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Cecilia Lisa Eliceche e Leandro Nerefuh: Panamérica, lavro e dou fé! Ato 1 – Haiti o Ayiti  

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Ana Sophie Salazar

Uma meca energética e ancestral do mundo caribenho, o Haiti, ou Ayiti [terra das montanhas altas], é uma ilha repleta de riquezas espirituais, assim como um bastião de luta e resistência anticolonial ao longo da história das Américas. Cecilia Lisa Eliceche [Wallmapu, 1986] e Leandro Nerefuh [Brasil, 1975] partilham um interesse comum por Abya Yala e o Atlântico Negro, e colaboram desde 2018 numa pesquisa profunda para desfazer mitos e enganos que prevalecem sobre este lugar sagrado que é hoje o Haiti, prestando homenagem às heranças culturais que continuam a florescer no país. Através de um programa ambiental [a cargo de Leandro] e de oferendas de dança experimental [a cargo de Cecilia] no espaço das Galerias Municipais — Galeria da Boavista, a dupla traz para o primeiro plano, cientes das complexidades de tal tarefa e com o máximo de cuidado que esta requer, a prática espiritual da ilha — o Vodou. 

Uma hibridização entre religiões do continente africano e divindades indígenas, assim como influências cristãs, o Vodou é uma cosmologia que conecta o mundo humano com os espíritos da terra e da água. Um dos papéis principais de xamãs e curandeiros na maioria das culturas indígenas em diferentes partes do mundo é a mediação entre o mundo humano e o não humano, vivendo entre os dois e mantendo o equilíbrio para que possa existir saúde e harmonia em todos os planos. Os sacerdotes de Vodou no Haiti tiveram e têm esse mesmo papel vital de manter uma ordem cósmica e contrabalançar a destruição levada a cabo pelo mundo colonial. 

cristóvão colombo [assim escrito no folheto que tem o texto em português, inglês, espanhol e crioulo haitiano, com algumas variações de conteúdo entre as línguas] chegou à ilha durante a sua primeira expedição em 1492, dando-lhe o nome de Hispaniola, onde se formaram as primeiras colónias europeias, iniciando assim os séculos de exploração, genocídio, escravização, e da violência da economia da plantação. Em 1659, tornou-se uma colónia francesa, São Domingos. Sendo o maior exportador de café e açúcar, era também a colónia mais rica do mundo. Tal como os espanhóis, os franceses também participaram do comércio transatlântico de pessoas escravizadas. Em 1681 havia 2000 escravizados na ilha, e em 1789 meio milhão. 

Houve várias insurreições contra o sistema brutal da escravatura, porém foi uma cerimónia secreta de Vodou na floresta, Bwa Kayiman, convocada pela sacerdotisa Cécile Fatiman [Mambo Iman] em Agosto de 1791, após cinco anos de preparação, que iniciou a revolução pela independência. Nesse conselho de guerra e encontro de dança, foi profetizado que Georges Biassou, Jeannot e Jean-François Papillon liderariam um movimento de resistência e revolta que libertaria os escravizados de São Domingos. A independência foi proclamada a 1 de Janeiro de 1804 pelo africano Jean-Jacques Dessalines, e o nome oficial da nação passou a ser Haiti — o nome indígena Taíno para a ilha.

Na sua primeira constituição, Haiti proclama que quem puser o pé na ilha, é cidadão livre.

 

A Revolução do Haiti trouxe a primeira independência nas Américas, a seguir aos Estados Unidos, e foi uma inspiração essencial para outras lutas anticoloniais no continente. Foi a única rebelião de escravizados que levou à fundação de uma nação sem escravatura e governada por não-brancos e ex-cativos — a primeira República Negra da história. Talvez por ter esse poder e significância, tem sido escondida do imaginário político tanto no continente como no mundo, estando ausente da maioria dos manuais escolares. Surpresos com isso, Cecilia e Leandro decidiram mergulhar nesta história e nas águas profundas do Haiti para recuperar s seus tesouros, tendo passado temporadas na ilha e pouco a pouco juntando peças através da prática e do intercâmbio com várias personalidades, desde Houngan Jean-Daniel Lafontant, fundador do Templo Na-Ri-VéH no Haiti, à pesquisadora e especialista nas culturas afro-diáspóricas nas Américas Egbomi Nancy de Souza (Cici) da Fundação Pierre Verger, que trabalhou com antropólogos haitianos e com o célebre fotógrafo e etnógrafo francês Pierre Verger nos anos 80 e 90, entre outrxs investigadorxs, académicxs, músicxs, artistxs e poetxs citados tanto no folheto que acompanha a exposição como na página do projecto, um repositório de entrevistas, danças e improvisações.

