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Inês Brites: finalista do Prémio Novos Artistas Fundação EDP 2025

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José Marmeleira

Natural de (Coimbra), Inês Brites formou-se em pintura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e estudou no KASK: Conservatorium & School of Arts em Ghent, Bélgica. Iniciou o seu percurso artístico em 2015, tendo participado, desde então, em vários projectos e exposições colectivas e individuais. O seu trabalho tem-se focado, em termos de linguagem, num acepção expandida do objecto artístico e num interesse atento, sempre renovado, na materialidade e na relação que estabelecemos com as coisas. “Vejo o meu trabalho como uma investigação contínua sobre objectos de carácter domésticos que acompanham a vida contemporânea ocidental, vida essa já se encontra alienada na sua prática acumulativa”, comenta na conversa com a Contemporânea.

A perspectiva crítica da artista face ao processo de acumulação incessante de objectos não implica um maniqueísmo primário. Inês Brites observa os objectos na sua autonomia e na sua vida, no seu uso passado, na história que tiveram. “Interessa-me o potencial das imagens e dos objectos pessoais que acabamos por desvalorizar. Através do meu processo artístico, acrescento-lhes uma nova história, outra existência, anulando por vezes o sentido ou a função original. Ficam, de facto, sem a função para qual foram pensados ou que os guiou”.

Inês Brites lembra-nos que já utilizou objectos sem qualquer intervenção e continua a fazê-lo, mas é a transformação das coisas que actualmente mais distingue o seu trabalho. Alterados, modificados, transfigurados nas formas de objectos artísticos, podem ser, de novo, estimados, admirados com outro olhar. Os materiais usados podem ser o silicone, a cera, a resina; os objectos podem ser uma toalha, uma garrafa, um aquecedor. “Desenvolvo uma certa arqueologia experimental com a qual exploro o que é real e não é real, o que é familiar e o que não é. Não procuro construir um objecto totalmente perfeito como se tivesse saído de uma fábrica. Interessa-me o erro, a imperfeição na sua construção. Julgo que é aqui que o inesperado acontece. E o objecto transforma-se noutra coisa”.

O processo de trabalho e de disposição das peças no espaço encontra-se dependente de vários factores. “Com frequência, tenho uma ideia concreta do conjunto de objectos que quero fazer, outras vezes isso não se verifica. No processo de reprodução, vão surgindo outras coisas. Há objectos muito difíceis de reproduzir. No que respeita ao espaço, há certas particularidades que me interessa explorar. E há peças que resultam melhor quando colocadas em determinado espaço do que outras”.

Como já mencionámos, Inês Brites formou-se em pintura, arte da qual a sua produção se viria a afastar. “Quando estudei pintura, queria mesmo fazer pintura, mas percebi que não me satisfazia totalmente. E uma amiga, com a qual dividia o atelier, perguntou-me porque não fazia algo com os objectos que ia guardando. Decidi, então, pesquisar sobre maneiras de os reproduzir, investigar materiais, incluindo os menos ortodoxos, como o silicone”. A cor e imaginação presente nos títulos nasceram da intuição, de pesquisa ou de encontro com autores, como o escritor, poeta e filósofo francês René Daumal (1908-1994), figura ligada ao surrealismo  e ao dadaísmo, e cuja obra inspirou Inês Brites.

Sobre a selecção dos objectos, a artista comenta que o processo é bastante intuitivo. “Escolho muito aqueles de uso doméstico, pequenos amuletos que me interessam, por exemplo, mas o meu principal foco são os objectos desvalorizados, descartados, incluindo elementos que encontro na natureza. Há sempre um processo de recolha e de reconhecimento da vida passada das coisas”. Inês Brites alude à presença de um arquivo que tem dois significados: é pessoal, encontra-se no atelier e guarda os objectos; e ganha uma vida pública quando fornece à artista os objectos que ela escolhe, transforma e expõe.

 “A relação que temos com as coisas também pode reflectir a relação que temos com as pessoas. É isso que procuro explorar”, acrescenta. “Um espaço de intimidade e relacional, comum, íntimo, colectivo”.

Inês Brites

 

MAAT

 

 

José Marmeleira é Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação [ISCTE], é bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia [FCT] e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações [Ípsilon (suplemento do jornal Público), Contemporânea e Ler].

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia. 

 

 

Capa: Vista da exposição © Bruno Lopes. Cortesia de MAAT/Fundação EDP.

Outras imagens: Vistas da exposição ©Joana Linda. Cortesia de MAAT/Fundação EDP.

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