Ed. 10-11-12 / 2019
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Pensar a escola além da escola

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Soraia Fernandes

A contemporaneidade, enquanto traçado complexo de desdobramentos, experiências e manifestações formais, alimenta-se da própria heterogeneidade e experimentalismo. Pensar numa escola artística, neste contexto, passará por assumir a livre navegação entre disciplinas e linguagens, ou como diria Peter Osborne por assumir a unidade disjuntiva da sua génese. Será, certamente, pensar num lugar de discussão, de produção de pensamento e de criação de múltiplos percursos e linguagens, assumindo sempre a sua condição experimental.

Nesta conversa com Nuno Crespo, crítico, curador independente e director da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, do Porto, ficamos a conhecer as linhas orientadoras deste ambicioso projecto que assume desde 2017.

Soraia Fernandes (SF): Tomou posse em Setembro de 2017. Com formação em Filosofia e Estética, reconhecidas investigações sobre Arte e Arquitectura, Arte, Crítica e Política, é também crítico e curador independente. Como abraçou este desafio e como definiria este projecto?

Nuno Crespo (NC): Os meus interesses de investigação e trabalho reflectem-se no projecto que apresentei à Reitora da Universidade Católica Portuguesa, Isabel Capeloa Gil, como sendo um projecto possível para a escola. Quando me foi dirigido o convite estavam à procura de um perfil não só ligado à investigação académica, mas que essa prática de investigação tivesse ressonâncias e informasse uma prática profissional no campo das ditas artes visuais.

A ideia de escola que começámos a desenvolver tem a singularidade de aliar a investigação e o ensino artístico, do ponto de vista mais tradicional, àquilo que são práticas artísticas contemporâneas.

O nosso projecto concentra-se na articulação de três grandes linhas de desenvolvimento e entre os quais é permitido navegar: um art center, a investigação e o ensino. O art center com programação expositiva muito intensa, inclui ainda as residências artísticas, um plano de edições que vamos lançar a partir do próximo ano, um auditório onde programamos conferências, sessões de cinema, entre outros. O segundo ramo é o da investigação, não apenas do ponto de vista do paper-based-research, porque entendemos que investigação é também investigação artística e tecnológica, assim como é produção de discurso. E, por último, e ao mesmo nível dos outros, o ramo do ensino que age em conjunto com os demais nas licenciaturas, mestrados, doutoramentos.

SF: Os últimos dois anos foram intensivamente ricos em programas de conferências, Masterclasses, conversas, performances, filmes, Summer Schools. Passaram por cá realizadores, artistas, críticos, nomeadamente, o crítico e curador Luiz Camillo Osório, o fotógrafo e crítico britânico David Campany (uma referência incontornável da fotografia mundial com colaborações no MoMA, na Tate e na Whitechapel Gallery), o realizador tailandês Apichatpong Weerasethakul, o fotógrafo André Cepeda, e, também, João Onofre, Salomé Lamas, João Salaviza, entre tantos outros.

A Escola das Artes tem agora uma relação mais assumida com as restantes práticas artísticas?

NC: A escola já tem 21 anos e tem uma história extensa, já passaram por cá muitas personalidades. De facto, desde que começámos a trabalhar esses são alguns nomes, mas não são só esses, também Atom Egoyan, Todd Solondz, Lucrecia Martel, Filipa César, Nuno da Luz, Ana Vaz, Vasco Araújo… foi muito importante intensificar essa abordagem e fazer com que a escola fosse também um ponto de passagem para artistas que estão activamente a desenvolver projectos e a propor novos entendimentos dentro da prática artística. Começámos a convidar artistas porque nos interessa assumir a escola como lugar de produção, investigação e pensamento. É muito importante para nós que a comunidade artística percepcione a escola não só como um lugar de formação e treino de novos artistas, mas também como uma estrutura de produção artística, onde é possível utilizar os nossos recursos, sejam materiais e equipamentos, como o nosso know-how para o desenvolvimento dos seus projectos. Aconteceu isto com os artistas Pedro Tudela, Nuno da Luz e Jonathan Uliel Saldanha. E estamos agora a desenvolver dois projectos muito ambiciosos e estimulantes com o Vasco Araújo e com a Filipa César, para o próximo ano.

