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documenta 15

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Cristina Sanchez-Kozyreva

A documenta 15 do coletivo ruangrupa — uma alteração de paradigma e uma reconfortante celebração dos movimentos e organizações de raiz, da economia solidária e das vozes do sul global que merece toda a nossa atenção, apesar da gestão imprópria de imagens antissemitas e de falhas na comunicação.

 

 

"De cada qual segundo a sua capacidade, a cada qual segundo as suas necessidades."

Karl Marx

 

 

Durante os dias de antevisão da documenta 15, antes de toda a conjuntura azedar — fruto de várias acusações de antissemitismo e de ações de comunicação despropositadas —, o ambiente era de entusiasmo e inspiração. Tudo começou numa alegre conferência de imprensa que, tal como a festa de inauguração, teve lugar num estádio — quão classe trabalhadora e quanta discrição da parte dos organizadores, diga-se. Aberta ao público em geral e com direito a salsichas vegan ou de carne, cerveja e música ao vivo, a sensação não diferiu muito da de ir a um festival de música: pessoas sentadas no chão ou em bancadas a falar com novos e velhos amigos, sujeitas de quando em vez à fragância de cigarro-de-cravo proveniente das zonas de fumo. 

A visita aos centros expositivos, contudo, implica um ajuste de mentalidade. A mostra abraça a prática da coletividade de forma salutar, proporcionando ao visitante um notável inventário de assentos que compreende toda uma gama de objetos e materiais, como sofás ou tapetes, paletes de madeira ou caixas de plástico, construções trabalhadas ou cadeiras convencionais — em detrimento, porém, da legibilidade dos textos de parede, da contextualização expositiva e de um itinerário inequívoco, com instalação e iluminação de obra à altura do standard museológico. Dito isto, não é difícil para quem visita deixar-se conquistar pela convivialidade e pelos conteúdos desta documenta, sustentada em valores como nongkrong, a palavra indonésia para "passar tempo em conjunto", e lumbung, ou celeiro de arroz, que se refere às práticas de partilha de recursos adotadas pelas comunidades agrícolas da Indonésia; como tal, neste ambiente, aquelas salas de estar e as suas partes integrantes fazem sentido. Percorrer a exposição é como retirar uma série infinita de matrioskas de dentro de outras — só que, ao abri-las, o conteúdo de cada uma, bem como o número de intervenientes, parece aumentar exponencialmente. Na documenta 15, cada coletivo ou artista lumbung participante abre uma porta para outros coletivos e artistas lumbung

Esta noção prospera em várias localizações, como é o caso do Fridericianum — um espaço expositivo central em Kassel cuja construção remonta a 1779 e que, para esta edição, se torna Fridskul [Fridericianum enquanto escola] —, que vê as suas monumentais colunas gregas revestidas do humor seco do artista romeno Dan Perjovschi, consubstanciado em frases e cartoons políticos. No interior do edifício, encontram-se, lado a lado, vários conjuntos de documentação relativos às práticas e situações atuais de coletivos oriundos de praticamente todos os continentes — o ruangrupa sublinha que uma das prioridades desta apresentação passa por destacar práticas correntes, e não tanto por criar arranjos ad hoc para Kassel. E bem parece que os coletivos poderão, igualmente, estar ali alojados. O andar de baixo é ocupado, em parte, pelo RURUKIDS, um espaço aberto próprio para as crianças brincarem, conviverem e interagirem com a arte, o som e por aí adiante; não nos demorámos por aqui, mas valorizo o gesto — as crianças são o futuro, afinal de contas. Na ponta oposta, igualmente aparentada a alguma área de recreio, encontramos a Gudskul, uma organização pedagógica/um espaço artístico criado em 2018 por três coletivos de Jacarta, entre os quais se conta o ruangrupa.

A ação mais radical levada a cabo pela documenta passa não por expor arte impactante ou chocante mas sim por exaltar uma economia solidária e as práticas correntes daqueles que nela participam — e que não desfrutam da mediação de, por exemplo, uma superstar da arte contemporânea — e que, não obstante a falta de meios que enfrentam nas respetivas geografias, centram as suas atenções num conjunto de temáticas do foro social e humano. Isto não é o Burning Man nem a Comuna de Paris nem o Movimento Não Alinhado; ainda assim, o neolumbung está socialisticamente presente.

