Ensaio — por Sara Castelo Branco
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Determinando-se no interior de uma prática artística que, nos últimos quarenta anos, tem se ordenado num questionamento inquieto, dessasombrado, crítico e subversivo, a obra de Silvestre Pestana (1949, Funchal, Madeira) ainda é uma das mais singulares e experimentais no horizonte da arte contemporânea portuguesa. Iniciada em meados da década 1960, a obra do artista constituiu um conjunto de trabalhos heterogéneos e prospectivos, que se têm desenvolvido nas estâncias da performance, da poesia experimental, do vídeo, da fotografia, da escultura, da instalação ou da intervenção no espaço público. Esta exploração das potencialidades de diferentes meios tem como referente comum o carácter indisciplinar e insurrecional com que Silvestre Pestana aborda diversas emergências sociais e culturais sob o signo de um hibridismo heteróclito: isto é, pela irregularidade de uma prática incessantemente insubordinada a ordens e preceitos.
Ensaio — por Eduarda Neves
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Pouco importa a indiferença se tudo é possível. Se quase tudo é possível. Dia e noite. Imaginar que a arte, como todas as coisas, tem o seu próprio movimento de rotação. É ela que há muito tempo nos diz que o mundo, mais ou menos iluminado, mais ou menos obscurecido, precisa de sobreviver. Um espaço livre para os dias que passam. Para não acabar. Os velhos ausentes da Classe Morta, de Tadeusz Kantor, perduram. Levantam-se e sentam-se. Repetidamente. Solidários, carregam as valas. Em diferentes ocasiões riem-se por trás da janela e correm. Um baile. Artistas. As memórias já não se entendem. Surdos, paralíticos, violentados. Posam para a fotografia como os cadáveres nos antigos daguerreótipos. Esperam o momento justo do fotógrafo e continuam atentos aos vários disparos, a engrenagem da caixa escura é misteriosa. Nunca se sabe o que pode acontecer no outro lado, aquele que nos separa por um fio. O velho da bicicleta chega e grita “atenção”. Arrebatado, dispara.
Crítica — por Sara Castelo Branco
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Formando uma experiência associada à ideia de liminaridade, o filme Extracção: A Jangada da Medusa (2020) de Salomé Lamas invoca o horizonte dual e latente da pintura de Théodore Géricault, relevando a forma alegórica para tratar o declínio ambiental, isto é, aquilo que se encontra hoje num limite. Esta conjuntura limiar revê-se portanto num entendimento de conceitos como o Antropoceno, que referem um período terrestre em que a human agency, na expressão de Bruno Latour (2014), tem um impacto nocivo no funcionamento dos ecossistemas e da biodiversidade; uma circunstância estimulada por um capitalismo extractivista desregulado e por formas de neo-colonialismo que perpetuam desigualdades sociais, laborais e económicas.
Crítica — por Sara Castelo Branco
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O primeiro plano do filme Cemitério das Âncoras (2019) de Veronika Spierenburg e Nuno Barroso é o encontro do mar com a terra — o espaço limiar de união e convergência, onde os dois se encontram num ponto comum. Os planos seguintes do filme mostram a paisagem de várias imagens da zona dunar da Praia do Barril no Algarve, onde várias centenas de âncoras foram deixadas, transformando o lugar num depósito vinculado à morte e à obsolescência, e que testemunha a decadência da indústria pesqueira do atum durante o último século. A âncora é o instrumento que mantém o navio estável e imóvel, simbolizando justamente a interdependência e o conflito entre o sólido e o líquido, a terra e o mar.
Crítica — por Susana Ventura
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Permitam-me que transgrida, neste texto, a linguagem formalista da crítica de arte, começando por confessar que tenho criado alguma relutância aos discursos curatoriais e expositivos que utilizam a qualificação de “imergir”, como por exemplo em: “Esta é uma exposição imersiva”. O uso tornou-se tão trivial, que parece dispensar qualquer outra descrição, interpretação ou formas de discurso, bastando evocar essa grande figura da linguagem abstracta como substituta não só do objecto, como da própria experiência. Os próprios usos da palavra, em campos tão díspares do da experiência estética (não obstante, geralmente, a sedução que encontro em contaminações imprevisíveis), aumentam a minha desconfiança quando aquela é aplicada ao encontro íntimo entre cada um e a obra de arte.
Crítica — por José Marmeleira
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O objetivo dos dois curadores, Sara António Matos (directora do AMJP) e Pedro Faro, foi mostrar, tornar públicas algumas das aquisições realizadas pela Câmara Municipal de Lisboa e pelo Atelier-Museu Júlio Pomar (AMJP). Resumindo, esse é o princípio de Flora, como também foi o da exposição Aquisições 2016-17, realizado há três anos no Torreão Nascente da Cordoaria. Mostram-se, portanto, dois trabalhos: o dos artistas e das comissões designadas pelas instituições para a aquisição das obras.
Crítica — por José Marmeleira
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O espaço expositivo da Fundação Leal Rios está transformado numa câmara. Envolve-a meia-luz de uma penumbra artificial, da qual vão aparecendo, nas paredes, silhuetas iridescentes de esferas. Vistas de perto, assemelham-se a buracos, a halos, a anéis, a objetos oculares ou óticos. Embora imóveis, sugerem estados instáveis, gasosos, mutáveis. Dir-se-ia que têm volume, não fosse o facto de serem desenhos feitos a carvão sobre alumínio. Vibram, entre e para lá dos contornos. Em Um esqueleto entra no bar, este é o nome da exposição de Paulo Lisboa, os desenhos voltam a tomar a forma de projeções.
Crítica — por José Marmeleira
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No Museu Municipal de Faro, uma exposição colectiva dá a conhecer a colecção de fotografia do Novo Banco, reagindo ao espaço que a acolhe, sem se deixar determinar por um tema ou objecto precisos. Apresentar, numa exposição, uma colecção de obras de arte é um exercício incompleto, parcelar. É impossível mostrar tudo e, por vezes, não é possível fazer uma exposição que seja, cabalmente, representativa da colecção. Por outro lado, traduz sempre um exercício criativo de reinterpretação e montagem dos trabalhos seleccionados. Ao curador cabe não apenas mostrar e introduzir obras a um público pouco conhecedor, mas construir uma exposição. E construir uma exposição é compor um texto inédito, desenhar um caminho, que embora temporário, nunca antes havia existido.
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