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Hugo Canoilas: Pólipos cnidários reparados pelo olhar do observador

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Susana Ventura

 

A Gruta Submersa Encantada

Permitam-me que transgrida, neste texto, a linguagem formalista da crítica de arte, começando por confessar que tenho criado alguma relutância aos discursos curatoriais e expositivos que utilizam a qualificação de “imergir”, como por exemplo: “Esta é uma exposição imersiva”. O uso tornou-se tão trivial, que parece dispensar qualquer outra descrição, interpretação ou formas de discurso, bastando evocar essa grande figura da linguagem abstracta como substituta não só do objecto, como da própria experiência. Os próprios usos da palavra, em campos tão díspares do da experiência estética (não obstante, geralmente, a sedução que encontro em contaminações imprevisíveis), aumentam a minha desconfiança quando aquela é aplicada ao encontro íntimo entre cada um e a obra de arte. É por este encontro que, também, gostaria de começar, ignorando o que aprendi sob os sábios conselhos de Mieke Bal, não só para contar a minha experiência pessoal da exposição Pólipos Cnidários Reparados pelo olhar do Observador, de Hugo Canoilas, sob curadoria de Marta Almeida e Ricardo Nicolau, na Galeria Contemporânea de Serralves, como encontro na descrição do artista uma maravilhosa substituição da dita qualidade. O artista pretende, com a sua obra, “convocar o corpo e a sensibilidade das pessoas”, em detrimento de um entendimento através dos significantes e significados atribuídos e desvelados por si e por cada espectador das obras expostas. Parece-me que será essa a descrição mais próxima do que se pretende nomear com a expressão “experiência imersiva”, em que, no encontro íntimo com a obra, a sensibilidade é a primeira a agir e a accionar a percepção. A sensibilidade, como faculdade própria do sentir do corpo (ou melhor, produto singular do sistema nervoso), dispensa qualquer recurso à palavra ou à linguagem verbal, servindo-se de uma linguagem própria, que muitas vezes temos dificuldade em traduzir pela primeira, porque se serve de despertares, espantos, estarrecimentos, que são próprios do que nomeamos de indizível.

Cheguei a Serralves numa manhã lindíssima de sol alto de Inverno, espectáculo raro na cidade do Porto, especialmente nesta estação do ano. Foi um dos dias mais frios até então, o que, possivelmente, justificava o silêncio da cidade. O museu estava quase vazio. Para além de mim, apenas trabalhadores envoltos na montagem de uma peça no átrio a seguir à recepção. A Galeria Contemporânea, que é, em Serralves, o lugar destinado a exposições de carácter experimental, produzidas, pensadas e criadas, exclusivamente, para a sua sala, encontrava-se, igualmente, vazia. Um silêncio percorria o espaço que não me era estranho, não obstante o suspiro de maravilhamento que a instalação de Canoilas causa de imediato pelo lado mais etéreo e transiente das cores e das formas, numa paleta que nos coloca mais no ar, por entre movimentos subtis de massas atmosféricas coloridas, do que nas profundezas das águas do oceano, não obstante a inspiração de Canoilas nas imagens de flora e fauna marinhas para as pinturas, que, aliás, aparecem e reaparecem frequentemente na obra do artista.[1] Mas é nesse momento que tudo se joga.

A beleza sublime que as pinturas desnudam é desconcertante, assim que começamos a olhar mais atentamente.

