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No centenário de Ernesto de Sousa

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Isabel Nogueira

 

"J’ai enfin le droit de saluer des êtres que je ne connais pas"

 

José Ernesto de Sousa (1921-1988) foi uma figura incontornável e viva no contexto da arte e da vida cultural portuguesas, sobretudo nas décadas de 60 e 70, embora a sua actividade tenha iniciado logo nos anos 40 e se tenha prolongado pelos anos 80, até morrer. Em 2021 assinala-se o centenário do seu nascimento. Foi crítico de arte, cineasta, artista, “operador estético”, jornalista, ensaísta, curador de exposições (responsável, por exemplo, pela representação portuguesa na Bienal de Veneza de 1980, 1982 e 1984), professor (nomeadamente, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, entre 1967 e 1970), cineclubista (fundou, no início dos anos 40, o Círculo do Cinema de Lisboa), catalisador de pessoas e de práticas artísticas. Percorreu vários territórios e até estéticas, numa atitude que entendemos como ecléctica, dinâmica, e sobretudo portadora de curiosidade e de procura do Novo em cada momento.

Inicialmente ligado ao neo-realismo (acabaria por, em 1965, publicar A pintura neo-realista portuguesa), começou por escrever sobre arte na revista Seara Nova, em 1946, a convite de Fernando Lopes-Graça, na sequência de uma exposição integrada na Semana de Arte Negra, na Escola Superior Colonial, que organizou com Diogo de Macedo. Em 1947, abandonaria, já no último ano, o Curso de Ciências Físico-Químicas na Faculdade de Ciências de Lisboa. Foi redactor principal das revistas Plano Focal (saíram quatro números, em 1953) e Imagem (2.ª série, 1956-1961). Pelos anos 70,  Ernesto de Sousa escreveria regularmente noutras publicações relevantes, tais como, Colóquio/Artes (1974-1979), Lorenti’s (1973-1974) ou Opção (1978).

Entre 1949 e 1952, Ernesto obteve um bolsa e estudou cinema em Paris, interessando-se vivamente pelas designadas “novas vagas” e pelo “cinema novo” português, realizando o filme Dom Roberto, apresentado a 30 de Maio de 1962 no Cinema Império, em Lisboa. Nesta época, viajou por Marrocos e pela Argélia, aquando da sua independência, apresentando o seu filme no Festival de Mannheim, e dando início a uma série de crónicas (Cartas do meu Magrebe), publicada no Jornal de Notícias, entre 1962 e 1963, reeditadas em livro (Tinta da China, 2011). Em 1969, iniciava as filmagens de Almada, um Nome de Guerra, apresentando publicamente o filme, pela primeira vez, em Madrid na Fundação Juan March, em 1983. O filme, organizado numa espécie de quadros temáticos/visuais, mostra Almada no seu atelier enquanto trabalha ou durante a realização do mural Começar, ou ainda imagens de um leilão de obras do artista. Na perspectiva de Ernesto, Almada seria uma referência da vanguarda: «Almada, Um Nome de Guerra” (…) é um filme com o Almada e não um filme sobre o Almada. (…) porque efectivamente se trata de UM NOME DE GUERRA» (Arquitectura, Jul./Ago. 1969).

Entre 1966 e 1968, Ernesto de Sousa recebeu uma bolsa de investigação da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar a escultura portuguesa de expressão popular pré-histórica, românica e barroca rural. Nesta temática, publicaria o livro Para o estudo da escultura portuguesa (1965; 1973). A arte popular foi, de resto, outro dos seus interesses. No final dos anos 60, começou a interessar-se vivamente pela vanguarda, pela arte conceptual e pelo conceptualismo, num sentido mais abrangente. Quer dizer, pela vanguarda enquanto categoria/adjectivo, assim como pelos movimentos da neovanguarda internacional, sobretudo pela arte conceptual. Mas também a busca da relação entre a Arte e a Vida pontuou o inspirador percurso de Ernesto de Sousa, independentemente dos formatos, suportes ou conceitos. Ou seja, Ernesto de Sousa incorporou, de maneira inequívoca, uma profunda urgência de ser moderno e de vivenciar, inclusivamente num sentido de partilha e de “Festa”, a modernidade artística do momento. Já em 1968, o próprio escrevera:

«A vida poderá então [num futuro próximo] comparar-se a uma vasta obra de arte, tudo será absolutamente estético» (Oralidade futuro da arte? Colóquio/Artes, Jun. 1989, publicado postumamente). A “Festa” seria o modo de eliminar as fronteiras.

