Ed. 10-11-12 / 2019
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Belén Uriel: Bonança

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Isabella Lenzi

Notas breves sobre o cuidado e a complementaridade

 

 No dia a dia das cidades, apesar de muitas vezes não nos darmos conta, muito do que nos cerca, protege das intempéries, transporta e sustenta, é duro, frio, áspero e com cantos vivos. Com pequenos apontamentos, Belén Uriel faz-nos lembrar do nosso corpo e da relação que estabelecemos com outros corpos, espaços, objetos e matérias. Em Bonança, mostra inaugurada no início de novembro, de 2019, no CA2M: Centro de Arte Dos de Mayo, instituição cultural localizada em Móstoles, ao sul de Madrid, a artista espanhola ocupa uma sala com um conjunto de esculturas que nascem a partir de elementos desenhados para o descanso, o lazer, para amortecer o impacto e cuidar.

Atualmente em Lisboa depois de uma longa temporada em Londres, Belén trabalha com o vocabulário da indústria, do quotidiano, da arquitetura e do design, principalmente modernos. Ela parte de objetos de uso diário para investigar em que medida este "uso" que fazemos deles determina ou está determinado pela forma com que nos relacionamos com o mundo e entre nós. Como a um arqueólogo, lhe interessam as "histórias" que os objetos comuns podem contar, os hábitos, tempos, corpos e distintos contextos sociais a eles atrelados, assim como as mudanças no seu significado ao longo da história. Ao mesmo tempo, a sua produção está diretamente relacionada com a realidade que a rodeia e a sociedade na qual cresceu, burguesa e neoliberal. A partir dela, Belén reflete sobre nossos hábitos de consumo e o status, o valor e o significado cultural dos artefatos desde que são produzidos até serem consumidos.

O título de sua primeira individual em Madrid joga com a ideia de "falso amigo": uma palavra que em dois idiomas distintos parece ou soa semelhante, mas difere no significado, total ou parcialmente. "Depois da tempestade, vem a bonança", diz o ditado português que se refere de maneira literal ou metafórica a um tempo calmo, com vento fraco e mar tranquilo após uma tormenta. Em espanhol, além deste significado, o termo também faz alusão à prosperidade económica, fortuna e sorte.

No espaço expositivo, uma sala retangular neutra de paredes brancas e piso escuro, estão espalhadas oito esculturas. Minha primeira sensação ao vê-las é uma mistura de estranhamento e familiaridade, como se estivesse diante de algo pela primeira vez, mas reconhecesse a linguagem geral. Todas são compostas por uma estrutura metálica geométrica que funciona como base para pequenas peças a elas acopladas ou simplesmente apoiadas. Com diferentes formas e configurações, as estruturas autoportantes parecem saídas de uma fábrica, loja de design ou vitrine. Elas lembram o suporte de uma mesa, um biombo, um cabide de casacos, um tripé, a resistência de um aquecedor. Seu aspecto industrial, frio, polido e brilhante, entre elemento arquitetônico e mobiliário moderno, contrasta com a sensação transmitida pelas pequenas esculturas orgânicas que sustentam. De longe, estas parecem moles ou infladas. Silenciosas, com um aspecto lânguido e cansado, como um mar calmo pós tormenta, elas não me deixam esquecer que em seu interior há uma vida que pulsa.

Ao aproximar-me percebo que as pequenas esculturas são fabricadas manualmente com vidro, moldadas a partir de objetos ou elementos conhecidos, que tenho ao meu redor no dia a dia, mas que aqui não são facilmente identificáveis. Ao mesmo tempo, lembram pedaços de carne, partes de um todo ausente, fragmentos amputados ou próteses. São objetos parciais que guardam a forma, a memória e a textura de seus moldes, o seu duplo, um duplo estranho. Seu aspecto avermelhado, semitransparente e aparentemente maleável me faz pensar que em seu interior ainda corre ar ou sangue. Diferentemente dos suportes metálicos, que parecem feitos por uma máquina em uma lógica de série, estas peças são imperfeitas. Carregam o traço humano, marcas de sua produção e rebarbas. Apesar de rígidas, por serem feitas em vidro evocam a ideia de fragilidade e risco de quebra. Nesta relação de mutualismo e complementaridade, os suportes funcionam como exoesqueletos ou colunas vertebrais. Já as esculturas de vidro, conferem vida às linhas retas e às placas planas de metal, o que dá ao conjunto um aspecto animado e antropomórfico.

