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Susana Mendes Silva: Como Silenciar uma Poeta

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Isabel Nogueira

 

No âmbito da proposta As Coisas Fundadas no Silêncio, do Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado, Susana Mendes Silva (n. 1972) convida-nos, nesta instalação, não só a conhecer, mas, sobretudo, a entrar no universo e até a  empatizar com ele e com a figura central sobre quem se debruça: a poeta e escritora Judith Teixeira (1880-1959), também conhecida pelo pseudónimo de Lena  de Valois. Susana Mendes Silva é uma artista visual que, nesse filão, desenvolveu a sua vertente de performer, muitas vezes dedicando-se à pesquisa de questões de género e identidade feminina e, por vezes, à exploração de vertentes nas quais, em potencial ou de facto, a condição da mulher esteja diminuída ou até suprimida. Mas algo se expressa claramente neste trabalho. Trata-se do facto de Mendes Silva ser, antes de mais, uma persistente contadora de histórias. Esta instalação propõe ao espectador uma imediata apresentação de um “plot” narrativo, clarificado no texto branco que emana da parede preta: "Travar-lhe a insubmissão feminina, estigmatizar-lhe o desejo, censurá-la de “sáfica”, de “fufa”, de “desavergonhada”, caricaturá-la nua, disforme, com o peito descaído, queimar-lhe a obra em pira pública, deixar que se liberte a pulsão misógina dos seus pares literários, afirmar que a sua obra não presta".

Dois problemas, portanto, são identificados como desencadeaores da acção: a discriminação da mulher baseada na expressão da sua sexualidade e a discriminação da poeta. Esta por causa daquela.

Judith Teixeira seria lançada no mundo literário lisboeta, já com o seu verdadeiro nome, em 1922, publicando os seus poemas na sua primeira obra, Decadência, poemas (1923), apreendida pouco depois do seu lançamento pelo Governo Civil de Lisboa, devido a alegada imoralidade. Curiosamente, as antigas instalações desta instituição integram nos dias de hoje o Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado. E tudo ganha ainda mais sentido. Anos mais tarde, na edição da revista Europa, ou na publicação de outras obras, nomeadamente, Nua, poemas de Bizâncio (1926), Judith seria permanentemente acusada publicamente de imoralidade e de fraca qualidade literária, esta, seguramente, claro, em função daquela. 

Aliás, o próprio futuro chefe do Governo, Marcelo Caetano, criticaria, com sobranceria e soberba, os versos de Judith em Ordem Nova, onde escrevia. Ou seja, o que Susana Mendes Silva nos traz, através de alusões a zonas e a universos especificamente femininos — aliás, visíveis em algumas imagens projectadas, nos textos, na escultura central do espaço evocativa do órgão sexual feminino, assim como da voz que a artista empresta à narrativa que ecoa pelo espaço — é a lacuna do reconhecimento de uma mulher, por acaso poeta, aparentemente homossexual, que ficou completamente à margem de uma narrativa da história da poesia portuguesa, precisamente pela sua forma marginal — para os padrões da época — de viver e de se relacionar. Ou seja, possivelmente, se a sua poesia tivesse sido escrita por um homem teria eventualmente reconhecimento público. Mas, como aceitar, quanto mais como reconhecer e exaltar, uma mulher que escreve versos como: "E morderam-se as bocas abrasadas, em contorções de fúria, ensanguentadas!". Isto não é o paternalistadiletantismo feminino. É muito mais. É potencialmente abrasivo ao mundo estabelecido e aceite.

O último livro de Judith foi Satânia, novelas (1927). Depois seguiu-se um enorme silêncio. Morreu aparentemente só, como provavelmente viveu, na fatalidade da omissão da sua pessoa e da sua obra. Em 1996, a editora “& etc.” publicou os seus três livros de poemas e a conferência/manifesto De Mim, conferência (1926, precisamente um texto seminal para esta instalação de Susana Mendes Silva), com introdução de Vítor Silva Tavares e organização de Maria Jorge e Luís Manuel Gaspar. A História vai-se refazendo e enriquecendo, conferindo lugar ao marginal, à minoria, à dissidência. Ser dissidente é ser-se só, por inevitabilidade ou por opção, o que, na prática, vai quase dar ao mesmo. 

Os versos de Judith acabaram por ser tardiamente recolocados no lugar de um modernismo literário, a que justamente pertencerão. 

A intervenção de Susana Mendes Silva, complementada por duas performances e uma leitura performativa, nas quais um poema de Judith Teixeira é dito em língua gestual e em mirandês, recoloca a voz no seu lugar. Isto é, confere voz à poeta através da sua própria voz, enquanto artista e performer. O espectador, que possivelmente não conhecia a poeta, visto a sua marginalidade na história literária, encontra-a. E este encontro é consistente e oportuno. A instalação confere enfoque visual, evocativo, auditivo, textual, documental, contando, na verdade, e de diversas formas, uma história que é importante contar, trazer à luz. Numa época difícil que vivemos, plena de acontecimentos de encadeamento complexo, esta história pode contribuir para trazer à claridade outras histórias, outras pessoas, outras narrativas. A História não é nem nunca poderá ser um lugar fechado. Pelo contrário, é um caminho orgânico, com falhas, nomeadamente no que à História das mulheres — artistas e não artistas — diz respeito. Vamos sempre a tempo de a refazer.  

Susana Mendes Silva

MNAC: Museu nacional de Arte Contemporânea [Museu do Chiado]

Isabel Nogueira (n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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Susana Mendes Silva: Como Silenciar uma Poeta. Vista da exposição MNAC: Museu Nacional de Arte Contemporânea. Fotos: Nuno Barroso. Cortesia da artista e MNAC: Museu Nacional de Arte Contemporânea.

Susana Mendes Silva, Vistas das Performances De mim; Tradução #1 e #2. Fotos: Alípio Padilha. Cortesia da artista.

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