimism [2011], se pauta por sentimentos de exaustão, indiferença ou desilusão.
Entrevista — por Raquel Moreira
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Esta conversa com João Penalva decorreu ao longo de um ano, entre 2019 e 2020, como parte de um trabalho de doutoramento dedicado à invisibilidade nas práticas artísticas contemporâneas. No sempre reinventado percurso que João Penalva tem construído ao longo das últimas quatro décadas, a invisibilidade é condição da qual retira a matéria do seu trabalho: histórias de vida de pessoas comuns, elementos banais ou quase impercetíveis, como as ervas daninhas a que dedica a instalação Conversando com as plantas selvagens em Hiroshima [1997]. De modo distinto, em filmes como 336 PEK [1998] ou Kitsune [O Espírito da Raposa] [2001], a invisibilidade é utilizada como estratégia para dar a ver sem mostrar, através da não correspondência entre o que se vê, o que se lê, o que se ouve, o que se recorda e imagina, deixando em aberto a multiplicidade de respostas possíveis e a possibilidade de cada um criar as suas próprias ficções, tão ou mais importantes do que aquela que o artista propõe.
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