No andar de cima, podemos assistir a uma série de filmes — películas de arquivo e produções mais recentes — numa secção comissariada pela Komîna Fîlm a Rojava [Comuna Cinematográfica de Rojava], um coletivo de cineastas de Rojava, no Norte da Síria. O propósito do coletivo, fundado em 2015, é usar o cinema para consciencializar e educar, empoderando desta forma as comunidades locais. Este núcleo torna-se ainda mais pungente se se atentar na relação traumática que aquela região autónoma tem com o medium cinemático, tomando em consideração o incêndio de origem suspeita que, em 1960, em Amuda, reduziu a cinzas uma sala de cinema na qual se encontravam mais de 280 crianças. Além disto, a falta de investimento na cultura e os consecutivos conflitos políticos [a assimilação por parte do estado sírio, a ocupação por parte do Estado Islâmico] levaram ao encerramento de todos os cinemas da região em 2011. Esta situação contribuiu para o declínio da cultura e dos costumes locais, que se arreigam sobretudo nas tradições orais e na música — por exemplo, cantar por ocasião de uma miríade de acontecimentos de vida, das colheitas aos casamentos, passando inclusive pela cozedura do pão. Os documentários e trechos musicais que gravei [alguns sombrios, outros mais engraçados, mas todos muito bem feitos] valem a pena por si próprios. O coletivo também apresenta um programa no Gloria Kino, uma casa de cinema independente em Kassel, juntamente com outro programa comissariado pelo excelente coletivo Subversive Film — composto por investigadores, curadores e cineastas que, a partir de Ramallah e Bruxelas, explora películas históricas relacionadas com a Palestina, e a conservação e investigação cinematográfica.

Entre os restantes coletivos, contam-se a Siwa plateforme, um laboratório artístico fundado em 2011 na precária cidade tunisina de Redeyef — casa de uma das maiores bacias de fosfato em todo o mundo, dizem-nos — que se concentra na promoção do desenvolvimento social. Composta por mais de quarenta colaboradores, a Siwa apresenta relatos escritos de injustiças vividas, instalações, filmes e sons, com o propósito generalizado de ligar este território marginalizado ao resto do mundo via Kassel. Nas suas imediações encontra-se o Project Art Works, uma organização sediada no Reino Unido que apoia e promove produções artísticas realizadas por praticantes neurodivergentes [e que, inclusivamente, foram finalistas do último Turner Prize]. Aqui, a organização recria o seu estúdio de Hastings, numa mostra dinâmica [sobretudo composta por pinturas e trabalhos sobre papel] que supostamente se vai desenvolvendo ao longo do tempo. Em redor, vemos expostos os projetos correntes de investigação de coletivos como o Asia Art Archive, de Hong Kong, os Archives des luttes de femmes en Algérie [Arquivos das Lutas das Mulheres na Argélia] e The Black Archives [que documentam a história dos movimentos de emancipação e das pessoas negras na Holanda], eminentemente centrados na forma do arquivo.

 

 

1. documenta fifteen: Friedrichsplatz, Richard Bell, Embassy Talk 2022, vista de instalação. Fotografia: Nils Klinger

2. documenta fifteen: OFF-Biennale Budapest, Ilona Németh, Floating Gardens [Future Garden, Healing Garden], 2011-2022, vista de instalação, Bootsverleih Ahoi. Fotografia: Frank Sperling

 

 

