Noé Sendas: ...On Thin Ice

...On Thin Ice
Noé Sendas (Bruxelas, 1972) divide a sua vida e a sua prática profissional entre Lisboa, Madrid e Berlim onde, ao longo de várias décadas, desenvolve um extenso corpo de trabalho. Explorando diferentes linguagens e fazeres que vão da fotografia ao vídeo e da escultura ao desenho, as suas obras assumem um recorte tendencialmente instalativo que, com pendor poético, problematizam a natureza da prática artística, assim como o contexto e o espaço de exposição.
No leque de uma ação desperta, curiosa e abrangente, o seu trabalho encontra um fio condutor em que predomina um olhar melancólico, vagueando entre uma ideia de encanto e desencanto que, frequentemente, envolve uma relação com o corpo e alusões a outros artistas e a outras práticas. Nesse sentido, de modo direto, mas também subtil, Sendas cruza uma relação atenta com o cinema, a literatura e a música, trabalhando a presença, a perceção e a memória do observador, guiando-o a uma leitura poética da realidade.
A exposição ...On Thin Ice que o artista apresenta na Ala Capelo Norte, no Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), em Lisboa, com curadoria de João Silvério, foi programada em 2023, por Emília Ferreira e concretizada em 2025, por Filipa Oliveira (atual diretora desta instituição).
O contexto histórico e cultural deste local, que foi criado em 1911 e reaberto, renovado e ampliado, em 1994, é denso e complexo. A instituição surge de uma cisão do antigo Museu Nacional de Belas-Artes, que dá lugar ao Museu Nacional de Arte Antiga (ainda hoje situado no Palácio das Janelas Verdes) e ao Museu Nacional de Arte Contemporânea, que começa por ocupar um conjunto de salas anexas à antiga Academia Nacional de Belas Artes, no Convento de São Francisco. Passando por várias direções que alargaram as suas instalações e o seu campo de ação, é, contudo, só no final do século XX que esta instituição se afirma com uma orientação adequada à Contemporaneidade que reclama.
Noé Sendas tira partido da especificidade do museu, reclamando acesso ao seu espólio para trabalhar com a memória que este detém. Assim, no âmbito de uma apropriação que reenquadra as obras de vários outros artistas, Sendas congrega as suas peças com outras que escolheu da coleção, intervindo no recorte de um campo físico (alterando a leitura e a disposição), artístico (abolindo hierarquias entre práticas e autores) e cultural (reinventando o diálogo com a instituição).
Atente-se às fotografias de Fernando Lemos (Lisboa 1926 - São Paulo 2019) que abrem e encerram a sequência de quatro salas contíguas, ao busto de gesso de Joaquim Valente (Lisboa 1912–1985) que marca a primeira dessas salas, às litografias de Henri de Toulouse-Lautrec (Albi 1864–Saint-André-du-Bois 1901) e aos desenhos de Columbano Bordalo Pinheiro (Cacilhas 1857–Lisboa 1929) — artista e antigo diretor do museu — que pontuam a terceira sala, à pintura de um autor desconhecido que surge na quarta sala e, por fim, à impressão fotográfica de uma refletografia de infravermelhos, de uma pintura de Aurélia de Sousa, que se dispõe no corredor.
Em todos estes trabalhos está vincada a relação com o corpo, seja numa ligação direta com a figura humana e a fisicalidade do território (paisagem), seja na eleição de um momento singular em que a dicotomia presença/ausência se torna fulcral. Esse é o mote que preside à articulação com as obras de Sendas que, ao longo do espaço, se vão encadeando na procura de um diálogo entre as questões que lhe são intrínsecas, as obras dos outros artistas, as salas da exposição e o funcionamento da instituição. Essa articulação que, de forma coesa e pertinente, opera em vários tempos e diferentes camadas, permite que os elementos ressoem entre si, transformando a exposição num curioso jogo de espelhos.
Dir-se-ia que Sendas cruza o tempo do seu fazer, entre obras recentes que revisitam outras anteriores, o tempo do fazer de outros, que o artista problematiza ao reenquadrar a leitura das obras da coleção, mas também o tempo da disponibilidade e da atenção que requer do observador.
O corpo que aqui vemos, sentimos e intuímos, que se apresenta no todo e na parte, por múltiplos estratos, em vários tempos, ao longo do espaço, sustenta um debate central ao mundo deste artista.
Explorando a conexão entre o modo de sentir, pensar e observar, e a composição que assim se forma, a exposição desenrola-se com a ideia de que é a partir do olhar que o desenho aflora. É isso que encontramos nos registos expostos na sala maior, quando o foco está na dança entre a figura do olho e a figura da mão, mas também nas outras onde, a diferentes níveis, as molduras reordenam o limite, o contorno e o campo de ação daquilo que é apresentado. Vejam-se as obras da série After / Untitled (landscape) by Unknown Artist, 2025 que se estratificam numa colagem de imagens, reflexos e objectos, expandidas em si mesmas e ao longo das salas ou, de forma análoga, as intervenções que acrescentam um vazio aos passe-partouts que descentram os trabalhos de Columbano Bordalo Pinheiro e Henri de Toulouse-Lautrec.
