Conversa com Miguel von Hafe Pérez

Do esquecimento ao resgate
a vida, apesar dela é mote para o ciclo de exposições que, no Centro de Artes Visuais (CAV) em Coimbra, Miguel von Hafe Pérez tem tomado em mãos desde 2023, e continuará até 2026. Com uma programação e curadoria desviada de um padrão habitual, as exposições produzidas, até à presente data, vincam a importância de dar a ver, a ler e, certamente, a escutar, um território que para Miguel von Hafe Pérez é, agora, mais do que nunca, a sua premissa: resgatar a memória. As suas escolhas propõem uma visão não geracional, a presença da imagem fotográfica — convém não esquecer a afiliação do CAV à Fotografia —, e o entrelaçamento entre arte e música: em 2023-Now Here, Nowhere de Victor Torpedo; Escuro de Luís Palma; Des-silenciar de Judite dos Santos e Júlia Ventura; Vem a Chuva e Vem o Vento de Maria Capelo; 2024-Fernando Lanhas. Sabe o que Não Sabes; PoPalolo; Radical Papers; Dormência de Cristina Mateus; 2025-Acções Figurativas de Vera Mota e Ponto e Vírgula de Zulmiro Carvalho e Sebastião Resende. Cada exposição é acompanhada não pela comum folha de sala, mas por um belo cartaz, de tamanho A3, impresso a cores, com uma imagem fotográfica da obra do artista e no verso um texto de MvHP. Nestes textos vislumbra-se qualquer coisa de semelhante que, mesmo não estando escrito, permanece na sua composição: resgate do vivido.
Não só no CAV, mas também, na cidade do Porto, a propósito dos cinquenta anos do 25 de Abril, MvHP organizou duas grandes exposições: Pré/Pós: Declinações visuais do 25 de Abril, em Serralves e CAC 50 anos: a democratização vivida, no Museu Nacional Soares dos Reis, as quais trabalham no mecanismo do resgate e/ou na acção de resgatar. Em Serralves firma-se ‘o antes’ e ‘o depois’, através de obras resgatadas ao esquecimento; no Museu Nacional Soares dos Reis o resgate do vivido é reconhecido na história do próprio museu. A interpretação que Miguel von Hafe Pérez tem vindo a assinalar, seja para qual for a instituição, mostra o esforço de reconhecer no presente tanto o artista como a obra subtraindo-os ao esquecimento[1].
Convém estar atento às exposições que inauguraram, recentemente, no Centro de Artes Visuais: Botanical: Obras da Colecção dos Encontros de Fotografia e Manual Orgânico de Helena Lapas.
Cristina Robalo [CR]: O mote, a vida, apesar dela, que configura a programação do ciclo expositivo no CAV, vem de onde?
Miguel von Hafe Pérez [MVHP]: Surge como mote genérico e referencia uma citação de Schiller, que dizia, parafraseando: “tens que ser do teu século mas não sejas refém dele”.
Hoje em dia, discute-se muito a questão de a arte ser política e/ou se tem alguma inclinação narrativa para contextos sociais actuais. Pretendi reafirmar que a arte tem essa capacidade, tal como a vida, de se impor por si mesmo e, apesar de tudo, ser aquilo que permanece para além dela. Podia fazer a ligação a outra frase, de que gosto muito, de Robert Filliou: “a arte é o que torna a vida mais interessante do que a arte”. Esta frase-manifesto, que reivindica um sentido e uma profundidade na criação artística que não estão confinados exclusivamente àquilo que é a sua história auto-referencial, devolve-nos a alegria de viver com arte. A arte transcende-se no tempo, no espaço e naquilo que é a sua recepção generalizada. No fundo a arte trata de quê? Trata da vida em todos os seus aspectos.