Para nós, é muito claro que são esses projectos que de alguma maneira fazem a escola, porque propiciam momentos de trabalho, em conjunto, onde todos podem contribuir, seja a filosofia e a perspectiva mais filosófica, teórica e especulativa, sejam os meus colegas da área mais tecnológica (entendendo tecnologia de uma forma muito ampla), as engenharias que desenvolvem sistemas de análise de movimento e gesto perfomático (que é o caso do André Baltazar), a investigação estritamente pictórica (como por exemplo, o Arlindo Silva que é pintor), até aos nossos colegas que estudam guião ou composição da imagem. Neste contexto, é muito interessante convidar artistas que convoquem, e provoquem, estes momentos em que todos nos debruçamos sobre o problema.

Por outro lado, os artistas permitem-nos desenvolver uma abordagem ao ensino mais informal — uma ideia de ensino por contágio da qual muito gostamos — e os alunos estabelecem com eles uma relação muito livre e desierarquizada. Aprendem ao observá-los, ao acompanhar os seus processos criativos e ao envolver-se nos seus projectos.

O ensino artístico em Portugal tem as suas vantagens e desvantagens. Há claramente uma desvantagem que é a de não conseguirmos ter informalidade e um espírito livre de trabalho em conjunto, como, por exemplo, há nas escolas  de belas-artes alemãs. Um espírito em que o que conta não é a avaliação, mas a capacidade que cada indivíduo tem de desenvolver o seu trabalho com qualidade, profundidade e pertinência.

O que estamos a tentar desenvolver é um projecto que esteja entre o corpo teórico-prático (as competências que o ensino universitário deve garantir aos seus alunos) e, por outro lado, a liberdade criativa, política, pedagógica e artística que consideramos que o ensino artístico deve possuir.

SF: A procura de uma maior transdisciplinaridade, através do convite estendido a fotógrafos, realizadores e artistas para os perfis de Mestrado e Pós-Graduação e para o mais recente Mestrado em Cinema, denota uma preocupação em manter a vertente prática que desde cedo notabilizou a Escola das Artes, mas parece querer também aproximar os alunos da prática autoral e da teoria crítica.

NC: A arte contemporânea é pós-disciplinar e, por isso, não faz sentido falar em disciplinas artísticas quando se navega livremente entre diferentes linguagens. Acreditamos que o domínio do fazer e o sentido técnico é muito importante. Mas, também é importante a capacidade de ultrapassar esses limites técnicos para que cada indivíduo encontre a sua própria voz e modo de fazer. É como na poesia, para desconstruir a linguagem é preciso dominar a linguagem. Para destruir uma técnica, é preciso dominar essa mesma técnica.

O nosso projecto pedagógico alia as duas componentes, não só uma prática conceptual e artística, mas também o domínio do fazer. O desafio tem sido tentar encontrar o balanço correcto entre a necessária experimentação em diferentes disciplinas artísticas e, por outro lado, garantir o grau de liberdade que permite a cada um dos indivíduos navegar livremente entre o que lhe for mais adequado, seja o som, a palavra escrita, a palavra pintada, a fotografia, o que for.

SF: É nesse sentido que falo em prática autoral.

NC: Claro. O nosso ensino é artístico, somos uma escola de artes, e consideramos que as escolas de arte têm que ser os lugares preferenciais para o desenvolvimento de projectos pessoais de indivíduos. Qual é a competência com que um aluno sai de uma escola de artes? Sai com um bom portfolio e com uma boa capacidade crítica, de observação e reflexão.

