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Entrevista a Filipa Correia de Sousa e António Neves Nobre

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Carolina Pelletier Fontes

Belén Uriel e Luísa Correia Pereira: Jamais o acaso

 

Filipa Correia de Sousa e António Neves Nobre co-fundaram o espaço Uppercut em 2019 quando surgiu uma vontade mútua de dar a conhecer ao público obras que consideram fundamentais para o contexto da arte contemporânea. Este espaço, independente e sem fins lucrativos, concebe a sua programação mediante três premissas muito distintas: o diálogo entre diferentes gerações de artistas, a colaboração entre curadores/artistas convidados e a mostra de trabalho inédito de artistas consagrados.

Com morada permanente no centro de Lisboa, e uma ampla e convidativa montra, o Uppercut surgiu de uma adaptação temporária do atelier de António Neves Nobre para um espaço expositivo. Com a necessidade de se expandir e assumir contornos multifacetados, conta já com 9 exposições no seu reportório e uma agenda preenchida para pelo menos mais um ano.

Durante uma boa hora de conversa, conversámos sobre o contexto cultural português e as suas idiossincrasias. Filipa e António afirmam que “O Uppercut aparece em resposta a uma crise institucional”. Nomeiam o que consideram ser as as principais falhas no contexto nacional, a começar pela insuficiência de apoios financeiros, a escassez de produção de catálogos raisonnés e, principalmente, o facto de os artistas em Portugal desaparecem após a sua morte. Posto isto, chamam à atenção para a necessidade de uma mudança de paradigma urgente e apelam que se dê continuidade à visibilidade da imensidão de trabalho produzido desde o século passado até aos dias de hoje qualitivamente significativo e que continua a levantar questões da contemporaneidade.

Acrescentam ainda que os artistas históricos e os contemporâneos andam de mãos dadas através de temáticas, de conceitos e de ideias, dando origem a um diálogo muito relevante. Defendem que os artistas considerados históricos, ou consagrados, continuam a ser autores muito importantes para a atualidade, sendo que é imperativo dar a conhecer o seu trabalho e não deixar que caiam no esquecimento ou que permaneçam indiferentes ao público. Sugerem um maior investimento na investigação e documentação da arte a nível nacional de forma a solucionar estas lacunas, uma vez que há historiadores e outros profissionais da área muitíssimo capazes de o fazer. Constatam que “Há espaço para tudo na arte em Portugal, o que não há é dinheiro”, e afirmam que outras pessoas pensam nestas mesmas questões, no entanto apercebem-se de que as iniciativas muitas vezes ficam pelo caminho pela falta de sustentabilidade ou de interesse exterior.

O rumo principal desta iniciativa inclina-se para a produção de novas obras contemporâneas a partir do diálogo com trabalhos “antigos”, o que consideram até à data ter promovido colaborações muito singulares. Debatem ideias de uma forma orgânica e quase imediata no que toca à escolha dos artistas que pretendem conjugar, e reforçam que a abordagem tem sido sempre muito bem recebida. Já tiveram acesso a trabalho inédito, o que torna toda a experiência muito gratificante.

 

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Jamais o acaso, a exposição que pode ser visitada até ao dia 16 de Setembro, junta as práticas distintas de Belén Uriel e Luísa Correia Pereira. Filipa e António já conheciam o trabalho de Correia Pereira, tornando-se convictos admiradores depois de visitarem a exposição A Convocação de Todos os Seres na Culturgest com curadoria de Miguel Wandschneider, que consideram inesquecível. O trabalho patente de momento no Uppercut foi elaborado maioritariamente nos anos 70 quando Luísa Correia Pereira era bolseira da Gulbenkian em Paris.

Existe um encontro estético muito forte entre as duas linguagens visuais nesta exposição, mas Filipa Correia de Sousa concede-nos uma abordagem mais detalhada:

 

“A obra de Luísa Correia Pereira e a obra de Belén Uriel fazem-nos reconhecer esse sentimento primordial de descoberta, de curiosidade e de encanto perante as coisas no mundo, desconstruindo-as, metamorfoseandoas, recriando-as e compondo-as sob novas formas”.

 

Graças ao seu background dedicado à filosofia e à curadoria, Filipa Correia de Sousa tem por hábito escrever propostas interpretativas que acompanham as exposições do Uppercut, sempre que não há um curador convidado.

