Ed. 06-07 / 2019
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Alexandre Estrela: Métal Hurlant 

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Sara Castelo Branco

Implicando um acto processual de leitura, a vídeo-projecção Metálica (2018) é formada por uma fotografia projectada sobre um ecrã em cobre, cuja imagem é afectada e distorcida por um efeito flutuante quando se ouve o som de batidas sobre uma superfície metalizada, engendrando a ilusão de que o ecrã vibra e flui com a sonância do batimento sobre o metal. Através deste ecrã que parece manifestar uma condição vital, esta obra realiza-se entre ilusões mentais e perceptivas, como se a imagem intangível da projecção de vídeo adquirisse matéria, sendo possível tocar-lhe e fazê-la mover-se; ou, inversamente, a matéria tangível metalizada do ecrã oscilasse desmaterializada pelos embates compassados sobre ela.

O ecrã em Metálica é ao mesmo tempo janela ilusionista e objecto material, que evidencia a objectualidade e a virtualidade da imagem em movimento. Através da concepção temporal do som e da imagem em movimento, e das suas possibilidades físicas e espacialmente esculturais, na obra de Alexandre Estrela o ecrã solicita frequentemente a sua própria materialidade, transcendendo a neutralidade da sua condição enquanto mero elemento de recepção da imagem. O ecrã enuncia-se portanto enquanto discurso, onde a sua superfície veicula e revela novas relações objectuais e materiais que transformam e reconfiguram as imagens. Porém, este desafio à planura (material e conceptual) da superfície assoma não apenas no sentido literalmente matérico do ecrã, mas igualmente pela ordem subjectiva que este adquire no contacto com o espectador. A tensão entre bidimensionalidade e tridimensionalidade emerge assim não apenas pela particular circunstância objectual dos seus ecrãs, mas também pela expressão subjectiva de algo que contém várias dimensões, que tem diversos níveis de profundidade.

Neste sentido, as instalações de Alexandre Estrela potenciam um espectador que actua perante a dinâmica instável que constitui a imagem, diante das suas múltiplas vibrações.

A contínua indagação de Estrela pelas relações entre imagem e percepção (e como elas são tencionadas entre imagem fixa e em movimento, representação e abstracção, bidimensionalidade e tridimensionalidade) é ubíqua em Métal Hurlant (2019), uma exposição individual do artista, com curadoria de Sérgio Mah para a Fondation Calouste Gulbenkian, em Paris. A exposição reúne nove obras de produção recente — quatro delas inéditas, como a vídeo-instalação Metálica —, onde o metal é o seu elemento fundamental, sendo objecto de tematização e matéria de alguns dos ecrãs, que utilizam superfícies metálicas em cobre ou em alumínio, intervencionadas com pintura, perfuração ou cortes. Esta exposição dá continuidade à prática do artista que, desde meados da década de 1990, tem concebido uma obra que, frequentemente, perscruta os cruzamentos e as tensões entre os mecanismos perceptivos do espectador e as potencialidades dos dispositivos técnicos de imagem, focando-se no vídeo para explorar uma pluralidade de domínios como a neurociência, a física, a acústica, a história do cinema (sobretudo na sua forma mais experimental) ou as artes visuais.

Metálica envolve uma ideia de reenvio que é paradigmática no modo como esta obra trabalha aquilo que o olho, o ouvido e a mente experimentam. Esta vídeo-instalação cria a ilusão de que as batidas gravadas pelo percussionista Gabriel Ferrandini acontecem em tempo directo no espaço e incidem directamente sob a imagem, originando um desfasamento perceptivo entre o que se percepciona e o que é verídico, entre o que se vê e o que se ouve. Esta dimensão sonora da obra — representada ironicamente na imagem pela referência à banda musical americana com o mesmo nome — parece incidir sobre uma dimensão animista, como se o ecrã adquirisse fenómenos vitais através das batidas sobre ele, expelindo assim ruídos ou ganhando movimento. Realizando um jogo ambíguo entre o que se dirige ao ouvido e o que remete à visão, a parte sonora é veiculada nesta obra como um elemento de tensão entre o material e o imaterial — inscrevendo paradoxalmente a própria noção de “estéreo”, que descende da palavra grega stereós, e que significa sólido, sendo uma referência à terceira dimensão, à profundidade que os objectos possuem —, na medida em que o som ilude a mente e parece dar formas e movimento à imagem.

Este efeito imagético oscilatório acontece de outra forma na vídeo-instalação Balastro (2016) que  apresenta várias tentativas de arranque de uma lâmpada florescente. A obra aborda a incapacidade de estabilizar e fixar uma imagem, aludindo assim à sua própria denominação que designa o dispositivo que tem a função dupla de proporcionar uma alta tensão necessária ao arranque da lâmpada e, ao mesmo tempo, limitar a intensidade da sua corrente. A partir de uma imagem que irrompe, desaparece e explode num potencial energético, esta obra concebe visualmente um efeito hipnótico e psicadélico. Esta presença vertiginosa e impulsiva da imagem assoma igualmente em An Index of Metal (2019), uma fotografia feita com um microscópio electrónico de varrimento, que mostra a imagem de ranhuras num disco onde está a gravação de "An Index of Metals", uma música do álbum Evening Star (1975) de Robert Fripp e Brian Eno. Esta imagem faísca assim em uníssono com os sons da peça, trabalhando (embora de forma diferente do que aquela em Metálica) uma relação de (des)consonância entre a imagem e o som.