Nos últimos anos apercebi-me de que começámos a ter uma série de agendas predominantes. Por exemplo, quando o Estado faz uma encomenda e indica certas temáticas preferenciais, para mim, tal pode trazer algo negativo no campo cultural. A arte sempre foi esse território de liberdade absoluta, porque se não houver liberdade absoluta, quer da parte dos criadores, quer da parte daqueles que a promovem, então, estamos a mimetizar outros campos da vida, não tão libertários como a arte. E, como a arte tem esse carácter absolutamente libertário, importa-me contemplar todas as perspectivas e pensar a vida nessa complexidade: a noção de uma certa transcendência de que a nossa vida, também, terá alguma importância, apesar dela.
CR: A programação para o CAV tem uma relação com a morte?
MvHP: Sim, também. Quando o director, Albano Silva Pereira, me convidou para fazer a programação tive em conta a própria história da instituição que, em 2023, comemorou vinte anos. Portanto, é um espaço que já tem um lastro muito importante no contexto institucional português, e, além disso, tem a sua própria colecção, a qual emana dos Encontros de Fotografia. E, de certa maneira, a fotografia é o instrumento mais poderoso para tratar a memória, para tratar esse tempo fugidio e para tratar a nossa eterna luta contra a morte. Isto de uma forma mais palpável. Mas importava-me também pensar em certos desaparecimentos muito usuais na arte portuguesa, pródiga em esquecimentos. Haverá coisa mais terrível do que a morte em vida?
Em Portugal, de uma geração para outra, ou no intervalo de duas gerações, a História da Arte é sempre muito mal reescrita, porque se tem a noção de que se está a começar do zero. Não podemos esquecer que temos um contexto institucional verdadeiramente denso a partir dos anos noventa do século XX. Foi aí que começaram a aparecer instituições como Serralves, o Centro Cultural de Belém, a Culturgest, o Museu do Chiado, mais tarde, o MAAT, etc. Portanto, esta densificação do tecido institucional, correspondeu a uma espécie de profissionalização do sector e houve esse sentimento de que se estava sempre a começar de uma vez por todas. Pois bem, a excitação dos começos é tendencialmente arrogante com o já feito.
CR: Procuraste mostrar artistas esquecidos no panorama artístico português?
MvHP: Diria, certas invisibilidades ou des-memórias. Por exemplo, Judite dos Santos e Júlia Ventura, em 2023, na exposição Des-silenciar. A Júlia Ventura acabou por fazer uma grande exposição na Culturgest que a consagrou definitivamente, mas permanecia num estranho limbo, como se não fosse indiscutivelmente um caso único no panorama nacional! Aliás, anteriormente, a artista já tinha realizado amplas exposições no CCB e no Museu de Serralves. A Judite dos Santos ninguém sabe quem é e muita gente continua sem saber quem é a artista Judite dos Santos. É impressionante! Tal como Zulmiro de Carvalho e Sebastião Resende, na exposição Ponto e Vírgula, que mostrei recentemente. Ambos escultores, com um corpo de trabalho enorme — Zulmiro de Carvalho a partir do final dos anos sessenta e setenta, Sebastião Resende, no final dos anos oitenta e noventa do século passado —, têm uma presença importantíssima, substantiva, no nosso contexto, e tenho a certeza de que muitos jovens não viram mais do que três esculturas juntas destes autores.
CR: Por outro lado, em 2024, mostraste obras de António Palolo, em PoPalolo, mais (re)conhecido do público.
MvHP: Mostrei, principalmente, trabalhos da sua fase mais pop, no final dos anos sessenta e início dos setenta. Contudo, mais uma vez, tenho a noção de que há jovens a começar a pintar, com vinte ou trinta anos, que nunca tinham visto mais de quatro ou cinco ‘Palolos’ juntos. Porquê? É outro problema estrutural. Apesar desta densificação da malha institucional, ainda não há um sítio onde se possa ter uma visão daquilo que foi o século XX e XXI na arte portuguesa. Ou seja, ao contrário daquilo que acontece em muitos países, aqui não se tem uma leitura diacrónica ou temática da arte nacional com visibilidade continuada.
CR: Quais são as linhas condutoras, ou premissas, estabelecidas para compor a programação do CAV, uma vez que até à data a escolha de artistas, ou de obras, apresenta um alargado traço entre gerações.
