Vivian Caccuri: Febre da Selva Elétrica

Passando a entrada de Febre da Selva Elétrica, a exposição concebida por Vivian Caccuri para o primeiro andar da Galeria Municipal do Porto, o visitante depara-se com um espaço envolto em penumbra e carregado de tensão. O aviso é dado pelo curador da exposição, Bernardo José de Souza, no texto de apresentação, definindo a intervenção da artista como uma "atmosfera" e não tanto como uma simples instalação: ao caminhar pelo espaço, a sensação geral é de imersão numa atmosfera “outra”, num ambiente denso e envolvente. Em toda a galeria, ouve-se uma espécie de zumbido, um som tão familiar quanto alienante, por vezes quase silencioso e noutras retumbante. Fica-se na dúvida quanto à origem deste ruído: serão mosquitos, ou virá dos cabos elétricos emaranhados que fazem parte de várias obras da exposição? De qualquer forma, a exposição consubstancia uma “selva” contemporânea (a selva elétrica enunciada no título da exposição) na qual a tecnologia e a natureza, assim como o meio humano e a vida selvagem, parecem existir numa relação de contiguidade — se não mesmo de entrelaçamento.
A instalação Gatonet-mor (2024), composta por altifalantes montados em blocos de cimento e cabos elétricos suspensos pelo teto e enredados como lianas numa floresta, propaga este zumbido pelo espaço. Trata-se, afinal, de sons emitidos por mosquitos reais e fictícios: algumas faixas são gravações de mosquitos reais provenientes de um arquivo científico brasileiro, ao passo que outras são sons de mosquitos gerados por inteligência artificial.
Enlaçadas umas nas outras com o intuito de construir harmonias ou desarmonias, as ondas sonoras destas composições podem ser visualizadas em Skin Shield (2024), uma instalação composta por uma rede mosquiteira em forma de tenda canadiana. Esta peça integra uma intervenção de Caccuri com um bordado que reproduz rigorosamente as formas das ondas sonoras geradas pelos mosquitos, reais e virtuais, que se ouvem na exposição.
Se o padrão ondulado do bordado e as cores naturais fazem lembrar camuflados militares, a forma de tenda remete para a solução a que os seres humanos recorrem em ambientes selvagens para se protegerem contra picadas de insetos — como sugere o título da peça —, especialmente as de mosquitos, portadores de doenças infames. Igualmente, não é difícil imaginar que uma tenda constituísse um objeto essencial no conjunto de equipamentos que acompanhavam os exploradores pelas florestas tropicais nas expedições coloniais organizadas pelo Ocidente — uma ligação que inclusivamente revela o carácter crítico-político da prática de Caccuri.
As obras apresentadas nesta exposição surgem no contexto de uma investigação alargada que a artista tem vindo a desenvolver ao longo dos últimos anos. Através do som, da performance e de obras visuais, esta investigação tem-se debruçado sobre o mosquito e a sua relação com os seres humanos, tanto numa perspetiva histórica quanto a partir de uma abordagem contemporânea. Numa análise que conjuga a biologia, a teoria do som, a história das doenças tropicais e teorias empíricas ou inventadas com a história do colonialismo, Caccuri vê o mosquito como uma metáfora para expor a forma como os colonizadores europeus procuraram historicamente conquistar e domesticar a natureza tropical.
Sabe-se que, ao longo da história, os mosquitos têm vindo a multiplicar-se, a disseminar-se pelo mundo e a tornar-se mais mortais precisamente na sequência de ações humanas como a construção de barragens artificiais mal projetadas, o desenvolvimento de plantações de açúcar ou arroz e o tráfico de pessoas escravizadas. Os mosquitos nativos do continente africano, transportados em navios negreiros, levaram para as Américas doenças como a febre amarela, o dengue e a malária — pragas ainda hoje de dimensão relevante. Ainda que provenham originalmente de zonas florestais, os mosquitos acabaram por encontrar nas cidades o ambiente perfeito para a sua reprodução.