Espalhadas pelos variados espaços de convívio do Fridskul, também se apresenta um conjunto de obras realizadas por artistas individuais [e respetivos colaboradores, claro]. Por exemplo, vê-se uma série recente [peças de 2022, na sua maioria] de pinturas figurativas da autoria do artista e ativista aborígene australiano Richard Bell, mostrando manifestantes seus conterrâneos a envergar cartazes com frases como "We Want Land, Not Handouts", ou "Why Pay to Use Our Land". A temática condiz com a instalação de tendas à entrada da Fridskul intitulada Tent Embassy [2013–presente], também da sua autoria, e inspirada na Aboriginal Tent Embassy, uma tenda de protesto que, já desde 1972, está firmemente instalada à frente do Parlamento australiano, em Camberra. Também ali se encontram as coloridas tapeçarias figurativas de Małgorzata Mirga-Tasa, uma artista e ativista polaco-romena [representante da Polónia na edição deste ano da Bienal de Veneza] que nos apresenta cenas de celebração do quotidiano romani, procurando assim desafiar os estereótipos negativos que em toda a Europa são habitualmente associados àquela comunidade. As suas peças integram um grande conjunto de contribuições realizadas pela OFF-Biennale Budapest, uma organização independente fundada em 2015 na Hungria cujos projetos artísticos se podem ver aqui e na margem do Rio Fulda, no Bootsverleih Ahoi [sendo este descrito como "um espaço que oscila entre os conceitos de recreio, ferro-velho e local de construção", o que parece adequar-se ao que se vê]. Na cave, a cineasta e pedagoga usbeque Saodat Ismailova — bem como os dezoito artistas do Cazaquistão, do Quirguistão, do Tajiquistão e do Usbequistão que convidou — ocupa outros diversos espaços-cave com uma instalação intitulada Chilltan, em referência uma figura metamórfica e curandeira espiritual da Ásia Central. Incluindo texto sobre papel e em ecrã, sinistras cortinas de seda, almofadas usbeques polícromas e diversos filmes, também apresenta narrativas e símbolos arreigados no xamanismo e no animismo folclóricos, como é o caso do conto de Bibi Seshambe [a Cinderella da Ásia Central, se quisermos — uma das muitas Cinderellas espalhadas pelo mundo], árvores dos desejos, tamboriladas xamânicas potencialmente hipnóticas e práticas tradicionais de curandeirismo.

 

 

documenta fifteen: Pınar Öğrenci, Aşit’/Avalanche / Lawine, 2022, vista de instalação, Hessisches Landesmuseum, Kassel. Fotografia: Nicolas Wefers

 

 

A viagem pelo tempo e pela geografia continua, associada a temáticas como a autodeterminação indígena, a recuperação de tradições ancestrais, mas ativas, e a resistência a partir dos bastidores — a resistência contra o capitalismo, o pós-imperialismo e o pós-colonialismo. No Hessisches Landesmuseum, Aşît [2022], filme de Pınar Öğrenci, enfeitiça o visitante ao servir-se de uma amálgama assombrosa de paisagens das montanhas nevadas da cidade de Müküs [localizada no Sudeste da Turquia, junto à fronteira com o Irão] e de numerosas imagens de arquivo e cenas do quotidiano dos seus habitantes. Embora, hoje em dia, Müküs seja sobretudo habitada por comunidades curdas, até ao genocídio arménio de 1915 fora comum ouvir-se arménio, curdo, farsi e árabe nas ruas da cidade. Outrora o berço da civilização arménia [e do Reino de Urartu, que a precedeu], esta localização encerra em si um conjunto de tradições zelosas do natural, contando-se entre as quais a semeadura de nogueiras quando do nascimento de cada bebé menino [infelizmente, hoje, as árvores são sinal de azar]. Acompanhado da voz comovente do cantor folk Hayrik Mouradian, o filme de Öğrenci funde beleza e tragédia, tocando nas feridas que, ao longo do século XX, foram infligidas nesta localidade, onde, porventura, o xadrez terá sido a única escapatória. No mesmo espaço, no andar de cima, o FAFSWAG, coletivo fundado em 2013 na Nova Zelândia e composto por artistas LGBTQI+ maori e oriundos dos territórios do Pacífico, apresenta a instalação de realidade aumentada Atua. Titularmente relacionada com as figuras divinas do submundo dos sistemas cosmológicos pan-pacíficos, a instalação desvenda aquelas mesmas divindades, que partilham fragmentos das suas histórias com os visitantes — estes, de tablet na mão.