Retomando Balastro, esta instabilidade lumínica é impelida nesta obra pela presença de uma mancha negra pintada na parte superior do ecrã vertical que reage directamente à projecção — ora aparecendo ora desaparecendo pelo movimento intermitente e flutuante da energia eléctrica da luz. Esta dimensão descontínua do visível e do não-visível é trabalhada de forma diferente em Circuito Integrado (2018), onde uma imagem é projectada num ecrã de alumínio com duas linhas diagonais gravadas, que fazem parte de um circuito completado pelos cabos que suportam o ecrã. Uma sombra no vídeo circunscreve a rota do circuito, funcionando como um interruptor que muda para revelar os sons de cada percurso. Estas duas obras demonstram assim uma transformação do ecrã num elemento que é simultaneamente superfície convencional de projecção da imagem e o dispositivo que a forma ou com a qual dialoga, desafiando assim a imaterialidade da imagem digital projectada ao fazê-la incidir sobre “diferentes tipos de materiais — madeira, papel, vidro, papelão, acrílico, alumínio, cobre — e testa diversos formatos — vertical, oblíquo, inclinado, trapezoidal, perfurado, cortado, gravado — e assim invoca um catálogo completo de géneros, categorias e paradoxos, entre a pintura, o cinema, a escultura e a arquitectura. [1] O ecrã já não é somente um objecto de circunscrição geométrica, mas um campo de gradações materiais, conceptuais e perceptivas. Se a escultura compromete uma visualidade circundante e parcial, onde nunca se consegue deter um olhar inteiro de uma só vez, e onde a imagem está situada num certo meio ambiente material e, portanto, “no espaço” — as obras de Alexandre Estrela parecem igualmente abranger esta dimensão escultural da imagem. Desta forma, embora essencialmente móvel, temporal e imaterial, o filme e o vídeo (este último, igualmente, imaterializado na sua constituição entre pixéis e código digital) reúnem-se aqui com a tridimensionalidade da matéria em volume da escultura.

 

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O ecrã em Alexandre Estrela exerce-se portanto como uma imagem centrífuga, que não se restringe apenas à moldura da imagem, e que além disso encerra em si uma dinâmica perceptiva de carácter ambíguo, paradoxal e ilusório que leva frequentemente a um engano dos sentidos e a uma instabilidade do espectador perante a imagem.

Trata-se de uma dosagem entre realidade e representação, semelhança e diferença — que insiste nas aparências e nas similaridades da imagem, ou nas suas necessárias relações, para chegar à sua verdadeira substância. Solicitando um exercício constante de observação, as obras do artista agem frequentemente a partir de uma implicação dos processos retinianos e mentais do espectador — que é configurado aqui num estado experimental e processivo, na acção da descoberta —, ligando factores externos da visão (a influência exterior sobre os mecanismos neuro-fisiológicos que enganam o olho) a factores internos da visualidade (a experiência construída subjectivamente pelo espectador).

Partindo da designação industrial do latão, a vídeo-instalação Ouro Mouro (2017) consiste num vídeo cuja luz é projectada sobre a fotografia de um tubo de cobre e algumas moedas do mesmo material. Na instalação, a imagem sofre uma transformação lenta no curso da qual os objectos de cobre são lentamente transformados em ouro pela projecção de luz na superfície da imagem, enganando o nosso cérebro ao explorar ironicamente (e mais uma vez nesse limite ténue do que é ou não visível) a ideia pressuposta daquilo que é verdadeiramente ouro. Tal como nas obras citadas anteriormente, a superfície de recepção da imagem é transformada por um movimento de reenvio e expansão da luz. A relação com o metal por via de objectos quotidianos, também surge em Coin Scratch Plate (2019), que referencia o ritual de milhões de utilizadores diários do metro que esfregam as suas moedas em máquinas automáticas de venda de bilhetes. A imagem fixa cintilante de arranhões e dos reflexos na superfície esmaltada é projectada num ecrã de alumínio, revelando um movimento aparente pela tremulação da fotografia e, sobretudo, pela capacidade de reflexão do material.

Contrariando a matéria ténue das superfícies habituais de recepção da imagem (ou mesmo o vidro quebradiço dos monitores), o metal é um corpo forte, sólido e denso, que tem capacidade de ressonância, irradiação e reverberação sonora e lumínica. Trata-se assim de um material que tem eco, reflexo e repercussão — convocando sintomaticamente as noções de reflexão enquanto reenvio, revelação ou mudança de direcção. Estas palavras descrevem parte das experiências dos espectadores perante as obras de Estrela, que são mobilizados por um exercício heurístico, que transforma o acto de visão num elemento dinâmico e consciencioso. Tal como demonstra a exposição Métal Hurlant, é neste intervalo entre semelhança e dissemelhança, materialidade e imaterialidade, fixidez e movimento, que a obra de Alexandre Estrela reconfigura os sistemas de visualidade e os dispositivos tecnológicos, interpelando essa acção mutável e vacilante que constitui a imagem, aquilo que a faz vibrar; pois, tal como anuncia a denominação da exposição, os metais (isto é, os ecrãs e as suas instalações) também uivam, gritam e rugem.

Alexandre Estrela

Fondation Calouste Gulbenkian Paris

Sara Castelo Branco é Doutoranda em Ciências da Comunicação/Arts et Sciences de L’Art na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - UNL e na Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne. Mestre em Estudos Artísticos – Teoria e Crítica da Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP) e licenciada em Ciências da Comunicação e da Cultura (ULP). Na área da crítica e da investigação sobre as áreas do cinema e da arte contemporânea, tem colaborado regularmente com textos para revistas, catálogos e outras publicações de âmbito académico e artístico.

 

Notas:

[1] Tradução da autora da citação de Sérgio Mah presente no texto “Matière, médium, mental”, publicado no catálogo da exposição.

 

Imagens: Alexandre Estrela, Métal Hurlant. Vistas da exposição. Fondation Calouste Gulbenkian, Paris. Fotos: Guillaume Pazat. Cortesia do artista e Fondation Calouste Gulbenkian. 

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