MvHP: Em primeiro lugar, tenho uma noção muito clara de que não quero ter uma perspectiva geracional, ou seja, não quero trabalhar só com artistas mais novos, com artistas da minha geração e/ou com artistas da geração menos correspondente àquilo que é a história do CAV. Em segundo, sendo o CAV um centro que tem como fundação a sua colecção, interessa-me pensar na questão da imagem: por um lado, quando a fotografia começa a conviver no interior daquilo que é a própria narrativa geral das artes visuais, nomeada e essencialmente, a partir dos anos noventa em Portugal; por outro, a aceitação de trabalhar a imagem no campo expandido de muitas formas. E, também, aquilo que me parecia estar a tornar-se dominante nas estruturas institucionais, quer sejam museus, quer sejam centros de arte, onde há uma espécie de obrigação para tratar determinados temas, o que me remetia para aquilo que eu não queria, retomando Schiller, não ser refém do meu tempo e das suas pretensas agendas. Desse modo, centro-me nas características próprias dos artistas convidados a exporem no CAV; independentemente da proposta, seja ela inclinada para uma realidade estritamente formal, seja para uma realidade de contexto político e/ou social. Partindo destas premissas crio boas condições de produção e faço uma boa mediação para o público em geral.
CR: A abertura do ciclo expositivo, em 2023, inicia-se com Now Here, Nowhere de Victor Torpedo dos Tédio Boys. Gostava que falasses sobre a exposição, porque, por um lado, ela desvia-se, precisamente, de um contexto comum da arte; por outro, vai ao encontro do esquecimento.
MvHP: Exactamente. Primeiro, a exposição trazia uma visão peculiar de um universo rock’n’roll e, segundo, quebrava esse outro universo, onde no sistema institucional português, supostamente, só os grandes artistas é que expõem.
O Victor Torpedo fotografou a digressão da banda pelos Estados Unidos da América e os negativos perderam-se. Na altura do COVID, o Paulo Mora, que foi professor de Fotografia e chegou a estar ligado aos Encontros de Fotografia, encontrou-os. Depois, o Victor Torpedo e o Filipe Ribeiro — viria a ser o curador da exposição —, quando souberam que eu estava a fazer a programação, vieram ter comigo e mostraram-me o que tinham descoberto, propondo uma exposição, à qual disse imediatamente que sim. Estes momentos disruptivos dizem muito a determinadas comunidades e todos sabemos a importância que a música teve nesta cidade. Coimbra foi uma espécie de catedral do rock’n’roll e os Tédio Boys foram, dentro do género mais subversivo, talvez, a cristalização dessa capacidade de resistência numa cidade em muitos sentidos atávica. Na inauguração, e mesmo durante a exposição, percebeu-se o carinho que havia; foi, também, uma espécie de devolução à cidade de um registo que se julgava perdido. E, claro, também houve curiosidade de perceber o significado dessa descoberta, os negativos tinham a vantagem absoluta de trazer à luz do dia imagens de um passado que hoje nos parece tão distante; tratando-se de fotografia, entroncava na própria história do CAV. De facto, a exposição tinha essa dimensão importante e salvaguardava algo que me interessa muitíssimo.
CR: A relação entre arte e música?
MvHP: Essa relação é absolutamente fundamental — o universo onde as artes visuais e a música popular contemporânea se cruzam, que se cristalizou de forma explosiva com Andy Warhol, The Velvet Underground, Patti Smith, Robert Mapplethorpe, até ao Lawrence Weiner. Já em 2020, tinha feito a exposição Velvetnirvana, no Pavilhão Branco sobre o universo da memorabilia associada ao rock’n’roll a partir da colecção de António Neto Alves. Posteriormente, em 2024, aprofundei essa relação na exposição Radical Papers, em que juntei as colecções de António Neto Alves às de António Robles e Salvador Massada, para além da extraordinária colecção da Biblioteca de Serralves — a melhor colecção de livros de artistas sediada em Portugal. Radical Papers fazia um percurso, através de manifestações gráficas — o livro de artista, o cartaz, as capas de discos de vinil —, onde se cruzava, precisamente, o universo das artes visuais com o universo da música.
