Evy Jokhova: finalista do Prémio Novos Artistas Fundação EDP 2025

Não será desajustado afirmar que Evy Jokhova (Suiça, 1984) é uma artista em movimento, em trânsito. Vive na capital portuguesa, onde já expôs o seu trabalho mais do que uma vez — na Galeria Municipal de Arte, Almada, em 2023, e na Galeria 3+1 em 2022 e em Março deste ano — formou-se em Artes na Royal College of Art (2011) e em Comunicação Política no Goldsmith College (2013), em Londres. Nascida na Suíça, filha de pais estónios, cresceu na Áustria antes de iniciar a sua carreira artística na cidade inglesa em 2017. A sua condição de nómada voluntária, assim como os conceitos de circulação, viagem, sociabilidade e casa, aparecem no seu trabalho na forma de metáforas, transfigurados. Isto é: enquanto objectos artísticos.
“Estabeleci-me em Lisboa há seis anos e, curiosamente, o meu trabalho para o Prémio
Novos Artistas Fundação EDP lida com esse facto. É uma das minhas maiores
instalações, e tem, de facto, um carácter metafórico”. A peça, uma instalação que
replica a forma de um animal (a saber, um crustáceo) pode ser descoberta pelos
espectadores no interior do antigo Museu da Electricidade, e reflecte sobre uma série de
questões e experiências às quais a artista é sensível: o espaço, a habitação, o movimento, os sentidos da relação social, o lugar.
“É um trabalho, também, sobre mim. Sou estoniana, nasci na Suíça, vivi
na Áustria, estudei em Londres. Fiz várias residências, estou habituada a
muitas deslocações. Os meus projectos têm nascido de convites que me são dirigidos.
Assim foi em Londres onde, por acaso, vim a conhecer artistas portugueses”, revela.
Tais encontros e o encarecimento da vida em Londres acabaram por convencer a artista
a ficar em Lisboa, na sequência de uma segunda visita à cidade portuguesa.
Com uma prática que abrange o desenho, a escultura, a instalação, o som, o vídeo e a performance, Evy Jokhova tem vindo a trabalhar cada vez mais com o têxtil e a cerâmica. “Tornaram-se muito importantes desde que passei a viver em Lisboa. As tradições das duas práticas interessam-me muito. Nesse sentido, a antropologia é uma disciplina muito relevante na minha pesquisa, pois sou muito influenciada pelos lugares onde vivo ou estou, aqueles onde faço as minhas pesquisas”.
A artista revela que, há dois anos, passou vários meses na Amazónia onde aprendeu maneiras tradicionais de colorir e tecer. “Em Portugal também pude visitar regiões onde aprendi com artesãos, ceramistas, tecelões”, acrescenta. “Por exemplo, estive em Arraiolos a observar o modo de fazer dos tapetes. O cariz antropológico do meu trabalho está muito associado ao carácter social dos meus interesses e tem uma ligação com a minha formação em comunicação política. A ciência política e a antropologia influenciam-se mutuamente no meu trabalho”, sublinha.
O encontro destas áreas do pensamento com arte reflecte, na obra de Evy Jokhova, uma relação próxima com artistas e pensadores. “Uma das minhas mais antigas referências é a artista alemã Rebecca Horn (1944-2024), em especial as suas esculturas e filmes. Mas acrescentaria as obras de Louise Bourgeoise (1911-2010), de Joseph Beuys (1921-1986), ou de duas artistas cujas exposições pude ver recentemente: a de Nicola L. [artista francesa nascida em 1918 e desparecida em 2018] no Camden Art Centre, em Londres. E a retrospectiva da artista têxtil colombiana Olga do Amaral, na Fundação Cartier, em Paris”.
A participação do espectador na obra é uma possibilidade que a Evy Jokhova acolhe no seu trabalho. “Acrescentaria que é muito importante, mas não dou instruções. Procuro proporcionar relações entre os objectos e entre estes e os espectadores. Por vezes, crio um cenário, um mundo no qual o espectador é convidado a participar, como aconteceu em projectos nos quais introduzi alimentos. No fundo, o que procuro, também, é que possam surgir outras interpretações e não apenas a minha”.
Daí a importância dada ao espaço para investigação e ao contributo da antropologia. A artista não é insensível a realidades e conceitos coevos (é o caso do antropoceno), mas são os aspectos sociais e políticos que a movem. Não por caso, o seu fazer liga-se ao desejo da trabalhar com tradições que se encontram em perigo de desaparecer, com fazeres que herdámos e que estão a extinguir-se. “Nesse sentido, o meu trabalho dialoga com um modo mais lento de viver. Não creio que, como seres humanos, possamos nos conciliar que a velocidade que nos dirige”.
José Marmeleira é Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação [ISCTE], é bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia [FCT] e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações [Ípsilon (suplemento do jornal Público), Contemporânea e Ler].
Vista da exposição © Bruno Lopes. Cortesia de MAAT/Fundação EDP.