Em 1969, Ernesto de Sousa participou no primeiro festival 11 Giorni di Arte Collectiva a Pejo, em Itália, um evento organizado por Bruno Munari, e conviveu com Ben Vaultier, Robert Filliou, Wolf Vostell, entre outros artistas de vanguarda/”operadores estéticos”, numa procura contínua de comunhão precisamente entre a Arte e a Vida. No mesmo ano de 1969, apresentava no Clube de Teatro 1.º Acto (Algés) o mixed-media Nós Não Estamos Algures, desenvolvido a partir da conferência A invenção do dia claro (1921), de Almada Negreiros, e a instalação/meeting as art Encontro no Guincho, com a colaboração, entre outros, de Ana Hatherly, Artur Rosa, Helena Almeida, Isabel Alves, Jorge Peixinho, Noronha da Costa, incrementando as actividades da “Oficina Experimental” – criada, em 1968, no âmbito do Curso de Formação Artística da Sociedade Nacional de Belas-Artes –, bem como, de suma relevância, um processo de pesquisa ao nível da experimentação de suportes e linguagens, nomeadamente, em torno da arte intermedia.

Em 1972, Ernesto dava início ao ciclo O Teu Corpo é o Meu Corpo, título concebido para agrupar uma série de acções, performances e exposições. Este ciclo incluiu produção gráfica, fotográfica e fílmica, textos e obras mixed-media realizadas entre 1972 e 1988, entre as quais, Luiz Vaz 73, Revolution My Body n.º 2, Tu Cuerpo Es Mi Cuerpo/Mi Cuerpo Es Tu Cuerpo, Olympia, Tradição como Aventura. Aliás, em 1978, Ernesto faria a sua primeira exposição individual em Portugal, denominada A Tradição como Aventura, na Galeria Quadrum, em Lisboa. Mas situando-nos ainda em 1972, o mundo da arte experimental conhecia uma exposição histórica: a Documenta 5, em Kassel, com curadoria de Harald Szeemann. De facto, a quinta Documenta foi uma das exposições colectivas internacionais mais importantes, ou mesmo a mais importante e implicativa do momento artístico que então se vivia, proclamando o “campo expandido” na arte e as suas inúmeras possibilidades, estando inclusivamente na origem do interesse e dos comentários de alguns críticos portugueses. Nesta exposição estiveram presentes Ben Vautier, Claes Oldenburg, Christian Boltanski, Edward Kienholz, John de Andrea, Joseph Beuys, Paul Cotton, Richard Serra, Vito Acconci, entre outros artistas, muitos deles ligados ao movimento “Fluxus”.

Ernesto de Sousa foi um dos primeiros portugueses em Kassel. No âmbito desta visita e na busca do “Diálogo”, Ernesto faria uma histórica entrevista a Joseph Beuys, o “escultor de arte-total”, na época também professor da Academia de Düsseldorf, publicada no jornal República (28 Dez. 1972). E, citando Guillaume Apollinaire, Ernesto de Sousa concluía: «J’ai enfin le droit de saluer des êtres que je ne connais pas». Certamente. Perguntava então Ernesto a Beyus: «Nascemos ambos em 1921, eu conheço-te razoavelmente. Tu não me conheces. Achas bem?». Beuys respondeu: «Acho péssimo». Ernesto continuou: «Consideras-te uma pessoa séria?». O artista alemão respondeu: «Sim, sou uma pessoa muito séria… mas também sou um clown». Ernesto reflectiu então: «Um clown. Sabia Beuys o profundo respeito que eu tenho pelo clown? Tinha que saber. Almada Negreiros também era assim um pouco clown e isso não foi uma das razões menores do meu fascínio, posso dizer do meu amor. Vou mais longe: um intelectual que se preza e que se toma a cem por cento (…) é para mim o último dos patetas».

O contacto de Ernesto de Sousa com as tendências artísticas do momento, e particularmente com Joseph Beuys – “vanguarda hot”, conceptualismo politicamente comprometido –, seria determinante para a consequente divulgação da obra de Beuys ou de Wolf Vostell em Portugal, nomeadamente através de textos e dos mais de 300 diapositivos que trouxe de Kassel e de Darmstadt – cidade depositária de um dos maiores espólios de Beuys –, e que mostrou pela primeira vez no atelier de Eduardo Nery. Numa carta remetida a Ângelo de Sousa (Lisboa, 19 de Outubro de 1972), Ernesto escrevia: «A “Documenta 5” foi para mim o acontecimento mais esclarecedor de uma consciência moderna a que me foi dado participar nos últimos anos: julgo que muito do que vai acontecer nos próximos anos será marcado por estes 100 dias». Com efeito, assim seria.