É este balanço que nós queremos que as nossas ofertas formativas reflictam cada vez mais. Os nosso alunos, e temos cada vez mais percebido isso, podem utilizar a escola como alavanca do desenvolvimento do seu projecto pessoal. Não queremos que sejam bons em nada, a não ser no trabalho que eles próprios querem desenvolver. E queremos que esse trabalho seja excelente! 

 

 

SF: Os protocolos que a Universidade Católica tem estabelecido com instituições, como a Fundação de Serralves ou a Fundação Calouste Gulbenkian, têm como objectivo estimular a capacidade criativa da comunidade académica (alunos e professores), bem como de reforçar, desde cedo, o impacto do trabalho em rede. Como tem sido a partilha de recursos e experiências?

NC: Nós lidamos com um preconceito terrível, que certamente conhece, com tudo o que é académico: a arte académica, a escrita académica, a crítica e a curadoria académica. (Isto daria lugar a outra conversa, perceber porque é que isto aconteceu…). As nossas parcerias com instituições, que consideramos exemplares no conhecimento acerca das práticas artísticas contemporâneas, prendem-se com a necessidade, e vontade, de inscrever o nosso trabalho não exclusivamente no universo académico, mas naquilo que é o universo cultural e criativo contemporâneo. E, por outro lado, criar relações privilegiadas que nos ajudem a fazer circular o trabalho dos nossos alunos e artistas.

As instituições museológicas em Portugal, como a Fundação Calouste Gulbenkian, o Museu de Serralves e a Culturgest, produzem um conhecimento notável que provém do contacto com os artistas e das experiências decorrentes da montagem de exposições, dos catálogos produzidos, etc. A vontade de nos relacionarmos com estas instituições é igual à nossa vontade de nos estendermos à comunidade artística nacional (e do Porto). É uma maneira de criar condições para projectos artísticos de excelência e de os inserir como parte integrante dessa comunidade artística.

SF: A pertinência da programação da Escola, nomeadamente as exposições, os ciclos de Aulas Abertas, as sessões públicas das Summer Schools, têm aproximado a comunidade artística portuense da Escola das Artes. Por outro lado, parcerias com a Câmara Municipal do Porto e a utilização de salas como as do Teatro Rivoli, da Casa das Artes, vêm enfatizar esta vontade de ver a Escola como uma extensão do tecido cultural da cidade.

Isto representa uma vontade de estender a Escola para além da escola e de assumir um papel activo na programação artística do Porto?

NC: Claramente. Esta vontade parte do entendimento que uma escola de artes não pode estar encerrada nos seus magníficos muros da academia, encontrando maneiras de se legitimar apenas dentro da academia. O nosso trabalho tem de ser validado por aqueles que nós consideramos serem os nossos pares, isto é, o circuito artístico e cultural da cidade e da região onde nos inserimos — pelos outros curadores, pelos artistas. Se aquilo que fizermos não tiver circulação, visibilidade ou não gerar pensamento, discussão e crítica, não vale de nada. Uma universidade, e sobretudo uma escola de arte, tem de ter a capacidade de ser relevante e pertinente para além daquilo que é o sistema habitual de legitimação da academia. 

Queremos que a escola represente, para os agentes culturais e artísticos, um espaço de  contágio e exploração. O trabalho artístico alimenta-se das influências, diálogos e ideias que se vão trocando.

SF: Nuno, muito obrigada.

Esta entrevista aconteceu no rescaldo da Summer School, em Julho de 2019, no Porto, que contou com a inauguração da exposição Film Works de Julião Sarmento e com uma breve conversa entre o curador, Nuno Crespo, e o artista. A exposição que ocupou a Sala de Exposições da Escola das Artes até ao dia 11 de Outubro, contou com uma dezena de obras de diferentes formatos, realizadas entre 1975 e 2015. Obras essas que, quando colocadas lado-a-lado, assumem uma narrativa densa e estratificada sobre as referências literárias, cinematográficas e as obsessões do artista. Julião Sarmento e a sua incansável experimentação visual e conceptual, agora enquanto imagens em movimento, comprovam as relações estreitas e difusas entre o cinema e as ditas artes visuais.

