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Tony Cokes: Testament E: MF.slow.cancel.2014 

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Sara Castelo Branco

 

 

A obra ensaística em vídeo do artista norte-americano Tony Cokes (1956, Richmond, Virginia) cumpre-se com frequência num movimento que se dobra sobre si mesmo, pelo intermédio de um exercício de redução do filme aos seus elementos constitutivos essenciais (o texto, o som e a imagem) para, através deste depuramento, subverter os seus códigos e reflectir sobre as complexidades políticas e ideológicas que são veiculadas pelos meios mediáticos contemporâneos. Mais do que subtrair, este movimento de depuração envolve-se no acto de reconduzir ou de fazer de volta, isto é, de unir os elementos disjuntivos destes ensaios fílmicos para, através desta fragmentação, desenvolver uma ordem crítica de reposicionamento. É, justamente, no interior desta tensão auto-referencial que se configura Testament E: MF.slow.cancel.2014, a primeira exposição individual de Tony Cokes em Portugal, com curadoria de Guilherme Blanc no Batalha Centro de Cinema (Porto), que apresenta uma obra inédita concebida para este projecto expositivo, conjuntamente com outros vídeos representativos do percurso do artista.

Desde o final da década de 1990, Tony Cokes tem desenvolvido uma obra intertextual singular, concebendo ensaios em vídeo constituídos pela apropriação de fragmentos pertencentes a textos académicos, filosóficos, jornalísticos ou extraídos da cultura popular, que são sobrepostos a fundos monocromáticos de cores sólidas, e, complementados pelo som de soul, de hip-hop, de punk ou de techno. Esta incomum dinâmica disjuntiva — que, por exemplo, concilia textos escritos por filosófos com música techno — potencia outras formas de ler, de escutar e de ver, numa experiência trans-discursiva que se faz entrelaçada com o corpo, e que procura reflectir sobre a cultura mediática popular, o racismo estrutural, o capitalismo, o consumismo, a gentrificação ou outros sistemas de poder. Complexificando assim o valor profusamente mediatizado e comodificado da palavra, do som e da imagem, estas justaposições também reposicionam e reorientam abertamente as interpretações reflexivas e emocionais do espectador.

Os ensaios em vídeo de Tony Cokes estabelecem um espaço discursivo que transforma a experiência da leitura, onde a intimidade privada de ler converte-se numa acção publicamente comunitária. O artista produz, identicamente, duas camadas de experiência que concordam entre si pela sua sobreposição de temporalidades: se o tempo fílmico não é determinado pelo espectador, também aqui a recursividade da leitura não é dirigida pelo leitor. Além deste cruzamento de tempos inapreensíveis, se o visionamento do filme e a leitura são acções que exigem usualmente uma inactividade corporal, aqui configuram experiências que incitam um movimento livre dos corpos.

Tensionando, logo, os regimes do visível e do dizível para, enquanto ferramenta de desconstrução, desmantelar a submissão imagética da cultura contemporânea (embora a palavra escrita também seja visual), o artista utiliza o texto em vez de imagens representativas para potencialmente reflectir sobre outras possíveis visualidades imaginativas. Esta metodologia desloca e recontextualiza o texto de diversos autores (uma polifonia de vozes que abrange Aretha Franklin, Louis Althusser, Malcom X, Public Enemy, Mark Fisher, James Baldwin, Edouard Glissant ou William Burroughs, entre outros) dos seus suportes tradicionais. Desta forma, esta configuração multimedial origina uma totalidade fragmentária que existe simultaneamente no todo e na parte, e que permite que os fragmentos de texto, de cor e de som se reorganizem em conjunto para permitirem novos significados. Se a música parece reflectir a transformação social, o corpo envolve uma prática política que produz de forma igual emoções, pensamentos críticos e relações com os outros. Neste sentido, a obra de Tony Cokes parece, de certa forma, criticar a relação dos dispositivos com a mercantilização e a categorização da cultura pop; paralelamente, interpelando a forma como esta pode abrir outras possibilidades políticas e sociais. Por conseguinte, os ensaios fílmicos do artista são construídos a partir destas diversas camadas aparentemente dissonantes, mas que na consonância da sua dissonância, conseguem abrir-se mais profundamente a diversas reflexões críticas.

Alguns dos filmes do artista abordam também directamente o património musical, como é o caso da instalação de vídeo Mikrohaus, or the black atlantic? (2006-2008), que se encontra no Foyer 2 do Batalha Centro de Cinema, em que o artista apoia-se na obra do crítico musical Philip Sherburne, que cunhou o termo “microhouse”, traçando uma relação entre o techno minimal europeu e as suas raízes nas tradições musicais afro-americanas, como o soul e o house de Detroit. Cruzando entrevistas com produtores alemães de techno/house e artistas de techno, este ensaio em vídeo emprega ainda excertos do livro The Black Atlantic: Modernity and Double Consciousness (1993) do teórico cultural britânico Paul Gilroy, levantando questões relacionadas com a história da música electrónica minimalista, e as suas afinidades com poderes sociopolíticos.