Uma das mais proeminentes inquietações artísticas dos anos 60 e 70 tiveram que ver com a valorização do processo e do conceito face à obra de arte fechada, o predomínio da experiência estética sobre a actividade artística, a preferência pela obra de arte aberta – na senda de Umberto Eco – em detrimento da obra de arte acabada, a procura de uma totalidade, da provocação, do paradoxal, da contradição apenas superável pelo objectivo, pelo propósito. Ernesto de Sousa observava que o nosso país ainda vivia distante destas novas tendências artísticas e afastado da interdisciplinaridade: «Não se passa nada… Isto é que é um país!!! É a província, um abismo… (…) Só futebol, futebol e o fantasma das touradas!!! (…) Uns a fazerem de “highbrow” nostálgicos, outros cinicamente fazendo as contas à promoção, a promoçãozinha, como diria um bem (?) conhecido personagem do Eça» (Lorenti’s, Maio 1973). Helena Almeida, numa entrevista, em 2000, diria que o meio artístico em Portugal nos anos 70 não era totalmente adverso. Existia companheirismo, união e combate, nomeadamente no “grupo do Ernesto de Sousa” (Arte Ibérica, Out./Nov. 2000).

Em 1972, Ernesto de Sousa inauguraria uma actividade curatorial notável entre nós, nomeadamente, com o núcleo Do Vazio à Pró-Vocação, na EXPO AICA/SNBA 1972, prosseguindo com Projectos-Ideias, integrado na EXPO AICA/SNBA 1974.

Os anos 70 foram a década das exposições colectivas exploratórias e ambas as mostras tiveram uma notável importância neste sentido inovador e experimental. Nos anos 70, inicia-se também uma forte ligação entre Ernesto de Sousa e o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC). Em 1974, Ernesto propôs ao CAPC a realização do 1 000 011.º Aniversário da Arte e Arte na Rua, resultante de uma ideia original d Robert Filliou, de 1973. Ainda em 1974, celebrava com o colectivo conimbricense o evento Arte na Rua. Ao CAPC Ernesto dedicou um belo texto, intitulado «A vanguarda está em Coimbra, a vanguarda está em ti» (Lorenti’s, Jan. 1974).

Mas seria a exposição Alternativa Zero: Tendências Polémicas na Arte Portuguesa Contemporânea (1977), que comissariou, o evento mais implicativo da década. Com  cerca de 50 participantes, propôs-se equacionar o conceito de vanguarda e as suas consequências. Alternativa Zero foi acompanhada por três pequenas mostras: A Vanguarda e os Meios de Comunicação: o Cartaz – evocativa de diversas exposições “de vanguarda” que tiveram lugar no exterior, nomeadamente do movimento “Fluxus” –, Os Pioneiros do Modernismo em Portugal – exposição fotográfica e documental que se debruçou sobre o primeiro modernismo português, concretamente, sobre as figuras de Almada Negreiros, Eduardo Viana e Santa-Rita Pintor –, e A Floresta – penetrável de tiras de papel, da autoria do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, que funcionava em conjunto com peças de Albuquerque Mendes, Armando Azevedo e Túlia Saldanha. E as referências primeiras da exposição estavam dadas: a (neo)vanguarda internacional, o primeiro modernismo português e algumas das acções colectivas em Portugal neste período. A Alternativa Zero foi representativa de uma relevante produção artística deste período, afirmando-a e abrindo para outros domínios e conceitos, que o tempo consolidaria.

Pelos anos 80, Ernesto de Sousa continuaria a sua pesquisa e a sua inquietação artística e intelectual. Em 1984, foi um dos artistas que integraram a exposição Atitudes Litorais, com curadoria de José Miranda Justo, na qual se propôs a margem, o fora da territorialidade, como zona de entendimento da arte e da linguagem, numa evocação já do movimento pós-moderno. Ernesto de Sousa entregou a José Miranda Justo um texto/decálogo – “dez mandamentos” – intitulado Notas para acompanhar o fim do fim do mundo, que deveria acompanhar uma imagem branca – não pintura – e também estar presente no catálogo da exposição. E o fim do fim do mundo poderá ser, simultaneamente, um começo, ou mais um começo. Em 1987, A retrospectiva de Ernesto de Sousa, Itinerários, promovida pela Secretaria de Estado da Cultura, foi apresentada em Lisboa e no Porto. Ernesto partiu no Outono de 1988.

 

Ernesto de Sousa

 

 

Isabel Nogueira (n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

Imagem: cortesia de Isabel Alves.

 

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