CR: Escreveste Proletários Intelectuais para uma aula aberta, na Galeria Municipal do Porto, em 2018, em que referes a famosa discoteca Studio 54 — lugar de culto, onde se dançava música disco, nos anos setenta, em Nova Iorque.
MvHP: Sim, foi um texto que escrevi para uma exposição da Carla Filipe. O Studio 54 vinha a propósito de uma história muito engraçada que vi num documentário sobre o modo como se realizou Saturday Night Fever, com o John Travolta. É uma história inacreditável, com um guião improvável, que mostrava os locais onde as pessoas saíam à noite nos subúrbios de Nova Iorque, porque o Studio 54, em Manhattan, era frequentado pelas elites. A música disco foi um movimento essencialmente proletário, além de musical, tinha um contexto social — os mecânicos de Nova Jersey que, ao fim-de-semana, se exprimiam através de uma dança libertadora.
CR: O modo de interpretar a obra de artistas que já morreram, por comparação a artistas vivos, certamente é distinto. Quais são as diferenças? Obriga-te a seguir determinadas direcções ao nível ético?
MvHP: São maneiras muito diferentes de trabalhar. Uma coisa é trabalhar com um artista vivo, em que lhe proponho um desafio e o acompanho. Aqui, vou aprendendo com o próprio artista, porque é um trabalho em conjunto. Tento criar as melhores condições possíveis para o artista expor, ou para fazer um livro. Quando se trabalha com artistas que já não estão cá a situação é diferente. É muito complicado. Vou dar um exemplo: na programação para o CAV tenho prevista uma exposição da Helena Almeida [em 2024, MvHP organizou a exposição Canto, na galeria Diferença, em Lisboa] e do Artur Rosa. Muitas pessoas já não se lembram do Artur Rosa, artista: reconhecido nos anos sessenta e setenta, acabou por de alguma forma se eclipsar para assumir o papel de fotógrafo das obras da Helena Almeida. Acedi a uma parte substantiva da obra dele através do filho Leopoldo de Almeida e pensei: “porque não faço uma exposição da Helena Almeida e do Artur Rosa?” Não têm, à partida, nada a ver um com o outro, mas, no fundo, a vida deles foi construída criativamente em conjunto; Helena Almeida deixou-se fotografar pelo Artur Rosa durante quarenta anos. É uma espécie de comunhão total, não é?
Agora, ao fazer uma exposição com as obras de cada um, não vou só procurar analogias ou comparações (que em certos momentos até podem ser feitas), mas mostrar como é que dois entes criativos viveram uma vida inteira completamente entregues um ao outro. Há aqui algum problema ético? Para mim não. Há problemas estéticos? Talvez, mas a mim interessa-me essa visão mais global daquilo que pode ser a arte e a vida.
CR: No centenário de Fernando Lanhas, em 2023, fizeste a exposição com o título, Sabe o que Não Sabes. O que é que descobriste no seu legado que te confrontasse com a dúvida de expor ou não?
MvHP: Nessa exposição tive acesso a uma pasta de desenhos, através do filho, Pedro Lanhas, e descobri um pequeno desenho, com um moinho, o qual tinha escrito na parte detrás: “desenho realizado com cinco anos.” Será que Fernando Lanhas achava que isto era uma obra de arte? Com certeza que não! Mas se ele escreve a sua idade no desenho, então de alguma maneira queria lembrar-se, ou era uma espécie de gesto para a posteridade. Decidi mostrar o desenho e, na folha de sala, expliquei o motivo pelo qual me pareceu pertinente mostrá-lo. Era uma coisa tão extraordinária, como é que uma criança de cinco anos já tinha aquela capacidade de abstracção, uma coisa muito rara. É daqueles artistas que se fosse minimamente conhecido lá fora era uma referência, foi absolutamente único. Mostrou um mundo de evidência e transcendência. Foi arquitecto de formação e veio a trabalhar em tantos meios, como a fotografia, o desenho, fez estudos arqueológicos e de cosmografia, enfim, um personagem renascentista se é que isso faz sentido dizer hoje em dia…
CR: Além de teres em mãos a programação do CAV, o ano passado organizaste duas grandes exposições temáticas no Porto: Pré/Pós — Declinações visuais do 25 de Abril, em Serralves e CAC 50 anos — a democratização vivida, no Museu Nacional Soares dos Reis. Quais foram as opções para a exposição de Serralves, uma vez que se tratava dos cinquenta anos do 25 de Abril?