A aproximação dá-se inicialmente pela dança, através do estudo de Cecilia das danças afro-diaspóricas e indígenas nas Américas e como está implícita e implicada a política de corpo e de género nos próprios movimentos. Também existe uma influência significativa das danças tradicionais do Haiti para a dança contemporânea e experimental, surgindo por exemplo na obra pioneira da coreógrafa e antropóloga estado-unidense Katherine Dunham, que desenvolveu a Técnica Dunham a partir de elementos de danças africanas indígenas e afro-caribenhas, incluindo do Haiti, onde chegou pela primeira vez em 1936 e onde voltou sempre por temporadas ao longo da sua vida. Em 1939, Dunham escreveu a sua tese de mestrado sobre danças do Haiti, a qual foi editada pela sua assistente, a coreógrafa, escritora e cineasta ucraniana e estado-unidense Maya Deren. Deren também dedicou grande parte do seu trabalho aos rituais Vodou, tendo filmado, gravado, fotografado e participado em cerimónias. Para Deren, o seu fascínio pela dança e transformação Vodou vinha da necessidade de descentralizar o ego e a percepção do eu. A escritora e antropóloga afro-americana Zora Neale Hurston, por sua vez, viajou para as ilhas caribenhas para estudar rituais na Jamaica e no Haiti, publicando Tell My Horse: Voodoo and Life in Haiti and Jamaica em 1938. Estas referências são também importantes como discursos que combateram a demonização do Vodou nas sociedades ocidentais. 

Os artistas convidados apreciam o contínuo trabalho do Vodou, tal como do Candomblé no Brasil ou da Santería em Cuba, como tendo uma importância cósmica vital, pelo que sentem a necessidade de partilhar com um público que, sendo maioritariamente europeu no caso desta exposição, não só tem conhecimento limitado, mas provém do mesmo contexto que aqueles que activamente oprimiram e quase aniquilaram esta e outras práticas espirituais similares através de cruzadas e evangelizações. Assim como outrora os povos indígenas caribenhos recarregavam as suas energias nas terras elevadas do Haiti, as suas riquezas aqui referenciadas podem alimentar-nos e conectar-nos com uma história que merece reconhecimento e protagonismo. O projecto abolicionista do Haiti é até hoje um projecto radical, de abolição universal, que continua relevante e actual. O Vodou aporta a uma forma de organizar a sociedade que não passa necessariamente pela burocracia institucional do estado-nação. Na sua intrínseca definição de liberdade e direitos, tem um método organizativo que não depende de prisões, escolas, asilos, lares, orfanatos. Não se baseia no controle, vigilância ou imposição da polícia ou do exército. Daí que a força do Vodou ainda sustente a ordem da sociedade na ilha, apesar dos ataques e demonização que o Haiti tem sofrido ao longo dos séculos.

 

 

O ambiente montado na galeria da Boavista, apesar de evidentemente não se encontrar no território sagrado de um templo ou terreiro, obedece, porém, a um conjunto de normas e práticas que a dupla transpõe para o espaço. Ao entrar, pisamos uma película azul espelhada que cobre todo o piso, recordando o mar e duplicando os objectos presentes — uma colecção de variados vários Banquinhos Caiçara [2019-22] de madeira e um Céu [2022] feito de inúmeras pequenas bandeiras brancas de papel cetim penduradas no tecto, as quais ao fundo da sala, próximo da escada, se tornam pretas. No centro desta paisagem de céu e mar, uma trilha sonora traz para o espaço o cantar de baleias, essas entidades divinas que têm nos ossos o mapa do cosmos, aludindo também às águas profundas da Baía de Port-au-Prince, onde há baleias que nunca migram e de onde provêm algumas das gravações. 

Há ainda uma corda de missangas coloridas que atravessa um pequeno buraco no tecto e chega até ao chão, formando um eixo físico que liga as “águas de baixo” com as “águas de cima”. Potomitan é a estrutura central por onde os lwa descendem à terra para habitar os corpos dos praticantes durante as cerimónias de Vodou. É uma representação da divindade Papa Legba, o mensageiro dos lwa, através do qual comunicação com o divino se torna possível. Este Poto-mitan [2019] de 7 metros pendurado no tecto do andar de cima provém do Templo Na-Ri-VéH, como alguns outros objectos também, que regressarão ao seu lugar de origem. Para Cecilia e Leandro, terem sido recebidos neste Templo como filhos da casa foi a maior aprendizagem e continuam sendo guiados pelos seus ensinamentos. 

O conjunto de objectos no piso superior constituem uma intervenção artística pelo contexto em que se encontram, num espaço expositivo, mas as pedras, as garrafas, os altares poderiam tornar-se ritualísticos se estivessem em território sagrado e fossem animadas e alimentadas da forma correcta e pela pessoa certa.

