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Rodrigo Hernández: Moon Foulard

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Cristina Sanchez-Kozyreva

 

Borboletas na barriga

 

Patente na Fidelidade Arte, a exposição Moon Foulard, do artista mexicano Rodrigo Hernández, que reside atualmente em Lisboa, apresenta-se como um diálogo etéreo em tons pastel entre o artista e o trabalho do designer de moda italiano Emilio Pucci — ou até como um gioco aperitivo em que Hernández, através da sua linguagem visual, interpreta o chique e extravagante mundo do "príncipe dos estampados".

"A alegria foi um dos mais importantes elementos que trouxe para a moda. E trouxe-a através da cor" é uma das mais famosas citações de Pucci (1914–1992), uma carismática figura da cidade de Florença que vestia roupas justas e que, como se de fogo-de-artifício se tratassem, introduziu no mundo da moda malhas de seda psicadélicas feericamente coloridas, ora elásticas, ora folgadas, transformando assim o seu pequeno negócio de família num gigante da moda internacional. Ao longo da sua carreira, vestiu celebridades como Lauren Bacall, a condessa Jacqueline de Ribes, Jackie Kennedy, Sophia Lauren, Gina Lollobrigida, Madonna, Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor, tendo sido um dos primeiros a acrescentar às suas peças um logótipo. Pucci também se envolveu nos mundos do atletismo e da política, e serviu na Segunda Guerra Mundial enquanto piloto da força aérea italiana. Sabe-se que ajudou a filha mais velha de Mussolini a salvar o seu marido, e depois a ela própria, razão pela qual Pucci seria posteriormente torturado na prisão. Consta também que conseguiu insinuar-se na indústria da moda quando um amigo do estilista, envergando uma peça da sua autoria — um fato de ski —, mereceu a atenção de um fotógrafo da Harper Bazaar; então, Diana Vreeland, a editora-chefe da revista, encomendou outras peças a Pucci. À semelhança de alguns pintores, Pucci, como uma esponja, absorveu tudo ao seu redor — cultura contemporânea, paisagens, arquitetura — e propôs uma nova e luminosa visão da vida, através das suas écharpes, dos seus vestidos e, por consequência, das suas linhas de roupa de resort. Diziam alguns que tinha mau gosto, uma estética demasiado berrante, mas muitos haverá que o julguem um mau gosto feito como deve ser, com um amor particular pela vida — imagine-se o leitor a apanhar o sol de Capri enquanto ostenta geometrias coloridas: felicidade.

Hernández esquadrinhou as fotografias dos arquivos e materiais publicitários de Pucci, amalgamando com especial naturalidade as suas descobertas com o seu próprio mundo. A exposição inclui obras sobre papel, murais, papel machê e esculturas que habitam ludicamente o espaço das galerias, cobrindo as paredes de cores suaves e brilhantes como se de tecidos se tratassem, convertendo num cenário uma linha de moda que pode ser vestida de forma criativa. Embora se inspire no mundo de Pucci, a influência jocosa de Hernández é evidente em todo o espaço. Na primeira sala, o artista cobriu as paredes de triângulos de grandes dimensões — tão grandes que parecem largas faixas, com cores que vêm diretamente da palete de Pucci (o estilista, de facto, tinha diferentes nomes para os seus cor-de-rosa, azuis e turquesas…). Entre cada par de faixas, encontram-se tiras de imagens, a imitar película desenrolada, inspiradas no universo de Pucci: esquiadores, skaters, um homem de fato a passear o cão etc. Desenhadas por Hernández, são imagens sedutoras — todas elas absolutamente encantadoras — de um refrescante entusiasmo pueril que as situa entre o mundo da moda e as ilustrações de almanaque.