MvHP: Sabendo que iria haver, logo à partida, exposições sobre o contexto histórico, iconográfico, dos cinquenta anos do 25 de Abril, propus a Serralves um projecto que deveria ser uma espécie de cápsula do tempo. Queria dar a ver as dinâmicas antes e pós 25 de Abril, entre 1970 — ano em que Salazar morre — e 1977 — ano da Alternativa Zero, quando a vanguarda ganhou um espaço institucional para ser mostrada e pensada. Partindo desse arco temporal comecei por pensar o modo como se tratou de forma, mais ou menos directa, a questão da Revolução do 25 de Abril nas artes visuais. Interessou-me abordar questões sobre a sexualidade, sobre a falta de liberdade e como é que se tratavam questões relativas a um determinado contexto, num isolamento brutal. A maior parte dos artistas em Portugal ou tinham a sorte de serem bolseiros da Fundação Gulbenkian, ou tinham emigrado para fugir ao flagelo da Guerra Colonial. Importava-me mapear tudo isso, fazê-lo de uma maneira não óbvia. Por exemplo, em vez de mostrar fotografias de carácter jornalístico, como Alfredo Cunha, optei por mostrar o olhar dos artistas, como Ana Hatherly, Ângelo de Sousa, ou José de Guimarães, através das suas próprias fotografias da revolução. Por outro lado, a exposição redescobriu muitos artistas, como Acácio Assunção, que, meses depois da revolução, fez uma exposição de gravura no Palácio Foz. Ninguém se lembrava, ninguém sabia quem era. Passou para o esquecimento total. Demorei dois anos até encontrar alguém que me soubesse dizer quem era Acácio Assunção. Depois consegui falar com a viúva e, posteriormente, no arquivo da RTP, venho a descobrir uma entrevista entre o Eládio Clímaco e o Acácio Assunção, no próprio local da exposição, no Palácio Foz. Era essa perspectiva que me interessava e o David Evans, que participou no famoso painel dos 48 artistas feito no dia 10 de Junho de 1974 [Painel do Mercado do Povo, realizado pelo Movimento Democrático dos Artistas Plásticos, em Belém] ajudou-me imenso a descobrir artistas, ou obras, que não tinham uma visibilidade consensual. Foram três anos de investigação profunda. Diria que, na maior parte dos casos, mesmo de artistas previsíveis, se mostravam obras relativamente inusitadas. No total, a exposição tinha mais de 300 obras. Foi uma visão divergente daquilo que é a nossa percepção da História da Arte convencionada.
CR: Qual é a História da Arte convencionada que referes?
MvHP: A História da Arte convencionada fala muito desse painel, feito por 48 artistas no dia 10 de Junho, em que cada artista tinha o seu metro quadrado para pintar. Só duas pessoas é que fizeram intervenções fora do painel, Clara Menéres e José Aurélio. Na História da Arte em Portugal, esse painel foi elevado a uma espécie de símbolo da relação entre as artes visuais e o 25 de Abril (só o clarividente Ernesto de Sousa chamou a atenção para a precariedade democrática da coisa, pois cada artista pintou o seu quadradozito, muitos adoptando aquilo que era a sua linguagem convencional, por oposição a algo mais comunitário…). É absolutamente ridículo que nessa historiografia não se dê também o devido valor àquilo que se passou no Porto, nesse dia 10 de Junho: um grupo de artistas, a maior parte deles ligados à Cooperativa Árvore — não nos esqueçamos que em 1976 sofre um atentado bombista, pela parte da extrema-direita, como sendo um alvo a abater —, pessoas ligadas ao Teatro Experimental, ao Cineclube, decidem fazer uma acção performática chamada “O Enterro do Museu Nacional Soares dos Reis”. Fizeram um cortejo fúnebre e puseram-se em frente ao museu, decretando o seu enterro.