Para os praticantes de Vodou, tudo é espírito e a comunicação acontece em rituais que incluem dança, música, sacrifícios, oferendas, comida e orações. Há um acesso directo a informação através de fontes que não são humanas nem obedecem a nenhuma linearidade temporal.

A questão ecológica, por exemplo, pode ser discutida sem mediação, onde as próprias águas e terras comunicam informação. Na galeria da Boavista estão também objectos manuais, desenhos, impressões, bordados, muitos dos quais utilizam Veve, ou desenhos arquétipos que funcionam como símbolos que convocam divindades específicas. Os diagramas estão directamente conectados a uma energia ou princípio, chamados lwa

Estes princípios, interdependentes entre si, são os que guiam a organização social daqueles que praticam Vodou, indo para além do bem e do mal, tendo uma noção muito própria de justiça.

O Amor, por exemplo, pede que sejamos capazes de equilíbrio e harmonia em qualquer situação; a Justiça significa a coragem da honestidade consigo e com os outros, assim como a criação de oportunidades para os outros, sem esperar nada em troca.

Pelos vários cantos da sala, encontramos diagramas coloridos e altares com copos, cascas de ovo, farinha, cabaças, penas e bandeiras. Alguns dos tecidos pendurados estão seguros através de cordas atadas aos banquinhos de madeira, pelo que a mudança da posição do banco ou qualquer movimento de quem se sente nele influenciam a posição das telas. Também os objectos são todos movíveis, o ambiente não é algo fixo ou fechado, mas em constante mutação. Existe uma habitação do espaço tanto pelos visitantes como pela dupla artística, que volta regularmente para significar os objectos e alimentar as energias através de velas, água, café, cuidando de que não se torne uma simples alegoria ou apresentação folclórica. Num dos espaços interstícios, está um altar a Mama Lola [1933-2020], uma eminente Mambo Vodou do Haiti que viveu nos EUA desde 1963 e que com Karen McCarthy Brown escreveu Mama Lola: A Vodou Priestess in Brooklyn [1991]. O público é convidado a acender-lhe uma vela. 

Na sala, numa mesa baixa, para que as crianças também tenham acesso, está um altar caboclo, afro-brasileiro, ligando assim geografias e geopolíticas distintas que partilham histórias análogas de resistência anticolonial. Estes guardiães partem da mesma tradição de reconhecer as forças da terra e os seus donos originários, assim como da necessidade de proteger o território. O Haiti é extremamente rico em ouro, minerais, metais, diamantes, mármore, petróleo, gás e outros materiais cobiçados por diversas indústrias, pelo que não é de espantar que empresas mineiras e ONGs abusivas proliferem. O extractivismo e a poluição pelo plástico estão a contaminar o mar. Os sonares usados para procurar petróleo no fundo do mar estão a impedir a comunicação e navegação das baleias, as quais já estão a sofrer com o estômago cheio de plástico. Também por isso é que as três oferendas de dança programadas ao longo da exposição são dedicadas a essa força das águas profundas. No folheto, Nancy de Souza diz que “as águas do Brasil estão morrendo, porque orixá é assim, se você destrói a natureza, o orixá vai embora”; e Jean-Daniel Lafontant afirma que a “água não é apenas a fonte da vida: é a vida.” 

 

 

Cada uma das oferendas de dança corresponde a uma energia específica. Yene é uma “entidade Austral/Astral que, com sua imensidão, cruza oceanos e navega entre mundos como um farol”, Labalèn é “o grande invisível, mistè, das profundezas dos mares e celestial, primeira astrónoma e poeta cósmica” e Lasirèn “personifica as extremidades cabalísticas da água ou das ondas, tanto aquáticas quanto musicais”. Através da dança, vista como ferramenta diferenciadora e criadora de outros mundos, Cecilia, Emily da Silva [Porto Alegre, 1997] e Admila Cardoso [Cabo Verde, 1996] conectam com as vibrações das forças cultivadas no Haiti e com as suas serpentes, baleias, e múltiplas águas. É um trabalho generoso por parte das artistas que mergulham num mundo antes seu desconhecido e encontram formas de identificação. 