 

 

 

Na segunda sala, sobre um plinto, vê-se Moon Foulard (2021), uma cuidadosa instalação de pequenas dimensões constituída por objetos feitos de cartão e papel machê. Um deles, uma representação largamente arredondada de uma sereia, tem uma aparência metálica, e o resto compõe-se de formas e blocos geométricos. Tal como no caso de Pucci, o trabalho de Hernández acumula histórias, mitos e emoções em simples geometrias coloridas, contornando o nosso eu cerebral e interpelando diretamente o nosso corpo. Aqui, a instalação alegoriza um dos mitos fundadores de Nápoles (cidade em que Pucci nasceu) — aquele em que a cidade é criada a partir das lágrimas da sereia Parténope, que fora rejeitada por Ulisses. Se no universo de Pucci o amor, gestos românticos, o mistério e esta sensação de borboletas na barriga associada ao amor idealizado abundam, a interpretação de Hernández acrescenta avidamente à mistura alguma figuração de uma afabilidade filtrada pelo engenho do seu maneirismo. Em ambos os casos, existe a ideia de que os padrões simples são capazes não só de conter em si uma história rica e romântica mas também de a difundir como se de um cristal curativo se tratasse.

Mais adiante, deparamo-nos com Moon Tie (2021), uma gravata de 160 centímetros de comprimento em cartão e papel machê encimada por um rosto-lua que sorri gentilmente. Hernández aponta que as gravatas são as únicas peças de roupa frívolas associadas à indumentária formal masculina, o único lugar onde a cor e a autoexpressão são permitidas. E esta gravata não desilude: poderíamos olhar para os seus padrões como um motivo subaquático típico de Kandinsky, com formas orgânicas algáceas a espreitar por entre linhas de amarelos, remoinhos de laranjas e pontos azuis contra o fundo de uma noite estrelada. Suspensa na lateral de uma parede diagonal instalada a meio do espaço (pintada com blocos de cores mais atenuadas), a peça irradia sobre os visitantes a benquerença que lhe é inerente. Poder-se-ia dizer que toda a exposição se assume como tónico para os tempos difíceis, ou, no mínimo, como ode aos bons tempos — algo que, lamenta Hernández, não é levado muito a sério nas artes contemporâneas. Isto levanta uma questão sobre este género particular de trabalho artístico: ter-se-á agora tornado radical a ideia de focalizar a vida de outro criador e de realizar peças de arte contemporânea que celebrem a alegria e os ornamentos da vida?

De um carácter mais estudioso, a última sala da exposição, apresentando-se como uma sala de trabalho, alberga Moon Foulard (Emilio) 1–5 (2021), constituída por cinco mesas com pernas subtilmente arqueadas — ao jeito das formas de Chirico — que ostentam cinco séries de composições que recorrem tanto à técnica da colagem como a lápis de cor, tinta acrílica, aguarela e tinta-da-china. As mesas são iluminadas de cima; dá-se a impressão de que está alguém prestes a examinar sobre elas um conjunto de fotografias (embora se tratem de desenhos) para fazer o brainstorming de uma nova coleção de moda, criar um mood board, ou organizá-las em álbuns pessoais. Aqui está uma interpretação de alguma da indumentária de ski criada por Pucci; ali, um barco a deslizar a alta velocidade entre um penhasco e um rochedo no Mar Mediterrâneo; acolá, um logótipo; e aqui está a cúpula florentina de Brunelleschi, tal como se vê do telhado do Palácio Pucci — onde o estilista estabeleceu a sua firma de moda —, entre as pernas variegadas e onduladas de modelos de leggings a posar para uma sessão fotográfica. Talvez Hernández tenha razão relativamente ao estado de seriedade do mundo da arte, mas talvez também os tempos estejam a mudar, e podemos muito bem estar todos prontíssimos para desfrutarmos daquilo que pudermos — especialmente se tal gozar de uma história de fundo e uma atmosfera ricas e vier embrulhado num bombom visual.

 

Rodrigo Hernández

Fidelidade Arte

 

Cristina Sanchez-Kozyreva é uma autora com experiência em relações internacionais e estratégia. Viveu na Ásia durante 15 anos. Actualmente trabalha e vive entre Lisboa e Hong Kong. É co-fundadora e editora-chefe da revista de arte Pipeline, com sede em Hong Kong (impressão 2011-2016). Contribui, regularmente, para várias publicações na Ásia, Europa e EUA, como Artforum, Frieze e Hyperallergic.

 

Tradução do EN por Diogo Montenegro.

 



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Rodrigo Hernández: Moon Foulard. Vistas da exposição no espaço Chiado 8 | Fidelidade Arte | Culturgest. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia de Culturgest.

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