Num equilíbrio entre o pensamento e a intuição, o corpo viabiliza o desenho que o olhar discute. Se é o olhar, contemplativo ou analítico, que elege, persegue, define e apresenta, é o gesto, ou a ação do corpo que, simultaneamente, engendra o seu registo. Nesse sentido, dir-se-ia que a expressão da matéria e a manualidade que a lavra são igualmente importantes no trabalho de Noé Sendas. Atente-se às obras SniuR (table), 2025 e After SniuR (table), 2025 que, ocupando o centro de duas salas, incorporam uma bancada de produção e peças de roupa (remetendo para um corpo ausente), ou ainda as obras da série Tábua, 2025, que acolhem elementos redesenhados pelo manuseio (como um calço de metal e uma antiga maçaneta de porta). Repare-se ainda na forma como o artista apresenta a obra Judite, 1944 — de Joaquim Valente, onde o busto incompleto de uma jovem é colocado contra a parede, de face para um espelho, revelando o rosto e a modelação expressiva da parte de trás da cabeça. Numa inversão de papéis entre quem observa e o que é observado, a escultura espelha-se e fita-nos num ato de voyeurismo, quando perscrutamos o seu lado interno.
De forma explícita e implícita, aquilo que risca, que modela, que agarra ou que sustenta, aparece em quase todos estes trabalhos. Seja a mão que reconhecemos amiúde (veja-se também a obra Hand Catching Bronze (after Serra’s Hand Catching Lead), 2025 disposta na quarta sala, rematando a sequência dos compartimentos anteriores), sejam os patins de gelo, que riscam o solo, reconhecidos no título da exposição e nas figuras que se desenham nas madeiras da série Tábua, 2025.
O corredor central, que liga a sequência das salas brancas com a sala negra do lado oposto, reúne duas obras que incidem sobre a natureza do olhar. Em Mapa de Mim Mesmo, 2024 um radiómetro (aparelho que mede a potencia da luz solar) repousa sobre o livro, fechado, A La Découverte De La Pinture, Par Les Méthods Physiques, de Madeleine Hours-Miedan. Esta obra é colocada em linha com Retrato de Homem Subjacente, 2025 que dá a ver uma fotografia de uma refletografia de infravermelhos, da obra Atelier, 1916 de Aurélia de Sousa. No processo radiográfico, percebemos a figura de um homem que se encontra imerso nas camadas iniciais da pintura e que apenas vem à luz pela utilização de um elaborado processo tecnológico.
Na primeira obra, Noé Sendas posiciona-nos perante um instrumento científico que mensura a variação da luz e aquilo que conseguimos observar, mas nega-nos o acesso ao estudo que explica o papel da sua vibração na perceção da pintura. Na segunda obra, Sendas coloca-nos perante o registo rigoroso de uma pintura que se revela por camadas, desvelando uma figura espectral que até então permanecia oculta. De forma poética e modo complementar, ambas problematizam a natureza da imagem, a densidade da obra e a essência do olhar.
Com um olhar que deambula na obscuridade, na última sala encontramos uma instalação composta pela sobreposição de três projeções luminosas (invocando a alteração de limite das anteriores molduras e passe-partouts) e pelo corpo, em tamanho real, que as acompanha. O corpo, vestido do avesso e deitado no solo, usa uns patins para gelo (iguais aos das obras anteriores) e desenha, em sombra, o recorte de uma possível paisagem. A cabeça é substituída por um espelho que, fora do seu lugar, ainda no chão, nos devolve o olhar. Tal como na sala anterior (Espelho, 2025), o espelho inverte a perspetiva, reverte o espaço e remete para a questão do duplo que, no todo da exposição, literal e metaforicamente, se debate.
A cabeça como lugar do pensamento e do olhar, e a mão como lugar do gesto que desenha, repetem-se ao longo da exposição, mas nela encontramos também figuras de patinadores que se aventuram em chão incerto. Riscando a fragilidade do solo, uma e outra vez, são alusões a um caminho que se traça de forma reiterada, como o desenho.
Percorrendo um caminho que oferece uma sequência, mas que convida à deambulação, a exposição induz um movimento pendular entre obras, salas e autores, como num jardim inglês em que se densifica a perceção, mas se afasta a previsibilidade de uma lógica cumulativa. ...On Thin Ice faz-se pelo que se mostra e pelo que se esconde, como num campo de ecos, no espaço entre o que se vê e o que se intui, o que se encontra e o que se descobre, num tempo lento de gestos rápidos.
Noé Sendas
MNAC: Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado
Sérgio Fazenda Rodrigues é Arquitecto e Mestre em Arquitectura (Construção), foi doutorando em Belas Artes e é doutorando em Arquitectura, onde investiga as relações espaciais entre Arquitectura e Museologia. Faz curadoria de arquitectura e artes visuais e integrou a direcção da secção portuguesa A.I.C.A. Desenvolveu, com João Silvério e Nuno Sousa Vieira, o projecto editorial Palenque. Foi consultor cultural do Governo Regional dos Açores, tendo a seu cargo, nesse período, a construção da colecção de arte contemporânea do Arquipélago: C.A.C. É fundador, director e curador de Kindred Spirit Projects.
Noé Sendas: ...On Thin Ice. Vistas da exposição no Museu Nacional de Arte Contemporânea, Lisboa, 2025. Fotos: Teresa Santos e Pedro Tropa. Cortesia do artista e MNAC.







