Francisco Trêpa: finalista do Prémio Novos Artistas Fundação EDP 2025

Francisco Trêpa (Lisboa, 1995) vencedor, em 2024, do Sovereign Portuguese Art Prize 2024, estudou cerâmica na Escola António Arroio e Escultura e Arte e Multimédia na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Poder-se-ia dizer, a partir do trabalho que tem exposto, que a cerâmica tem um sentido na sua obra, embora isso não faça do artista — pelo contrário — um ceramista. “O que mostro é escultura, embora tenha voltado à prática da cerâmica em 2020. Gosto de fazer moldes do objectos que encontro. Alguns são objectos naturais, rebentos, botões de flores. São coisas que me fascinam e com as quais a minha vida acaba por se encontrar”.
A repetição é um processo caro a Francisco Trêpa. Permite-lhe repetir formas, actividade para a qual a cerâmica contribui. “Em 2022, voltei à modelação e hoje incluo as peças dos moldes e as modelações. Gosto de pensar o molde como uma fotografia da escultura. Regista as impressões do momento do corpo, do objecto. De alguma forma, aquilo que retiro ao mundo, ao fazer o molde, também acrescento, ao deixar nele o resultado desse fazer: a modelação, com as formas que crio. Formas que são seres híbridos, sem género, seres livres que vão vestindo a pele de coisas diferentes. São quase performers”.
A origem do projecto esteve numa série de experiências de observação de paisagens e lugares. “Nas minhas idas para o sul, a caminho de Setúbal, fui encontrando, postos de alta voltagem onde as cegonhas fazem os seus ninhos. Pensei que podia pegar nessa imagem. Os postos têm uma estrutura e havia naquela relação algo que não era simbiótico, mas até conflituoso e que me permitia abordar temas que me interessam, como o Antropoceno ou a resignificação do mundo”. Quando soube que tinha sido selecionado para o Prémio, o artista começou a desenvolver a sua instalação, transfigurando a estrutura da torre, sem preocupação em representá-la de modo realista. “Estaria partida, quebrada. Queria pensar aquela presença de animais que, no passado, faziam os seus ninhos em falésias ou em árvores. E reflectir sobre o significado do ninho, lugar habitual de nascimento, mas que, aqui, pode significar a morte. Lembrei-me também do facto de as cegonhas estarem a alterar o seu padrão migratório devido às alterações climáticas e à presença dos aterros sanitários. São condições que fazem com que muitas deixem de migrar”.
A mudança na vida e no mundo, levou Fernando Trêpa a resignificar, em termos escultóricos, a forma da estrutura dos postos de alta voltagem, uma produção humana que se torna perigosa e que, enquanto ninho, pode ser um signo da vida, mas também de uma morte induzida pelos seres humanos. "Decidi substituir as cegonhas por personagens numa torre partida."
A relação física do espectador com a instalação é importante. "A minha intenção é a de que os espectadores entrem dentro das peças e que as peças lhes despertem determinadas sensações. Uma referência relevante, devo dizer, foi uma peça do Rafael Bordalo Pinheiro inspirada na fábula A Raposa e a Cegonha de Jean de La Fontaine. Tem uma moral: ninguém sai a ganhar. Por outro lado, o gesto da cegonha é muito ambíguo. Enfia o bico na garganta da raposa. Para a ave é um gesto maternal, mas para a humanidade torna-se ambíguo, uncanny."
Há um imaginário à volta da instalação que o artista remonta à sua própria produção. "O meu trabalho alimenta-se das minhas próprias peças. Em 2022 fiz uma exposição no Museu de História Natural, Hipederme, na qual trabalhei à volta de uma larva do escaravelho da palmeira, feita de resina. Essa exposição permitiu ligar-me de volta à minha prática e a desenvolver outros imaginários”.
Desses imaginários fazem parte o desenho — enquanto processo, ideia, prática — a escultura, a cor e, como maior ou menor proximidade, a obras de vários artistas (Paula Rego, Pierre Huyghe ou Wolfgang Laib). Mas, acima de tudo, o fascínio por coisas que espoletam a vontade de trabalhar. "Podem ser peças, moldes que tenho no estúdio. Poesia, filosofia". Sobre a cerâmica, Francisco Trêpa sublinha que se trata de um material e de uma técnica. O que mostra é escultura.
José Marmeleira é Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação [ISCTE], é bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia [FCT] e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações [Ípsilon (suplemento do jornal Público), Contemporânea e Ler].
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.
Capa: Vista da exposição © Bruno Lopes. Cortesia de MAAT/Fundação EDP.