 

 

Para percorrer a exposição realizo uma espécie de coreografia na qual meu corpo desvia e se aproxima de outros corpos. Os objetos parecem extensões do meu ou de outros corpos, não presentes aqui. As esculturas são quase performativas e sugerem os usos a que se destinam. Foram projetadas para sentar, deitar, apoiar, sustentar. Para ver em detalhes algumas das peças, compreender o seu uso e de onde foram "tiradas", além de me aproximar, também sou obrigada a me abaixar. Percebo então que, ao contrário da primeira impressão que tive ao entrar na sala, muitas das estruturas metálicas têm seus cantos arredondados, o que demonstra um cuidado e preocupação com o eventual usuário no momento de desenhá-las. Somado a isso, algumas das esculturas de vidro parecem ter sido postas nas extremidades de seus suportes justamente para aliviar ainda mais o impacto, para amaciar o encontro entre nosso corpo quente e delicado e esses corpos frios e geométricos.

Uma das esculturas é formada por uma chapa dourada dobrada em zigue-zague, que lembra a cobertura de um galpão mas está disposta diretamente no chão e  tem um aspecto bastante luxuoso. Em cima dela estão dispostas duas formas de vidro tubulares, uma delas cônica e a outra com a superfície texturizada, repleta de pequenos gomos. Ambas poderiam perfeitamente ser cópias de conchas vindas do fundo do mar, mas na realidade foram moldadas a partir de uma esteira de yoga e de um rolo de massagem. Outra escultura é formada por uma superfície metálica plana e perfurada e parece nascer de uma caixa desmontada —talvez de remédio— agigantada pela artista até ganhar uma escala de parede divisória. Duas formas arredondadas estão acopladas a ela. Estas, são moldadas a partir de alças de uma mochila, que aliviam o peso do que carregamos no dia a dia, no metrô lotado a caminho da escola ou do trabalho. Uma vez mais lembro do quotidiano nas grandes cidades, no ritmo, no movimento pendular dos corpos a ir e vir.

Já fora da sala, encontro uma última peça de vidro, quase escondida. Uma espécie de ameba que parece ter se perdido do restante do conjunto, acoplada diretamente à arquitetura da instituição cultural.

A partir dos processos próprios da escultura, como a mudança de escala e de materiais, Belén faz com que os elementos que nos circundam passem por transformações por vezes muito sutis. Essas pequenas operações são suficientes para sugerir algo fora da realidade inerente dos objetos originais ou tradicionais, como outras interpretações ou outras possibilidades de uso. Assim, as formas que ela propõe, ao mesmo tempo que refletem, também desconstroem estereótipos relacionados a hábitos e convenções sociais vinculados ao uso de uma série de objetos. Apesar —e justamente pelo fato— de estarmos fisicamente tão próximos e dependentes de muitos deles, fundamentais, por exemplo, para gerar um pouco de conforto em meio a uma rotina tão áspera, Belén nos lembra das possibilidades transformadoras destes mesmos objetos que nos complementam. Tendo presente o legado do Movimento Moderno, que acreditou na capacidade da arquitetura, do design e da arte como poderosos agentes de mudança social, a artista percebe nestes objetos, "mediadores" entre o ser humano e o seu estar no mundo, uma potência para agir sobre o mundo, para modificá-lo e estar nele de maneira ativa.

O texto foi escrito em português do Brasil.

Bélen Uriel

CA2M: Centro de Arte Dos de Mayo

Isabella Lenzi. São Paulo, Brasil 1986. Curadora independente, editora e pesquisadora. Desde 2013 dirige o espaço cultural do Consulado Geral de Portugal em São Paulo, no qual consolidou um local de experimentação para jovens artistas e difusão de artistas portugueses históricos. Em 2017, atuou como pesquisadora na Whitechapel Gallery, em Londres, e, mais recentemente, colaborou na primeira grande individual do artista brasileiro Alfredo Volpi realizada, em 2018, no Nouveau Musée National de Monaco. De 2013 a 2015 também integrou o núcleo de programação da Videobrasil, associação cultural focada na difusão e mapeamento da arte contemporânea do Sul geopolítico. Antes disso, trabalhou na Galeria Vermelho, em São Paulo, e, em 2011, foi assistente de curadoria na XI Bienal de Cuenca, no Equador.

 

 

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Belén Uriel, Bonança. Vistas da exposição CA2M: Centro de Arte Dos de Mayo. © Fotos: Pablo Ballesteros. Cortesia de CA2M: Centro de Arte Dos de Mayo. 

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