 

 

documenta fifteen: Agus Nur Amal PMTOH, Tritangtu, 2022, vista de instalação, Grimmwelt, Kassel. Fotografia: Nils Klinger

 

 

Diretamente de Samatra para o Grimmwelt Kassel, a intervenção de storytelling moderno do performer, pedagogo e artista Agus Nur Amal PMTOH, mediada por objetos domésticos, é um destaque da documenta 15. No centro da sua obra encontra-se o teatro, a colaboração como meio para curar o trauma e restituir a paz. As suas construções caleidoscópicas e os seus palcos televisivos — inteiramente feitos pelo artista — conjugam um sem-número de detalhes lúdicos nos quais a poesia e o humor se dispõem ao serviço de um conjunto de atividades de empoderamento comunitário. O artista trabalhou com os alunos das escolas de Kassel em torno de assuntos como a poluição do rio da cidade e o sentimento de desespero perante o que o futuro nos reserva; mas, por exemplo, recuando a 1999–2002, em Jakarta, já se havia juntado a uma comunidade pacifista com o propósito de mediar os confrontos populares em protestos estudantis e tiroteios levados a cabo pelas forças da autoridade [uma sequência de conflitos civis que levaram à queda do presidente Suharto e da sua Nova Ordem]. A sua conjugação de declamações cantadas e vocalizações é de um poder e de um humor marcantes, evidenciando ainda uma espiritualidade — tive a oportunidade de assistir à sua performance introdutória, no quadro da conferência de imprensa — tão sedutora quando eficaz.

Na Hübner areal — primeira vez que esta antiga fábrica de peças de autocarro e comboio é parte integrante da documenta —, vê-se o curador Mirwan Andan [entre outros] a falar com estátuas no filme Smashing Monuments, de Sebastián Díaz Morales. No caso de Andan, o curador conversa com o Monumento Selamat Datang, no centro de Jacarta, uma imponente estátua de bronze de um homem e uma mulher de mãos dadas no ar construída com o intuito de dar as boas-vindas aos atletas estrangeiros que participariam nos Jogos Asiáticos de 1962. De certo modo, Andan anima a estátua através da imaginação e do contexto, perguntando ao casal se planeia mudar-se para a nova capital — a atual capital da Indonésia, sobrepovoada e a afundar-se a uma velocidade alarmante na crosta terrestre, será transferida para o Bornéu num futuro próximo —, e indagando se as figuras descem do seu plinto durante a noite para se deleitarem com o arroz frito das bancas de comida da zona quando ninguém está a ver. 

O entrelaçar de preocupações macro e microeconómicas, abarcando também os seus impactos na vida do cidadão comum, é uma estratégia recorrente nos diferentes espaços da documenta. Tal se testemunha noutra galeria que alberga uma comissão Kassel: Pila [Filas, 2022], uma instalação de cinco canais com projeções de grande escala da autoria da artista e ativista filipina Kiri Dalena, retrata cidadãos filipinos a fazer fila para receber arroz numa despensa comunitária — num país que teve dos confinamentos sanitários mais austeros, acompanhados de medidas punitivas particularmente severas e de testes de covid caríssimos. O filme de Dalena quase se aparenta a uma performance duracional: a princípio, as pessoas estão paradas no escuro [há quem chegue à fila a meio da noite, preparade para longas horas de espera]; e, à medida que o sol nasce, vão avançando. As pessoas aceitaram ser filmadas a dormir ou a falar do dia a dia, trocando dicas para que o arroz dure mais tempo sem se estragar ou falando sobre política, por exemplo, assim gerando uma cena de rua tropical, silenciosa, e compondo uma obra de serenidade que, não obstante, expõe a vulnerabilidade da imprevisível realidade social das Filipinas. Ainda na Hübner areal, encontram-se exposições dentro de exposições do Sa Sa Art Projects, um coletivo artístico fundado em 2010 no Cambodja que reaproveitará parte do financiamento cedido pela documenta 15 para construir um estúdio comunitário em Phnom Penh; do coletivo indonésio Jatiwangi art Factory [JaF, fundado em 2005], que, trabalhando sobretudo com barro, nasceu da necessidade de revitalizar uma região que vai resistindo a um sem-fim de agitações económicas; do Festival sur le Niger [fundado em 2009 no Mali], o maior evento do género na África Ocidental, com um envolvimento regional a nível cultural, económico e social; da Trampoline House [2010–2020, tendo depois retomado atividade em 2022, ainda que em menor escala, graças à documenta 15], porto seguro para refugiados na Dinamarca; do coletivo BOLOHO, de Guangzhou, cujo "modelo de negócio se funda na amizade"; e de outros.

