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Salomé Lamas: Gaia

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Sara Castelo Branco

 

Formando uma experiência associada à ideia de liminaridade, o filme Extracção: A Jangada da Medusa (2020) de Salomé Lamas invoca o horizonte dual e latente da pintura de Théodore Géricault, relevando a forma alegórica para tratar o declínio ambiental, isto é, aquilo que se encontra hoje num limite. Esta conjuntura limiar revê-se portanto num entendimento de conceitos como o Antropoceno, que referem um período terrestre em que a human agency, na expressão de Bruno Latour (2014), tem um impacto nocivo no funcionamento dos ecossistemas e da biodiversidade; uma circunstância estimulada por um capitalismo extractivista desregulado e por formas de neo-colonialismo que perpetuam desigualdades sociais, laborais e económicas. Detendo este horizonte de actuação, a exposição Gaia (2021) de Salomé Lamas, no gnration em Braga, apresenta dois trabalhos artísticos que resultam de projectos multidisciplinares diferentes, mas dialogantes entre si: o já citado filme Extracção: A Jangada da Medusa, e a primeira produção de um projecto ainda em desenvolvimento denominado por Gaia (2021). Esta exposição propõe portanto reflectir sobre uma distopia antropocénica, envolvendo a centralidade deste pensamento limiar enquanto forma de passagem e abertura à possibilidade de um outro por-vir.

Em Le Radeau de La Méduse (1819), Théodore Géricault retratou o naufrágio do navio colonial francês La Méduse em 1816, que navegava em direcção à costa africana, levando cerca de 400 pessoas a bordo. A falta de espaço nos botes de salvação fez com que cerca de 150 tripulantes tivessem de se amontoar numa jangada precária, onde se sucederam episódios de fome, suicídio e canibalismo. Através de uma representação empática da angústia e do desespero, mas também da esperança e da sobrevivência, Géricault pinta o momento em que a Medusa avista no horizonte a Argus, a embarcação que resgatará os únicos dezasseis sobreviventes da jangada. O observador é guiado pelos olhares dos tripulantes: orientados para a esperança através de figuras que ascendem à direita na pintura, ou inversamente dirigidos para o desespero pelos corpos que tombam à esquerda no quadro. Embora a representação do mito da Medusa não seja perceptível na pintura de Géricault, ou mesmo na obra de Salomé Lamas, a essência desta figura mitológica está justamente na essencialidade do olhar: o exercício do poder da górgona depende directamente dos olhos, pois quem a olhasse directamente seria transformado em pedra. Por conseguinte, seria justamente o reflexo espelhar que condenaria a Medusa à morte, no momento em que a sua visão se virou contra si mesma. Neste sentido, o olhar confrontado do mito da Medusa, ou o seu direcionamento duplo na obra de Géricault, podem ser relacionados com o filme de Salomé Lamas, na medida em que talvez este embate mortífero do olhar represente a necessidade de confrontação com uma realidade que não se quer ver, e que se desdobra em diferentes prismas.

O filme Extracção: A Jangada da Medusa parece, portanto, propor a urgência de uma forma de reconhecimento pelo olhar, de uma visão mais diligente e menos insensibilizada e anestesiada perante as tragédias contemporâneas.

A presença simultânea de dois estados contraditórios (a esperança e o desespero) na obra de Géricault é concebida através de uma composição pictórica composta por duas estruturas piramidais que se cruzam entre si. Sendo uma espécie de tradução fílmica da pintura de Géricault, Extracção: A Jangada da Medusa tem igualmente como elemento cêntrico uma construção piramidal dupla, constituída por duas pirâmides suspensas uma sobre a outra, cuja forma instalativa e matérias constituintes evocam uma interdependência binária e sistémica entre os hemisférios Norte e Sul, vinculada ao capitalismo extractivista e ao neo-colonialismo. Esta mesma noção de dependência mútua pode também ter uma leitura ecológica, visto que nesta vivência terrestremente comum a acção de alguém influência sempre a existência do outro. A composição fílmica de Extracção: A Jangada da Medusa explora portanto a dinâmica entre o pentágono, a circunferência e o centro, tendo como ponto central esta escultura piramidal tensionada numa tridimensionalidade, que se une a um universo de referências, simbolismos e misticismos vinculados às pirâmides e aos triângulos. Se a pirâmide invertida simboliza a esperança através das representações da água, da terra e do hemisfério sul; a pirâmide vertical reproduz o desespero, flutuando no leite e no carvão mineral (que também cobre parte do chão da exposição), e traduzindo alegoricamente elementos como o fogo, o ar e o hemisfério norte. Durante parte do filme, esta pirâmide vertical é encimada por uma massa de corpos que, amontoados em cima da superfície limitada do espaço piramidal, concebem uma acção coreográfica feita de resistência e tensão, que procura simbolizar as crises sociais contemporâneas envolvidas nos diversos motivos que delimitam as migrações. Esta acção coreográfica é acompanhada por duas vozes: uma voz masculina que, inicialmente, evoca diversos termos ligados às mudanças ambientais (consumo, desperdício, empobrecimento, roubo, extinção, poluição, contaminação, destruição, entre outras), e uma voz feminina que formula elocuções mais ampliadas sobre este mesmo contexto. Extracção: A Jangada da Medusa termina sintomaticamente com o rugido de motores e um aviso alarmante e apocalíptico de saída e fuga – uma enfatização do factor temporal, já simbolizado no formato de ampulheta que as duas pirâmides reproduzem, e que inscreve essa mesma inexorabilidade de um tempo que se esgota.

