Artigo — por Isabel Nogueira
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Julião Sarmento (1948-2021) partiu cedo. E cedo, porque ainda teria muito para dar à arte contemporânea e às pessoas que dele gostavam. Este texto de homenagem situa-se precisamente entre a história da arte contemporânea — de que foi um notável protagonista — e o assumido afecto pessoal. Nasceu em Lisboa, onde passou a infância. Sem irmãos nem primos para brincar entretinha-se sozinho, ou seja, consigo próprio e com as histórias que ia inventado. Possivelmente aqui surgia a capacidade de criar universo, visão, mundo. Rapidamente o cinema e a literatura se tornavam seus cúmplices. Nunca mais os abandonaria, assim como à música.
Artigo — por Isabel Carlos
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A recente atribuição do Grande Prémio Fundação EDP Arte 2021 foi a motivação para uma selecção de obras e textos que não só mostrassem aspectos menos conhecidos do percurso de Luísa Cunha mas sobretudo que fossem uma cartografia pessoal. E também potenciar o facto da Contemporânea ser uma plataforma digital que permite a inclusão de som, a matéria prima da sua obra. Assim, da primeira performance até à mais recente obra, esta síntese elenca sem desvendar: as casas onde viveu, as pessoas determinantes, as cidades e lugares que foram marcos, as escolas em que aprendeu (Ar.Co) mas também nas que leccionou (Liceu Passos Manuel) ou a praia que tanto preza.
Ensaio — por Eduarda Neves
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Pouco importa a indiferença se tudo é possível. Se quase tudo é possível. Dia e noite. Imaginar que a arte, como todas as coisas, tem o seu próprio movimento de rotação. É ela que há muito tempo nos diz que o mundo, mais ou menos iluminado, mais ou menos obscurecido, precisa de sobreviver. Um espaço livre para os dias que passam. Para não acabar. Os velhos ausentes da Classe Morta, de Tadeusz Kantor, perduram. Levantam-se e sentam-se. Repetidamente. Solidários, carregam as valas. Em diferentes ocasiões riem-se por trás da janela e correm. Um baile. Artistas. As memórias já não se entendem. Surdos, paralíticos, violentados. Posam para a fotografia como os cadáveres nos antigos daguerreótipos.
Ensaio — por Isabel Nogueira
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José Ernesto de Sousa (1921-1988) foi uma figura incontornável e viva no contexto da arte e da vida cultural portuguesas, sobretudo nas décadas de 60 e 70, embora a sua actividade tenha iniciado logo nos anos 40 e se tenha prolongado pelos anos 80, até morrer. Em 2021 assinala-se o centenário do seu nascimento. Foi crítico de arte, cineasta, artista, “operador estético”, jornalista, ensaísta, curador de exposições (responsável, por exemplo, pela representação portuguesa na Bienal de Veneza de 1980, 1982 e 1984), professor (nomeadamente, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, entre 1967 e 1970), cineclubista (fundou, no início dos anos 40, o Círculo do Cinema de Lisboa), catalisador de pessoas e de práticas artísticas.
Ensaio — por Sara Castelo Branco
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Determinando-se no interior de uma prática artística que, nos últimos quarenta anos, tem-se ordenado num questionamento inquieto, desassombrado, crítico e subversivo, a obra de Silvestre Pestana (1949, Funchal, Madeira) ainda é uma das mais singulares e experimentais no horizonte da arte contemporânea portuguesa. Iniciada em meados da década 1960, a obra do artista constituiu um conjunto de trabalhos heterogéneos e prospectivos, que se têm desenvolvido nas estâncias da performance, da poesia experimental, do vídeo, da fotografia, da escultura, da instalação ou da intervenção no espaço público.
Entrevista — por Isabel Carlos
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Conversa a propósito da exposição "Entretecido" | "Interlace" que apresenta o trabalho de 26 artistas que consideram a estética e a política do têxtil. Devido aos múltiplos confinamentos causados pela situação pandémica, passamos cada vez mais tempo online e isolados. A experiência háptica ganha relevância para manter uma ligação mental com o corporal. A exposição "Entretecido" | "Interlace" apresenta e analisa as propriedades materiais têxteis numa tentativa de criar um salto para além da vida imaterial online, ao mesmo tempo que demonstra algumas das ligações que existem entre o reino digital e a vida real.