Na performance de Labalèn, de quase 3h, as dançarinas vestiam fatos justos como uma segunda pele, um preto liso, outro preto com veves dourados e castanhos e um terceiro de lantejoulas azuis brilhantes, como escamas de um peixe ou de uma cobra. Começaram no andar de cima, deitadas, ou apoiadas nos ombros com as pernas levantadas contra a parede. Muito devagar foram, uma a uma, descendo pelas escadas, degrau a degrau, arrastando-se, contorcendo-se, por vezes de cabeça para baixo, outras de barriga para cima. Já no piso de baixo, com um som mais ritmado e o canto das baleias mais forte, as performers rastejaram por entre o público, tocando-nos, deslizando pelo chão e roçando paredes e cadeiras, interagindo com o ambiente. A certa altura, Toya, a criança de dois anos de Cecilia e Leandro, reconheceu a mãe e foi ter com ela, que o abraçou e incorporou na dança, até Toya ser pegado ao colo por Leandro, que intervinha pontualmente, controlando o som, mudando objectos de lugar, facilitando seguimentos. Gradualmente, as dançarinas foram-se levantando, sincronizando certos gestos e movimentos, descobrindo a bacia e alguma verticalidade serpenteada. 

 

 

Numa conversa antes da performance, os artistas ressaltaram a importância de manter a reciprocidade com os seus colaboradores, assim como a contextualização de tudo o apresentado. Foi realmente uma pena não ter sido possível trazer dois convidados como estava inicialmente previsto, pois teria dado proeminência ao lugar de fala dos haitianos envolvidos no trabalho. Porém o resgate desta história intencionalmente ofuscada é feito de forma sensível e diligente. A dupla aponta também para a impossibilidade de abarcar toda a pesquisa, sendo esta apenas uma iteração com as suas inclusões e exclusões. O texto no folheto é extenso e contém informação importante sobre o contexto haitiano pós-independência, como por exemplo o golpe de estado orquestrado pela CIA em 1991 que tirou Jean-Bertrand Aristide do poder. Em 2001, Aristide volta a ser presidente e em 2003 envia uma conta de $21,685,135,571.48 a Paris, exigindo a devolução da dívida ilegitimamente adquirida em 1825 e paga ao longo de gerações, tendo sido sequestrado pouco tempo depois. Em 1825, o Haiti foi obrigado a pagar 150 milhões de francos em ouro à França como indemnização pela “perda de propriedade francesa” e compensação pelo reconhecimento da soberania do Haiti, uma dívida que pagaram com um empréstimo feito pela própria França, sendo assim duplicada. Haiti é o único país onde descendentes de pessoas escravizadas pagaram reparações aos herdeiros dos seus antigos patrões. Se já é uma aberração que pedidos de reparação pela escravatura nunca tenham sido levados a sério pelos culpados, não há palavras para descrever as reparações ao contrário por um país que hoje está nas listas dos mais pobres do mundo. 

Agora é um momento tão adequado como qualquer outro para recordar a revolução das pessoas escravizadas de São Domingos, que se libertaram da desumanização que sofriam às mãos da escravatura e do colonialismo.

Continua a ser uma história abafada, apagada, condenada, que importa lembrar sempre, mas particularmente em Lisboa, capital de um antigo império colonial que instaurou o comércio de escravos em 1444 e que continua sem memorial para as suas vítimas. Que esta exposição nos sirva para recordar os espíritos da exitosa Revolução do Haiti que continuam à espera do reconhecimento global que merecem. O nosso respeito e admiração por todxs xs que lutaram no passado e que lutam hoje. Que vivam. 

Na epígrafe do livrete, está citada a activista hondurenha e líder indígena, assassinada a 2 de Março de 2016, Berta Cáceres [1971-2016]:

Vamos a ganar, me lo dijo el río.

 

 

Cecilia Lisa Eliceche e Leandro Nerefuh, Panamérica, lavro e dou fé! Ato 1 – Haiti o Ayiti. Vistas de exposição, Galeria da Boavista, 2022. Fotografia: Luciano Cieza. Cortesia dos artistas e Galerias Municipais de Lisboa.

 

 

 

 

Cecilia Lisa Eliceche & Leandro Nerefuh

 

 

Galeria da Boavista — Galerias Municipais de Lisboa

 

 

 


 

Ana Sophie Salazar (1990) é curadora no Ludwig Forum for International Art, Aachen, escritora e iniciadora da para-instituição Museum for the Displaced. Explora subjetividades nómadas, poli-linguísticas e transculturais, propondo questionamentos inventivos de mapeamentos geopolíticos hegemónicos. De 2016 a 2020, foi Curadora Assistente de Exposições no NTU Centre for Contemporary Art Singapore. Participou no Shanghai Curators Lab (2018), no programa de mentoria Project Anywhere (2020-21), e foi curadora-em-residência (2021-22) no Künstlerhaus Schloss Balmoral, Alemanha. Ana tem um mestrado em Práticas Curatoriais da School of Visual Arts, Nova Iorque, e uma licenciatura em Piano da Escola Superior de Música de Lisboa.

 

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