 

 

documenta fifteen: Atis Rezistans | Ghetto Biennale, 2022, vista de instalação, St.Kunigundis, Kassel. Fotografia: Frank Sperling

 

 

Surge depois a apresentação dos Atis Rezistans [Artistas da Resistência], centrada no artista André Eugène [e mais de 35 intervenientes], na Igreja Católica de S. Kunigundis, construída em 1927. Não tendo sido possível concretizar a última edição da Ghetto Biennale [apresentada pela primeira vez em 2009] no Haiti, o coletivo preteriu aquela localização por esta, de uma natureza mais atmosférica, dotando-a de filmes, instalações, esculturas e performances. Transcendentalizando velharias e transformando-as em magníficos objetos alegóricos e vodu dignos de adoração, constroem-se aqui pontes espirituais entre a igreja católica e a presença daqueles. À entrada da igreja, na parte relvada, podemos também experimentar bolachas de barro numa roulotte/instalação proporcionada pelo artista Michel Lafleur e pelos seus colaboradores.

 

 

documenta fifteen: Taring Padi, Sekarang Mereka, Besok Kita [Today they’ve come for them, tomorrow they come for us], 2021, vista de instalação, Hallenbad Ost, Kassel. Fotografia: Frank Sperling

 

 

Por perto, a transformação dos interiores e exteriores da antiga piscina Hallenbad Ost — um edifício da Bauhaus construído em 1929 e encerrado em 2009, e mais um espaço que integra a documenta pela primeira vez por parte do coletivo indonésio Taring Padi [fundado em 1998] — chama a atenção do visitante. Exige-se aqui um apontamento, no entanto: foi este o coletivo que se viu envolvido no segundo escândalo de antissemitismo da documenta 15 — o primeiro teve que ver com a inclusão do coletivo palestino The Question of Funding, acusado de manter ligações com o Boycott, Divestment and Sanctions [Boicote, Privação e Sanções], um movimento liderado por cidadãos palestinos que advogam aquelas mesmas ações contra Israel. Este segundo escândalo parte da obra People's Justice, instalada na Friedrichsplatz: uma faixa de grandes dimensões na qual figuram dezenas de personagens caricaturadas. Pintada em 2002, esta faixa carrega em si a consternação, frustração e raiva sentida pelos então estudantes politizados e artistas-em-devir na sequência da morte de muitos dos seus amigos nos tumultos de 1998. Só foi instalada depois do período de antevisão [o que — tendo eu a experiência habitual de, quando visito exposições pela imprensa e antes da abertura, haver coisas por finalizar — não me parece ter sido premeditado], mas, após a abertura, foi prontamente coberta e logo removida devido a duas representações adversas de judeus e da Mossad. Teria sido, creio, mais interessante alargar a discussão e pensar em quem de facto trouxe imagética antissemita para a Indonésia há cerca de 20 anos — historicamente, as representações antissemitas são muitas vezes importadas pelas potências coloniais e imperiais com o intuito de preencher lacunas educacionais onde quer que aquelas operem. É verdade que — à semelhança do que aconteceu com o álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, em cuja capa quase figurou Adolf Hitler — alguém deveria ter chamado a atenção para a imagética racista, sobretudo tendo em conta o escândalo que originou, mas, pessoalmente, faço parte daquelxs que não veem aqui uma provocação deliberada. Voltando à Hallenbad Ost: o coletivo Taring Padi expõe muitas outras pinturas coletivas, cartazes xilográficos, tabuletas pintadas, faixas e fantoches inspirados no teatro Wayang [instalados no relvado à entrada do edifício como que numa paisagem dramática], abordando assuntos como a transparência dos atos eleitorais da Indonésia, o movimento Black Lives Matter, a corrupção, a poligamia, a violência militarizada, questões relacionadas com os direitos humanos na Papua, o auxílio aos mais vulneráveis e por aí adiante. Cria-se assim um ambiente de extrema envolvência, contando com uma profusão de caricaturas e personagens coloridas muito particulares que se fundem maravilhosamente na polifonia estilística circundante, como que se tratasse de um ser no meio de uma multidão benevolente.

