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Diogo Evangelista: Íris

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José Marmeleira

 

Quando se acompanha o percurso de um artista, é sempre gratificante observar as suas fases.  Num momento, há um traço que parece repetir-se, oferecendo uma certa constância temática ou formal; noutro, dá-se uma inflexão, um desvio que aponta noutra direcção, a esboçar outro rumo. Não é afinal destas mudanças que são feitas todas as biografias artísticas? Indissociável deste exercício, na condição de seu reverso, encontra-se outro não menos estimulante: o de descobrir ou de identificar uma sensibilidade ou um tipo de fazer que, intangível, possa interligar todos esses momentos: um fundo longitudinal e subterrâneo.

O percurso de Diogo Evangelista surge, a esse título, exemplar. Nas suas primeiras exposições, em particular na Galeria 111 (em 2009 e 2011), a ontologia da imagem pictórica era uma questão relevante. Por meio de intervenções diversas e de um olhar muito agudo (e, amiúde, fascinado), o artista interrogava a experiência pictórica num mundo saturado pela reprodução e disseminação digital de imagens. A pintura aparecia em potência, antes de ser materialmente pintura. Contudo, a questão pictórica não se autonomizava enquanto problema, antes integrava um “método” que pode ser caracterizado pelos seguintes elementos: experimentação, transformação, desierarquização (patente na apropriação das imagens) e modificação dos estados de percepção. Em exposições e projectos subsequentes (por exemplo, na Galeria Quadrum, em 2012), Diogo Evangelista não abandonou estes elementos. Reelaborou-os, renovou-os, ao mesmo tempo que ia deslocando a sua atenção para as relações entre a tecnologia, a arte e a ciência.

Recorrendo à imaginação livre e sedutora da ficção da arte e da arte da ficção, começou a interrogar visual, estética e conceptualmente os conceitos de humano, não humano ou máquina, bem como a interpretar os sentidos possíveis da vida terrena ou extraterrena.

É no quadro desse momento que, no espaço do Centro Cultural Brotéria, em Lisboa, aparece a exposição Íris, composta por um conjunto de trabalhos inéditos. Um aspecto que, desde logo, sobressai é uma certa exuberância visual, poder-se-ia dizer até, pop. No trabalho de Diogo Evangelista, esse tem sido, com maior ou menor frequência, um elemento característico. Isto é, há um prazer (sensorial e sensual) que é comunicado pelo artista (no seu fazer) e experimentado pelo espectador. Descortina-se aqui um elemento recorrente que identificaria, ainda que provisoriamente, uma obra? Talvez, mas continue-se. No centro da sala, ilumina e ilumina-se a escultura de luz The One and The Others. Composta de nove elipses, iluminadas com luz eléctrica, remete para os desenhos da série Spiritual Automata, mostrada em 2019, ao mesmo tempo que os transcende enquanto expansão física. Tridimensionais, suspensos no espaço, põem em relação elementos ópticos, cromáticos e lumínicos. Azul, vermelho e branco brilham intensos e delicados, em formas que se cruzam, se imbricam, se atravessam, nas suas curvas e voltas. Em termos metafóricos, este sistema de formas luminosas e circulares pode ser interpretado como uma imagem da interdependência que pauta as relações humanas e (algumas) animais. Já em termos de experiência, visto de diferentes pontos no espaço, a escultura nunca é a mesma escultura, continuando a ser a mesma escultura. Move-se, sem se mover, sob o nosso olhar. Este (falso) movimento alude, em termos representacionais, a um conjunto de órbitas espaciais, a um hipotético sistema solar ainda por encontrar, como seriam outras relações, subjetividades e alteridades. Há um afã projectivo em Diogo Evangelista e, todavia, um olhar mais demorado sobre a peça permite descobrir a presença flácida dos cabos. Deixam ver, contra a luz, as marcas de um trabalho manual. Embora o artista olhe para o espaço, o seu fazer permanece terreno.

Escreveu-se que a modificação da experiência perceptiva tem sido um elemento do trabalho de Diogo Evangelista. Em Íris, recorrendo ao filtro de vinil laranja que usara na exposição Red Heads, em 2009, selou as janelas e passagens (com excepção da porta) do espaço. A intervenção altera a percepção do exterior, imprimindo-lhe os contornos de uma irrealidade plástica e visual. A grade de ferro da janela transforma-se num desenho, um corredor ganha uma qualidade pictórica, a rua podia ser uma paisagem marciana. Entretanto, no interior, o espaço adquire um cariz ritualístico, quase religioso. É neste ambiente que surge a pintura-objecto Echo, na qual o artista retoma o símbolo do pentagrama, já usado em Blind Faith, em 2020, na Escola das Artes da Universidade Católica do Porto, com a curadoria de Nuno Crespo. Como nessa ocasião, acrescentou crómio e pigmentos sobre vidro acrílico, tornando o pentágono um espelho onde os visitantes se vêm, a uma certa distância, refletidos. Acontece que, desta vez, não se encontram sozinhos. Uma palavra multiplica-se, formando um padrão, pela superfície espelhada: animal. O grafismo é estranhamente familiar — a palavra impressa foi reproduzida de um papel de embrulho da Disney — e introduz a ironia. Contra a força uniformizadora da gargantuesca empresa, produz-se uma dialética inesperada entre a animalização dos seres humanos e a antropomorfização dos animais.

A questão do ser ressurge de um modo mais poético na “animação” que dá o nome à exposição. Trata-se de uma série de 23 pinturas que retratam a vida de uma Íris Germânica até ao seu desabrochar. Esta espécie de flor é um dos motivos de pintura de Vincent van Gogh, e o próprio Diogo Evangelista já havia explorado o motivo botânico no trabalho An argument against anti-realism, apresentado na Galeria Quadrum, mas o que vemos é uma pintura em movimento. Cada imagem é um momento diferente do mesmo ser, ou, se se quiser, a aparição diferente, no tempo, do mesmo ser. De algum modo, o artista parece resgatar o foi assim da imagem fotográfica, de um modo inusitado, quase impossível: precisamente, pela pintura. Mencione-se que a Íris Germânica é associada à relação ou comunicação entre mundos; fazendo uma extrapolação semântica, na exposição de Diogo Evangelista, entre um mundo humano e não humano, o artificial e o natural, entre o fotográfico e pictórico, entre a eternidade e a evanescência, numa aparente reversibilidade.

Tal movimento da vida, eternizada pela pintura, encontra um espectador cego, representado na escultura Inflated With a Fluid. Trata-se um busto de uma figura antropomórfica, ou, por outras palavras, da representação de um rosto morto, fossilizado de um ser humanoide. Diogo Evangelista nada nos diz sobre esta escultura, disposta sobre um plinto. O seu gesto é simples e silencioso: proporciona-nos um encontro com a frágil monstruosidade do outro, na presença digna de uma fisionomia, como a planta, tocada pelo tempo.

 

Diogo Evangelista

Brotéria

Outros artigos sobre o artista:

Blind Faith

Organic Machinery

Espaço de Fluxos

 

José Marmeleira é Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (ISCTE), é bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações (Ípsilon, suplemento do jornal PúblicoContemporânea Ler).

 

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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Diogo Evangelista: Íris. Vistas gerais da exposição no Centro Cultural Brotéria, Lisboa, 2021. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia do artista e Brotéria.

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