Acrescentando ao título da pintura de Géricault a ideia multiforme do acto de extrair (geológico, colonial, capitalista ou até mesmo relativo à própria actividade da cineasta), a obra Extracção: A Jangada da Medusa alarga a ideia alegórica do quadro do pintor francês às questões críticas do Antropoceno. Do grego allegoría ("dizer o outro"), a forma alegórica oscila entre sinais explícitos, manifestos e revelatórios, e, indícios obscuros, subjacentes e em latência, representando uma coisa para dar a ideia de outra. A alegoria não representa as coisas como elas são, mas sim uma variação de como elas foram ou podem ser. Deste modo, a obra de Salomé Lamas inscreve alegoricamente o sentido crítico da realidade da pintura de Géricault, apelando à ideia do imediato, do urgente e da sobrevivência perante uma experiência à deriva que se tenta manter à superfície.

Convocando uma dimensão extraterrena associada a diferentes temporalidades, espaços e velocidades, a obra Gaia (2021) tem origem no programa Scale Travels, uma parceria entre o Gnration e o INL: Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia em Braga, que promove a criação artística a partir do cruzamento entre arte e nanotecnologia. A artista comprou, no eBay, um pequeno meteorito, que veio acompanhado por um certificado de autenticidade que alegava que este vinha do Campo del Cielo na Argentina, integrando um conjunto de meteoritos de ferro, datados de 4200 a 4700 anos. O trabalho de Salomé Lamas com o INL resultou na criação de um código QR deste meteorito, instalado no espaço através de uma pequena placa, onde se encontram igualmente os detalhes à escala nanométrica deste corpo mineral. A leitura do código QR conduz a uma viagem auditiva e imersiva pelo possível percurso que o meteorito terá feito até entrar na nossa atmosfera e colidir com a Terra, e que foi gravada em colaboração com um designer de som e vários músicos. A experiência sonora desta viagem é percepcionada sempre de forma individual e singular por cada pessoa através de headphones, separando-o assim momentaneamente daquilo que o rodeia, para exaltar a necessidade de menos ruído e mais silêncio. Se a geologia e a astronomia relacionam-se com as escalas do planetário e do extraplanetário, tanto em termos de profundidade espacial quanto temporal, esta obra trabalha sobre um elemento que pertence intrinsecamente a uma existência maior do que a nossa, ao mesmo tempo que o inscreve num código QR que, de forma paradigmática, é invisível a olho nu. A diferença de escalas, mas sobretudo esta dimensão oculta daquilo que nos rodeia, aparece simbolizada por esta pedra que já assistiu à criação da vida, ao apocalipse, e talvez testemunhe a nossa própria extinção.

Se, além de uma noção geológica, o Antropoceno é um conceito igualmente histórico e cultural, as manifestações e imaginários culturais são cada vez mais alicerçais na construção de novas formas de pensamento sócio-ecológico. Numa forma reflexiva, multivocal e inconclusa, a exposição Gaia de Salomé Lamas parte justamente de uma perspectiva interdisciplinar para conceber uma reflexão em urgência e emergência que procura possibilidades plurais, paralelamente utópicas e realistas.

 

Salomé Lamas

gnration

Sara Castelo Branco é Doutoranda em Ciências da Comunicação/Arts et Sciences de L’Art na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - UNL e na Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne. Mestre em Estudos Artísticos – Teoria e Crítica da Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP) e licenciada em Ciências da Comunicação e da Cultura (ULP). Na área da crítica e da investigação sobre as áreas do cinema e da arte contemporânea, tem colaborado regularmente com textos para revistas, catálogos e outras publicações de âmbito académico e artístico.

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

Salome-3634
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Salomé Lamas, Gaia, vistas gerais da exposição no gnration, Braga. Fotos: Hugo Sousa/gnration 2021. Cortesia da artista e gnration.

 

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