Entrevista — por Alberta Romano
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Lembro-me perfeitamente de cada uma das chamadas telefónicas que fiz durante o último ano, tal como, há alguns anos, me lembrava perfeitamente de cada uma das videochamadas em que participara. "Faz videochamada!", gritava a showgirl Valeria Marini num dos primeiros anúncios italianos para um telemóvel com câmara integrada. Escusado será dizer que não havia rigorosamente videochamada alguma naquele anúncio — nem naquele, nem nos que seriam mais tarde lançados pela mesma empresa. A qualidade das primeiras videochamadas era tão má, que mostrá-las na televisão teria desencorajado os consumidores.
Entrevista — por Alberta Romano
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Estava literalmente entusiasmada demais para esta visita, porque viria a ser a primeira "não-virtual" em mais de um ano. As coisas em Lisboa já começavam a melhorar, e eu já tinha tido uma data de almoços e um jantar com os meus amigos; mas estar com alguém que ainda não conhecia era definitivamente uma experiência mais entusiasmante, e literalmente mal podia esperar por que esta visita começasse. Infelizmente, não foi fácil de organizar. Até ao dia, só tinha falado com a Iva Lorena, a assistente pessoal da Sara Graça. Foi uma querida em todo o processo: desde o início, tentou organizar o nosso encontro da melhor maneira e garantir que tudo corresse sem problemas. Na manhã da visita ao ateliê, até me ligou a perguntar se eu preferia um café ou um cappuccino (tão amável); mas sim, além disto, não tive exatamente a oportunidade de falar diretamente com a Sara, pelo que não sabia o que esperar dela.
Crítica — por Sara Castelo Branco
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Formando uma experiência associada à ideia de liminaridade, o filme Extracção: A Jangada da Medusa (2020) de Salomé Lamas invoca o horizonte dual e latente da pintura de Théodore Géricault, relevando a forma alegórica para tratar o declínio ambiental, isto é, aquilo que se encontra hoje num limite. Esta conjuntura limiar revê-se portanto num entendimento de conceitos como o Antropoceno, que referem um período terrestre em que a human agency, na expressão de Bruno Latour (2014), tem um impacto nocivo no funcionamento dos ecossistemas e da biodiversidade; uma circunstância estimulada por um capitalismo extractivista desregulado e por formas de neo-colonialismo que perpetuam desigualdades sociais, laborais e económicas.
Crítica — por Sara Castelo Branco
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O primeiro plano do filme Cemitério das Âncoras (2019) de Veronika Spierenburg e Nuno Barroso é o encontro do mar com a terra — o espaço limiar de união e convergência, onde os dois se encontram num ponto comum. Os planos seguintes do filme mostram a paisagem de várias imagens da zona dunar da Praia do Barril no Algarve, onde várias centenas de âncoras foram deixadas, transformando o lugar num depósito vinculado à morte e à obsolescência, e que testemunha a decadência da indústria pesqueira do atum durante o último século. A âncora é o instrumento que mantém o navio estável e imóvel, simbolizando justamente a interdependência e o conflito entre o sólido e o líquido, a terra e o mar.
Crítica — por Cristina Sanchez-Kozyreva
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Peça central da exposição individual de Ilídio Candja Candja Octopus e Miopia, Meditação corporal, 2021, é um altar instalado ao fundo do espaço expositivo — no qual, além desta peça, se apresentam cerca de 20 telas coloridas de grandes dimensões. Sobre uma plataforma posicionada no chão da galeria, dispostos simetricamente como se de um arco se tratasse — ou, nas palavras do artista, com a forma de uma caravela portuguesa, aludindo àquelas que transportaram séculos de escravos africanos —, tijolos de terra, vasos de barro com água, ramos de árvore, flores e velas veiculam silenciosamente um momento de adoração ritualística.