O mundo não desabará, mas sofrerá, certamente, um estrondo na cadeia incontrolável de catástrofes (naturais e humanas) com que nos tem assomado. Sentei-me no chão para poder contemplar de perto as esculturas de vidro e deixar-me envolver pela longa pintura iluminada que corre o rodapé da sala. A luz é uniforme e calma, obrigando o corpo a desacelerar, também. As criaturas luminescentes estavam ali, ao meu lado, e eu quase que lhes podia sentir a superfície fluida e ininterrupta dos seus corpos, imaginando-me a acariciá-las e a ser transportada para a beira-mar, para uma poça de água, à semelhança do que o próprio artista relata sobre o processo de activação destes seres e da sua vida, a vida inorgânica que contêm, levando-os para a praia, um ambiente estranho à obra de arte, mas que permitiu accionar a percepção desta e, no caso específico destas esculturas, a sua animalidade. A reparação do olhar, que o título convoca, é também esta: não é suficiente olhar de baixo, olhar rente ao chão para construir um devir animal pelo olhar, mas a posição que este oferece ao corpo deverá criar no próprio corpo a empatia pelo ser animal que também é e, através do olhar, devolver ao animal a sua identidade de ser vivo e igualitário ao humano, reparando-se esta pela afecção que liga todas as manifestações da natureza no mundo, não obstante o tamanho, a presença, a matéria, os elementos de que são constituídas. Donna J. Haraway, uma importante referência para Canoilas, fala-nos destes dois sentidos que testemunhamos nesta exposição. Hoje, talvez mais do que nunca (ou se recuarmos o suficiente no tempo, percebemos que algures no início terá sido assim, se seguirmos o pensamento de Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski, num texto conjunto recente), é importante acolher o presente e o seu sentido crítico, problemático, traumático, devastador, procurando imiscuirmo-nos por dentro das coisas, de todas as coisas, das que agitam as nossas consciências, produzindo abalos terríficos, e das que nos conduzem serenamente a um amanhã, que não se completam na promessa de um futuro luminoso, mas num presente ao qual seremos capazes de responder afirmativamente (como Nietzshe no seu eterno retorno), um sim à vida, à coexistência e coalescência de todas as manifestações corpóreas e materiais da superfície terrestre. “Stay in the trouble”, expressão de Haraway, tem este sentido duplo: permanecer no espaço-tempo acolhendo a complexidade do presente e de todos os seres e elementos e permanecer-junto na indefinição, na exterioridade, na diferença.

A obra de arte nunca será uma resposta, como também não é uma proposição. Mas existe nela algo de suficientemente problemático que nos deve abalar e fazer questionar esta enorme fractura do presente, o que somos e somos com o Outro ou com o Outro somos.

Da mesma experiência na praia, diz Canoilas, que tomou algumas opções expositivas, como por exemplo, na forma como a luz incide nas superfícies das esculturas ou como estas se transformam em seres de luz. Nas esculturas, que se encontram por baixo da grande tela iluminada, que forra a abertura da mesa invertida de Álvaro Siza, a luz separa-se e os pigmentos coloridos transformam-se em gotículas radiantes que pousam delicadamente sobre as carapaças vítreas, animando-as de outra forma, próxima do sublime, certamente, mas também do corpo gelatinoso das medusas. É importante salientar que não encontro, nesta exposição, qualquer tentativa de representação figurativa, ainda que as medusas de Canoilas pareçam receber algumas características das medusas vivas como as suas configurações informes, o seu estado transitório de corpo-luz e corpo-água/líquido (que, um dia, o vidro foi), sobressaindo um grau de indefinição espontânea resultante, também, do processo de criação que as esculturas cristalizaram. Mas são estas mesmas características que permitem que as esculturas escapem à representação e criem (e se criem e recriem) (n)um mundo próprio, imanente e múltiplo: uma obra em devir constante (o devir é, precisamente, oposto à representação).

Até à presente exposição, o artista nunca tinha trabalhado com vidro e esse desconhecimento produziu, necessariamente, uma abertura ao informe e às forças livres da matéria em turbulência. Mesmo contando com a experiência e a mestria de Conceição Cabral, exímia artista do vidro de Valado de Frades, não houve um deliberado controlo sobre as formas, as texturas e as cores (as cores vivas que as medusas exibem na profundeza dos oceanos), que, dessa forma, se mantêm num estado latente e permanente de devir-intensivo. Arrisco a afirmar que foram capturadas nesse limiar próximo das forças energéticas livres que passam por ambos os planos — da matéria e da forma — em trocas mútuas durante o processo de modelação, como Simondon o definiu (contrário ao modelo estático tradicional). E tanto nas esculturas em vidro, como nas pinturas-caixas de luz, encontro este abandono e abertura do artista às forças intempestivas do caos, um caos pictórico, colorido, como referia Paul Klee.

