Crítica — por José Marmeleira
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Uma das faculdades e capacidades que, na Antiguidade, a poesia e a filosofia partilhavam era o reconhecimento de aquilo que aparecia, de aquilo que existia. Não apenas os humanos, também as coisas orgânicas e inorgânicas, o mundo natural, os astros, o cosmos. A visão estritamente utilitária dos outros seres sencientes, dos elementos e dos fenómenos naturais não dominava ainda o mundo. As coisas não existiam em função da felicidade dos homens e os humanos não existiam como fim último, absoluto de todas as coisas. O mundo não se encontrava ainda des-divinizado. E, precisamente por isso, os poetas sabiam cantá-lo, exprimindo gratidão pela sua existência. Com o desenrolar da idade moderna, e a alienação que ela trouxe, a experiência dessa faculdade foi-se apagando. Até aqueles que se dedicavam à poesis, os artistas, foram dela se afastando.
Ensaio — por Eduarda Neves
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Um coronavírus afirma o seu lugar no mundo. Na arte recente, também. Ao SARS-CoV-2, que esteve na origem da Covid-19, ficamos a dever um certo programa metafísico de desvendamento. Afectados pela nossa condição de hospedeiro oculto, desconhecemos os processos através dos quais o parasita nos transforma num semelhante. Um jogo no qual as trocas são potencialmente indeterminadas. Chegado como parasita, infiltra-se como parte constitutiva de cada um de nós. Intimo, altera-nos ou destrói-nos. Recorrendo a uma aproximação biológica, o vírus, alojado no organismo hospedeiro, na sua condição heideggeriana de ser-aí e ser-no-mundo, configura a relação interdependente que estabelecemos com o capital.
Ensaio — por Alice dos Reis
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Talvez por consequência destas ansiedades, eu tenha acordado numa das manhãs de confinamento, em que todos os dias pareciam fins de semana, durante os quais o tempo se parecia desenrolar de forma alternativa, e face à liberdade de uma paragem global por tempo indeterminado eu parecia produzir muito pouco. Num desses dias, sem data, acordei a pensar na performance "My body, this paper, this fire", que o Pedro Barateiro, com João dos Santos Martins, apresentou em Março na Galeria Zé dos Bois.
Ensaio — por Gisela Casimiro
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“What is your great hunger? To understand your great hunger, you must understand what breaks your heart.” Assim nos ensina Tererai Trent a sermos vulneráveis. O que me parte o coração? A pergunta, na verdade, é sobre o que nos parte o coração enquanto Humanidade, e o que podemos fazer para repará-lo, para nos repararmos. É Março e chega-nos a pandemia que abrandou o mundo. Ainda não sabemos o que é o trauma que assola sobretudo chineses e italianos há meses. Esta ferida exposta não é por todos vivida da mesma forma, como a vida também não era. Os dias expandem-se e contraem-nos; o ar perde a luta para a ansiedade, damos por nós a experienciar e a repetir todo o tipo de emoções e afirmações contraditórias. Entre notícias e memes, o quarto e a sala, a cozinha e o supermercado, eis-nos trancados fora do mundo.
Crítica — por Isabel Nogueira
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No âmbito da proposta "As Coisas Fundadas no Silêncio", do Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado, Susana Mendes Silva (n. 1972) convida-nos, nesta instalação, não só a conhecer, mas, sobretudo, a entrar no universo e até a empatizar com ele e com a figura central sobre quem se debruça: a poeta e escritora Judith Teixeira (1880-1959), também conhecida pelo pseudónimo de Lena de Valois. Susana Mendes Silva é uma artista visual que, nesse filão, desenvolveu a sua vertente de performer, muitas vezes vindo a dedicar-se ao universo feminino e, por vezes, à exploração de vertentes nas quais, em potencial ou de facto, a condição da mulher esteja diminuída ou até suprimida. Mas algo se expressa claramente neste trabalho. Trata-se do facto de Mendes Silva ser, antes de mais, uma persistente contadora de histórias.
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