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Pedro Barateiro: This body, this paper, this fire

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Alice dos Reis

 

How do we change the way we relate to each other and to all this?

 

Em 1961 Michel Foucault publicava a História da Loucura [1]. Quase dez anos depois, na edição de 1972 [2], adicionava-lhe um apêndice, em resposta direta às críticas do filósofo Jacques Derrida: This body, this paper, this fire. No período entre estas duas edições de História da Loucura, aconteceu o Maio de 68, catalisador de uma revolução social em França instigada por protestos estudantis que veriam vastas repercussões globais.

Hoje, Maio de 20, relê-se Foucault à luz de acontecimentos recentes. Em dois meses, vimos desenrolar-se uma constelação foucaultiana, na qual soberania, disciplina, biopoder e biopolítica se afirmaram, agravaram ou alteraram de maneiras desiguais e com rápidas consequências geopolíticas, muitas difíceis de prever a longo prazo.

Talvez por consequência destas ansiedades, eu tenha acordado numa das manhãs de confinamento, em que todos os dias pareciam fins-de-semana, durante os quais o tempo se parecia desenrolar de forma alternativa, e face à liberdade de uma paragem global por tempo indeterminado eu parecia produzir muito pouco. Num desses dias, sem data, acordei a pensar na performance My body, this paper, this fire, que Pedro Barateiro, com João dos Santos Martins, apresentou em Março na Galeria Zé dos Bois. 

Primeiro, lembrei-me de My body porque foi nessa noite que assisti a um evento público pela última vez. As notícias dos primeiros casos de Covid-19 em Portugal tinham sido dadas a conhecer nessa semana, e a pequena sala do terceiro andar da ZDB estava cheia, sem espaço para mais corpos. Uma luz verde, ténue iluminava a sala. Entre a audiência que tinha conseguido entrar, a consciência da proximidade dos corpos pronunciava-se de forma desajeitada. Já nos tinha sido dito que não devíamos tocar com as mãos na cara depois de termos tocado noutra pessoa, mas ninguém ainda parecia saber ao certo o quão seriamente deveria levar essas recomendações.

Depois, lembrei-me do que de facto acontecia durante a performance. Em contraste com a forma hesitante com que nos distribuíamos pela sala, uma longa faixa ambient embalava dois corpos abraçados que se moviam lentamente por entre a audiência. O bailarino João dos Santos Martins vestia um hoodie cinzento com um capuz que lhe tapava a nuca, e conduzia o Pedro Barateiro num abraço longo e forte, que não se desprendeu durante a totalidade da performance. O Pedro, sem nunca desfazer o abraço, começou a ler:

I will start with a very specific event I attended many years ago. I want to share this event with you today because it made me change my perspective on how I look and do things.

O evento específico de que o Pedro falava foi um dos muitos protestos estudantis que tiveram lugar em Portugal entre 1991 e 1995. Durante este período de quatro anos e sob o mote “Propinas não, bolsas sim”, milhares de estudantes do ensino secundário e superior reclamaram um ensino "tendencialmente gratuito", como previsto na Constituição Portuguesa. Concentraram-se em frente ao Ministério da Educação, invadiram a reitoria da Universidade de Lisboa, exigiram auditorias. Em 1992, protestando contra a regulamentação da Lei das Propinas, mais de dez mil estudantes de todo o país juntavam-se em frente ao Parlamento, quando a polícia interveio violentamente. Seguir-se-iam mais três anos de violência policial em resposta a protestos estudantis, cada vez mais numerosos. 

Quando o Pedro se juntou a estes protestos a 24 de Novembro de 1994, o uso de força policial teria sido dos mais violentos desde a queda do regime fascista. Estes anos de resistência estudantil viriam agitar uma geração que crescera nos anos 80 e início dos 90, no rescaldo de uma sociedade que se ajustava à democracia, à cultura de massas, à globalização e à desilusão perante o modo como os valores da revolução tinham sido absorvidos tão rapidamente por políticas neoliberais. 

Na semana que se seguiria à apresentação de My body, o governo português decretou Estado de Emergência. Uma das medidas aprovadas em parlamento seria a proibição do direito à greve, pela primeira vez desde 1974. Protestos que implicassem o ajuntamento de pessoas também não seriam permitidos. 

Around the time of the 1994 demonstration I became very aware of my body and my voice.

O Pedro continuava a ler, a voz colocada mas pausada, enquanto se movia lentamente, abraçado ao João. Ao mesmo tempo que os dois se moviam pela sala, mal levantando os pés do chão, a audiência ia-se ajustando no espaço de modo a não obstruir a coreografia. Na pequena sala cheia, entre a audiência tocávamo-nos inadvertidamente, e reparávamos. Estaríamos já excessivamente cientes da proximidade de outros corpos por receio da pandemia ou porque, de forma mais ou menos consciente, sabíamos que não poderíamos voltar a estar tão próximos tão cedo, em abraço ou em protesto?

Apropriadamente, o Pedro já falava de permeabilidade. Sobre a consciência de se habitar um corpo capaz de linguagem, representação, e relacionalidade. E sobre o desafio de posicionar estas capacidades em relação a outros corpos e com outros corpos de forma empoderadora e catalisadora. A permeabilidade da linguagem não é diferente da permeabilidade do corpo. Um corpo num protesto é linguagem feita massa. My body, this paper, this fire situou-me perfeitamente nesse intervalo, em que a linguagem se torna corpo e o corpo se afirma enquanto linguagem.

Até à data de escrita deste texto, nessa noite foi a última vez que vi duas pessoas abraçarem-se publicamente. Escrevo a partir de um novo normal em que evitar abraçar-se alguém é cuidar, não comparecer a um evento público lotado é cuidar, manter a distância num protesto é cuidar. E numa realidade em que se tenta a todo o custo conter a permeabilidade do corpo, o que pode fazer a linguagem? Ainda nos restam este papel e este fogo.

I have no right to ask anything from you. But we are together in separation.

 

Pedro Barateiro

João dos Santos Martins

ZDB: Galeria Zé dos Bois

 

Alice dos Reis é uma artista que vive e trabalha entre Amesterdão e Lisboa. É mestre em Fine Arts pelo Sandberg Instituut em Amesterdão. Tem mostrado regularmente trabalho em galerias, instituições e festivais na Europa, EUA e Austrália. Em termos gerais, o seu trabalho analisa encontros entre agentes humanos e mais do que humanos em sistema biopolíticos. 

 

 

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Pedro Barateiro: This body, this paper, this fire. Vistas da Performance com João dos Santos Martins na Galeria ZDB, março 2020. Cortesia dos artistas. 

 

Notas:

 

[1] Foucault, Michel: Folie et Déraison. Éditions Plon, 1961.

[2] Foucault, Michel: Histoire de la folie à l'âge classique, Éditions Gallimard, 1972.

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