Elisa Azevedo: Corpo, Dentro

“A fotografia é também, em grande medida, uma prática amorosa”
Guibert, Hervet. A Imagem Fantasma, 1981
Querida Elisa,
É com carinho que escrevo estas primeiras linhas, que organizo o pensamento traduzindo o que me é da ordem do sensível através da escrita. E é através da escrita que me relaciono agora contigo, numa tentativa vã de trazer à luz o indizível por via da linguagem-palavra humana, do que foi e é o encontro contigo e com o teu trabalho, com as imagem-amor que me entram pelo corpo, dentro.
Não deixa de ser poético que a tua primeira exposição individual numa galeria comercial fosse também ela a última exposição a acontecer na referida galeria, antes da mesma fechar indefinidamente. É nesta tensão poética inicio/fim e na indefinição dos limites de tudo o que pelo meio ‘flui’ e se ‘entrusa’ que a constelação da tua pratica afectiva chega até nós.
Não faz diferença se vivemos um acontecimento ou o imaginamos. A neuroimagiologia — disciplina que permitiu, através do uso de diversas técnicas quantitativas (computacionais) de captação e registo de imagem (de forma directa ou indirecta), estudar a estrutura, função e farmacologia do sistema nervoso central — já foi possível provar que as mesmas partes do cérebro se “acendem”, sejam as situações vividas ou imaginadas. Não admira que sejamos ardentes voyeurs que se deleitam com o éden visual da fotografia e do filme: estes vão-nos enchendo com doses efervescentes de — mas não apenas — amor.
Para amar o mundo com os olhos, usamo-los como mãos; para amar o mundo com ideias, usamo-las como olhos.
Quando falámos pela última vez disseste-me que sentias a fotografia, e o processo que envolve o registo de cada imagem, como um acto de amor. Parece-me que o Hervé Guibert tenderia a concordar contigo.
No texto de onde foi retirada a citação com que abri esta carta, e num tom e registo absoluta e inabalavelmente afectivo, Guibert relata o dia em que a sua mãe, habitualmente tímida e pouco à vontade diante de uma câmara, aceitou ser retratada. Tinha quarenta e cinco anos e estava, como nos dizem, no limiar entre a beleza e a velhice. Permitiu que o seu cabelo, habitualmente preso em caracóis apertados, fosse retirado, lavado e penteado pelo filho. A intimidade deste momento é palpável no texto, e torna-se claro que, neste dia, mãe e filho estavam de facto a colaborar um com o outro para criar um momento da sua relação. No entanto, no momento da revelação — na sua acepção fotográfica mas também benjaminiana — Guibert percebeu que não carregou corretamente a câmara e os frutos do seu esforço comum não resultaram em mais do que uma tira de filme ‘em branco’. Numa tentativa de guardar para sempre a imagem subversiva da sua mãe tal e qual como ela nunca foi, revelou-se o momento essencial perdido, sacrificado. O texto vem em lugar da imagem, e aliás, nas palavras do autor, nunca teria existido se a imagem tivesse sido tirada. O texto é o desespero da imagem, a manifestação da perda irrecuperável do momento que ficou por registar: imagem invisível, texto indizível.
Inconfessável, incontrolável, inenarrável, indiscritível. A-linguistico. (obrigada, CR, por me mostrares o sentir-outro)
Os corpos comunicantes que nos chegam nas tuas imagens dão-nos nota do carinho que empenhas no acto do registo, é inegável que lhes é latente uma espectralidade afectiva. Existe nas imagens que nos apresentas uma dimensão liminal da afectividade que está na origem de cada uma delas, no que precede o momento do registo, na sua consumação e no que fica impresso no real para além do momento: é exactamente aí que me são ‘reveladas’ as fotografias que apresentas em Corpo, Dentro, mas também em todas as imagens que compõem a constelação do teu trabalho. A linguagem da tua fotografia (prática fotográfica), através dos seus mecanismos simbolico-visuais, revela exactamente o que está na origem para ti do fazer/fotografar: amor, imagens-amor.
A essência espiritual da criação dessas imagens comunica-se nas imagens, e não por meio das imagens, uma vez que a essência espiritual se comunica numa língua e não por meio de uma língua, e que a linguagem — seja ela escrita, visual, humana ou não — comunica a essência de linguagem das coisas, ou seja: cada linguagem comunica-se a si mesma, e aquilo que é comunicável numa essência espiritual é a sua linguagem. Na senda de Benjamin, do ponto de vista da teoria e da filosofia da linguagem, a equivalência entre essência espiritual e de linguagem tem um enorme alcance metafísico que conduz ao conceito-chave de revelação: “No interior de todo o trabalho da linguagem evidencia-se o conflito entre o expresso e o exprimirem, de um lado, e o inexprimível e o inexpresso, do outro.”
A tradução enquanto conceito na teoria da linguagem é entendida como a passagem de uma língua a outra por meio de uma cadeia continua de transformações. Nesse sentido, compete-me aqui a tarefa de traduzir na escrita o que foi já traduzido por ti na fotografia, pondo a percepção em jogo.
A percepção da verdade nesta aspiração sôfrega de pôr por palavras o sentir das tuas imagens-amor é infalível. Esta revela-se na observação e no olhar, no teu olhar. As relações que se estabelecem entre as corpas e objectos representades na composição visual e simbólica destas imagem-amor, surgem quase como um mantra afectivo. A percepção de verdades ou de uma única verdade não só se revela aí, como creio que também se torna evidente para ti na fotografia, no acto criativo e actividade criadora.
Nenhuma delas é só, nenhuma delas é una. Todas são do todo, todas são verdade.
As imagens-amor, como me refiro aqui às fotografias que compõem o teu trabalho, são, tal como referiu o Sérgio no texto que escreveu para a tua exposição, “um registo que transita entre algo que está prestes a surgir, algo que está em suspensão, e algo que se encontra em desvanecimento”. O carácter afectivo-liminal da tua prática é aqui esplanado, e é também evidenciado nas relações que se estabelecem nas composições conceptuais geradas no fazer/fotografar, no revelar, no traduzir e no percepcionar. A imagem-amor é em si registo do momento afectivo, da pratica como afecção, e potência provocadora para suscitar novas perspectivas e formas de afectar e ser afectado.
Falta-me ainda referir a importância e o valor da experiência no meio desta encruzilhada (e não posso deixar de agradecer a RV e PB por me mostrarem que “experience is key”).
Na sua obra Ética, Espinosa refere-se às afecções do corpo humano, cujas ideias apresentam os corpos exteriores como presentes a nós, como imagens das coisas. Já quando a mente considera os corpos desta forma, diremos que ela imagina. Por outras palavras, sempre que somos afectados de tal forma que temos alguma perceção de alguma coisa que nos afecta, estamos a imaginar (ou seja, estamos sempre a imaginar). È aqui que se torna evidente que a natureza inescapavelmente afectiva da experiência é trazida à tona na sua discussão sobre a imaginação.
Quando imaginei esta carta, a fiz, redigi, escrevi, li e revi, foi exactamente com essa vontade e potência da imaginação e da experiência que tentei trazer à luz a trama afectiva e poética das ligações e possibilidades políticas múltiplas, ainda por determinar, do criar.
Da fotografia como acto de amor.
Da escrita como acto de amor.
Com carinho,
João
Elisa Azevedo: Corpo, Dentro. Vistas da exposição na Uma Lulik Contemporary Art, Lisboa, 2023. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia da artista e Uma Lulik Contemporary Art.
