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Saodat Ismailova: As We Fade 

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Valerie Rath

As We Fade [Enquanto Desvanecemos], a atual exposição da artista e cineasta uzbeque Saodat Ismailova, em exibição na Kunsthalle Lissabon, permanceceu comigo. Na minha mente, volto repetidamente ao espaço expositivo da Kunsthalle Lissabon, ciente de como a minha experiência se tornou uma memória que revisito, em transformação a cada retorno.

Embora o espaço expositivo da Kunsthalle Lissabon esteja obscurecido, as paredes e o teto pintados de preto, a sensação da sala não é sombria, porque no meio do espaço está a instalação de Saodat Ismailova que ilumina o espaço escuro com o seu brilho. A fonte de luz consiste em dois projetores localizados em extremidades opostas da sala, frente a frente. Contudo, as projeções não se encontram, pois atingem antes as respetivas extremidades de uma série de peças de seda penduradas uniformemente, uma atrás da outra, em formação linear no centro da sala. São 24 peças, como viria a ler mais tarde no texto da exposição, para 24 fotogramas por segundo de filme — uma referência direta ao ritmo material do próprio cinema e ao pulso que coloca imagens estáticas em movimento. A projeção destas imagens sobre seda cria um efeito cintilante na sala, banhada por uma atmosfera suave.

Enquanto me movimento ao longo das peças de seda, estas movem-se ligeiramente com o vento criado pela passagem do meu corpo. As imagens que vejo mudam, esbatendo-se lentamente ou tornando-se mais nítidas dependendo do local onde me encontro na sala. Através de cada camada em direção ao centro, a imagem torna-se progressivamente descontínua; a meio, onde a projeção não chega, apenas a seda permanece visível.

Estas foram as minhas primeiras impressões da exposição, tal como as recordo agora. Não compreendi imediatamente o que estava a ver, mas senti-o. Ismailova criou uma linguagem visual que me alcançou primeiro através da presença do meu corpo no espaço, e não através de conhecimento e entendimento contextual. Há algo de frágil neste encontro inicial, porque de alguma forma ele resiste a ser nomeado. Tentar descrever estes momentos em retrospetiva significa, à partida, perder partes deles, pois traduzi-los em palavras concretas apenas revela a sua presença já esbatida. Faz-me questionar quanto poderá a nossa memória realmente reter, o que é que podemos partilhar através do ato de recordar e talvez mais importante ainda: que forma de linguagem pode transportar uma memória sem a fixar num lugar? Será o oposto de recordar verdadeiramente o esquecimento? Ou será que as memórias que ninguém recorda continuam a existir em algum lugar, à espera de serem reavivadas?

Esta dificuldade — ou antes, esta vulnerabilidade — parece fazer parte da própria obra. As We Fade explora a tensão e a interdependência entre a memória e o ato de recordar, tanto em si mesmos como em relação ao medium do cinema. Ismailova não situa estes temas na abstração, mas ancora-os numa geografia específica: as Montanhas Sulaiman-Too, no Quirguistão, um local sagrado ao longo da Rota da Seda, cujas camadas de significado foram repetidamente reescritas, de espaço ritual pré-islâmico a atração turística e museu soviéticos. A montanha, com as suas grutas, gravuras rupestres e locais de culto, ostenta os vestígios do tempo não apenas na sua rocha, mas também na vida daqueles que por ela vaguearam e cujos gestos, histórias e rituais se tornaram parte da sua superfície.

O filme de Ismailova dá forma a estas camadas de persistência, não as explicando, mas permitindo que apareçam e se desvaneçam perante os nossos olhos. No seu trabalho, a memória não é uma narrativa estável, mas uma textura que oscila entre a presença e o desaparecimento e o medium cinematográfico torna-se a sua delicada ponte. Ao entretecer material de arquivo etnográfico da década de 1920 — que nos mostra um grupo de mulheres na montanha — com imagens contemporâneas da quietude do local, a artista não segue uma representação linear da história. Em vez disso, o seu filme encena a memória como processo, algo que temos de reencontrar repetidamente e que se altera com o tempo, porque a nossa perspetiva sobre ela também muda. A artista faz isto sem apagar esta história, sem a favorecer ou julgar. Pelo contrário, ao escutar sobreposições temporais, estratificando imagens que dialogam através de décadas, permite que as histórias surjam sem delas reivindicar posse ou autoridade. A aura que Ismailova cria através das imagens nos painéis de seda recorda-me que a visão, por si só, não pode conter a memória, que aquilo que vejo é apenas o rastro visível de algo que ainda se desenrola noutro lugar.