CR: Chegaram a invadir o museu ou não?
MvHP: Não houve invasão nenhuma foi tudo feito à porta. Essa acção artística já trazia uma reivindicação para a criação de um Museu de Arte Moderna no Porto por parte daqueles que viriam a ser os seus protagonistas, Fernando Pernes, Etheline Rosas (coadjuvados por Mário Teixeira da Silva). A directora do Museu Nacional dos Reis, apreensiva, naquele período conturbado, escreveu às tutelas a informar que havia uma pressão muito grande para se fazer um núcleo de arte contemporânea dentro do museu. Tirando a Cooperativa Árvore e algumas galerias não havia nenhuma instituição dedicada à arte contemporânea na cidade. As tutelas acederam e fez-se uma comissão de organização para a primeira exposição a que se chamou Levantamento da Arte do Porto no Século XX. Nessa comissão de organização estava Ângelo de Sousa, Jorge Pinheiro, José Rodrigues, Etheline Rosas e Fernando Pernes, que viria a ser o director do Centro de Arte Contemporânea, entre 1976 e 1980.
CR: E, assim, nasceu o primeiro Museu de Arte Contemporânea no Porto?
MvHP: Exactamente. Tudo isto deu origem ao futuro Museu de Arte Moderna no Porto — na altura dizia-se ‘moderna’ em vez de ‘contemporânea’. No fundo, podemos dizer que de uma manifestação de rua foi criado o primeiro Museu Nacional de Arte Contemporânea — o Museu de Serralves. Foi um caso, talvez, dos poucos no mundo, em que a partir de uma acção de rua se constrói a realidade de um museu. Daí a importância histórica desta acção que por comparação ao mitificado painel de Lisboa teve duradouras e vitais consequências no contexto da arte nacional.
CR: A exposição CAC 50 anos é a história do próprio Museu Nacional Soares dos Reis?
MvHP: Sim; António Ponte, o director do museu, tinha vontade de contar essa história, porque era importante no âmbito dos cinquenta anos do 25 de Abril. Nesta exposição apontava-se para uma realidade específica, o dito levantamento da arte do século XX do Porto, com mais de cem artistas, e que começava cronologicamente no Amadeo de Sousa Cardoso e ia até aos artistas mais jovens, assim demonstrando a vitalidade de um contexto artístico que mais tarde viria a ganhar a sua “casa”.
CR: Sendo que cada instituição é diferente, algumas privadas, outras públicas, tens uma norma e/ou segues determinado caminho para estruturar o plano expositivo?
MvHP: É sempre desafiante pensar numa programação para estruturas muito diferentes, mas quando se trabalha numa instituição há uma responsabilidade: tem de se saber interpretar a instituição, o seu contexto, fazer a leitura das suas idiossincrasias. Acho que isso é que define um bom curador. Portanto, o meu lema tem sido, na medida das minhas capacidades, ir sabendo ler aquilo que me rodeia e, muitas vezes, aquilo que me rodeia são desafios de apreensão partilhados: entre a percepção da história das instituições, a vontade de contar histórias divergentes e a possibilidade de criar comunidade envolvendo estes desejos.
CR: Passaste por várias instituições, como a Fundação Cupertino de Miranda [1995-1998], Fundação Ilídio Pinho [2002-2009], o Centro Galego de Arte Contemporânea [2009-2015], e, no entanto, tens trabalhado nos últimos anos, e já no passado, como freelancer.
