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Paulo Lisboa: Um esqueleto entra no bar

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José Marmeleira

 

 

O espaço expositivo da Fundação Leal Rios está transformado numa câmara. Envolve-a meia-luz de uma penumbra artificial, da qual vão aparecendo, nas paredes, silhuetas iridescentes de esferas. Vistas de perto, assemelham-se a buracos, a halos, a anéis, a objetos oculares ou óticos. Embora imóveis, sugerem estados instáveis, gasosos, mutáveis. Dir-se-ia que têm volume, não fosse o facto de serem desenhos feitos a carvão sobre alumínio. Vibram, entre e para lá dos contornos. Em Um esqueleto entra no bar, este é o nome da exposição de Paulo Lisboa, os desenhos voltam a tomar a forma de projeções. Como noutras exposições do artista, o espectador, crê, por breves instantes, estar diante de reflexos de luz, focos luminosos e zonas de sombra produzidas por outras práticas que não o desenho — e com efeito, o desenho não é soberano na exposição, como mais à frente se verá — mas a experiência da ilusão é agora mais intensa. As coisas representadas, sobrepostas e impressas apresentam um contraste maior. Os contornos, as transparências, as formas exibem uma densidade mais saliente, mesmo quando se apagam, se dissolvem nas marcas ínfimas do carvão.

O brilho da grafite foi substituído pelo carvão desfeito em grão e aplicado em camadas num trabalho de experimentação, feito de tentativa e erro. Mas, sobre o processo, faça-se agora silêncio. É a experiência sensível destes desenhos-projeções-imagens que ressoa pela sala. Luz e breu, opacidade e transparência, contorno e atmosfera formam-se e formam coisas das quais vem luz, ainda que ténue. Poder-se-ia dizer que este desenho contém e faz a luz, que a liberta, com as suas graduações, as suas variantes de sombra, pelo espaço. No interior deste conjunto de desenhos, não se descobre qualquer aparato cinematográfico. Não funciona com máquinas ou eletricidade (para tal, o visitante terá que entrar em duas salas escuras). Persiste, todavia, o insinuar de um movimento: o movimento da luz e da sombra. Por vezes, a sensação de que aquelas imagens foram focadas ou desfocadas por um olhar (indefinido) ou que nos observam, nos seguem; que se se surpreenderam, surpreendendo-nos naquela penumbra.

Seremos nós o esqueleto, a que o título alude, neste teatro de sombras?

A forma esférica dos desenhos sugere a presença de um volume que ora adquire limite, contorno ou peso, ora se esvai, se diluiu na superfície. À falta de um termo mais adequado, estes desenhos exprimem a precisão de uma imprecisão, fixam a indefinição de um movimento, a aparição nebulosa, indistinta, de planos imóveis. São precisamente dois planos aquilo que se olha no primeiro desenho, qual entrada para Um esqueleto entra no bar. Estão sobrepostos numa transparência embaciada, vibram devagar. Por mais que sobre eles se repouse o olhar, resistem a ser “apanhados”. Constituem, com a sua geometria difusa e leve, o desenho mais figurativo da exposição. Um fragmento de um filme de animação, um negativo perdido de pantomina de um filme mudo. Comunicam qualquer coisa de lúdico — um jogo — e de inquietante, podiam ser espectros presos, encerrados no interior do desenho.

De volta aos desenhos das paredes, estes continuam a ser pontos de luz, reduzidos ao essencial, mas expandem-se ao escultórico e ao pictórico. Parecem objetos moldados ou apanhados num processo de criação ou — porque não — um conjunto de retratos de seres cósmicos, esferas vivas em fundos que se desvanecem. O negro do carvão e o branco do alumínio, nas suas relações, produzem, entretanto, um efeito sinestético. Do desenho, passamos a tonalidades que não são apenas gráficas ou visuais, mas que se tornam sonoras, vibram e circulam. Distante formal e espacialmente deste conjunto, outro desenho elimina a impressão do volume para afirmar uma depuração. Como se consumido, queimado pela luz, ameaça desaparecer, apagar-se. Representa ainda uma esfera, um círculo, mas agora incompleto, a desaparecer no branco; o fantasma de uma imagem que, na sua elementar impassibilidade, resistindo à ilusão, detém o espectador.

Numa das salas escuras, Paulo Lisboa explora o inverso: a espacialidade etérea do desenho abre-se, nas suas fantasias, ao movimento físico do visitante.

Recorrendo a esferas de quartzo e de cristal, tripés e um projetor de slides, compôs um lugar desenhado por pontos de luz. Entre as esferas e os projetores — munidos de slides opacos — nascem refrações, reflexos, feixes e raios que se formam e se deformam, que se acendem e apagam consoante a posição de cada um. Do teatro de sombras imóveis e das esferas vivas que constituíram a primeira câmara, fomos conduzidos para o interior de uma experiência visual em que as iridescências e os reflexos parecem, finalmente, estar à beira do nosso toque, saindo da sua imobilidade (no desenho) para aparecerem enquanto pontos de luz animados.  

Esta experiência não se resume a um mero prazer sensível (da ilusão). O trabalho de Paulo Lisboa continua a traduzir uma indagação, metafísica e artística, das formas e das propriedades dos fenómenos visuais e óticos. Toda e qualquer experiência percetiva que proporciona é conduzida por uma investigação delicada e rigorosa do modo como as imagens aparecem e desaparecem. Esta ideia é colocada noutro desenho e noutra instalação. No primeiro, na forma de uma ausência ou de um vazio de um corpo; na instalação, num conjunto de aparições que criadas por objetos, projetam uma luz circular, um halo luminoso que nos envolve e cuja memória nos acompanhará, qual imagem mental, ao longo da exposição.

 

Paulo Lisboa

Fundação Leal Rios

 

José Marmeleira. Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (ISCTE), é bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações (Ípsilon, suplemento do jornal PúblicoContemporânea Ler).

 

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Paulo Lisboa: Um esqueleto entra no bar. Vistas gerais da exposição na Fundação Leal Rios. © Fotos: Bruno Lopes. Cortesia do artista e Fundação Leal Rios. 

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