A maior preocupação do Uppercut será sempre a de remunerar os artistas pelo seu trabalho e pela eventual produção de novas obras. Sendo jovens e fazendo parte do ecossistema artístico, sentem desde cedo na pele a importância da valorização das suas competências de forma a dar continuidade a uma estrutura justa e estimulante. Filipa e António têm uma enorme vontade em prosseguir com o incentivo à total liberdade de criação neste espaço, não havendo restrições dentro do fisicamente possível. Foi necessário um investimento pessoal inicial para conseguir avançar com este projecto, contudo já contam com dois anos de apoio financeiro da Câmara Municipal de Lisboa. Este reforço gere-se exclusivamente para pagar aos artistas e para a documentação das exposições, pontos que consideram preponderantes.

Destacam que a realização das exposições até então foi possível pela grande amabilidade da parte de quem apoia este projecto e concede o empréstimo de obras denominadas de “históricas”. Por isso mesmo, neste espaço conseguiram edificar exposições inter-geracionais que juntaram Catarina Dias e Corita Kent, Ana Manso e Olavo D’Eça Leal, Bruno Cidra e João Hogan, Rita Ferreira e Jorge Varanda, Gonçalo Barreiros e Costa Pinheiro, Armanda Duarte e Fernando Calhau. Ainda num registo de abordagem diferente, mostraram o trabalho de João Queiroz, António Neves Nobre e Igor Jesus. Prevalece a tendência de mostrar artistas portugueses, no entanto a nível internacional já deram ao público a oportunidade de testemunhar o trabalho de Corita Kent — uma freira católica americana, artista e educadora, pioneira da Pop Art, e a primeira artista estrangeira a integrar a programação do Uppercut — seguida agora de Belén Uriel.

Mediante a iniciativa de expor o trabalho de artistas consagrados, e com a crença de que estes se mantêm vivos através da sua obra, já por várias vezes deram a conhecer ao público vertentes plásticas destes autores muito diferentes daquelas a que estamos habituados. Tomamos como exemplo o trabalho de gravura do João Hogan, uma faceta muito diferente da sua obra pictórica, que esteve em diálogo com as peças de Bruno Cidra. Este conjunto de gravuras, que raramente vêm a público, e que foi explorado pelo Centro de Arte Moderna Gulbenkian [CAM] há cerca de três décadas, foi revisitado pelo Uppercut em Abril de 2021.

Assim foi também o caso de João Queiroz, em Novembro de 2020, com um grupo de obras a encáustica, representativas de uma das fases mais marcantes do seu percurso. Quando mostraram o trabalho de Costa Pinheiro, em diálogo com Gonçalo Barreiros [Novembro de 2021], apostaram nas serigrafias dos anos 70. Incorporadas no seu mais emblemático projecto, intitulado “City Mobile”, foi integrado numa coleção privada também em 2021, em virtude da aquisição por parte do Fundação Calouste Gulbenkian.

À medida que foram desenvolvendo este projecto, Filipa e António chegaram à conclusão de que muitos dos artistas nos anos 60 e 70 foram extremamente cuidadosos quanto à edição e identificação das suas próprias obras, o que permite a sua integração em exposições nos dias que correm, assim como catalogação. Num formato paralelo às exposições, e no piso -1 deste espaço, estão disponíveis para venda edições de obras de Catarina Dias, Igor Jesus, António Neves Nobre e João Queirós. Esta iniciativa tem por objectivo o apoio tanto aos artistas como ao Uppercut mediante o incentivo à sua aquisição e difusão, perpetuando a durabilidade destas obras e a possível ambição da sua integração em exposições futuramente.

Enquanto programadores de um espaço cultural, Filipa e António pretendem continuar a abrir horizontes ao mostrar trabalhos mais invulgares de artistas notáveis da nossa história da arte, com a forte convicção de que estes provocam estímulos que desencadeiam uma produção contemporânea muito pertinente. Quanto à rentrée que se avizinha, podemos esperar uma exposição individual de Jorge Molder que se irá concretizar numa estreia inédita e num formato inesperado.

 

 

 

UPPERCUT

 

 

 

 

 

Carolina Pelletier Fontes [Lisboa, 1995]. Concluiu, em 2016, a Licenciatura em Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, na qual se especializou em práticas de conservação e restauro, o que mais tarde lhe permitiu estagiar no Museu Nacional de Arqueologia. Em 2019 realizadou a Pós-Graduação em Estudos de Arte Contemporânea e Curadoria na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 2020 concluiu o Mestrado em Curating and Collections na Chelsea College of Arts, em Londres. Vive e trabalha em Lisboa.

 

a autora escreve de acordo com a antiga ortografia

 

 

 

 

Belén Uriel & Luísa Correia Pereira, Jamais o Acaso. Vistas gerais da exposição na UPPERCUT. Fotografia: Bruno Lopes. Cortesia UPPERCUT.

 

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