 

 

documenta fifteen: Instituto de Artivismo Hannah Arendt [INSTAR], List of censored Artists, 2022, Fotografia: Nicolas Wefers

 

 

Ainda coexistem outros coletivos no Documenta Halle, edifício construtivista pós-moderno construído em 1992 para a documenta 9. Sediado em Daca, o coletivo Britto Arts Trust [fundado em 2002, gerido por artistas, sem fins lucrativos], com cerca de 140 intervenientes, apodera-se de uma parede de grandes dimensões em Chayachhobi [2022], um mural que agrega cenas de filmes de Bengal em torno da comida, da fome e da guerra; e com rasad [2022], uma instalação-loja de comidas em crochê, cerâmica, metal e bordado, na linha da sua obra centrada no zero desperdício alimentar e dos seus projetos de envolvência política. Ao lado, o coletivo Instituto de Artivismo Hannah Arendt [INSTAR], de Havana, iniciado em 2015 pela artista e ativista Tania Bruguera e empenhado na promoção da literacia cívica e da justiça social em Cuba, apresenta variadas instalações, incluindo uma na qual se elencam os nomes dos artistas e intelectuais cubanos censurados pelas instituições governamentais daquele país. Mais ao fundo, a área ao canto da sala transforma-se num cinema de pufes que exibe as películas excêntricas do Wakaliwood, ou Ramon Film Productions. Criado em 2005 em Wakaliga, um bairro de lata em Kampala, capital do Uganda, e concebido como uma experiência artística e social no campo do cinema, este estúdio, com o seu orçamento reduzido, consegue assumir um carácter épico nas suas produções — tão más que se tornam boas. Trazendo ao mundo filmes em que uma explosão de kung-fu, efeitos especiais ridículos, sangue falso, comédia e ação redunda em narrativas tão violentas quanto divertidas e surreais, consegue, ao mesmo tempo, oferecendo um propósito criativo à população local, manter jovens e adultos longe de sarilhos e das drogas.

 

 

documenta fifteen: Britto Arts Trust, ছায়ািছব [Chayachobi], 2022, vista de instalação, Documenta Halle, Kassel. Fotografia: Nicolas Wefers

 

 

Durante os dias de antevisão, tive a oportunidade de conhecer Werner Kraus, um académico reconhecido especialmente pela sua investigação em torno do pintor indonésio Raden Saleh, pioneiro do romantismo. Kraus contou-me que Arnold Bode, fundador da documenta em 1955, organizara uma exposição de arte moderna europeia, com artistas da Bauhaus como Vasily Kandinsky, que foi apresentada na Indonésia em 1929, tendo inspirado muitos locais e criado ligações entre ambas as cenas artísticas modernas do ponto de vista conceptual. Aquilo que desejo é que consigamos dar continuidade a este tipo de partilhas, atentando em que não se pode responsabilizar as pessoas e demonizá-las ao mesmo tempo. Esta documenta 15 — e sublinhe-se que as minhas palavras não fazem mais do que sondar algumas das grandes apresentações que figuram na mostra, sem sequer referir a ampla programação no campo da música e da performance que a transforma numa autêntica prática e numa efetiva experiência de comunidade — concede visibilidade e reconhecimento a pessoas às quais faltam ambas, tanto no plano internacional como, por vezes, no plano local. Estas vozes são importantes; e, mais do que isso, também trazem deliciosas especiarias e novos sabores para a nossa cozinha de arte internacional, tornando-a, assim, ainda mais interessante.

 

 

documenta 15

 

 

 

 

 

 

Cristina Sanchez-Kozyreva é uma autora com experiência em relações internacionais e estratégia. Viveu na Ásia durante 15 anos. Actualmente trabalha e vive entre Lisboa e Hong Kong. É co-fundadora e editora-chefe da revista de arte Pipeline, com sede em Hong Kong (impressão 2011-2016). Contribuiu, regularmente, para várias publicações na Ásia, Europa e EUA, como Artforum, Frieze e Hyperallergic. É editora chefe da revista digital Curtain Magazine.

 

 

Tradução do EN por Diogo Montenegro

 

 

 

documenta fifiteen: Saodat Ismailova, Chillpiq, 2018, vista de instalação, Fridericianum, Kassel. Fotografia: Nicolas Wefers

 

Imagem de capa: Kiri Dalena, Respond and Break the Silence Against the Killings [RESBAK], ativação de banner, Friedrichsplatz, Kassel. Fotografia: Victoria Tomaschko

 

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