Já, SM BNGRZ 1 + 2 (2021), exibida na Sala-Filme, é uma instalação de vídeo que analisa a importância dos espaços comunitários de resistência e de libertação associados à cultura club e às raves, conectando a evolução transatlântica da música de dança às suas origens na história da opressão social. Cokes levanta questões sobre a potencial perda destes espaços de libertação, de resistência e de prazer em tempos de pós-pandemia, onde as frases provindas dos trabalhos académicos de Jeremy Gilbert e de Ewan Pearson, mapeiam uma evolução transatlântica da música de dança.

A instalação fílmica que dá nome à exposição, e que foi concebida propositadamente para o Batalha Centro de Cinema, chama-se Testament E: MF.slow.cancel.2014 (2024). Apresentada no Foyer Sala 2, este vídeo parte de uma conferência de 2014, proferida pelo escritor, crítico, teórico cultural, filósofo marxista e professor Mark Fisher no MaMA Zagreb, para “sondar a natureza cíclica da música popular do século XXI e a malaise do tempo atual na cultura contemporânea”[1], desenvolvendo-se numa igual reflexão sobre as semelhanças e as dissemelhanças que foram acontecendo na última década. É sob o signo de Fisher que também surge no Foyer 1 a obra Testament A: MF FKA K-P X KE RIP (2019), que alicerça-se no texto elegíaco da palestra Mark Fisher Memorial Lecture, apresentada por Kodwo Eshun na Goldsmiths University em 2018, um ano após a morte do teórico cultural, dando continuidade ao seu legado quanto à reflexão sobre as repercursões capitalistas na cultura artística e popular.

A consideração persistente de Tony Cokes pela história dos séculos XX e XXI procura de forma deslinear abordar os ecos que se repercutem de forma idêntica em diferentes épocas. Dando continuidade a este pensamento, um dos filmes seminais de Cokes, Black Celebration (A Rebellion Against the Commodity) (1988), exibido na Sala-Filme, mostra tumultos e motins urbanos em bairros negros na década de 1960, utilizando imagens de noticiários televisivos sobre protestos em Watts, Boston, Newark e Detroit, permutando porém as locuções dos noticiários por textos apropriados do teórico cultural Guy Debord, da artista Barbara Kruger e do músico Martin Gore, conjuntamente com a música industrial dos Skinny Puppy. Desta forma, Cokes intervém na narrativa oficial destes acontecimentos ao expor um modo alternativo de abordar estas ocorrências, transformando-as as rebeliões contra a injustiça racial e económica nos Estados Unidos da América.

A partir de uma estrutura ensaística ancoarada no atrito discursivo entre diferentes veículos e dinâmicas culturais, Cokes revela de forma frequente como certos sistemas de poder reverberam estruturalmente de uma época histórica para outra. As suas mensagens plurisígnicas têm assim o intuito de ampliar possibilidades e relações expressivas e imaginativas, para dessa forma potenciar outros futuros possíveis.

 

Tony Cokes

Batalha Centro de Cinema

 

Sara Castelo Branco [1989, Porto] é doutorada em Arts et Sciences d’Art/Ciências da Comunicação pela Université Paris 1 - Panthéon Sorbonne e Universidade Nova de Lisboa, enquanto bolseira da FCT. É docente e investigadora na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa.
Tem vindo a fazer a curadoria de exposições, sessões de filmes e programas públicos em locais como Kunsthalle Exnergasse (2025), Culturgest/Museu do Caramulo (2025), Brotéria (2024), ICI Berlin/ACUD Galerie (2023), Carpintarias São Lázaro (2022), Galeria Zé dos Bois (2021),  Galerias Municipais de Lisboa (2020), Arsenal - Institut für Film und Videokunst (2019). Fez residências de investigação artística na CRIPTA 747 (Turim, 2022) e Cité Internationale des Arts (Paris, 2023). Tem um mestrado em Estudos Artísticos - Teoria e Crítica da Arte (FBAUP) e uma licenciatura em Ciências da Comunicação e da Cultura (ULP). Na área da investigação e da crítica contribui regularmente com ensaios para revistas e
catálogos (Mousse, Archive Books, Galerias Municipais de Lisboa, Contemporânea, entre outros).

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 









Tony Cokes: Testament E: MF.slow.cancel.2014. Vistas gerais da exposição no Batalha Centro de Cinema, Porto, 2024-2025. Cortesia do artista e Batalha Centro de Cinema. 


Nota:

[1] Folha-de-sala da exposição Testament E: MF.slow.cancel.2014 no Batalha Centro de Cinema.

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