A pintura é, talvez, o medium mais familiar a Canoilas, no qual o artista poderia facilmente “ficar prisioneiro na própria mestria”, remetendo para as suas palavras.[2] No entanto, o seu percurso revela-nos outra história, nomeadamente a da existência, na História da Arte, de momentos de ruptura, em que os limites são transgredidos e as categorias dissolvidas, inclusive no percurso de um artista, quando este insere ou faz atravessar, pela sua obra, linhas de feiticeira ou de desterritorialização (como diria Gilles Deleuze). Assiste-se, por isso, nesta exposição à ocupação de um espaço marginal e marginalizante da pintura (sobretudo o do rodapé, se pensarmos na longa tradição de pinturas/frescos no tecto, embora, ao privilegiar o plano do chão e o do tecto, Canoilas esteja, de facto, a questionar o lugar privilegiado da pintura) num gesto que desafia o lugar do observador no mundo (pois também é esse lugar, o lugar da tradição pictórica). Recordando Jonathan Crary, o desenvolvimento de determinados dispositivos ópticos, que possibilita, concomitantemente, mudanças nos regimes de visão é, quase sempre precedido ou acompanhado por alterações nos regimes de percepção, necessariamente, subjectivos (o conhecimento do mundo que nos forma enquanto sujeitos). A opção de Canoilas pretende questionar, mais do que o lugar da pintura na sua longa tradição, o lugar do observador na sua relação com o mundo, particularmente, no momento presente (donde o carácter sempre político, também, da sua obra).

Ali permaneci durante algum tempo, alterando a minha posição sentada por entre as medusas. Apeteceu-me tanto deitar!

“Sem dúvida um novo mundo nos pede novas palavras, porém é tão grande o silêncio e tão clara a transparência que eu muda encosto a minha cara na superfície das águas lisas como um chão” (Sophia de Mello Breyner Andresen, As Grutas, Livro Sexto, 1962[3]).

 

Hugo Canoilas

 

Museu de Arte Contemporânea de Serralves

 

 

Susana Ventura (Coimbra, 1978) Arquitecta de formação (darq-FCTUC, 2003), contudo prefere dedicar-se à curadoria, à escrita e à investigação, cruzando diferentes áreas do conhecimento. Gosta de pensar sobre arte, arquitectura, fotografia, cinema e dança, e ensaiar, ora em textos, ora em exposições, outras possibilidades de pensamento. (Por isso, também, doutorou-se em Filosofia, na especialidade de Estética, FCSH-UNL, 2013, sob orientação científica de José Gil). Foi co-curadora de Utopia/Distopia, no Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia de Lisboa (MAAT). 

Recentemente, foi curadora da exposição Corpo Radial de Mariana Caló & Francisco Queimadela na Galeria da Boavista em Lisboa.


A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

 

CF057008
CF056465
HC 005
CF057003
CF056467
CF056461
CF056470
CF056463

 

Notas:

 

[1] Na exposição do artista actualmente no Mumok, em Viena, que Canoilas considera como parte integrante de uma trilogia formada pela exposição de Serralves e por uma terceira pensada para o Museu Gulbenkian, as cores das pinturas (e nestas incluem-se a alcatifa industrial, que forra, integralmente, o chão da sala de exposição, e as peças em lã) são mais fortes e “cheias” (ou, nas palavras do artista, mais “psicadélicas”), enquanto nas pinturas de Serralves, as cores são mais suaves e, quase, dóceis.

 

[2] Hugo Canoilas nas “Conversas com Serralves”, a 5 de Fevereiro de 2021.

 

[3] No final da sua conversa com Marta Almeida, no âmbito das Conversas com Serralves, Hugo Canoilas partilhou o seguinte excerto do texto As Grutas, de Sophia de Mello Breyner Andresen, no qual reconheço, com deleite, as nuances matizadas das pinturas, a luz feita de água (e a água de luz), o terror e o espanto, com que a exposição nos acolhe: “Um fio invisível de deslumbrado espanto me guia de gruta em gruta. Eis o mar e a luz vistos por dentro. Terror de penetrar na habitação secreta da beleza, terror de ver o que nem em sonhos eu ousara ver, terror de olhar de frente as imagens mais interiores a mim do que o meu próprio pensamento. Deslizam os meus ombros cercados de água e plantas roxas. Atravesso gargantas de pedra e a arquitectura do labirinto paira roída sobre o verde. Colunas de sombra e luz suportam céu e terra. As anémonas rodeiam a grande sala de água onde os meus dedos tocam a areia rosada do fundo. E abro bem os olhos no silêncio líquido e verde onde rápidos, rápidos fogem de mum os peixes. Arcos e rosáceas suportam e desenham a claridade dos espaços matutinos. Os palácios do rei do mar escorrem luz e água. Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu”, Sophia de Mello Breyner Andresen, As Grutas, Livro Sexto, 1962.

 

 


 

Hugo Canoilas. Vistas da exposição Pólipos cnidários reparados pelo olhar do observador. Fundação de Serralves: Museu de Arte Contemporânea, Porto. Fotos © Filipe Braga. Cortesia do artista. 

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