MvHP: Talvez seja dos curadores em Portugal com mais tempo acumulado enquanto freelancer. Há vários anos atrás, quando as instituições eram mais fechadas, ser curador independente era bastante difícil. Hoje menos, até há ‘cursos de curadoria’. As pessoas que só trabalharam em instituições não sabem o que é o vazio de preencher o horário e arranjar trabalho. Como director de museu, por exemplo, quando falava com um curador independente que me queria apresentar uma proposta de exposição, todos me diziam que poucos tinham o respeito que eu demonstrava por essa iniciativa. Isto porque tive dos dois lados da mesa. Hoje em dia rio-me do patético que alguns que estão do outro lado da mesa demonstram: são muitos anos neste trabalho e percebo com cristalina clareza a debilidade daqueles que acham que têm algum poder… É tudo tão efémero e vago, mas como digo, a história julgará implacavelmente o feito, não os maneirismos de poder!
CR: Como foi regressar a Serralves, sendo que foi nesse museu que começaste a trabalhar?
MvHP: Fui para Serralves em 1989, logo no seu começo, e fiz um percurso até 1995. Tive a sorte de começar a trabalhar no meu primeiro ano do curso de História da Arte, com vinte e poucos anos. Em 1988 ganhei uma bolsa para estudar uns meses em Berlim e quando regressei ao Porto, a Cristina Grande — hoje em dia responsável pelo Departamento de Artes Performativas — estava incumbida de montar um Serviço Educativo. Ela conhecia-me e convidou-me para constituir o Serviço Educativo. Fazia lá ideia do que era isso, mas criei esse serviço, com mais cinco colegas meus. Foi importantíssimo! Passei por várias tarefas, fiz visitas guiadas, fiz uma série de entrevistas a artistas para os jornais das exposições, aliás, fui o responsável desses jornais. Fui criando uma aprendizagem.
CR: Preferes fazer curadoria, investigar, escrever?…
MvHP: Escrever é um processo doloroso, sempre foi, porque tenho uma maneira de escrever tortuosa e cada vez tenho menos tempo. Diria que neste momento dá-me um prazer enorme fazer estes projectos de investigação que resultam em exposições; possam elas não cair em esquecimento.
CR: Gostavas de ter feito uma carreira internacional?
MvHP: Podia ter ido por aí. Abriram-se muitas portas, porque a seguir a Serralves fui trabalhar num projecto chamado “Mesa Curatorial”, no Centre d’Art Santa Mónica, em Barcelona [2002-2005] e, depois, no Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago de Compostela. Mas são opções que se fazem. Tinha uma perspectiva de que queria ficar cá e, anteriormente, já tinha feito o Porto Capital Europeia da Cultura, em 2001. À medida que investigo interessa-me cada vez mais este resgate de memória no contexto da arte portuguesa. Acho que se consigo fazer alguma diferença é por aí. A vida encaminha-nos para determinados lugares. Há quinze, vinte anos, interessava-me mais trabalhar com artistas contemporâneos, ou sobre temáticas ditas contemporâneas, agora, percebo que gosto de ir buscar essas linhas de força que têm sido negligenciadas na arte portuguesa, para o bem ou para o mal. Depois, o futuro fará o seu juízo. Sempre tive essa consciência. E é a vida, apesar dela.
Pré/Pós - Declinações visuais do 25 de Abril (Serralves)
CAC – 50 anos: A Democratização Vivida (Museu Nacional Soares dos Reis)
Cristina Robalo vive e trabalha em Lisboa. Artista, doutorada em Arte Contemporânea pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra
(2021-2011), mestre em Filosofia, na área de Estética pela Universidade Nova de Lisboa (2010-2008), frequentou o Plano de Estudos Completo em Desenho e o Curso Avançado de Artes Plásticas pelo Ar.Co, Lisboa (2000/1994). Em 2019 iniciou o projecto editorial, “Conversa em
torno do desenho com Cristina Robalo”, em parceria com a Sistema Solar/Documenta.
A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico.
Imagens das exposições: Ponto e Vírgula de Zulmiro de Carvalho e Sebastião de Resende; Des-silenciar de Judite dos Santos e Júlia Ventura; PoPalolo; Now Here, Nowhere de Vitor Torpedo; Dormência de Cristina Mateus; Radical Papers; Acções Figurativas de Vera Mota. Cortesia de CAV Centro de Artes Visuais de Coimbra, 2025.
Nota:
[1] Em modo de oferta: “Escavar e Recordar” de Walter Benjamin.