Analisando a história da disseminação e das taxas de mortalidade provocadas por este inseto, Vivian Caccuri explora as relações que se desenvolveram não apenas entre a natureza tropical e a urbe como também entre os povos indígenas e os colonizadores europeus ao longo da história. Em Febre da Selva Elétrica, no entanto, esta abordagem sociocultural afasta-se da tendência narrativa de obras como a série de bordados The Mosquito Shrine (2020) ou a performance-palestra Mosquitos Also Cry (2018) em virtude de obras mais secas, minimalistas e misteriosas.
Relativamente a Skin Shield, serve de contraponto o díptico Fantasia da ordem (2024), no qual a intervenção de Caccuri numa rede mosquiteira, agora pintada e com bordados, delineia o teclado de um piano, produzindo uma reconhecível alternância entre teclas pretas e brancas. O movimento fluido e vibrante das ondas sonoras na primeira obra, portanto, dá aqui lugar a uma grelha geométrica que representa aquele instrumento. Construído pela primeira vez no início do século XVIII em Itália, e tendo-se posteriormente disseminado a nível global, o piano simboliza aqui o sistema tonal ocidental, que firmou a distinção entre as notas musicais e aquilo que se considera ruído, assim alienando da produção musical todo o espetro de sons do mundo natural.
A iluminação da exposição concede a estas instalações — de carácter ligeiro, etéreo, quase intangível — uma qualidade surpreendente escultórica, projetando as suas sombras nas paredes da galeria. Inclusivamente, em Fantasma poeira (2018), a menos recente destas redes de mosquitos, vemos até um bordado em negativo: os padrões são criados pelo desenfiamento de parte da rede. Neste caso, o desenho reproduz formalmente um sistema de som de rua em tamanho real.
Tratando-se de um elemento fundamental da prática de Caccuri, o som, emitido por equipamentos audiovisuais ou figurado nos desenhos, constitui o princípio unificador da exposição; permeia o espaço com a densidade espetral do ruído branco e cria ecos entre as obras que vão pontuando a galeria, assimétrica e em extensão. Como escreve o curador: “Sejam audíveis ou não, as ondas sonoras que a artista produz exploram a permeabilidade da perceção humana quando afetada por campos sensoriais que estimulam política e emocionalmente a nossa imaginação.”
Através da história do mosquito, vertida em sons rarefeitos e superfícies porosas, a obra sagaz e irónica de Caccuri convida-nos a refletir sobre a dimensão global da deslocação, a circularidade das coisas, o efeito-borboleta, e a resistência e transformação da natureza em reação ao ser humano e às suas reiteradas tentativas de a dominar. Este pensamento, porém, não se expressa em voz alta, sendo antes confiado ao zumbido indecifrável, o mesmo tempo familiar e ameaçador, em que o natural e o virtual se sobrepõem um ao outro. Nas paisagens sonoras de Febre da Selva Elétrica, tanto a floresta mais densa como as tecnologias mais avançadas conseguem manter intacto o coração das trevas que nelas se ocultam.
Tradução do EN: Diogo Montenegro.
Sara De Chiara é historiadora de arte, crítica e curadora de arte contemporânea. Doutorou-se em história da arte pela Universidade Sapienza de Roma em 2022. Desde 2019, é responsável pelas publicações do Centre d'Art Contemporain Genève, onde também colabora em alguns projetos expositivos como investigadora e assistente curatorial. Contribuiu com ensaios para numerosos catálogos e monografias, colabora com diversas revistas de arte, entre as quais a Contemporânea, Frieze, Flash Art International e escreve no suplemento cultural do jornal italiano Il Sole 24 Ore.
Vivian Caccuri: Febre da Selva Elétrica. Vistas gerais da exposição na Galeria Municipal do Porto, 2024-2025. Fotos: Dinis Santos. Cortesia de Galeria Municipal do Porto.