Ensaio — por José Marmeleira
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No catálogo "There will never be a door, you are inside — Works from The Coleção Teixeira de Freitas" há duas frases que servem de prólogo ao presente texto: a primeira é atribuída a Sara de Chiara: “o colecionador é, ao mesmo tempo, um voyeur e um viajante. Na sua mente, imaginar pode ser análogo a vaguear”. A outra pertence ao colecionador Teixeira de Freitas que, na entrevista à historiadora de arte italiana no mesmo catálogo, diz que “colecionar é uma mistura de ser obsessivo e amar o que se faz”.
Crítica — por Cristina Sanchez-Kozyreva
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Cut Down The Middle reúne mais de 20 obras que exploram, de forma subtil, a monotonia do tecido urbano e trazem à luz gestos, emoções e pensamentos de uma infimidade apenas aparente através de uma variedade de media, incluindo vídeo, instalação, gravura, escultura, aguarela, som, performance e tinta sobre madeira. Partindo de um conjunto recente de trabalhos realizados por João Vasco Paiva, a exposição dá corpo a uma série de diálogos entre aquelas obras e as de diferentes artistas com quem Vasco Paiva tem vindo a colaborar ao longo dos últimos dez anos, tais como Heman Chong, Ramiro Guerreiro, Ko Sin Tung e Magdalen Wong.
Crítica — por Susana Ventura
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Permitam-me que transgrida, neste texto, a linguagem formalista da crítica de arte, começando por confessar que tenho criado alguma relutância aos discursos curatoriais e expositivos que utilizam a qualificação de “imergir”, como por exemplo em: “Esta é uma exposição imersiva”. O uso tornou-se tão trivial, que parece dispensar qualquer outra descrição, interpretação ou formas de discurso, bastando evocar essa grande figura da linguagem abstracta como substituta não só do objecto, como da própria experiência.
Crítica — por José Marmeleira
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O espaço expositivo da Fundação Leal Rios está transformado numa câmara. Envolve-a meia-luz de uma penumbra artificial, da qual vão aparecendo, nas paredes, silhuetas iridescentes de esferas. Vistas de perto, assemelham-se a buracos, a halos, a anéis, a objetos oculares ou óticos. Embora imóveis, sugerem estados instáveis, gasosos, mutáveis. Dir-se-ia que têm volume, não fosse o facto de serem desenhos feitos a carvão sobre alumínio. Vibram, entre e para lá dos contornos. Em Um esqueleto entra no bar, este é o nome da exposição de Paulo Lisboa, os desenhos voltam a tomar a forma de projeções.
Crítica — por José Marmeleira
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O objectivo dos dois curadores, Sara António Matos (directora do AMJP) e Pedro Faro, foi mostrar, tornar públicas algumas das aquisições realizadas pela Câmara Municipal de Lisboa e pelo Atelier-Museu Júlio Pomar (AMJP). Resumindo, esse é o princípio de Flora, como também foi o da exposição Aquisições 2016-17, realizada há três anos no Torreão Nascente da Cordoaria. Mostram-se, portanto, dois trabalhos: o dos artistas e das comissões designadas pelas instituições para a aquisição das obras.
Crítica — por José Marmeleira
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No Museu Municipal de Faro, uma exposição colectiva dá a conhecer a colecção de fotografia do Novo Banco, reagindo ao espaço que a acolhe, sem se deixar determinar por um tema ou objecto precisos. Apresentar, numa exposição, uma colecção de obras de arte é um exercício incompleto, parcelar. É impossível mostrar tudo e, por vezes, não é possível fazer uma exposição que seja, cabalmente, representativa da colecção. Por outro lado, traduz sempre um exercício criativo de reinterpretação e montagem dos trabalhos seleccionados. Ao curador cabe não apenas mostrar e introduzir obras a um público pouco conhecedor, mas construir uma exposição. E construir uma exposição é compor um texto inédito, desenhar um caminho, que embora temporário, nunca antes havia existido.
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