Encontrar a obra de Ismailova desta forma fez-me recordar o texto The Skin of the Film, onde Laura Marks escreve sobre um "cinema háptico", uma audiência corporificada definida por "uma visão que cede perante a coisa vista". A instalação de Ismailova reconhece o corpo do espetador de forma semelhante; responde ao movimento, à respiração, à proximidade. Enquanto percorro o espaço, a seda estremece, a imagem desloca-se e a obra parece inspirar e expirar. Através deste movimento, tomo consciência não apenas das histórias estratificadas de Sulaiman-Too — com os vestígios de rituais, gestos e vidas rebatidas na sua pedra — mas também de como estas memórias habitam a montanha, mesmo enquanto ela vive nas memórias de quem a ela regressa. A experiência de observar As We Fade torna-se assim um ato de reanimação, levando-me a crer que estas memórias nunca foram totalmente esquecidas, mas esperavam silenciosamente serem recordadas. O cinema aqui não é um registo transparente, mas um medium tátil que catalisa este redespertar.

A instalação fílmica não é a única obra em exposição. Paralelamente, existe um segundo gesto de rememoração, um que é feito não de ar e luz, mas de resina e dados. Num canto da sala, servindo como contraponto à materialidade temporal e efémera da seda e do filme, está uma presença que ancora: um molde da própria montanha. Impressa com tecnologia LiDAR, captura a superfície de Sulaiman-Too num nível de detalhe digital meticuloso. Onde o filme se move e se esbate, esta escultura permanece estática, preservando na sua forma aquilo que as imagens apenas podem sugerir.

Na forma como Ismailova a apresenta, a montanha Sulaiman-Too torna-se um arquivo vivo. A montanha e o filme são dois registos de memória — um tátil e sólido, o outro fluido e leve — que no seu conjunto articulam a forma como as memórias sobrevivem à transformação. A memória aqui não equivale à história; não é um registo factual, mas antes uma negociação viva com o tempo. Além disso, a memória cultural difere da recordação individual porque não pertence a um único sujeito: é promovida e mantida através das histórias e convivências coletivas. Neste sentido, a memória cultural é uma forma de resiliência, um reconfigurar contínuo das formas como as comunidades se relacionam com o passado e se posicionam face ao futuro.

Ver este trabalho em Lisboa também significa a necessidade de estar em consonância com uma certa sensação de distância. As histórias contadas pelas obras de arte são largamente desconhecidas no Ocidente; chegam até nós filtradas pela geografia e pela língua, mediadas pelo próprio espaço expositivo. Mas com As We Fade, Saodat Ismailova não me pede que compreenda ou domine totalmente a história que apresenta. Não impõe uma narrativa única sobre a Montanha Sulaiman-Too ou sobre a cultura uzbeque e quirguize. Em vez disso, cria um espaço para a atenção, para habitar estas memórias sem as reivindicar, deixando margem para a ambiguidade e reconhecendo que o que é mostrado é apenas um fragmento entre inúmeras histórias.

Talvez seja isto o que levo comigo da exposição: a proposição reconfortante de que as memórias não contadas não estão esquecidas, mas existem de forma latente, à espera de que alguém, ou algo, as reanime. Elas persistem nas paisagens e nos corpos, nos materiais, nos rituais e nos gestos de convívio, mesmo quando não são vistas. Recordar, na obra de Ismailova, não é recuperar um passado fixo, mas sim escutar o que continua a ressoar sob a superfície do presente.

 

Saodat Ismailova

Kunsthalle Lissabon

 

Valerie Rath é uma produtora cultural e curadora austríaca com formação acadêmica em história da arte e gestão artística e cultural. Atualmente vive em Lisboa. Desde abril de 2024 trabalha como curadora interna da DUPLEX_AIR. A sua prática curatorial é motivada por uma profunda curiosidade sobre a influência das narrativas passadas nas nossas capacidades colectivas e individuais de imaginar mundos futuros — e como as intervenções artísticas podem expandir essa imaginação.

 

Tradução do EN por Marta Espiridião, revista pela editora

Versão original aqui

 




Saodat Ismailova: As We Fade. Vistas da exposição na Kunsthalle Lissabon, 2025. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia da artista e Kunsthalle Lissabon. 

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