Arte & Cinema foi, por isso, o tema da Summer School de 2019, promovida em parceria com o Museu de Serralves e a Câmara Municipal do Porto. Nuno Crespo e Daniel Ribas (professor auxiliar e programador de cinema) delinearam uma semana intensiva de oficinas, marterclasses e projecção de filmes. Atom Egoyan, Todd Solondz, Ana Vaz, João Maria Gusmão + Pedro Paiva foram alguns dos convidados que, por meio das suas oficinas, protagonizaram uma diversidade incrível de abordagens ao processo criativo. O programa paralelo contava com sessões abertas ao público, com projecções de filmes e conversas entre os artistas e os críticos convidados, entre os quais, Guilherme Blanc, Carles Guerra, Daniel Ribas, Sabeth Buchmann e Rainer Bellembaum.

A par destes eventos, a Escola das Artes está já a arrancar com as residências artísticas para o próximo ano lectivo. Depois de Pedro Tudela, Nuno da Luz e do trabalho mais recente de Jonathan Uliel Saldanha, são muitas as expectativas que recaem sobre Vasco Araújo e Filipa César, os próximos convidados a fazer da escola o lugar da sua produção artística.

Este movimento vai-vém, entre a escola e a cidade, ou entre a comunidade académica e a prática artística, não só alicerça as lógicas de pensamento, como as torna diferenciadas e singulares.

Como escreveu José Gil no “Prefácio. O Alfabeto do Pensamento” do livro Diferença e repetição de Gilles Deleuze, “Entramos e saímos incessantemente do campo transcendental diferencial; e, de cada vez, deixamos lá mais um elemento (uma 'letra' do alfabeto do pensamento): as singularidades pré-individuais, a distribuição nómada dos factores individuantes, os diferenciais intensivos, etc. Como se Deleuze repetisse por sua conta o eterno retorno do seu próprio pensamento, nele seleccionando, de cada vez, o mesmo como potência diferenciante do pensamento. Constrói, assim, o 'alfabeto do pensamento', 'aprende', assim, a pensar, começando constantemente no eterno retorno.”

Não existe um ponto de partida absoluto para o aprender. Aprendamos a pensar e a experimentar o nosso “alfabeto”.

Escola das Artes — Universidade Católica do Porto

Soraia Fernandes é arquitecta, curadora e crítica de Arquitectura e Arte Contemporânea. É Mestre em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto e pela Technische Universität Berlin. Concluiu o curso de Mestrado em Estudos Artísticos, com especialização em Curadoria, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Desenvolveu a sua actividade profissional entre Berlim, Basileia e Porto, onde actualmente dedica a sua prática ao projecto de arquitectura e a projectos editoriais e de curadoria. 

 

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Imagens, créditos:

1ª foto: Vista da Exposição Dismorfia de Jonathan Uliel Saldanha, Foto: Carlos Lobo.

2ª foto: Detalhe da Exposição Poetry as an echological survival de Nuno da Luz, Foto: Carlos Lobo.

Slideshow final: Nuno Crespo e Julião Sarmento na Summer School on Art & Cinema 2019, Foto: Nuno Fonseca / Atom Egoyan na Summer School on Art & Cinema 2019, Foto: Nuno Fonseca / Detalhe da Exposição Poetry as an echological survival de Nuno da Luz, Foto: Carlos Lobo / Vista da Exposição Arenário de Francisco Tropa, Foto: Filipe Braga / Vista de Exposição Da Cor Das Cores, Foto: João Ferreira / Vista da Exposição Sombra Luminosa de Mariana Caló e Francisco Queimadela, Foto: Carlos Lobo / Vista da Exposição A Invenção da Memória de João Paulo Serafim, Foto: Carlos Lobo / Vista de Exposição Julião Sarmento. Film Works, Foto: João Pereira. Todas as imagens: cortesia dos artistas e da Escola das Artes da Universidade Católica do Porto. 

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